29. Fora do controle

𓅯 Capítulo 29 | O Canto dos Pássaros 𓅯

Wallace não parecia muito feliz no dia seguinte. Como de costume, o garoto estava sentado atrás da carteira de Lucas, disperso. A cabeça pendia na parede, e seus dedos rabiscavam letras no caderno. O rapaz olhou para ele, colocando a mochila ao lado da mesa.

— E aí? — Wall balbuciou, desanimado e mal-humorado. Lucas maneou a cabeça, cumprimentando-o. Arriscou um sorriso, mas ele também não estava nos melhores dias. Pensou em perguntar o que estava acontecendo, sentindo uma súbita preocupação.

Sem hesitar, escreveu uma pergunta em uma folha, entregando-o: Está tudo bem? Esperou que ele respondesse escrevendo, mas Wall devolveu-lhe a folha e falou:

— Tá tudo beleza — Wall não olhava para ele. Lucas não se convenceu com aquela resposta. — Aí, Lucas, sinto muito. Mas...os caras não querem você no grupo. Falaram que você ia atrapalhar a apresentação e tal. Vale muito ponto. Desculpe.

Lucas baixou a cabeça. Pegou a folha, os dedos trêmulos dificultando a escrita. Tudo bem, ele escreveu. Eu me viro. Eles falaram alguma coisa com você? Você não parece legal.

Wallace leu com as sobrancelhas franzidas. Lucas quase pediu para que ele escrevesse; como eles faziam antes. Mas o garoto mal tocou no papel que foi colocado diante dele. O professor entrou na sala, e Wall devolveu a folha novamente.

— Eu estou legal. Só estou com preguiça — murmurou, colocando o capuz do moletom sobre a cabeça e fechando os olhos. Lucas suspirou, condenando-se por ter sido tão idiota nos últimos dias. Mas ele não estava nada bem. A probabilidade de perder Wallace e sua amizade o deixou ainda pior. Ele tinha certeza que havia feito algo, chateando-o; ou Wall simplesmente preferia estar com seus novos amigos.

Lucas não insistiu. Quis faltar mais aulas, planejando ir para a biblioteca, mas já havia perdido muitas nos últimos dias pela sua imprudência. Então, aguentou até o fim da última aula, quando finalmente pôde voltar para casa. Estava chateado e cansado, cheio de coisas para fazer — trabalhos individuais que não seriam entregues, livros que não seriam lidos — mas algo a mais o incomodava profundamente; mais do que suas responsabilidades acadêmicas e suas limitações diárias. Ele sentia falta de Beatriz. Muita falta.

Ele tinha a esperança de esquecê-la à medida que os dias passassem. Mas não — tudo piorava. Lucas simplesmente não conseguia parar de pensar nela e em como as coisas haviam terminado. Sem o contato dela, não havia como trocar mensagens. Não vê-la naqueles dias foi quase insuportável. O rapaz pegava-se engolindo o choro várias vezes, antes de dormir, recordando-se dos poucos momentos que ficaram próximos. Aqueles acontecimentos pareciam tão distantes para ele; como se tudo não tivesse passado de um sonho.

Após o almoço, Lucas ficou na janela, oculto pelas pesadas cortinas, esperando que Beatriz surgisse caminhando pela calçada. Sabia que a moça chegava depois dele, por isso, poderia vê-la a qualquer momento. Mas aquilo não aconteceu. Frustrado e entediado, o rapaz tentou terminar de ler um dos artigos; distraindo-se com cada movimento do outro lado da janela. Desistiu de ler quando o velho celular emprestado de Ben começou a tocar. Lucas reconheceu o número de imediato: era Pedro. Fechou completamente a cortina, deixando o quarto quase sem luz alguma, e atendeu à chamada.

— Aham? — Lucas murmurou, inclinando-se na cadeira e fitando o calendário colado na parede.

Alô? — ele escutou a voz de Pedro do outro lado da linha, e Lucas ficou aliviado. Sempre atendia telefonemas desconfiado, com medo de que não fosse um de seus familiares. Um medo antigo e estranho que apenas ele compreendia.

