39. Uma peça estranha
𓅯 Capítulo 39 | O Canto dos Pássaros 𓅯
Na manhã seguinte, Luan entrou no quarto erguendo uma chave. Sonolento, Lucas franziu o cenho, tentando raciocinar. O irmão calçava tênis de caminhada e uma blusa de frio com os dizeres MODO GAMER. Parecia animado — ao contrário do dia anterior.
— Quê...? — Lucas balbuciou, esfregando os olhos.
— Eu não sei você, mas não vou acumular mau colesterol comendo essas porcarias que Alberto compra — Luan falou. — Consegui a chave da academia do prédio. Por incrível que pareça, esse lugar tem uns aparelhos que prestam. Quer ir, ou vai ficar mofando aí?
— Desde quando voltou a fazer academia? — Lucas perguntou, ainda sem entender o que estava acontecendo.
— Desde que o folgado do síndico do condomínio me deixou voltar — o irmão murmurou. — Aquele idiota.
— Mas você bateu no filho dele.
— Foda-se — Luan jogou o pijama que usara de qualquer jeito na mala. — Você vai ou não?
Lucas deu de ombros, dizendo que precisava tomar café primeiro. Alberto ainda dormia quando o rapaz, após o café da manhã, seguiu o caçula para o térreo, que parecia sempre vazio. A entrada da academia ficava escondida no saguão, próxima ao estacionamento. Lucas olhou por cima do ombro quando o irmão adentrava pelo salão, guardando a chave no bolso.
— Luan... — Lucas começou, observando ao redor. Os aparelhos eram modernos, ao contrário do salão que os comportava; e aparentemente o lugar não era muito frequentado. — Como conseguiu essa chave?
O caçula deu um sorriso perverso.
— Dei uns beijos na filha do síndico.
— O quê?! — a voz de Lucas ecoou pelo salão.
— Qual é o problema, cara? — ele sentou em um dos aparelhos. — Estava sozinho em casa. Resolvi dar uma volta, vi uma garota linda saindo do elevador. Ela olhou pra mim, eu olhei para ela. Elogiou os meus braços, eu agradeci. Mas eu disse que precisava voltar a fazer academia pois eu estava começando a ficar flácido.
— E...? — Lucas queria saber do resto. Luan inclinou-se para frente, encarando o irmão com um ar astucioso. O caçula tinha o seu charme; era conquistador por natureza apesar da estupidez. Como Alberto.
— E aí o resto você já sabe — ele abriu os braços. — Melhor que parque de diversões.
— Não sei como consegue — Lucas disse, distraído. Havia um espelho enorme na parede, e ele começou a fazer alongamentos.
— O quê? — Luan perguntou.
— Ficar com pessoas que mal conhece.
— Você já tentou? — o irmão perguntou, seu sorriso malicioso refletido no espelho. Lucas suspirou, maneando a cabeça.
— Não. Eu não sou você — respondeu, fitando o próprio reflexo no espelho. E não era mesmo. Lucas arriscaria dizer que o irmão era mais bonito que ele. Tinha mais atitude, gostava de partir para a conquista. Além disso, tinha um porte bem mais atlético.
— Qual é — Luan alongava as pernas, esticado no chão. — Não acredito que não pegou ninguém ainda. Não sei como consegue.
— Luan, eu não quero pegar ninguém. Usar esse termo é...estranho.
— Ah, entendi. Você é do tipo romântico — ele riu, sarcástico. — Não o julgo, as garotas adoram uns caras românticos para namorar. Você seria um bom namorado.
Lucas não podia acreditar que Luan o elogiava. Ele soltou uma risada rouca, relaxando os braços ao redor do corpo. Queria poder contar sobre Beatriz, mas o irmão não era a pessoa ideal para aquele tipo de conversa. Ficava constrangido só de lembrar que ela o havia beijado — e que ele literalmente havia saído correndo. Beatriz, ele repetiu aquele nome em sua mente, e seu sorriso murchou.
