30. Lenços azuis
𓅯 Capítulo 30 | O Canto dos Pássaros 𓅯
Pedro já esperava no carro quando Lucas verificou as horas, sonolento, e tentou fingir que iria a um passeio agradável pela cidade com o irmão — e não a uma sessão de terapia. Estava ansioso, com medo e irritado pela noite que passara praticamente com os olhos colados no teto. Pedro sorria-lhe o tempo todo, ignorando o mau humor de Lucas como se ignora uma criança emburrada.
— Notícias do Beethoven? — o sorriso do irmão sumiu ao fazer a pergunta.
— Ele não melhorou — Lucas respondeu, observando as ruas. — Ben ligou para lá hoje e pretende visitá-lo.
Lucas cutucava as próprias unhas; ele queria que aquela sensação horrível no estômago parasse. Pedro notou seu nervosismo e, diante de um sinal vermelho, parou o automóvel e olhou para ele.
— Ei, fique tranquilo — o irmão tentou inutilmente acalmá-lo. — Não o levaria a alguém que o tratasse mal. Edith é uma ótima profissional e já cuidou de casos como o seu...
— Crianças — Lucas murmurou, lembrando-se da conversa que tivera com Pedro na noite anterior, por chamada. — Ela tratou crianças.
Pedro suspirou, avançando quando o sinal ficou verde.
— Tente uma vez. Se não gostar dela, poderemos procurar outra pessoa. Só não desista, tudo bem? — Pedro falou, atento ao trânsito. — Olha, desculpe por não estar tão presente.
Lucas maneou a cabeça. Não queria falar sobre si mesmo e de seus problemas. Não queria se lembrar para onde estavam indo e o que ele teria que fazer.
— Já escolheram o nome? — perguntou, desviando-se daquele assunto perturbador.
— O quê?
— O nome da sua filha. Vocês estavam indecisos.
O sorriso de Pedro voltou aos poucos.
— Sim. Acho que finalmente chegamos a um consenso — o irmão falou. — Ben ainda não sabe, pois vamos fazer sapatinhos e toalhas personalizadas com o nome da bebê. Será Stella.
— Stella! Como sua antiga amiga imaginária — Lucas forçou um sorriso. Pedro riu, assentindo. Ele começou a falar sobre a filha, os preparativos e o chá de bebê. O rapaz sentiu o ambiente no carro ficar mais leve, e ele quase se esqueceu porque estavam adentrando em uma rua e em um bairro que ele não se lembrava de ter ido antes. Poderiam muito bem estar indo ao shopping comprar roupinhas de criança; mas Lucas não conseguiu se iludir por muito tempo.
Pedro entrou em uma rua sem saída, arborizada, em um bairro calmo e com casas grandes e de aspecto antigo. O veículo parou diante de uma das residências, no final da rua. O silêncio só era cortado pelo canto de algumas cigarras e o som longínquo do jorrar de uma fonte.
— É aqui? — Lucas perguntou, observando o abundante jardim diante da casa. As grades brancas estavam recém-pintadas, e margaridas cobriam grande parte do quintal. O rapaz estava esperando ser levado a uma clínica; quem sabe em um prédio, e não a uma casa que mais parecia uma pousada.
— Sim — Pedro assentiu. — Como combinamos, estarei aqui em uma hora.
Lucas engoliu em seco e desceu do carro. Aproximou-se da entrada, sentindo o cheiro de tinta vindo das grades. Hesitante, tocou o interfone, e em segundos o portão individual se abriu em um estalido. Uma fonte de pedra gorgolejava água e caía em um pequeno lago. Um conjunto de passarinhos caçavam insetos pela grama baixa e verdejante. Um caminho de pedra fazia uma bifurcação durante o trajeto — uma via para a casa de dois andares, e outra para uma pequena e majestosa construção à esquerda. Provavelmente, era uma sala de atendimentos. Cortinas brancas cobriam as janelas retangulares, e poltronas com almofadas turquesas e uma pequena estante com livros decorava a varanda. Uma mulher de aproximadamente quarenta anos o aguardava, sorrindo-lhe de modo convidativo.
