5. O expressar de todas as coisas

𓅯 Capítulo 5 | O Canto dos Pássaros 𓅯

Ele acordou naquela manhã de segunda-feira com um som abafado e distante de algo batendo contra o chão repetidas vezes. De início, ele achou que fosse o vizinho em uma de suas intermináveis obras no jardim; mas o som estava próximo demais. Lucas franziu o cenho, olhando as horas no relógio digital. Eram sete e cinco, o que significava que sua mãe já tinha saído para trabalhar e Ben provavelmente foi dar uma volta pelas ruas do condomínio. Ele sempre fazia isso nas segundas-feiras antes de receber um de seus alunos na sala de estar.

O barulho cessou de repente. O rapaz olhou para o colchão ao lado de sua cama, onde Pedro dormia de barriga para baixo — a mesma posição a qual dormia quando era mais jovem — com um travesseiro sob a cabeça e o outro entre as pernas. Há alguns anos, eles dividiram aquele quarto; com duas camas iguais em paralelo e escrivaninhas separadas. Agora, o quarto era apenas de Lucas desde que Pedro passou a morar com Melissa e a construir sua própria independência. No entanto, sempre que podia, passava alguns dias com a família e dormia no antigo quarto — como nos velhos tempos, ele dizia, nostálgico, enquanto se jogava no colchão e atirava o edredom por cima da cabeça.

Quando o som recomeçou, repetitivo e mais alto, Lucas saltou da cama. Abriu a porta do quarto lentamente, descendo as escadas. Sentiu o cheiro de café recém passado e de algo assando no forno. Quando parou ao pé da escada, frente à sala de estar, o barulho cessou novamente. Lucas varreu o aposento com o olhar: o sofá cinza, a mesa, as estantes de mogno com envelhecidos livros de capa dura, as fotografias da família e, no canto abaixo da escada, o velho piano de cauda de Ben. Os dois cães, em suas caminhas, levantaram as cabeças em sua direção. O barulho recomeçou, e ele teve certeza de que vinha do seu jardim.

Lucas foi até a cozinha e surpreendeu-se ao ver Benício, no pequeno jardim dos fundos, com uma cavadeira na mão e a camisa ensopada de suor.

— O que está fazendo? — Lucas indagou, observando-o pela janela. Ben ergueu a palma sobre a testa para tapar os raios do sol. O padrasto acenou para ele, arfante, e apontou para cinco troncos de eucalipto e uma caixa retangular.

— Um lindo balanço rústico! Chegou ontem à noite — ele disse. — Você sabe, crianças adoram balanços.

— Ben, a criança mal tem dedos! — Lucas teve vontade de rir, vendo-o bater a cavadeira no buraco que havia feito. O rapaz se lembrou de quando Ben fez balanços para cada um dos meninos, pintando-os de cores diferentes (a parte favorita de Lucas, pois ele ajudava a pintar cada um deles).

— Gosto de antecipar as coisas — ele explicou. — Me preocupo muito com as crianças de hoje em dia, que mal pisam na grama de suas casas pois preferem um bom e tecnológico tablet. Sem um arranhão! Não, não — ele balançou a cabeça. — Meu neto ou minha neta terá um balanço e muitos arranhões.

— Isso é ótimo.

— Ah! Lucas, meu filho, faça-me um favor? — ele largou o instrumento novamente, enxugando o suor. — Leve o lixo hoje. Sua mãe vai arrancar meus olhos se isso ficar aqui. E olha que ainda nem tem fraldas com...

— Ok — Lucas assentiu, abrindo a porta dos fundos e fitando o latão de lixo. Ele só teria que atravessar com aquilo com roupas de dormir por toda a avenida até chegar à lixeira comunitária. A humilhação das segundas-feiras.