— Deveria tentar — Luan insistiu. — Aí! Conheci uma galera daqui, eles me convidaram para um rolê mais tarde. Pode ir se quiser, agora que está com uma vibe de galã. Com certeza terá algumas garotas bonitas que vão lascar um beijo na sua boca virgem.
Lucas foi até ele, empurrando-o para o chão novamente. O caçula lhe deu um tapa, e o mais velho devolveu bagunçando seu cabelo.
— Idiota — o rapaz tentou segurá-lo no chão, mas Luan era mais forte que ele. — Não vai cortar esse cabelo?
— Não. Descobri que as meninas adoram um gamer cabeludo — Luan ameaçou mordê-lo, e Lucas se afastou rindo.
— Vou pensar no seu convite — o mais velho disse.
— É sério? — Luan estava surpreso. — Já vou perguntar às meninas se elas se interessam por um magrelo tímido.
Lucas só não lhe dava uns tapas pois sabia que perderia o embate com aquele indigente.
O caçula sabia irritá-lo. Mas algo naquele convite inesperado o fez pensar. Ele apenas sairia, conheceria algumas pessoas novas e quem sabe...quem sabe alguém não se interessaria por ele? O rapaz olhou para o irmão, que começava a levantar alguns pesos. Alguns anos atrás, desejou ser como ele — extrovertido, corajoso e ousado. As garotas o adoravam, apesar de seu temperamento explosivo. E Lucas, em oposição, era o garoto esquisito e rejeitado.
Se ele estava tentando coisas novas... Por que não?
Ele ficou a tarde inteira pensando naquilo. Algo dentro dele dizia que tentar aquele tipo de coisa não era necessário; que não fazia parte dele. Entretanto, se estava disposto a entrar no universo do irmão caçula — e de Alberto — talvez pudesse testar a si mesmo novamente. Por isso, naquele mesmo dia, às dez horas da noite, Luan ajudou-o a montar o melhor look de garanhão inexperiente, banhando-o com um forte perfume masculino e abrindo os botões de sua camisa social — garantindo que as garotas adoravam uns mamilos expostos.
Antes de se aventurar em mais uma loucura, Lucas enviou uma mensagem para Alberto — que já estava no quarto, mas que respondeu-o de imediato.
Hoje, 22:12 p.m:
Lucas Evans: Pai, vou sair com Luan para dar uma volta. Volto já.
Alberto: 👍
— O que ele respondeu? — Luan fechou a porta da sala, a voz ecoando pelo corredor externo.
— O de sempre — Lucas sentia sua garganta seca. Estava nervoso. — Luan, acho que não quero ir. Estou meio cansado e...
Luan o puxou bruscamente escada abaixo, calando-o conforme o mais velho tentava não tropeçar nos próprios pés e rolar pelos degraus.
— Que covarde você! — o caçula esbravejava. — Você não precisa falar com ninguém. Use sua boca pra outra coisa.
— Luan, por favor. Me solta — o rapaz pediu, e Luan o soltou quando chegaram ao saguão de entrada. Lucas alisou a camisa e respirou fundo. — Olha, eu vou. Mas sem gracinhas.
Luan deu um sorriso, satisfeito, soltando mais um botão da camisa do irmão mais velho.
— Tá gostoso — ele garantiu.
— Cala a boca — Lucas franziu o cenho, mal-humorado, saindo do prédio em direção à rua.
✦✦✦
A galera a qual Luan dissera que conhecera era um bando de jovens barulhentos e sem juízo. Estavam reunidos na praia, ao lado de dois carros estacionados ao lado da calçada. Uma caixa de som portátil tocava uma música baixa, mas com batidas graves. Quatro garotos e cinco garotas estavam reunidos na calçada, rindo e se abraçando — um deles ocupados demais trocando saliva em meio a garrafas de energético e cerveja.
