4. Uma lembrança de Sir Lucas
𓅯 Capítulo 4 | O Canto dos Pássaros 𓅯
Lucas se lembrava claramente da primeira vez que Pedro ajudou-o a sair de uma enrascada. Ele tinha dez anos. Era um agradável domingo de verão no antigo bairro onde moravam, cujas ruas de terra as crianças da vizinhança se esbanjavam e voltavam para casa sujas e empoeiradas. Naquela estação de dias longos e quentes, não havia limites para voltar para casa durante as tardes — desde que voltassem antes de escurecer. Os três meninos costumavam montar em suas bicicletas e saíam para explorar as ruas e alguns terrenos baldios. Pedro, o mais velho, comandava os cavaleiros e seus cavalos (cavalos de metais com um par de rodas e pedais); tão verídico que Lucas poderia escutar, em sua mente, as suas bicicletas relincharem. Às vezes, eles se arriscavam a entrar em ruas ou lotes com trilhas que nunca tiveram coragem de adentrar antes. Outras vezes, passavam pelos mesmos locais e fingiam ter descoberto novas terras. Os três cavaleiros. Sempre os três, juntos, protegendo um ao outro de monstros imaginários que poderiam saltar do meio daquele monte de mato seco para atacá-los.
Mas, nesse dia em específico, Pedro não estava lá. Havia ficado de castigo — uma coisa rara, pois o garoto sempre fora muito obediente — pois Ben o havia pegado jogando no computador ao invés de estudar para a prova de português. Apesar de ter insistido ao pai, Pedro teve que permanecer no quarto para revisar as matérias durante toda a tarde. E esse fato, para Lucas, foi o motivo de seu azar. Como explorariam sem o seu líder?
Na ausência do mais velho, Luan tomou à frente e subiu em sua bicicleta vermelha. Gritou para que Lucas o seguisse e começaram a aventura — que, definitivamente, não tinha tanta graça como havia na presença de Pedro. Logo quando viraram a esquina, os dois entraram em um impasse. Luan queria descer uma avenida, e Lucas queria virar à esquerda para ir à praça.
— Tsc, então vai — Luan murmurou, pedalando a bicicleta avenida abaixo e deixando-o para trás. Lucas apoiou os pés no chão, parando na esquina, e observou o irmão diminuir à medida que se afastava. Considerou segui-lo, mas logo desistiu da ideia. Então, virou a esquerda; adentrando por outra rua de terra e cascalho. Começou a pedalar rapidamente, como de costume, e tentou se imaginar como um bravo cavaleiro solitário à procura do santo graal. Sentiu o vento bater em seu rosto, ouvindo o agradável barulho dos pneus sobre os cascalhos.
Ele mal havia avistado a praça quando o incidente aconteceu. Lucas não sabia dizer o que havia acontecido exatamente — talvez uma pedra ou um buraco no meio do caminho, ou quem sabe tenha virado o guidão sem perceber. O que quer que fosse, a roda dianteira deu um solavanco e o menino desequilibrou. Caiu sobre a terra vermelha e as lascas de pedra, ralando as palmas das mãos e ambos os joelhos. O cotovelo direito, usado para amortecer a queda, foi o que impediu de levantar e sair correndo para casa — pois a dor fora tanta segundos após a queda que Lucas sentiu-se atordoado. Através de sua visão turva, ele viu algumas pessoas se aproximarem correndo. O menino pôde ver as crianças que brincavam na praça assustadas, olhando para ele.
Lucas engoliu o choro, segurando o braço direito. Pelo menos, parecia não haver quebrado, pois conseguia movimentá-lo. Os joelhos sangravam. As palmas das mãos ardiam. Sua garganta estava seca, e sua bicicleta não parecia nada bem também. Horas mais tarde ele descobriria que o pneu havia furado e o guidão ficara levemente danificado — mas nada que Ben não pudesse consertar.
— Pobrezinho! — exclamou a senhora que se aproximava junto com um rapaz. — Está doendo muito? Será que quebrou o braço? Guilherme, chame uma ambulância!
O rapaz, que deveria ter aproximadamente dezesseis anos, olhou para Lucas e estendeu-lhe a mão.
— Que tombo, cara. Tem que tomar cuidado com essas curvas — ele disse. — Consegue se levantar?
Lucas fez uma careta, erguendo-se com dificuldade. Seus joelhos pareciam ter sido torturados por raladores.
— Minha Nossa Senhora! — a mulher continuava dizendo, espantada. Lucas olhou novamente para seus machucados, perguntando-se se estava tão ruim assim. A tontura havia passado, e todo o seu corpo estava quente. — Onde estão seus pais?
O menino olhou para a mulher e depois desviou o olhar. Fitou a bicicleta e, com dificuldade, deixou-a de pé. O rapaz o ajudou.
