28. Frio e vazio

𓅯 Capítulo 28 | O Canto dos Pássaros 𓅯

As semanas seguintes passaram mais rápido do que o normal. Lucas sentia-se como uma folha ao vento, seguindo o fluxo dos dias e das noites que iam e vinham rapidamente. Não porque ele estava deixando as coisas acontecerem, sem grandes preocupações. Não; ele simplesmente não se importava mais. Olhava o relógio apenas para verificar se era hora de partir para a faculdade ou voltar para casa. Não importava mais chegar atrasado ou almoçar tarde. Não se importava se dormia às 22:00, 23:00 ou meia-noite. Seguia a rotina, como um robô programado para acordar, comer e ir para a universidade — e ele às vezes, de fato, sentia-se dessa forma; vazio e com ações pré-estabelecidas em seu cérebro. Tudo ao seu redor parecia mais cinza, e o frio do outono que chegara aumentava seu torpor. A angústia, naqueles dias, era tão constante que o rapaz começava a acostumar-se com a sua presença.

No dia em que voltara para a faculdade, na terça-feira, Wallace ficou satisfeito ao vê-lo. No entanto, notara que o colega estava diferente. Percebendo a estranha mudança de Lucas, o garoto não mais o atormentava com sua habitual tagarelice e seus cutucões. No começo, ao se reencontrarem, Wallace contara quase tudo sobre sua curta viagem à casa dos avós; empolgado com algumas coisas que haviam acontecido e ao mesmo tempo triste porque o avô partiria em breve. Lucas tentou manter-se interessado, forçando um sorriso que não conseguia exibir. E, depois disso, Wallace calou-se. Não contava mais nada. Não lhe jogava bilhetes sobre os ombros, e eram raras as vezes que oferecia-lhe um chiclete — que Lucas sempre negava.

Aos poucos, Lucas foi se isolando de tudo e de todos. Wallace acabou sendo a primeira vítima de seu distanciamento espontâneo, e não insistiu em fazê-lo companhia. O garoto acabou se afastando também; mas Wall não ficaria sozinho. Ele era bom em fazer amizades, e logo estava conversando e se sentando com outras pessoas da sala. Contudo, nunca o ignorava, sendo o primeiro e único da sala a cumprimentá-lo com seu sorriso de sempre.

Na semana seguinte, após o intervalo de uma das aulas, acontecera um imprevisto. Lucas transitava pelos corredores agitados da faculdade quando sentiu falta do seu celular no bolso da calça jeans. Após apalpar o bolso, desesperado, e perceber que o aparelho não estava ali, ele parou. Enfiou-se em uma das alas mais vazia do corredor, procurando-o dentro da mochila. Nada. Lucas costumava sempre deixá-lo no bolso, atento a qualquer mensagem que pudesse chegar. Mensagens de Beatriz — que se esquecera completamente de sua existência. Wallace estava próximo naquele momento, conversando com um grupo de veteranos diante de uma sala. Notando o desespero do colega, o garoto aproximou-se.

— O que aconteceu? Perdeu alguma coisa? — perguntou, inspecionando o chão. Lucas bufou, desistindo de procurar na mochila. Talvez houvesse deixado sobre a carteira. Mas ele tinha certeza que sua mesa estava vazia quando saíram.

O rapaz olhou para Wall e assentiu, fazendo um gesto com a mão sobre a orelha.

— O seu celular? — Wallace começou a procurar de imediato. — Caramba! Que droga. Vamos ver se não caiu na sala.

Eles começaram a procurar por todos os lugares que passaram — corredores, salas, banheiro — mas nada de acharem o aparelho. Wallace saiu perguntando para todos, avisando aos seguranças e aos faxineiros sobre um celular perdido. Apesar da frustração de ter perdido algo de valor, sentiu certa satisfação em seu peito ao ver Wallace ali, ajudando-o, tagarelando como nos velhos tempos.

A verdade é que Lucas sentia falta daquilo. Sentia falta de Wallace — e era uma falácia quando afirmava para si mesmo que não se importava. Ele se importava. Ao mesmo tempo, parte dele desejava continuar afastado; pois sentia que era um incômodo. Às vezes, alguns colegas olhavam torto para ele. Colegas estes que conversavam com Wallace e que gostavam dele. Lucas sabia o que poderia acontecer. A faculdade não era tão diferente da escola quanto ele havia pensado. O rapaz já podia imaginar aquelas pessoas sussurrando no ouvido de Wall: Por que anda com aquele cara esquisito que não fala? E, para não perder a sua popularidade e suas novas amizades, ele se afastaria.