Lucas se arrependeu de imediato. Sentiu-se mal no momento em que todos os nove jovens olharam para eles. Luan os cumprimentou de longe, e uma garota de cabelos ruivos se aproximou e lhe deu um beijo nos lábios. Deveria ser a tal filha do síndico que Luan contara.
— E aí, Luan. É o seu irmão? — um dos rapazes perguntou.
— Sim. Esse é o Lucas — Luan disse, passando o braço em torno da cintura da garota ruiva. Lucas sentia-se totalmente deslocado. Estava com frio, nervoso e totalmente arrependido.
— Quer? — o rapaz ergueu um energético. Foi impossível não se lembrar do momento em que encontrara Wallace na sala de descanso da faculdade. — Tá com cara de sono. Não é de sair muito?
Lucas balançou a cabeça em negativo, respondendo ambas às perguntas. Uma das moças olhava para ele, analisando-o dos pés à cabeça. Com certeza estava achando-o um estranho, perguntando-se porque um garoto tão incrível quanto Luan tinha um irmão tão idiota.
— Ele não gosta de falar muito — Luan avisou, tomando um gole de cerveja. — E ele não bebe.
— Hum, um santinho — a moça que o analisava aproximou-se. Ela era bonita, os cabelos escuros e longos batendo nos quadris e o corpo esbelto. Mas algo no olhar dela, ou em seu jeito, fez com que Lucas desse um passo para trás. Com um sorriso perverso, ela completou: — Esses são os piores.
Lucas sentiu o seu rosto arder. Todos soltaram uma gargalhada, deixando-o ainda mais sem graça. Olhou para trás, vendo o velho e acolhedor prédio à distância. Desejou ter o poder de teletransporte ou, quem sabe, de invisibilidade. Contudo, impossibilitado de voltar, Lucas ficou ali. A moça ainda o analisava, e os outros começaram a falar sobre a balada que iriam. Aquele encontro era apenas uma preparação — uma pré-balada, como disseram.
O rapaz começou a ficar realmente ansioso. Sentia-se uma peça estranha de um quebra-cabeça; um intruso. Não deveria estar ali, não era como aquelas pessoas. Controlando-se, ele olhou para o mar e respirou fundo. Finja que é como eles, Lucas disse para si mesmo. Apenas tente. Recordou-se de suas poucas conquistas naquela viagem — poucas, mas que diminuíram suas inseguranças. Conseguira falar com a atendente da padaria. Com o homem que cortara o seu cabelo. Poderia muito bem falar com aquelas pessoas; mas na frente de Luan era diferente.
Então, fingindo uma segurança que ainda não tinha, o rapaz forçou-se a rir das bobagens que diziam (que não eram tão engraçadas assim) e até mesmo correspondeu a alguns olhares atrevidos da moça de cabelos escuros. Recusou bebida e até mesmo fumos suspeitos. Podia tentar entrar no clima deles, mas não era obrigado a aceitar aquelas coisas que naturalmente rejeitava.
Um dos rapazes que fumava se aproximou dele, puxando-o um pouco para trás.
— Karina está te comendo com o olho. Vai ou não? — ele sussurrou em seu ouvido, baforando na sua cara. Lucas deu um sorriso sem graça, desviando o rosto. O rapaz se afastou, e Lucas olhou para a tal Karina.
Luan observou-o com o canto dos olhos, ainda abraçado à garota. Vai logo! Era como se ele dissesse. Lucas começou a tremer, trincando os dentes. Você não precisa fazer isso, Lucas, tentou convencer-se mentalmente. Alguém aumentou a música, e mais bebidas foram abertas. Ele queria sair um pouco dali. Havia ficando quanto tempo no meio daquela gente? Quinze minutos? Vinte? Ele não sabia — estava com sono, cansado e sua energia se esvaía a cada segundo.
Como se adivinhasse as suas intenções, Karina aproximou-se dele, tocando em seu braço.
— Que tal um passeio na praia? — ela perguntou, puxando-o para a areia. — Vamos, não sou uma sereia que irá afogá-lo.
