40. Coragem de ir além
𓅯 Capítulo 40 | O Canto dos Pássaros 𓅯
Ele não podia acreditar que havia feito aquilo. Quase pensou que fosse um sonho, um delírio, quando acordou na manhã seguinte e seguiu o irmão para a academia. Não, não foi um delírio. Lucas havia beijado uma moça que mal conhecia. Se aquele acontecimento era normal para Luan, para Lucas era como um evento apocalíptico. E pior: apesar de estarem ocultos pelos pobres coqueiros, Luan conseguira ver que o irmão mais velho tivera êxito.
O caçula, é claro, não deixaria de tecer seus comentários pretensiosos. Quando Luan chegara em casa de madrugada, Lucas fingiu estar dormindo só para não ouvir sobre o ocorrido — mas não haveria como fugir por muito tempo.
— Karina, hein? — Luan deu um soco de leve nas costas de Lucas, enquanto alongava as pernas estirado no tapete da academia. — Eu estava de olho nela, mas Larissa estava comigo. Sou fiel.
— Podemos não falar disso, por favor? — Lucas estava se sentindo péssimo. Não havia dormido direito, pensando no que havia acontecido e torturando-se por causa de Beatriz. Havia alguns dias que seu coração havia dado uma trégua; mas não durara muito.
— Qual é! — Luan estava incrédulo com a reação dele. — Você pegou uma das mulheres mais gostosas que eu já vi na minha vida. Deveria estar soltando fogos. Aposto que foi a primeira! E que sorte.
Lucas revirou os olhos.
— Não foi a primeira, Luan. E para de falar assim — ele pediu, irritado.
— Está falando da garota que te beijou por que foi obrigada? — Luan riu. Inicialmente, Lucas achou que ele estivesse se referindo à Beatriz. Estava pensando tanto nela que não se lembrou da primeira vez que beijou uma garota; um simples e inocente beijo em uma brincadeira estúpida de verdade ou desafio.
— Sim — Lucas fingiu que estava se referindo àquele episódio. — Mas foi só um selinho.
— Exatamente! Tirando isso, quando foi que você...
— Luan! — Lucas falou mais alto que pretendia, levantando-se do chão. — Podemos, por favor, não falar disso?
O irmão ergueu as palmas em rendição, calando-se. Angustiado, Lucas desistiu de fazer exercícios. Queria algo para distrair a sua mente, qualquer coisa que pudesse focar em seu corpo e não em suas emoções. Então, saiu do prédio com a intenção de ir um pouco à praia. No meio do caminho, deparou-se com Alberto com uma sacola de pão. Ele sorriu para o filho, deslumbrante, parecendo bem melhor com a barba feita e os cabelos cortados.
— Bom dia! Acho que o sol está um pouco mais quente hoje. Vai dar pra pegar uma praia, finalmente! Comprei pães quentinhos, acabou de sair — ele anunciou. Lucas olhou para a sacola do pão, que lhe deu vontade de chorar. Até o maldito pão lembrava-lhe Beatriz.
— Na volta. Vou dar uma caminhada — ele disse, passando pelo pai com a cabeça baixa. Sentiu que Alberto o observava por cima do ombro, desconfiado. Ao passar pelo portão do prédio, Lucas atravessou a rua correndo. Sentia a respiração falhar, o peito pesado e a antiga tristeza que sentia apossar-se dele.
Lucas jogou-se na areia, sentindo-a sob seus pés e sobre as palmas de suas mãos. Olhou para os coqueiros — menores do que aqueles que tinha visto na noite anterior — mas foi impossível não se lembrar, mais uma vez, do que havia feito. Não havia motivos para se sentir culpado; não traíra ninguém e não abusara de ninguém. Então por que aquela culpa, aquela dor dilacerante? Ele sabia a resposta. Você quer o meu número?, a moça havia perguntado. Só para não desagradá-la, Lucas havia aceitado. Karina estava em sua nova lista de contatos, mas não a garota a qual estava realmente apaixonado.
Pensando naquilo, ele sacou o celular do bolso e digitou um número. Se ele não fizesse o que estava planejando por impulso, jamais faria. Pensar demais só o faria desistir.
No terceiro toque, Pedro atendeu com dois alôs animados.
— Oi, Pedro. Pode me fazer um favor? — Lucas disparou.