— Oi, Pedro. Pode falar.

E aí, tudo bem? Tenho que falar rápido, meu horário de almoço está acabando e hoje é o dia inteiro. Escute, você ainda está interessado em fazer terapia?

Lucas sentiu a garganta seca. Esqueceu-se completamente que haviam conversado sobre aquilo. Não, eu não quero, ele queria dizer. Mas calou aquela voz medrosa. O rapaz não queria, mas precisava. Distanciando todas as lembranças ruins acerca de terapias, psicoterapias e suas variantes, o rapaz respondeu, nervoso:

— C-claro. Acho que sim. Por quê?

Consegui uma ótima terapeuta. Ela estudou muito sobre o seu transtorno e está disposta a te ajudar. Pode ser amanhã de manhã, às 9:00?

— Já, amanhã?

Sim. Ela tem a agenda cheia. Não quero te pressionar, Lucas, mas eu acho que deveria tentar e...

— Sim, sim, sim — o rapaz interrompeu-o, apertando os olhos com força. — Tudo bem, tudo bem. Pode marcar. Onde é?

Não se preocupe, eu o levarei.

— Não quero te atrapalhar, Pedro.

Cale a boca, Lucas.

— Certo. Obrigado.

O irmão se despediu, apressado, e Lucas se pôs a pensar. Olhou mais uma vez para o calendário. Já era sexta-feira. Quando era criança, também costumava ir à terapia aos sábados. Não tinha lembranças muito claras daquela época, porém, nada o havia ajudado em relação à sua dificuldade. Ninguém sabia do que se tratava. Muitas vezes, Lucas fora tratado com certa crueldade.

Ele expulsou aquelas lembranças. Ficou nervoso só de pensar como seria — como se comportaria, como seria visto ou se seria incompreendido. Quase ligou para que Pedro desmarcasse, mas não teve tempo para tomar aquela decisão. Luan entrou correndo no aposento do irmão, acendendo a luz. Lucas estreitou os olhos, encarando o caçula. Ele estava com a mão sobre o interruptor, os olhos arregalados.

— Beethoven não parece legal — Luan comunicou, apreensivo. — Acho que pegou uma pneumonia.

— O quê? — Lucas levantou-se, estranhando a aparição do irmão e a menção do velho cachorro. Luan tinha um apego especial por aquele cão, que ele mesmo havia achado na rua quando era mais jovem.

O irmão não respondeu. Apagou a luz e desceu as escadas correndo, e Lucas o seguiu. Como sempre, Beethoven estava no canto da sala, em seu agradável e confortável colchão canino. Desde que tinha completado quinze anos, no ano anterior, o cachorro passou a ficar mais quieto; dormindo a maior parte do tempo. Contrariamente ao seu companheiro Mozart, que sempre fora brincalhão e agitado, Beethoven sempre foi calmo e muito dócil.

— Ei, garoto... — Lucas agachou-se, inclinando-se sobre o cachorro; que respirava com dificuldade e gemia. A pelagem dourada, salpicada de pelos brancos no dorso e na face, estavam brilhantes e limpos. Usava uma roupinha verde, como sempre costumava usar quando ficava muito frio. — O que aconteceu?

Beethoven abanou o rabo lentamente, revelando ainda mais a sua fragilidade. Ben havia comentado que o cachorro estava se recusando a comer naqueles dias, mas Beethoven tinha suas fases de um velho senhor e exigia comidas caseiras. O rapaz colocou a mão sobre o ventre do cão, sentindo a respiração do animal, e seu peito ficou pesado. Luan estava agitado, andando de um lado para o outro na sala. Havia tempos que não via o irmão daquela forma — preocupado com algo ou alguém. Lucas sacou o celular do bolso e ligou para Ben, que provavelmente estava na Escola de Música que trabalhava. Porém, ele sempre atendia; ciente de que Lucas não ligaria a não ser que fosse uma urgência.