Lucas estava pensando em tudo aquilo quando ambos pararam ao lado de um bebedouro, ofegantes; os corredores quase vazios. Wall bebeu um pouco de água gelada e disse, esperançoso:

— Aposto que alguém vai achar. Podemos olhar na administração depois — ele deu tapinhas no braço de Lucas. — Vamos achar o seu celular.

Eles não acharam celular algum. Provavelmente, alguém havia pego e, sem se preocupar se tinha dono ou não, tomou para si. Lucas não se preocupava exatamente com o celular, mas com tudo que havia perdido dentro dele. O contato de Beatriz. O divertido grupo dos vizinhos. Principalmente o contato de Beatriz. Sentiu-se triste por aquilo. Mas você não queria afastar-se dela, Lucas?, ele se questionou, irritado com a própria indecisão. Ele não queria, mas ele tinha que se afastar dela. Perder o celular foi um sinal do universo para que ele esquecesse de vez de tudo aquilo.

No fim, Lucas teve que se contentar com um velho aparelho celular de Ben. Travava como uma lesma anciã, desligava quando bem queria e a bateria não aguentava muita coisa; mas foi a única alternativa — e sua salvação — quando precisou ligar para que o padrasto o buscasse imediatamente após o começo do que poderia ter sido uma próxima crise ansiosa. Foi em uma manhã de quarta-feira, depois que a professora de uma das disciplinas distribuiu os temas do seminário que seria feito em grupo. Wall incluiu-o em seu grupo, mas os membros não gostaram muito da presença de Lucas.

E não se importaram em esconder o desprezo.

— Você não ouviu o que a professora disse? — falou um dos rapazes do grupo. — Se alguém se recusar a apresentar, todos perderão pontos.

— Mas ele vai apresentar! — Wall tentou convencê-lo, mas até ele duvidava que aquilo fosse acontecer.

— Ele não fala! O cara é mudo, Wallace.

— Ele não é mudo. Lucas, você vai apresentar, né?

Lucas sentiu sua respiração acelerar, sufocando-o. Não respondeu, não olhou para eles. Simplesmente saiu da sala, aproveitando o final da aula, e correu em direção a uma das janelas do final do corredor. Não aguentaria ficar ali. Engoliu o bolo que começara a se formar em sua garganta, sacando o velho celular do bolso da calça e digitando o número de Benício. Hesitou por um momento antes de iniciar a ligação. E se o atrapalhasse? Não seria melhor ligar para Miriam? Não, Miriam não. Ben saberia lidar melhor com aquilo.

O rapaz ligou, e o padrasto atendeu de imediato. Verificou se não tinha ninguém por ali para escutá-lo.

Alô? Lucas?

— Oi, Ben. Você pode me buscar? — ele tentou falar o mais baixo possível, atento a qualquer um que aparecesse. Alguns alunos surgiram ao longe.

Aconteceu alguma coisa?

— Uhum — murmurou, disfarçando o movimento da boca com a mão. Para o seu alívio, Ben não fez muitas perguntas.

Estou indo!

Quinze minutos depois, Benício estava diante da entrada da faculdade. Lucas ficara escondido no jardim, atrás de uma das árvores, atento a todos ao redor. Não queria que Wallace ou nenhum de seus colegas o identificasse.

— O que aconteceu? — Ben perguntou, preocupado, quando o rapaz apressado entrou no carro. Lucas fechou a porta do automóvel, afundando no banco passageiro.

— Estou com dor de barriga — e ele não estava mentindo. O rapaz sentia toda a parte abdominal agitada pelo nervosismo, e ele temia que a qualquer momento pudesse expelir todos os seus órgãos internos.

— Então vamos acelerar. Segure aí! — o padrasto dirigiu para fora de Belmontine, e Lucas finalmente pôde relaxar um pouco. Mas não o suficiente para que o incômodo fosse embora.

O que falaria para Wall? O garoto só queria ajudá-lo, e levou toda a culpa por incluí-lo. Entretanto, Lucas estava decidido que não participaria de grupo algum. Que ele perdesse ponto. Os professores não compreenderiam, e ele não era considerado uma pessoa com deficiência para que adaptassem o trabalho ou abrisse uma exceção. Lucas já estava praticamente ferrado em todas as disciplinas. Seu plano para se dedicar aos estudos já tinha ido por água abaixo. Como se dedicar a algo quando não se tem um propósito mais profundo?

— Ben... — Lucas chamou-o, as palmas sobre a barriga. – Por que fez faculdade de Direito? Você gostava?

— Hum... — o padrasto olhou de esguelha para ele. — Bom, eu não odiava Direito. É uma área interessante para mim, confesso. Aprendi muitas coisas! Mas, em um determinada época da minha vida, percebi que não era algo que eu queria dar continuidade. Escutei meu coração, e meu coração insistia na música. Então, fiz a loucura que fiz, mas planejei tudo antes de chutar o grande balde.