Lucas ficou enjoado, sentindo os pés afundarem na areia. Karina pegou em sua mão, levando-o em direção a um conjunto de coqueiros. O rapaz tentou focar em sua beleza física, e constatou que talvez fosse a mais bonita daquele grupo. Lucas queria se sentir orgulhoso por aquilo — por estar prestes a ficar, quem sabe, com a mulher mais bonita das cinco. Mas não estava orgulhoso; não se vangloriava. Era estranho para ele — pois só sabia o seu nome; mal a conhecia.
Karina, no entanto, não parecia ligar para aqueles detalhes. Faria de tudo para saciar seu desejo por aquele rapaz esquisito e calado. Já estavam longe do grupo — para o seu alívio — quando a moça parou, encostando as costas no coqueiro.
— Então, você não vai falar nada? — ela perguntou, ainda apertando sua mão. Era um gesto provocante, mas que Lucas nada sentia.
— Vou — ele fechou os olhos, falando baixinho. — Você é...muito bonita.
Karina puxou-o para si. Lucas estava tenso, mas deixou com que seu corpo se encaixasse ao dela. Engoliu em seco, desviando o rosto para olhar para o grupo que se divertiam à distância.
— Obrigada, bonitinho — ela cheirou o seu pescoço. — Hum, perfume muito bom. Qual é?
— Não sei.
— Não é de ficar com mulheres, né?
— Não.
— Talvez pudesse beber um pouco para se soltar — ela sugeriu.
— Não gosto.
Lucas fechou os olhos novamente, tentando sentir-se atraído com aquele toque físico, aquele perfume suave em suas narinas. Gentilmente, passou a mão de leve em seus cabelos soltos. Eles o lembraram...Beatriz. Apesar daquela semelhança, as duas eram tão diferentes. Para ele, Beatriz era a moça mais linda do mundo, mas com certeza todos achariam Karina mais bonita que ela. O quão burro ele seria de deixar passar aquela oportunidade, só por que estava apaixonado por alguém que nem ligava mais para ele?
Cansada de esperar, Karina agarrou o seu rosto, um pouco ríspida, como se estivesse com fome. Beijou os lábios de Lucas com avidez, e ele achou que voltaria para casa sem um pedaço de sua boca. O rapaz tentou acompanhá-la, agarrando sua cintura. Achou que finalmente estava se soltando quando, de repente, sentiu uma picada em seu traseiro. Lucas deu um pulo, mas Karina estava grudada nele como um parasita. Ela beliscou a minha bunda, ele raciocinou, sufocado com voracidade do beijo. Ela está pegando na minha bunda!
O rapaz afastou o rosto, desvencilhado de seus lábios. Não havia baba o suficiente em seu rosto para dizer que foi ruim, mas não foi...bom. Ele não esperava uma atitude romântica de alguém que conhecera há vinte minutos, mas aquilo foi demais. Seu traseiro latejava com o súbito beliscão.
— Desculpe, eu te machuquei? Sou um pouco impulsiva. Adoro um traseiro masculino.
— Sim. Doeu. — Lucas falava robotizado. Olhou para a boca que havia beijado, tão bonita e atrativa, mas não teve vontade nenhuma de continuar. O rosto de Beatriz surgia em sua mente a cada segundo, cada vez mais forte e torturante. Karina tentou beijá-lo novamente, mas o rapaz desviou o rosto e se afastou ainda mais. — Desculpe. Preciso voltar para casa.
— Mas já? — Karina passou a mão em seu braço. — Você beija bem. Só parece um pouco nervoso. Vamos, é só você se soltar mais.
— Não — Lucas negou, temendo ser engolido novamente. — Preciso voltar. Tomar. Remédio.
— Ah. Tudo bem — ela parecia decepcionada, mas manteve seu sorriso provocativo. — Nos vemos em uma outra ocasião. A propósito, você quer o meu número?
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