7. Fantasmas do passado

𓅯 Capítulo 7 | O Canto dos Pássaros 𓅯

O dia da matrícula em Belmontine chegara mais rápido do que ele gostaria. Lucas, distraído com aquele convite inesperado dos vizinhos, quase havia se esquecido daquele dia. Alberto, que fazia questão de levá-lo, desmarcara todos os seus compromissos naquela quarta-feira durante a manhã. O rapaz nunca vira o pai tão empenhado em fazer algo por ele, dedicando parte de seu valioso dia de semana ao filho mais velho. Naquela manhã quente de início de fevereiro, Lucas vestiu sua calça jeans de sempre e uma blusa azul-marinho, penteando os cabelos castanho-claros o mais rápido que pôde. O rapaz não era muito fã de espelhos, muito menos de se arrumar adequadamente. No entanto, ele queria parecer confiante e independente o suficiente para não precisar de Alberto para nada — apenas de seu velho carro de buzina falha e lataria amassada. Então, ele se obrigou a encarar o espelho por alguns segundos, não gostando nada do que via. Lucas não se sentia nenhum pouco confiante e independente; contrariamente ao que ele se esforçava a acreditar.

— Trouxe todos os documentos? — perguntou Alberto, uma hora mais tarde, antes de acelerar o carro que cheirava a perfume masculino e gasolina. — Certidão de nascimento? Identidade...?

— Sim — Lucas respondeu, segurando uma pasta transparente. — Está tudo aqui.

O pai assentiu e aumentou o som do carro, cuja caixa de som estava com alguns chiados. Uma música animada começou a tocar, e Alberto dirigiu o automóvel em direção à saída do condomínio. Em menos de meia hora, estavam adentrando a Universidade de Belmontine. O campus era enorme, composto por árvores, colinas e complexo de prédios com formas e cores distintas. Lucas sabia para aonde iria — ou, pelo menos, achava que sabia — e disse ao pai que ele poderia ficar no carro.

— Tem certeza? — ele perguntou, arqueando as grossas sobrancelhas. Lucas percebeu a incredulidade no tom de sua voz e em sua expressão. Alberto não estava perguntando aquilo porque queria ser prestativo, mas porque não estava acostumado a ver o filho resolver as coisas por si mesmo.

Aquilo, por alguma razão, o encorajou a prosseguir com seu plano. Apesar do peso que sentia em seu estômago, ele abriu a porta do carro e segurou a pasta com seus documentos firmemente; como se até aqueles pedaços de papéis estivesse duvidando que ele faria aquilo.

A verdade era que Lucas estava apavorado. Recordou-se mais uma vez do plano que arquitetara quando aquele dia chegasse: Ele faria tudo sozinho. Ele seria como Sir Lucas; como aquele garoto que conseguiu falar com Pedro pela primeira vez.

— Tenho. Eu olhei no google. — o rapaz garantiu, apontando para um conjunto de prédios. — É logo depois daquele prédio.

— Ótimo — o pai disse, estacionando à sombra de uma árvore. Mal havia desligado o automóvel, Alberto retirou o celular do bolso e disse que precisava resolver alguns problemas da loja.

Lucas olhou para os lados, notando a pouca movimentação do local àquela hora. Alguns jovens transitavam de um departamento para o outro, conversando entre si. Ele seguiu pela calçada margeada por pinheiros e sinalizações, atento aos enormes complexos que compunham o campus. Ele só tinha que entrar no local certo, aguardar na recepção com uma senha, e entregar seus documentos na hora em que fosse chamado. Apenas isso. Não precisava dizer nada, estava tudo ali naquela pasta. Pelo menos, era o que ele esperava que acontecesse.

Quando viu a enorme fachada azul-cobalto, apressou os passos. O prédio da Faculdade de Ciências Econômicas era um dos maiores e de mais moderna arquitetura dentre as edificações, com amplas varandas e vãos de entrada, além das grossas colunas que sustentavam a estrutura. Ficou imaginando quantas salas e quantas pessoas havia naquela imensidão de janelas e portas; e se se daria bem com alguma delas.

Lucas parou por alguns instantes, conferindo nas placas e no documento que levava em mãos. Certo de que não havia se enganado quanto ao local, subiu pelas escadas recém-pintadas, observando aos arredores como se quisesse se convencer de que estava realmente ali. Notou que para além da escada também havia uma extensa rampa, um gramado verde-claro bem aparado e coqueiros ladeando a passagem.

Sozinho, ele entrou na recepção e viu vários jovens — e alguns adultos na meia-idade — aguardando serem chamados. Ouvia-se cochichos, barulho de papéis e passos pelo chão de porcelanato; que lhe cegava os olhos pela claridade que refletia. Lucas pegou sua senha, um pequeno papel amarelado, o qual ficou segurando como se a qualquer momento pudesse perdê-lo. Baixando os olhos e fitando os próprios tênis deslizando por aquele chão que refletia até a sua alma, Lucas sentou-se ao lado de um rapaz de camisa branca que parecia cochilar. Em seus fones de ouvido, entretanto, tocava algum heavy metal. Ele duvidou que estivesse dormindo com todo aquele berreiro de vozes roucas e guitarras em seus ouvidos. Ele queria se sentar onde não houvesse ninguém ao lado, porém, a sala ficava cada vez mais cheia e os espaços vazios eram ocupados.

