8. Tarde dourada
𓅯 Capítulo 8 | O Canto dos Pássaros 𓅯
Ele passou o final daquele dia dominado pelo tédio. Tentou mais uma vez retomar a pintura do quadro, mas mal pegara nas tintas guardadas na caixa. Tentou ler um livro, mas não conseguiu se concentrar em nenhum parágrafo. Seus pensamentos não cessavam. Lucas poderia até não falar muito — ou nada — mas as vozes em sua mente quase nunca se calavam.
A casa estava silenciosa, como de costume durante as tardes. Miriam estava no trabalho e Ben fora dar aulas na escola de música. Luan estava no quarto jogando online com os amigos — Lucas podia escutá-lo falar sozinho vez ou outra. Recordou-se repetidas vezes as cenas daquela manhã: a chegada no campus da universidade, o prédio azul, o monólogo de Wallace, o almoço com seu pai — que parecia apressado demais para ir embora resolver uma urgência. O pai mal havia perguntado como havia sido sua triunfante ida à faculdade sozinho, como era aquela elegante estrutura por dentro, ou se havia faltado algum documento. Quando voltou para o carro, Alberto tinha o semblante sério, murmurando consigo mesmo sobre o problema de se ter sócios arrogantes e imprevisíveis. A única coisa que perguntara fora quando começaria as aulas.
— Catorze de fevereiro — Lucas respondeu.
— Que ótimo! Dois dias antes do seu aniversário. — Alberto parecia se esforçar para dissipar o mau-humor.
— Sim — o rapaz murmurou, nada animado com aquela lembrança. O pai logo recomeçou a bufar e a se concentrar em seus conflitos profissionais. Seu celular não parava de receber mensagens. A rádio havia sido mudada para outra que falava sobre as notícias do dia; a maioria delas envolvendo muito sangue e corrupção.
Lucas se sentiu aliviado ao voltar para casa. Permitiu-se relaxar ao escutar o motor do carro do pai se distanciando e o silêncio daquela tarde; só para depois ser substituída pelos barulhos de sua mente. Barulhos estes que vinham com as memórias mais recentes daquele dia — e que faltavam poucos dias para o primeiro dia de aula e o seu aniversário.
Impregnado pelo tédio e cansado de tanto pensar, o rapaz conduziu-se ao seu refúgio: o pequeno e agradável parque do condomínio, onde as únicas presenças vivas e visíveis naquele momento eram as árvores dispersas pelo campo e os pássaros que pousavam nos galhos e comiam frutinhas e insetos. Lucas se sentou ao pé de uma das árvores, aproveitando a sombra e o frescor. Apesar do calor, o vento varria o parque e fazia as folhas secas rodopiassem pelo ar como peões.
O rapaz encostou a cabeça no tronco, com os fones nos ouvidos, mas sem ouvir nada. Sua cabeça latejava, almejando pelo silêncio e pelo repouso. Sentiu sua mente desacelerar aos poucos, amparada pela quietude do ambiente ao redor. Ficara ali por um bom tempo, os olhos cerrados, até que uma voz distante e familiar o despertou:
— Lucas!
Ele abriu os olhos rapidamente, virando-se para a figura na calçada. Beatriz acenou para ele e, hesitando por alguns instantes, começou a se aproximar; atravessando o gramado. A moça usava uma calça legging escura e calçava tênis de caminhada. Lucas trincou os dentes, tencionando os músculos do rosto ao desviar o olhar. Os minutos de trégua de sua cabeça pensante desapareceu naquela hora, deixando-o em alerta vermelho.
— Você está bem? — a moça perguntou, mais próxima. Lucas olhou para ela novamente, fitando a garrafa d'água que ela levava em mãos. Assentiu, sentindo suas bochechas esquentarem. Olhou aquele rosto quase desconhecido, mas estranhamente íntimo. O sorriso de Beatriz murchou de repente. — Desculpe... Acho que estou te incomodando.
Lucas balançou a cabeça em negativa, conseguindo sustentar o olhar sobre seu rosto pelo máximo de tempo que conseguiu. Sorriu, tentando demonstrar uma confiança que não existia naquele momento. Beatriz apontou para a aparelhagem de exercícios espalhados à distância.
— Vou me exercitar um pouco. Estava um pouco ociosa antes de vir para cá — ela riu. — É um lugar muito bonito.
Lucas concordou, desviando o olhar para o cenário ao redor. O terreno elevado, típico do bairro onde morava, presenteava os residentes com muita natureza, silêncio e um pôr do sol que pintava o céu de dourado. De repente, foi como se ele captasse aquilo com outros olhos — com os olhos de Beatriz, que se estreitavam ao observar o sol indo ao encontro das serras a oeste.
— Uau. Espero que a câmera fique pronta logo... — a moça murmurou consigo mesma, voltando-se para o rapaz. Lucas ficou pensando se ela não estava falando da mesma câmera que estava pendurada em seu pescoço na foto em que vira. — Bem, vou indo. Espero te ver na festa!
O rapaz acenou, vendo-a acelerar os passos em uma pequena corrida em direção aos aparelhos de exercícios e ao sol, misturando-se à tarde dourada. Misteriosamente, aquela cena se repetiria mais vezes em sua tela mental durante as últimas horas daquele dia: Beatriz correndo pela calçada, os longos cabelos cor de carvão presos em um rabo-de-cavalo alto, seus ombros descobertos, as asas da borboleta em seu braço e a sensação quase etérea daquele momento.
Quando voltou para casa, já estava escuro. Miriam havia acabado de estacionar o carro na garagem, descendo com uma enorme sacola de pão. Mozart e Beethoven vieram recepcioná-la com latidos roucos e rabos agitados. Beethoven demorou aproximadamente meio minuto para descer três degraus, e Lucas teve que ajudá-lo no último.
— Você está um pouco verde — a mãe reparou, entregando-lhe a sacola. Colocou as mãos em seu rosto, observando-o meticulosamente. — Está tudo bem, meu filho?
— Estou bem — respondeu, perguntando-se como ela conseguira ver seu rosto apenas sob a fraca luz da varanda.
— Acho que você precisa tomar mais sol — ela observou. — Está muito pálido. Mas sua barba está crescendo mais rápido.
— Vou considerar o seu conselho — Lucas murmurou, adentrando a sala e pousando os pães sobre a mesa. Passou a mão sobre o rosto, ainda sentindo os dedos de Miriam sobre as bochechas. Pensando em seus pelos esparsos perdidos pela cara, Lucas correu escada acima e enfiou-se no banheiro do quarto. Miriam tinha razão; e a foto de seu cartão de identificação da faculdade só confirmava sua aparência cadavérica e nada atraente.
Pela primeira vez em muito tempo, ele riu. Lucas ainda não gostava do que via em seu pequeno espelho do banheiro, porém, não havia nada que ele pudesse fazer além de arrancar as poucas penugens com a gilete e tomar um bom banho. De resto, ele não precisaria perder tempo pensando em fazer fantasia de zumbi para uma atípica festa universitária. Ele já era o próprio zumbi.
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