Lucas carregou o saco de lixo, adentrando a garagem coberta, arrependendo-se de ter sido tão apressado. Ainda não havia se acostumado muito bem com a falta de privacidade do muro baixo e branco, cercando toda a parte da frente da casa. Por isso, quando o grupo de jovens passou do outro lado da rua, foi tarde demais. Primeiro, ele escutou o som de uma gaita. Depois, as vozes entusiasmadas. Lucas tentou esconder-se por trás do pinheiro, mas foi em vão. A cabeça loira de Miguel, um dos universitários da casa 10, erguia-se em sua direção.

— E aí, Lucas! Bom dia! — ele gritou, acenando com uma das mãos. Na outra, ele empurrava uma espécie de caixote com rodinhas, feito de madeira.

O rapaz acenou de volta, tentando parecer relaxado. Os outros também olharam, reconhecendo-o: Laura empurrando a cadeira de rodas de Miguel — que empurrava o misterioso caixote — e Raoni, que levou a gaita à boca e fez um som com notas agudas e dramáticas. Ao seu lado, uma jovem de cabelos escuros ria, achando graça da situação. Lucas nunca a vira ali. Provavelmente, era uma novata da casa 10; que sempre recebia estudantes durante uma temporada.

O morador da casa de frente à de Lucas acenou para os jovens enquanto levava um saco branco nas mãos. Era o senhor Célio — mais conhecido como Bigode Branco — um dos residentes mais velhos do condomínio. Raoni parou de tocar a gaita e foi recolher o lixo do homem, jogando-o no caixote. Sr. Célio bateu continência e disse algo, marchando de volta para casa. Lucas teve a sensação de que tudo aquilo fazia parte de uma brincadeira interna.

Depois, o rapaz com a gaita olhou para Lucas.

— Vamos, coloque o seu aqui! — ele exclamou. — Damos preferências aos idosos, mas podemos abrir uma exceção.

— Nosso ritual das segundas-feiras — Miguel falou. — Apenas não respire muito perto. Há coisas inimagináveis nesses sacos. Vai colocar ou não?

Lucas piscou, confuso. Apertou o plástico sob seus dedos e se aproximou, fitando o caixote. Uma das rodas parecia torta, e uma inscrição em vermelho na madeira dizia: JOGUE AQUI O SEU LIXO! Ele estava ciente de suas roupas de dormir (que, inclusive, ele tinha quase certeza de que a calça estava furada em um local não muito coerente) e seus cabelos bagunçados. Lucas sentiu o olhar da novata sobre ele, analisando-o, mas o rapaz já estava acostumado com aqueles olhares curiosos, quase julgadores — pelo menos, era como sua mente especulava.

Quando ele jogou o seu lixo no caixote, maneou a cabeça em agradecimento. Estava prestes a voltar para casa quando Laura, ajeitando os seus dreads, abriu um sorriso para ele e disse:

— Fiquei sabendo que você vai estudar em Belmontine. Parabéns! — ela parecia querer abraçá-lo, ou apertar sua mão; mas as pessoas geralmente hesitavam quando se tratava de Lucas. — Poderemos nos esbarrar lá vez ou outra.

— Ou não — Miguel piscou para ele. Seus cabelos dourados, na altura dos ombros, estavam úmidos. — Nos momentos de folga, Laura está nos amassos com o namorado, e eu com minhas folhas sobre anatomia e apostilas que pesam mais que o lixo da sra. Lívia.

— Tem algo a mais naquele lixo, Mig — Raoni estreitou seus olhos amendoados. — Eu sei que tem.

Laura revirou os olhos e se voltou para Lucas. Ele escutou a risada baixa da moça de cabelos pretos, mas não teve coragem de olhar para ela.

— Que idiota eu sou! — Laura bateu na própria testa, passando o outro braço em torno do ombro da moça. — Desculpem-me. Lucas, esta é a Beatriz. Vai passar um tempo com a gente até terminar sua pós-graduação.

Lucas levantou a cabeça, finalmente olhando-a nos olhos. Beatriz era alta, alguns poucos centímetros mais baixa que ele, e seus cabelos estavam presos em um rabo-de-cavalo alto. Usava uma camisa preta e calça jeans, e em seu rosto havia um leve sinal de maquiagem nos olhos — como se ela estivesse esquecido de tirar no dia anterior.

