41. Acima das nuvens

𓅯 Capítulo 41 | O Canto dos Pássaros 𓅯

Os últimos dias de viagem passaram rápido — logo quando o tempo ficou mais estável, oferecendo um pouco mais de sol e calor aos amantes da praia. Além disso, foi justamente nos três últimos dias que as coisas ficaram mais leves entre os três. Luan, apesar de não conversar com o pai, parecia mais tolerante com sua presença e não mais jogava indiretas com a intenção de machucá-lo. Alberto parecia menos deprimido — ainda que às vezes Lucas o encontrasse em posição fetal no sofá, durante à noite, enquanto assistia a algum programa de TV. Apesar de todas aquelas mudanças positivas, Lucas não se lamentou muito quando começou a arrumar as malas para voltar para casa. Ele estava ansioso, mas de forma benéfica — ansioso para voltar e ver seu quarto, sua casa, seu cachorro, sua família, seu condomínio; e para ver Beatriz. Desde o dia em que o rapaz teve coragem de mandar mensagem para ela, após tantos meses, eles conversavam todos os dias. Quando acordava mais cedo, Beatriz dava-lhe bom dia. Falava sobre o seu dia, sobre os próximos eventos mirabolantes da casa 10, sobre o seu trabalho e seus estudos. Lucas amava tudo aquilo — a forma como compartilhava sua vida com ele o fazia se sentir como alguém que ela realmente se importava. Quanto mais a conhecia, mas encantado ele ficava; e mais desejava voltar para casa para poder vê-la.

Lucas e Luan aproveitaram o último dia com muita praia e academia. O rapaz já estava pegando o jeito com os aparelhos de exercícios físicos. Havia algo de satisfatório no cansaço que sentia. Todas as vezes que terminava uma série de exercícios, ele se jogava no tapete da academia, ofegante e dolorido.

— Não acredito que vou virar um rato de academia por sua causa — Lucas ria, observando o irmão na esteira.

— O nome disso é endorfina e serotonina — Luan falou, diminuindo o ritmo. Lucas passou o dorso da mão pela testa, extasiado. Aquele era um detalhe que tinha que contar à Edith na próxima consulta. Ao ser questionado sobre atividades físicas, havia admitido que não tinha energia o suficiente para tal, por mais que fosse jovem e saudável. Mas lá estava ele, com os músculos doloridos e ensopado de suor.

Durante a tarde, ficaram na praia até o pôr-do-sol. Lucas ainda secava-se estendido na areia quando o mar ficou agitado; o céu tornava-se cinza à medida que a noite chegava. Ao voltarem para o apartamento pela última vez, os três terminaram de arrumar as malas em silêncio. Partiriam na manhã seguinte, bem cedo, e em poucas horas estariam em casa.

— Cara, seu celular não para de vibrar — Luan ergueu o olhar para a tela do aparelho de Lucas. — Quem é que você tanto conversa?

O mais velho agarrou o telefone, impedindo-o de ver. No entanto, seu sorriso idiota já o entregava. Luan deu uma risada debochada ao constatar que o irmão finalmente fora vítima do cupido.

— Não é da sua conta — Lucas murmurou, sentando-se na cama e visualizando a mensagem de Beatriz.

— É Karina?

— Não.

— Quem é? — Luan sentou-se ao seu lado, e Lucas bloqueou o celular. — Quem é? Quem é? Quem é?

O mais velho inclinou-se para trás, irritado, mas não deixou com que aquilo diminuísse seu entusiasmo. Com um salto, Lucas correu para o banheiro e trancou a porta, lendo mais uma vez a última mensagem de Beatriz:

Hoje, 19:24 p.m:

Beatriz: estarei te esperando

Beatriz: eu também sinto a sua falta

Beatriz: muito mesmo

✦✦✦

A viagem foi mais rápida na volta do que na ida. Ainda no avião, acima das nuvens, Lucas refletiu sobre aqueles últimos dias. Ficara apenas uma semana viajando, distante de sua vida comum e sua casa, mas teve a impressão de ter ficado fora por um mês. Lembrou o quanto estava inseguro e triste ao encontrar-se com o pai no aeroporto, no desânimo que sentira nos primeiros dias naquele apartamento mofado e sujo. As crises de Alberto, a raiva de Luan, a confusão de Lucas. No fim das contas, aquela viagem pareceu fazer bem para todos; apesar dos percalços. Estar distante das pessoas de sua cidade; de seu condomínio — no qual todos o conheciam como o rapaz que não falava — fez com que Lucas arriscasse a descobrir um pouco de si mesmo; perceber a coragem e a força que achava que não existia. Constatar aquilo o deixou orgulhoso, despertando uma esperança que ele achava que estava morta.

Quando chegaram, Alberto chamou um motorista particular e despediu-se dos filhos com certa tristeza nos olhos. Sabia que o pai ainda não estava bem, mas Lucas se atentaria a aquilo. Luan não se despediu dele, enfiando as bagagens no porta-malas do carro.

— Não vai pegar carona com a gente? — Lucas perguntou, um pouco desorientado pelo barulho do aeroporto.

— Não... Acho que vocês já me suportaram o suficiente — ele riu, tenso e cansado. — Nos vemos em breve, meu filho.

Lucas assentiu, esperando que o pai o abraçasse. No entanto, Alberto apenas deu-lhe tapinhas no ombro, dizendo que precisava ir ao banheiro. O rapaz então partiu rumo à estrada, já em sua cidade, sentindo frio na barriga. Nunca quis tanto voltar para casa. Trinta minutos depois, quando finalmente adentraram os familiares portões brancos do condomínio, Lucas começou a olhar ao redor. Esperava encontrar Beatriz em sua varanda, ou quem sabe na varanda vizinha. Mas não a viu em parte alguma, o que o deixou um pouco decepcionado.