— Olá, Lucas! Tudo bem com você? Como tem passado? Quanto tempo! — o tom de Pedro era irônico.
Lucas riu, nervoso.
— Desculpe. Estou bem. Como vão as coisas?
— Ótimo. Melissa está bem enjoada e com desejos inusitados. Mas já estou me adaptando — Pedro falou. — E aí, que favor é esse?
— Preciso do número da Beatriz.
— Hum.
— Você deve ter o contato de alguém que tem o número dela. Mas não fale que fui eu que pedi, por favor.
— Eu tenho o contato dela. Já te mando.
— Por que tem o contato dela? — Lucas franziu a testa.
— Lálálálálá — Pedro cantarolou. — Cadê a minha neném mais linda? Stellinha, Stellinha!
Lucas ouviu a voz de Melissa ao fundo, dizendo algo como: Você está babando na minha barriga.
— Pedro, estou falando sério — o rapaz disse um pouco ríspido.
— Já te mando aí! Não fique com ciúmes, eu já sou comprometido. Tenho que ir, Lu. Fique bem! Tchau.
Pedro desligou na sua cara antes que pudesse se despedir ou dizer que não estava com ciúmes. Ele confiava no irmão. No entanto, não esperava que ele tivesse o contato de Beatriz. Tentou imaginar o que os dois conversavam, e não precisou pensar muito para adivinhar — com certeza falavam sobre ele; e quem sabe Pedro não havia implorado para que Beatriz o beijasse também.
Ele quase desistiu da ideia ao pensar naquela possibilidade. Mas seu coração falava mais alto — Lucas precisava falar com Beatriz. Inquieto, o rapaz ficou olhando para a tela do celular. Logo recebeu uma mensagem do irmão, compartilhando o contato da moça. Seu coração disparou de imediato. Sem hesitar, entrou na conversa vazia, escrevendo tudo o que queria falar. Ou quase tudo. Não assustaria Beatriz com declarações dramáticas ou melosas — primeiro, ele tinha que consertar as coisas. Agir daquela forma exigia-lhe uma coragem que anteriormente não tinha; mas que fora plantada no momento em que ficara com Karina. Sem intenção, foi ela quem lhe deu aquela ideia.
Ele tinha que ter coragem de ir além. Afinal, Lucas não tinha nada a perder.
Hoje, 9:03 a.m:
Lucas Evans: Oi, é o Lucas. Desculpe por estar enviando essa mensagem, mas eu precisava falar com você. Te pedir desculpas por tudo, por ter sido um estúpido. Perdi o meu antigo celular. Muita coisa aconteceu. Agora estou viajando com o meu pai, mas volto em poucos dias.
Lucas Evans: Eu sinto a sua falta
Lucas Evans: Muito mesmo
Lucas Evans: Eu espero que esteja bem
Soltando o ar dos pulmões, ele enfiou o celular no bolso novamente. Sem conseguir ficar sentado, o rapaz começou a caminhar. E depois a correr. Andava, corria, dava voltas na calçada, acompanhava as pessoas. E nada de Beatriz respondê-lo — talvez ela tivesse visto a mensagem e estava ignorando-o. Recusou-se a verificar se ela havia visualizado ou não. Aquilo só pioraria a sua aflição.
Por fim, a resposta só veio quando ele desistiu. Estava prestes a apagar as mensagens, convencendo-se de que Beatriz estava ocupada ou desinteressada demais para respondê-lo — quando o aparelho vibrou e Lucas quase tropeçou na calçada de pedra. Com receio de cair duro, sentou-se em um dos banquinhos de uma praça e fixou os olhos na mensagem, sem acreditar no que estava lendo.
Hoje, 9:25 a.m:
Beatriz: Olá, Lucas. Não precisa pedir desculpas
Beatriz: quanto tempo não conversamos
Beatriz: Seu irmão disse mesmo que você perdeu o celular
Beatriz: está gostando da viagem? Como você está?
Beatriz: 😄
Lucas abriu um sorriso tão largo que achou que fosse rachar todos os seus dentes. Ficou olhando para aquele emoji, abobado, e de repente toda aquela aflição de outrora desapareceu. Beatriz não parecia chateada — era aquela garota gentil e atenciosa de sempre. Havia sentido tanta falta daquilo.