— Qual é o seu nome, menino? — a mulher insistiu. Parecia realmente preocupada, mas Lucas odiava aquelas perguntas. Odiava a insistência das pessoas. Aquele sentimento não tinha fundamento algum; ele sabia. Mas, a cada pergunta não respondida, seu coração disparava e mandava-o fugir dali. Perigo iminente: perguntas que não eram possíveis de serem respondidas com sim ou não.
— Às vezes ele é mudo — sugeriu Guilherme.
— Você sabe o telefone de seus pais de cor? — prosseguiu a mulher, sacando um nokia N95 do bolso da camisa florida. — Vamos, rapazinho! Você não pode voltar para casa sozinho desse jeito.
Lucas começou a balançar a cabeça em sinal negativo, tentando manter o equilíbrio. O menino sabia que ela estava tentando ajudar, e no fundo sentia-se grato por isso, mas não conseguiu evitar fechar a cara. Estava com dor, mal conseguia andar, e aquela senhora estava deixando-o desorientado.
A mulher franziu o cenho, erguendo o celular em sua direção.
— Você está mocinho demais para não responder as pessoas. — disse, contrariada. — Vamos, ligue para os seus pais e diga para que venham buscá-lo e...
— Luuuuucas! — alguém gritou à distância. Lucas levantou a cabeça de imediato e viu Pedro pedalando freneticamente sua bicicleta laranja. Atrás dele, vinha Luan. A mulher ainda estendia o celular para ele, mas Lucas fingia que não via o aparelho. Ele observou os dois garotos frearem a alguns metros deles. Luan arregalou os olhos ao ver os machucados do irmão. Por um instante, Lucas pôde ver a preocupação em seus olhos.
— Caramba! — ele exclamou, alternando o olhar para os machucados do irmão mais velho e a bicicleta. Pedro encostou a sua no meio-fio e franziu o cenho.
— Um cavaleiro iniciante não deve se aventurar sozinho. Você consegue andar? — ele advertiu, passando o braço por seus ombros. Lucas assentiu, querendo sair logo dali. — Luan, me ajude aqui. Ei, moço, pode olhar as bicicletas para mim? Volto para buscar elas depois.
Lucas olhou para trás, reprimindo um gemido de dor. A senhora ainda erguia o celular. Guilherme juntou as bicicletas, e Luan passou o braço pela sua cintura para dar-lhe apoio do outro lado.
— Não querem ligar para os seus pais...? — perguntou a mulher.
— Não, obrigado. A mãe dele é um pouco dramática. Chamaria três ambulâncias e uma patrulha da polícia — Pedro sorriu para ela. — Vamos ajudá-lo. Obrigado mais uma vez.
Pedro e Luan praticamente carregaram Lucas em seus braços de volta para casa. Aquela jornada, sem seus cavalos, sob o sol escaldante do final de domingo, pareceu uma eternidade. O menino estava com muita dor, sobretudo no cotovelo, mas a narrativa de Pedro o distraiu. Lucas até riu, sentindo o gosto de sangue em sua boca. "E o cavaleiro número dois, Sir Lucas, lutou bravamente sobre o seu cavalo contra um cavaleiro das trevas, que ameaçava uma velha senhora e as crianças da aldeia em que passava..."
Aquele episódio se estendeu por toda a semana, rendendo em mais histórias fantasiosas. Lucas descobrira que Pedro havia convencido o pai de deixá-lo ir brincar após prometer que iria tirar acima de sete na prova de português — e se, caso isso não ocorresse, poderia proibi-lo de brincar com o que quisesse por um mês para estudar matemática. O menino sabia que Pedro não faria aquela promessa se não fosse um gênio em português (e em quase todas as matérias do fundamental).
Naquela época, um ano após Ben e Miriam decidirem tentar morar juntos, Lucas ainda não conseguia se comunicar com Pedro e com o padrasto. Fora um processo lento e difícil para ele, mas em nenhum momento sentiu-se pressionado a conversar com eles. Aquilo facilitou as coisas — e quando Lucas falou pela primeira vez com aquele que passaria a ser como seu irmão mais velho, foi como se nada de surpreendente estivesse acontecendo. E fora exatamente uma semana após o incidente com a bicicleta, quando Lucas finalmente sentia-se melhor para explorar novos bairros. Pois, ali, em meio às trilhas e o cheiro de capim fresco, ele era Sir Lucas — o Cavaleiro Corajoso — e não o menino mudo e estranho da escola.
Naquelas brincadeiras infantis, ele se sentia alguém. Era engraçado pensar, na fase adulta, que um personagem criado em sua cabeça pudesse tê-lo ajudado a falar com Pedro pela primeira vez. Quem sabe Lucas pudesse criar um novo personagem para enfrentar um dragão com o nome de universidade. Que o possibilitasse vestir uma máscara e driblar a maldita ansiedade. Talvez tivesse que voltar a ser como Sir Lucas, que ralava os joelhos e não se preocupava com o futuro.
Ele tentaria. No entanto, não haveria mais nenhum outro cavaleiro para ajudá-lo a se levantar caso falhasse.
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