21. Nuvens nebulosas
𓅯 Capítulo 21 | O Canto dos Pássaros 𓅯
⚠ Alerta de gatilho: crise de ansiedade.
As descrições são leves.
O símbolo acima estará entre as descrições caso o leitor queira pular a cena.
As horas se passavam como um tormento. Aquela manhã cinzenta de quinta-feira fora um tanto estranha para Lucas. Era como se as coisas estivessem ainda mais fora de seus lugares. Em sala de aula, ele era apenas um entre quase quarenta alunos. Sentia-se cada vez mais deslocado no meio daquelas pessoas que, no mínimo, o viam apenas como uma sombra melancólica que se encolhia em uma das carteiras do fundo e baixava o rosto para as folhas do caderno. O falatório e a presença constante de Wallace fizeram-lhe mais falta do que imaginara — Lucas preferia escutar a voz eufórica do garoto do que sua própria mente atormentada. Ele desejou que Wall estivesse ali para distraí-lo; para falar de qualquer coisa fútil que o tirasse daquele transe. Mas o rapaz sabia que não podia fugir de si mesmo o tempo inteiro.
⚠
Lucas largou o lápis quando seus dedos começaram a tremer. Sua mente repetia, em um monoideísmo angustiante: Você é um fracasso, você não deveria estar aqui. Você incomoda as pessoas. O que está fazendo aqui? Você é fraco, nunca será nada. Fracasso. Fracasso... De repente, era como se as paredes daquela sala ameaçassem cair sobre ele; e os colegas ao redor o sufocassem apenas pela presença. As respirações, o som de uma caneta ou um pigarro o afligia.
Ele mal conseguia ouvir o que a professora falava. Apenas algumas palavras e a consciência de que ela não explicava uma matéria, e sim esclarecia sobre um futuro trabalho que teria de ser feito em grupo. Seminário. Grupo. Apresentação. Final do semestre. Todos devem apresentar. Sem exceção.
As palavras flutuavam na mente de Lucas como nuvens nebulosas. Era como se nada fosse real. Nem a sala, nem seus colegas, nem aquelas paredes que pareciam querer desabar sobre ele — nada era real, apenas sua mente e seus pensamentos conturbados. Ele queria sair dali. Precisava sair dali antes que seu peito comprimido explodisse. O rapaz quase não percebeu a si mesmo atravessando a sala de aula, trôpego; a mochila em suas costas mais pesada que o normal. Seus pés ecoaram pelos corredores e pelas escadarias silenciosas; quase tropeçando quando finalmente chegou ao térreo. Lucas precisava de ar.
⚠ (Incomodado e sem ar, Lucas sai da sala e vai para o jardim da faculdade)
O vento lá fora estava frio quando finalmente conseguiu sentar-se em um dos bancos úmidos do jardim. O rapaz fechou os olhos, ofegante, atentando-se ao farfalhar das folhas das altas palmeiras acima dele. Se acalmou um pouco, mas não o suficiente para que ele se sentisse seguro o suficiente para voltar para a sala.
Lucas não soube por quanto tempo ficara ali. A noção de tempo e espaço não lhe era exata. Ele só se deu conta que havia passado algumas horas quando colocou-se de pé e caminhou, cambaleante, de volta para casa.
✦✦✦
Com dificuldade para abrir os olhos e sentindo o corpo pesado, Lucas remexeu-se na cama. Uma forte luz penetrava pelas frestas da cortina entreaberta, fazendo com que a dor atrás dos olhos se acentuasse. Suas pernas pareciam ter virado chumbo, e, apesar da chuva que caíra no dia anterior, estava calor o suficiente para que ele dispensasse as grossas cobertas sobre ele. Sentia seu corpo suado e quente, mas vez ou outra sentia frio. Teve certeza, naquele momento, de que estava doente. Talvez houvesse contraído alguma gripe; mas não se lembrava de se sentir tão abalado emocionalmente por causa de uma virose.
Lucas virou-se para o lado. Um termômetro estava na mesa de cabeceira, o que indicava que sua mãe estivera ali em algum momento. O relógio digital, com sua cor neon, marcava 7:13 da manhã. Já era sexta-feira. O rapaz tentou se lembrar do dia anterior; da estranha sensação que o dominou em sala de aula e sua volta para casa. Nos primeiros segundos, quando forçava seu cérebro a voltar para aquela manhã, ele mal se recordara do que havia acontecido. Depois, aos poucos, lembrou-se do instante em que pegara o ônibus de volta para casa; e a impressão que tivera de que o trajeto demorou mais que o normal. Ao chegar, dispensou o almoço e passou a maior parte da tarde pensando no compromisso que teria no sábado, analisando o convite virtual que Beatriz havia enviado. Pensava em como se comportaria. Em que roupa usaria. Como seria o lugar, quais as pessoas estariam presente e como Beatriz reagiria à sua presença. O resultado disso tudo, além de uma intensa dor de cabeça, fora a tão frequente insônia.
O rapaz ouviu passos leves e abafados adentrarem pelo quarto. Ele não se virou; estava exausto demais para arriscar qualquer movimento. Mas ele sabia que era Miriam, andando em passos lentos e inclinando-se em direção ao filho. Lucas se mexeu um pouco, tentando deixar o pescoço endurecido mais confortável.