— Bom dia! — ela fez um gesto para que o rapaz se aproximasse. — Lucas, certo?
Lucas assentiu, percebendo que havia parado no meio do caminho. Aproximou-se, e a mulher o guiou até a sala. Ela era mais alta que Lucas, os cachos dos cabelos castanhos claros descendo pelas costas. Seu braço esquerdo era quase totalmente coberto de tatuagens de traços finos. A sala de atendimento, um aposento em formato retangular, era espaçosa e confortável. Nada o lembrava das clínicas que ia quando era criança, que pareciam opressivas demais para ele na época. Um cheiro agradável que vinha de um difusor de aromas no canto da sala penetrou pelas narinas do rapaz.
A mulher arrastou a cadeira para que ele se sentasse diante da mesa de madeira, sentando-se do outro lado em seguida. Atrás deles, mais estantes, dessa vez com mais livros falando sobre psicologia tradicional e terapias holísticas. Ela colocou os óculos de grau, ajeitou algumas folhas sobre a mesa e fitou Lucas. Seus olhos tinham um ar jovial apesar da suposta idade, e seu sorriso despreocupado fazia com que Lucas se sentisse menos agitado.
— Lucas, eu me chamo Edith. Sou formada em psicologia e costumo utilizar em minhas consultas as terapias integrativas — ela expôs. — Me especializei em mutismo seletivo e ansiedade social e trato pacientes de todas as idades. Eu o ajudarei da melhor forma que posso. Antes de tudo, você aceita uma água? Um chá? Ou quem sabe uma balinha?
Lucas sentiu um frio na barriga. Negou, temendo vomitar em Edith se digerisse qualquer coisa. Mutismo seletivo, a voz da mulher ressoou em sua cabeça. Aquilo era o que ele tinha, ele sabia. Descobrira quando Pedro imprimiu para ele um artigo falando sobre o transtorno, quando estava nos primeiros anos na faculdade de Pedagogia, e Lucas rasgou-o sem ao menos ler. Idai se tem um nome pra isso? Ele pensava. Não gostava nem um pouco de falar sobre aquele assunto, mas Lucas sabia que não havia mais como escapar.
Entretanto, Edith sabia sobre o seu transtorno. No fundo de seu ser, apesar de toda a negação e repulsa aparente, Lucas sentiu-se grato e aliviado. Não precisaria passar quase uma hora sentido total constrangimento e vergonha por não conseguir falar. Ela ficaria encarando-o, esperando por respostas verbais; tentando compreender porque o paciente não falava.
Edith colocou um caderno aberto e uma caneta diante dele. O canto dos pássaros no jardim preencheu a sala de atendimento, atravessando as cortinas que oscilavam com o vento típico das manhãs de outono. Lucas fitou a caneta dourada e o braço tatuado de Edith, cujos desenhos faziam referências a objetos marinhos. Conchas, coqueiros, andorinhas, estrelas-do-mar. Ele quase pôde ouvir o som do oceano saindo de seu membro. Com o mesmo braço, a psicóloga arrastou um recipiente cheio de balinhas de chocolate.
Lágrimas começaram a rolar sem parar pelas bochechas de Lucas. Sem que conseguisse se controlar, chorou copiosamente e em silêncio, acalentado pelo cantarolar das aves e os bonitos e terapêuticos lenços azuis oferecidos por Edith. Pode chorar, Lucas. As águas nos curam, ele lembra de ouvi-la dizer, baixinho.
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Uma hora mais tarde, Lucas já estava em casa. Não disfarçou a exaustão e os olhos inchados — mas todos estavam abalados demais pela situação de Beethoven, por isso, não perguntaram por que o rapaz estava com os olhos vermelhos e a cara horrível. Nem mesmo Pedro perguntou o que havia acontecido; apenas se havia gostado de Edith. Lucas respondeu apenas que era cedo demais para que ele a avaliasse, mas sabia que só pelo fato de ter chorado em um minuto de sessão já demonstrava seu alto potencial terapêutico utilizando-se das águas oceânicas do paciente.