O padrasto atendeu, e Lucas relatou rapidamente o que estava acontecendo.

— Estarei aí em meia-hora. — Ben garantiu. — Vamos levá-lo ao veterinário.

Aflitos, eles esperaram. Lucas quase mandou que Luan ficasse quieto, mas estava tão impaciente quanto ele. Mozart deitou-se ao lado de Beethoven, claramente preocupado com as condições de seu irmão adotivo. Aquela situação foi o suficiente para que Lucas começasse a sentir-se enjoado e com a sensação que poderia desmaiar. Por que tantas coisas ruins estavam acontecendo? Por que tudo parecia fora do controle?

— Por que não fica quieto? — sem conseguir se segurar, Lucas vociferou, mais alto do que pretendia. Luan, que estava indo e vindo em direção à porta e à janela, parou e olhou para o mais velho. — Fique quieto, pelo amor de Deus. Está deixando Beethoven nervoso!

— Ele nem está vendo nada! — Luan protestou. — Seus olhos estão fechados. Ele mal consegue respirar!

— Eu sei! — Lucas teve vontade de socá-lo. — Ben está vindo. Vamos levá-lo ao veterinário.

Luan bufou. O conhecido som do motor do carro de Ben adentrou pelas janelas, e o irmão abriu a porta da sala. Com a calma de sempre, Ben apareceu e pegou o cachorro gentilmente, levando-o nos braços como uma criança sonolenta. Lucas não tinha muito o que fazer a não ser acompanhá-los. Luan com o cachorro no banco de trás, Lucas no banco da frente, as têmporas pulsando de dor.

Quando chegaram à clínica veterinária, Lucas esperou dentro do carro. Sentia que, se pisasse os pés na rua, passaria muito mal. Meia hora se passou; o suficiente para que Lucas imaginasse todas as catástrofes possíveis. Luan voltou, cabisbaixo, e entrou no carro. O cheiro de gasolina e fumaça deixou Lucas ainda mais enjoado.

— Ele vai ter que fazer uns exames e terá que ficar internado — murmurou o rapaz, que parecia mais uma criança tristonha. Lucas inclinou-se para frente, abrindo a porta do carro de repente. Estava prestes a vomitar. — Ah não, cara, não faça isso!

Lucas regurgitou o pouco que havia comido naquele dia. Ouviu Luan rumorejar, irritado. Algumas pessoas passavam pela calçada, em frente ao pequeno estacionamento da clínica, mas o rapaz não teve tempo para ficar envergonhado. Seu estômago revirava. Ao mesmo tempo, queria ter forças para mandar Luan calar a boca; quem sabe dar-lhe um tapa para deixar de ser tão mesquinho. Quantas vezes já esteve ao lado do caçula, que vomitava as tripas madrugada afora, e tinham que levá-lo correndo ao hospital?

Ressentido, Lucas fechou a porta, sentindo o gosto azedo na boca. O trânsito lá fora estava insuportável. Luan reclamava do cheiro, da demora de Ben, da fome que sentia e que era injusto Beethoven ficar naquele estado. Lucas mal tinha forças para falar. Quando Ben finalmente voltou para o carro, franziu o nariz com uma expressão de nojo e olhou para o chão do carro.

— O que aconteceu aqui? — o padrasto perguntou, verificando a sola dos pés. — Lucas, meu filho, por que está tão esverdeado?

— Ele vomitou — Luan contou, ainda enojado. — E aí, Beethoven vai voltar pra casa hoje?

— Não sabemos. Dependerá de como reagir à internação. — Ben ligou o carro. — Agora, que tal irmos em algum lugar tomar um sorvete? Para nos distrairmos um pouco?

O estômago de Lucas embrulhou mais uma vez, e ele se inclinou sobre a janela do carro e expeliu os últimos resquícios orgânicos de seu corpo nervoso.

— Acho melhor não — o padrasto concluiu, passando a mão pelas costas de Lucas, acalentando-o. — Sem sorvetes hoje.

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