Entusiasmado, o rapaz ergueu o celular e tirou uma foto do mar e da areia, mandando-a para Beatriz.
Lucas Evans: céu cinza, pouco sol e alguns tocos de cigarro e latinha de refrigerante na areia
Lucas Evans: lembrei de vc. Poderia tirar algumas fotos desse absurdo
Beatriz: uau, que melancólico. Adorei!
Depois disso, Lucas e Beatriz ficaram conversando por algumas horas — como no dia em que começaram a conversar virtualmente pela primeira vez. A sensação era a mesma: era como se nunca tivessem parado de conversar por meses; ou como se conhecessem há anos. Aquilo trouxe a paz e a satisfação que Lucas tanto sentia falta. Apesar do começo daquela viagem ter sido péssimo, os dias finais começaram a surpreendê-lo. O rapaz até se arriscou a entrar no mar gelado, aproveitando que o sol finalmente saíra do meio das nuvens e deram a eles um pouco de calor.
Em pleno meio-dia, após uma longa conversa com a garota que estava loucamente apaixonado, Lucas disparou pela areia e jogou-se nas ondas geladas. O mar o envolveu com suas águas agitadas, mas um tanto acolhedoras. O sol brilhava acima dele, iluminando uma ilha à distância que havia ficado em meio às brumas de inverno. O rapaz se enrijeceu pelo frio, mas havia algo prazeroso naquilo. Prendendo a respiração, Lucas mergulhou e deixou com que o mar o envolvesse por inteiro. Sentiu e ouviu o silêncio sob as águas salgadas, abrindo os olhos para tentar observar ao redor. Não viu nada mais que seu próprio corpo e algumas algas. Olhou para as próprias mãos, para o peito nu e os pés flutuando sobre a areia escura. Quando não conseguia mais segurar a respiração, emergiu das ondas e respirou o ar fresco e úmido. Luan nadava em sua direção, tentando lutar contra uma corrente que o levava de volta à costa.
— Aí! Eu quase levei um caldo — ele gritou, agitando os cabelos molhados. Os respingos atingiram o rosto de Lucas, e ele devolveu jogando mais água contra o irmão. — Idiota. Cuidado com a onda! AH!
Lucas riu e deu um salto, e a onda ameaçadora passou por eles.
— Também tem medo do mar, Luan? — o irmão provocou, encarando-o.
— Não. Só não estou acostumado — murmurou. — Me sinto um brinquedo frágil nas mãos da natureza.
Na costa, Lucas viu Alberto molhar os pés, perdendo o equilíbrio quando as águas recuaram. O pai caiu, rindo de seu próprio desastre. O rapaz pôde escutar um palavrão, típico de alguém que caiu em uma bacia de gelo. Apesar de tudo, Alberto parecia alegre.
— Eu não vou salvá-lo se ele cismar de nadar até a África — Luan falou, também observando a cena. — Estou avisando.
Algumas horas depois, quando voltaram para o apartamento, Lucas arrumou a mesa para o almoço. Alberto havia pedido mais marmitas, dessa vez com saladas fresquinhas para compensar as batatas fritas que comeram na praia. Sentou-se na mesa com o pai, morrendo de fome, atacando os ovos fritos que havia feito. Luan surgiu na cozinha com os cabelos molhados; e, para a surpresa de Lucas — e de Alberto — o caçula arrastou o banquinho e também se sentou à mesa.
— Esse frango empanado é ótimo — Luan disse, pegando um enorme pedaço de frango. Lucas observava-o de soslaio, e percebeu que Alberto fazia o mesmo. Naqueles cinco dias em que estavam ali, Luan nunca havia se sentado com eles para almoçar ou jantar.
— E o tropeiro é uma maravilha — Alberto completou.
Os três comeram em silêncio, apreciando a comida — até que o pai levantou-se e voltou com duas barras de chocolate. Ergueu uma para Luan e outra para Lucas. O caçula ficou olhando para o chocolate, atentado, mas não o pegou. Alberto colocou na mesa ao lado dele, e Lucas atacou alguns tabletes.
— Se você não quiser, eu vou comer — Lucas ameaçou, e o irmão protegeu a barra de chocolate com o braço. Luan podia estar cheio de mágoas do pai, mas ele jamais recusaria um doce.
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