O que não significa que tenha sido ruim. De certa forma, Lucas estava aliviado, um pouco mais leve que antes; mesmo cheio de angústia e medo do futuro. De modo sutil, Edith havia lhe mostrado caminhos que poderiam levá-los ao êxito do tratamento. Um trabalho em conjunto, onde eu poderei auxiliá-lo; mas você deve decidir caminhar ou não pelos caminhos que serão abertos. Mas nunca estará sozinho. Saiba disso: Nunca estará sozinho — aquelas palavras foram gravadas perfeitamente pela mente de Lucas. Edith não o tratou como um coitadinho, tampouco o pressionou a falar. Desse modo, Lucas sentiu liberdade de escrever no papel que ficou o tempo todo diante dele. Escrevera pouco, mas escreveu. A psicóloga havia notado o seu desconforto quando mencionou o transtorno e, com uma pergunta direta que poderia ser respondida com um sim ou um não, questionou-o:
— Sente-se desconfortável quando falo de mutismo seletivo?
Lucas balançou a cabeça em sinal positivo e, em um impulso, agarrou a caneta dourada. Edith desviou o olhar enquanto ele escrevia, sabendo que o rapaz provavelmente ficava desconfortável quando era observado fazendo qualquer coisa.
É só mais um rótulo, ele escreveu. A psicóloga sorriu, compreensiva, e disse algo que fez com que Lucas refletisse por um bom tempo.
— Entendo quando se refere à rótulos. Eles podem nos limitar quando queremos permanecer na zona de conforto, ou fazer com que as pessoas nos enxerguem de uma forma que não queremos — articulou. — Mas, usados de outra forma, podemos nos conhecer mais através deles. Entenda que o diagnóstico nos permite encontrar a abordagem e o tratamento certo. Um rótulo pode nos revelar um conjunto de informações que nos esclarecem em relação ao que sentimos e porque reagimos de tal forma... Não precisa concordar comigo se não quiser.
Lucas baixou a cabeça naquele momento, fitando os lenços azuis sempre prontos para serem utilizados. Edith não lhe impunha nada, mas ele sabia que estava certa. A primeira coisa que o rapaz tinha que fazer era aceitar. De certa forma, ele já estava aceitando a ajuda, mas precisava conformar-se com o que sentia e a forma como reagia. Lucas sempre fora, desde pequeno, uma pessoa ansiosa e tímida. Crescera e, a cada ano que passava, se pressionava mais, se cobrava mais, se comparava demais. O resultado disso tudo foram as emoções descontroladas, reações exageradas e um ódio por si mesmo e pelo seu passado.
Por um breve instante, Lucas achou que sairia daquela sala com todas as suas respostas para suas questões internas. Mas estava enganado — ele saiu com mais perguntas; mas consciente de que finalmente poderia fazer algo por si mesmo. Foi a primeira vez, depois de tantas experiências com profissionais que não sabiam como ajudá-lo, que Lucas sentiu uma pontinha de esperança. Alguém poderia por fim ajudá-lo. Ajudá-lo a ajudar a si mesmo. E ele não estava tão sozinho quanto havia imaginado.
O resto daquele sábado foi de total tédio, mas sua mente não parava. Pensava na sessão de terapia, pensava em Beethoven, na faculdade, em Wallace, em Beatriz. Sem muito o que fazer e aflito pela agitação que se apossou dele, Lucas colocou seus fones de ouvido e uma antiga playlist começou a tocar. Sentado na cadeira giratória, ele abriu uma das gavetas da escrivaninha e começou a organizá-la. Quando se deu conta, já estava arrumando as estantes empoeiradas, limpando-as, depois separando roupas que ele não pretendia mais usar. No fundo de seu guarda-roupa, após retirar uma dúzia de camisas e blusas de frio, ele achou uma caixa. Fotografias antigas.