Os minutos pareciam se arrastar enquanto Lucas esperava, ansioso, seu número aparecer na tela. Suas pernas balançavam incessantemente e ele sentia frio, apesar do suor nas palmas de suas mãos. Com os olhos fixos nos números, ele não percebeu quando rapaz ao seu lado despertou de seu suposto cochilo e tirou os fones.

— Aí — o rapaz cutucou seu braço. Sua voz, rouca e baixa, lembrava-lhe o timbre de um garoto no auge da puberdade. — Aceita um chiclete? É de melancia.

Lucas olhou para ele, incrédulo. O rapaz usava uma touca preta sobre os cabelos ruivos, os cachos saltando por entre as bordas. Sua pele era pálida, com poucas sardas rodeando seus olhos acastanhados e algumas espinhas dignas de um garoto do ensino médio. Ele se perguntou o que aquele cara com aparência e jeito juvenil estava fazendo ali.

— Aceita...? — ele insistiu, estendendo o chiclete em sua direção com um sorriso. — Açúcar com melancia. Watermelon sugar hiigh! Sacou? — ele riu, mas Lucas não entendeu a graça a princípio. Seu cantarolado remeteu a alguma música pop que havia feito sucesso há algum tempo, porém, seu estado não o permitiu captar a referência com clareza. Ele ficou olhando para a embalagem da pastilha por alguns segundos, paralisado. Depois, conseguiu manear a cabeça em sinal negativo.

— Tudo bem. Não tem problema — o ruivo deu de ombros, enfiando uma goma na boca. — Ou você não gosta de melancia? É minha fruta favorita, desde pequeno. Minha irmã me chamava de Senhor Magali — ele mascou a goma, e Lucas viu seu maxilar trabalhar freneticamente. — Tenho de menta, aceita?

Mais uma vez, Lucas balançou a cabeça e tentou sorrir de forma que parecesse agradecido. Percebera que ele tinha um sotaque diferente — provavelmente, era de outro Estado; ou quem sabe do interior.

— Você parece meio nervoso. Eu sei, eu também estou — admitiu. — Mascar chicletes acalma o cérebro e distrai os neurônios. Acho que li isso em algum lugar...

Lucas voltou seu olhar para a tela, torcendo para que seu número aparecesse logo. Aquele garoto estava deixando-o ainda mais inquieto. As pessoas desconhecidas, normalmente, desistiam de conversar com ele quando percebiam que ele não responderia — mas aquele rapaz era um tanto insistente.

O ruivo fez uma bola de chiclete, olhando na direção da tela digital. Conferiu o número, depois enfiou o papel em um dos bolsos da calça verde-musgo. Lucas fingia que não estava atento aos seus movimentos, mas pôde perceber que ele também estava atormentado com tudo aquilo.

— Acho que eu não disse o meu nome — ele falou, virando-se para Lucas novamente. — Me chamo Wallace. É um nome diferente, mas foi em homenagem ao meu avô. Típico, né não? Mas o pessoal me chama de Wall. O pessoal da minha escola. Sinto falta do ensino médio, às vezes.

Lucas fez uma careta ao ouvir as palavras ensino e médio. Wall riu ao notar que Lucas não tinha boas lembranças da referida época acadêmica. Já havia alguns anos que ele havia se formado, porém, só de pensar em ensino médio o rapaz sentia náuseas.

— Hum... — Wallace fez um bico, nitidamente tentando desvendar o mistério do silêncio de Lucas. Quando achou que o garoto estava prestes a desistir de ter uma conversa produtiva, ele prosseguiu: — Você vai fazer o quê? Ciências Econômicas? Ciências Contábeis? Administração? Ou... Ah! Minha vez. Tchau!

Wallace levantou-se rapidamente, jogando uma mochila preta às costas. Lucas viu os bottons coloridos enfileirados, a maioria remetendo a bandas musicais e séries de TV. Os tênis vans tinha um de seus cadarços desamarrados. Quando Wall desapareceu por um dos corredores, o rapaz suspirou aliviado.

Seu plano geral, com exceção de Wallace, saiu conforme ele havia planejado: quando chegou a sua vez de apresentar seus documentos e fazer a matrícula, ele só precisou assinar alguns papéis e tirar uma foto. E se ele precisasse dizer algo, Lucas tentaria. Afinal, ninguém ali o conhecia. No entanto, teve a sorte de permanecer calado e apenas deixar com que seus papéis falassem por si. Precisou aguardar alguns minutos para que seu cartão de identificação ficasse pronto. Ele não esperava que tivesse que tirar uma foto, por isso, quando viu a sua própria imagem ao lado das informações, teve vontade de arrancá-la fora. Seus cabelos cor de areia, que ele tanto havia penteado para que permanecessem comportados, saíram desalinhados e cobrindo parte de suas orelhas. Seu olhar parecia assustado e seus lábios firmes um sobre o outro. Seu rosto estava encovado, as olheiras mais profundas que o normal. Nada parecido com aquela imagem do homem imponente e independente que ele tentava criar em sua cabeça.

— Seja bem-vindo — disse uma mulher após entregar-lhe o cartão. Lucas deu um sorrisinho, enfiando-o no bolso. Seja bem-vindo, ele repetiu para si mesmo, saindo do prédio da faculdade e tentando se convencer de que tudo seria diferente. Os fantasmas do passado não mais o perturbariam, pois Lucas não pretendia ser quem ele era naquele novo lugar.

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