— Beatriz, esse é o Lucas. Nosso vizinho — Laura continuou. — Ele é um pouco...tímido.

O rapaz engoliu em seco. Odiava essa parte de conhecer pessoas. Lucas nunca sabia como agir, quebrando sempre a expectativa do outro — que esperavam dele um comportamento adulto e seguro, e não aquela conduta infantil e contida de sempre.

E foi exatamente o que aconteceu naquela manhã quando conheceu Beatriz. Lucas pôde perceber, no movimento rápido de suas pernas, a sua intenção de dar um passo à frente para um rápido abraço, mas desistiu quando Lucas retraiu instintivamente os ombros. Era como se seu corpo dissesse: Abraços não. Não me toque. Não sei como reagir a isto.

— Muito prazer — ela logo se recompôs, oferecendo-lhe o mesmo sorriso gentil de outrora. Lucas sentiu seu rosto arder e, mais uma vez, maneou a cabeça e desviou o olhar. Queria sair dali. Arrependeu-se de ter descido aquelas escadas e de ter aceitado levar aquela porcaria de lixo.

Raoni recomeçou a tocar sua gaita, cortando o silêncio que havia se formado. Sua pele avermelhada e seu pequeno instrumento brilharam quando o sol surgiu acima dos telhados das casas. O silêncio de Lucas. O silêncio que ele sempre emanava, quebrando os climas festivos e as expectativas alheias.

Eles se despediram dele como se nada incomum houvesse acontecido ali. Raoni com sua gaita, Beatriz com seu sorriso branco, Laura com sua fala elegante e Miguel com sua confiança implacável. Lucas ficou um tempo parado no meio da calçada, observando-os se afastarem enquanto o sol ascendia no céu. A gaita de Raoni. As rodas prateadas da cadeira de Miguel. A pele escura de Laura, os longos cabelos de Beatriz batendo suavemente em suas costas. A tatuagem de borboleta na parte de trás de seu braço. O all star de Raoni e suas pulseiras de miçangas. Os cabelos loiros de Miguel e sua risada rouca.

Nenhum deles olhou para trás. Mas o que Lucas esperava?

Sentindo-se vazio de repente, o rapaz voltou para casa; sentindo o calor do sol aquecer seu corpo. Apanhou um biscoito sobre a pequena mesa da cozinha, mas não conseguiu comer nem a metade. Pelos sons abafados no jardim — e os assobios animados no ritmo de alguma música que ele não reconheceu — Ben ainda não havia terminado seus serviços com a cavadeira. Quando voltou ao quarto, Pedro estava tomando banho e cantarolando no chuveiro. O rapaz enfiou-se debaixo das cobertas novamente, invejando o irmão por ter coragem de cantar sem se importar com o que as pessoas iriam achar de sua voz. Lucas nunca cantou. Nunca teve coragem, mesmo sozinho. Invejou aquelas pessoas que caminhavam lá fora, conversando entre si, rindo e fazendo piadas. Invejou até mesmo os pássaros que cantavam, as flores que se abriam no jardim, o sol que se mostrava sem pudor para o mundo: Invejou aquele astro por ser quem ele é e por ter a audácia de exercer sua função. Por expressar-se como sol. De repente, o expressar de todas as coisas; até mesmo da natureza, despertou em Lucas um vazio tão grande que de repente era como se ele não existisse. Ele era apenas um corpo sem expressão, sem alma e sem cor. Será que era assim que as pessoas o enxergavam?

Tudo ao redor parecia debochar dele. Até mesmo o seu quadro inacabado largado no canto da parede, tão inexpressivo quanto quem o produziu.

Lucas virou-se para o lado e adormeceu. Não ouviu o irmão saindo do banheiro, cantarolando uma música qualquer. Por um momento, durante o sono, ele achou que aquele encontro com os jovens universitários e sua coleta de lixo matinal fora um sonho. Um sonho estranho e distante, cuja última lembrança de seu inconsciente fora uma tatuagem de borboleta e o sol quente da manhã ardendo em sua pele.

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