Pretendia deixá-las onde estava, mas Lucas sentiu-se tentado a abri-la para refrescar sua memória. De volta à cadeira, com o quarto virado de cabeça para baixo, o rapaz abriu a pesada caixa de plástico e deparou-se com uma montanha de fotos reveladas. A primeira que vira, coincidentemente, mostrava um Lucas de nove anos e um Luan de sete. Entre eles, um Beethoven sorridente, os pelos dourados reluzindo sob o sol da tarde. Estavam no grande jardim de sua antiga casa. Dois garotos sorridentes e um cachorro agradecido por ter ganhado uma família.
O rapaz encarou a própria imagem — apenas um menino, sorrindo, os cabelos castanhos claros cobrindo a testa e as orelhas. Eram poucas as fotos que Lucas aparecia sorrindo. Suas roupas estavam sujas e levemente úmidas. Separou-a para mostrar a Miriam e continuou explorando as fotografias, um pouco nostálgico. Gostava muito de sua antiga casa, onde aproveitara muito bem a infância. Havia mais fotos dele sobre os fartos pés de jabuticaba, Luan em pé sobre o muro que dividia o terreno, Pedro sorridente com um Mozart filhotinho. Havia muitas fotos de Lucas — tanto em casa, quanto na escola. E a diferença era grande. O menino se comportava de modo completamente diferente nos dois ambientes; como se mudasse de personalidade ou escondesse aquele garoto alegre que subia nas árvores e se aventurava nas ruas com sua bicicleta. Algumas das fotografias mostram-no participando de apresentações escolares (a qual raramente conseguia ficar até o final) ou nas formaturas. Em todos os registros, Lucas mal sorria — e quando tentava, seus lábios eram apenas uma linha tensa, o rosto endurecido pelo nervosismo diante da câmera. Fotos de quando ele era bebê mostravam um Lucas gorducho e feliz. Fotos no jardim de infância, com um avental sujo de tinta. Registros de seu ensino fundamental, quando seus cabelos chegaram quase à altura dos ombros, e ele fora obrigado a cortá-los porque os meninos chamavam-no de menininha. Fotos do ensino fundamental dois — um Lucas mais maduro, mas ainda criança, com os cabelos quase raspados e uma expressão de garoto prostrado e rebelde.
Ele fechou a caixa quando as fotos de sua pré-adolescência ficaram visíveis naquela confusão de imagens desorganizadas. Com as narinas levemente irritadas e prestes a espirrar, Lucas notou um movimento pelo canto dos olhos. Virou-se para janela, fechando rapidamente as cortinas; deixando apenas uma fresta aberta. Disfarçadamente, inclinou-se em direção à janela, observando as duas moças passarem pela calçada. Bianca e Beatriz riam enquanto caminhavam de volta à casa 10, carregando sacolas de uma padaria próxima, onde qualquer condômino poderia ir à pé. O coração de Lucas começou a saltar, com o típico frio na barriga apossando-se dele. Beatriz parecia muito feliz. Em nenhum momento ela olhou para a casa de Lucas, bem ao seu lado. Aquilo lhe partiu o coração. Era como se a moça houvesse esquecido completamente de sua existência — não só ela, como seus jovens vizinhos. Eles não precisavam mais fingir que eram seus amigos depois do que havia acontecido.
Quando as duas moças desapareceram da visão de Lucas, ele largou a cortina e afundou-se na cadeira. Olhou para a cama cheia de roupas e o chão cheio de caixas, livros, objetos de enfeite e velhos recipientes de tinta. Seu ânimo de arrumação desaparecera, um bolo se formou em sua garganta e ele finalmente espirrou. Ficou por um bom tempo olhando para a bagunça que fizera, as narinas irritadas e vermelhas por conta da poeira. Mal havia percebido que os fones sem fio haviam acabado a bateria. Em seu colo, a pesada caixa de fotos fora aberta novamente. O rapaz pegou as fotos de um Lucas pré-adolescente, cujo maior drama fora se apaixonar por alguém que nunca havia conseguido conversar.
Algumas coisas nunca mudavam.
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