— Você achou loucura?

— Bom, meu filho... Vivemos em um mundo onde, infelizmente, muitas pessoas se veem impossibilitadas de seguirem a carreira dos sonhos, seja por dinheiro ou por qualquer outro motivo. — refletiu. — Para muitos, e até para mim na época, foi uma grande loucura. Eu era um pai solo, havia acabado de perder minha esposa, e precisava do dinheiro. Uma loucura na qual eu não me arrependo, entretanto. Pois foi assim, indiretamente, que conheci a sua mãe.

Lucas deu um pequeno sorriso. Ele gostava daquela história e não se cansava de ouvi-la. Miriam ainda era, na época, uma corretora de imóveis quando conheceu Ben e o pequeno Pedro. Ambos procuravam uma casa para alugar, e o destino apresentou-os a Miriam.

— Eu acho que você fez uma boa escolha — Lucas falou, olhando através do vidro do automóvel. Os carros passavam correndo por eles, ultrapassando os limites de velocidade. Algum motorista irritado buzinou atrás deles, freando bruscamente.

— Está vendo, Lucas? — Ben permanecia calmo no volante, respeitando a velocidade indicada naquela estrada. — Acho que temos pressa demais. Fazemos tudo às pressas! Pressa para acordar, pressa para almoçar, pressa para estudar, para decidir o que queremos na vida, pressa para deixar as crianças na escola, pressa para chegar ao trabalho. Muita afobação, pouca ponderação. Mas, às vezes, é inevitável.

O carro atrás deles ultrapassou pela esquerda. O motorista passou, xingando o padrasto com um palavrão não muito agradável; mas Ben apenas sorriu e fechou o restante da janela.

— Deixemos os apressados passarem. — Ben completou.

— Às vezes ele está atrasado — Lucas apoiou a cabeça na janela, ainda sentindo o ventre agitado. — Atrasado para o trabalho ou na vida. Talvez esteja com raiva de si mesmo.

Ben virou em uma rua mais calma, saindo da estrada. Estavam quase perto de casa. Lucas percebeu que o padrasto ficou pensativo. O rapaz quase se arrependeu de ter dito aquilo — pois era óbvio que ele estava se referindo a ele mesmo. Lucas cerrou os lábios, tenso. Apertou a mão contra a barriga, fingindo pontadas de dor. Queria que o padrasto acelerasse.

— Escute, filho — Ben acelerou o carro, e logo o portão do condomínio ficou visível no final da rua. — Você não está atrasado, tudo bem? Ainda é novo demais para achar que tudo está acabado. Você tem o direito e a possibilidade de parar e pensar o que quer da vida. Se conhecer um pouco. Se não está satisfeito com a faculdade, se não está feliz com a sua escolha, não se sinta culpado. Não vamos condená-lo por isso! Quem sou eu para tal?

Lucas engoliu em seco. Eles passaram pelo portão. Ben parecia ter lido seus pensamentos, suas aflições, expondo-as naquela frase de forma que o rapaz não pôde ignorar. Estava prestes a mentir novamente; afirmando que estava gostando da faculdade e que não pretendia sair. Mas a verdade é que ele mal sabia o que estava fazendo. A verdade era porque estava lá por causa de Alberto. Estava lá pois precisava tentar algo, sentir-se útil. E Ben, de alguma forma, sabia daquilo.

— Obrigado, Ben — foi o que ele conseguiu responder. — Mas agora eu preciso ir ao banheiro.

O padrasto mal havia estacionado o carro quando Lucas abriu a porta e saiu correndo. A mochila que jogara nas costas estava mais pesada que o normal. Suas pernas mal aguentavam subir as escadas. Pensou em Wall, pensou nos trabalhos que tinha que fazer e nos artigos que tinha que ler. Ele queria ser alguém. Queria tanto trazer orgulho para aquela família. Almejava por algo que o fizesse se sentir capaz; que lhe trouxesse de volta a voz que se perdera quando ele tinha três anos.

Lucas largou a mochila no chão do quarto. O cara é mudo, Wallace, a voz grave e assustadoramente nítida do colega (que Lucas mal sabia o nome) ressoou em seu interior. Por que ele ainda se importava com comentários como aquele? Por que aquilo ainda lhe doía tão profundamente — e ainda mais do que antes? Tentou reconfortar-se com as palavras do padrasto. Mas tudo o que sentia era culpa por querer desistir de tudo. Entretanto, sabia que, se isso acontecesse, Miriam o acolheria em seus braços reconfortantes e Ben lhe faria bolinhos de chuva. Mas uma parte de Lucas ainda sentia que precisava tentar. E ele tentaria até onde seus limites permitissem.

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