O primeiro a recepcioná-los foi Mozart, como de costume. O cachorro abanou o rabo peludo exageradamente, saltando contra Lucas e Luan como se há um ano não os vissem. Começou a latir sem parar, chamando a atenção de alguns vizinhos e de seus pais. Miriam, com roupão e cabelos presos, abriu os braços e arregalou os olhos quando viu Lucas.

— Meu filho! Você cortou o cabelo! — ela falou alto, abrindo um enorme sorriso. — Está tão lindo! — a mãe o abraçou, apertando seu rosto e dando-lhe beijos. — Está parecendo um modelo.

Quando Miriam afastou-se dele para agarrar o caçula, Ben veio correndo e deu-lhe um abraço de urso, atrapalhando o seu cabelo e rindo alto.

— Até que você conseguiu pegar um bronze! — ele falou, observando-o. — Está bonitão. Nada como uma praia, hein? Conseguiu dar alguns mergulhos? Trouxe-me lembranças?

Lucas sorriu, contando-lhe sobre o tempo frio e instável nos primeiros dias, mas que aproveitaram bem os três últimos. Não deu detalhes sobre os acontecimentos desagradáveis — e nem sobre o apartamento, pois era capaz que Miriam ligasse para Alberto dando um sermão sobre responsabilidade paterna e a saúde dos filhos.

Após responder mil perguntas e acariciar o suficiente as orelhas de Mozart, o rapaz ficou sozinho no silêncio de seu quarto. Estava do jeito que havia deixado — a cama arrumada, a escrivaninha organizada — mas alguém havia deixado as janelas abertas e limpado o chão. O cheiro de produto de limpeza e o frescor do vento que adentrava através das cortinas traziam-lhe a sensação de boas-vindas. Suspirando, o rapaz abriu a mala e começou a esvaziá-la. Ele estava de pé diante do guarda-roupa, guardando uma das camisas que não havia usado, quando alguém bateu na porta aberta.

O rapaz se virou instintivamente, achando que Pedro havia chegado. Mas lá estava Beatriz, parada na porta do seu quarto. O coração de Lucas falhou por um instante, e ele abriu um meio sorriso.

— Sua mãe disse que eu podia subir... — ela disse, hesitante. — Posso entrar?

Lucas assentiu, fechando a mala com o pé. Hesitante, a moça se aproximou, olhando ao redor. Beatriz estava bonita como sempre — com seu jeito simples de vestir e de amarrar os cabelos escuros em um coque. Trezentas borboletas batiam suas asas furiosamente no interior do estômago de Lucas.

Finalmente a moça olhou para ele e sorriu. O rapaz queria poder ter coragem de abrir a boca e falar com ela; como havia falado com a atendente da padaria. Ou com o homem que cortara o seu cabelo, ou como havia falado com Karina. Mas aquilo era diferente — Beatriz sabia de suas condições, e aquilo lhe trazia ainda mais ansiedade só de se imaginar falando com ela. Talvez um dia se sentisse seguro o bastante para isso.

— Seu cabelo ficou ótimo assim — ela disse, a voz firme e baixa. Lucas observou as suas bochechas levemente coradas. Ele nunca a viu tão insegura.

Lucas encarou-a, sem acreditar que Beatriz estava bem à sua frente. Em seu quarto. Em sua casa. O rapaz deu um passou à frente, erguendo os braços lentamente para abraçá-la. Beatriz repetiu o gesto, envolvendo-o em um abraço saudoso. Lucas fechou os olhos, apertando-a de leve contra si, aproveitando cada segundo daquela aproximação; sentindo o cheiro de shampoo e o perfume suave que exalava de sua pele. Desejou que aquilo acontecesse mais vezes.

Ao se afastar dela, Lucas olhou para a mala ao lado dos seus pés e se agachou. Em meio às roupas, pegou o ursinho que havia conseguido ganhar no parque de diversões. Era um pouco maior que sua mão, com pelos macios e castanhos; o olhar fofo e complacente. Aquilo era um pouco clichê, mas um clichê que ao seu ver encaixava-se com seu aspecto romântico e tradicional.

Lucas ergueu o ursinho para ela.

— Ah, é o que você ganhou no tiro ao alvo? — Beatriz sorriu, passando os dedos na cabeça do brinquedo. O rapaz apontou para o ursinho e depois para ela. — Que sorte! É...é pra mim?

O rapaz maneou a cabeça em sinal positivo. A moça abriu ainda mais o sorriso, agarrando o urso e agradecendo baixinho. Lucas queria poder abraçá-la de novo, mas não queria parecer insistente. Beatriz não havia se esquecido dele, afinal. E nem o desprezava. Seus olhos castanhos, que ele tanto adorava, brilhavam diante do presente inusitado e romântico.

Foi prazeroso ver a sua satisfação diante de algo aparentemente tão simples, mas que Lucas colocou todo o seu coração. E Beatriz sentia isso. O rapaz permitiu-se acreditar que todas as suas ponderações positivas sobre ele eram reais; e não porque estava fingindo por achá-lo um coitado. Naquele momento, acreditou que a moça realmente havia sentido sua falta e que não estava ali por obrigação. Ele podia sentir aquilo através dela; através de seu abraço e da forma como o olhava. Era tudo real.

Lucas começava a sentir que poderia merecê-la.

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