— Filho...? Você está acordado? — Miriam perguntou, baixinho, fechando a cortina por completo. O rapaz conseguiu abrir um pouco mais os olhos.
— Sim. Estou. — ele respondeu, a voz débil e rouca. Miriam sentou-se ao seu lado, pegando o termômetro. Lucas sentiu a mão da mãe tocar em sua testa.
— Está se sentindo melhor? Você quer ir a um médico? — Miriam perguntou, claramente preocupada. — Está suando! Acho melhor tomar um banho. Consegue se levantar? Está com fome?
— Não sei — Lucas respondeu, temendo levantar da cama e desmaiar de repente. — Não sei... Quero ficar aqui.
Miriam assentiu, contendo a apreensão. Enfiou o termômetro sob o braço do rapaz, conferindo se todos os seus membros estavam intactos. Não disse nada sobre o fato de Lucas ter perdido um dia de aula, mas o rapaz não esperava nenhuma exigência desse tipo da mãe. Ela era o tipo de pessoa que se preocupava, sobretudo, com a saúde da família — especialmente dos filhos. Talvez os constantes problemas de saúde de Luan, na infância, a tenha deixado vigilante.
Entretanto, para o seu alívio, Lucas não estava com febre. Mas o rapaz se sentia doente. Estava enjoado e seu corpo, fraco e dolorido, só desejava o repouso. Ainda sim, Miriam obrigou-o a tomar um comprimido para febre e dores; e o fez prometer que se esforçaria para tomar um banho. O rapaz maneou a cabeça, concordando, e fechou os olhos. Por mais que lhe agradasse os cuidados da mãe, queria ficar sozinho. Quando escutou a porta do quarto se fechar, tentou dormir novamente, mas não conseguiu. Pelo menos, o remédio aliviara um pouco a dor de cabeça alguns minutos mais tarde.
Ainda sonolento, Lucas apalpou as cobertas procurando o celular. Encontrou-o debaixo do travesseiro, ligado e cheio de notificações. O grupo Clã da Casa 10 estava lotado de mensagens, mas ele não se atentou a elas a princípio. Outras seis mensagens chamaram a sua atenção; e, mesmo que não houvesse nenhuma identificação, ele saberia quem era. Era impossível não reconhecer Wallace.
Ontem, 22:32:
Wall: Ei, cara! É Wallace
Wall: Quase não acho o seu número no meu caderno. Deveria ter anotado direto no celular
Wall: como vão as coisas?
Wall: posso te fazer uma pergunta?
Wall: pooosso?
Wall: pq vc não fala comigo?
Controlando a irritação, Lucas suspirou alto e respondeu; talvez um pouco rude demais. Mas ele estava exausto. Aquela pergunta o perseguia a tantos anos que não sobrara mais tanta compreensão de sua parte.
Lucas Evans: Bom dia, Wallace
Lucas Evans: vc pegou o meu número só para perguntar isso?
Para a sua surpresa, Wallace ficou online de imediato e visualizou sua mensagem. Lucas mal teve tempo para se arrepender e pensar em excluí-la.
Wall: foi mal, cara
Wall: é que eu fiquei curioso
Wall: rlx, não peguei o seu número só pra isso
Wall: tá na facul?
Lucas Evans: Não, estou em casa
Wall: não foi pra aula? Oq rolou?
Lucas Evans: Nada importante. Com está a viagem?
Wall: um pouco entediante, mas tá legal
Wall: a internet não pega muito bem aqui
Wall: vô wallace tá bem, mas insiste em dizer que está prestes a bater as botas
Wall: e sorrindo! como uma pessoa fica feliz com isso?
Wall: acho q meu avô é um meio maluco
Lucas Evans: Não o acho maluco
Wall: uau, é estranho ler vc escrevendo
Lucas Evans: oq esperava?
Lucas Evans: Eu sei escrever :)
Wall: eu seei!
Wall: ah, cara, desculpa
Wall: é q vc é o único amigo que fiz na facul
Wall: achei que não gostasse de mim, por isso não fala comigo
Lucas Evans: Não, Wallace. Nada a ver. Não é só com vc
Lucas Evans: podemos por favor não falar sobre isso?
Wall: tá bom. Desculpa
Wall: e aí, oq rolou nesses dias que eu faltei? Algo muito importante?
Lucas sentou-se na cama, encostando as costas no travesseiro. Aliviado com a mudança de assunto, o rapaz contou-lhe o que se lembrava das matérias e das atividades que haviam sido passadas. Ao mesmo tempo, ele voltava à parte em que Wallace dizia que ele era seu único amigo na faculdade. O rapaz não sabia se acreditava naquilo. Era difícil pra ele acreditar que alguém queria ser seu amigo.
Ele estava prestes a perguntar sobre aquilo quando Wall ficou offline. Lucas olhou as horas: eram quase nove da manhã. Sentindo-se um pouco melhor — mas não menos pesado e cansado — tomou um banho e pensou, mais uma vez, no amanhã. O rapaz começou a ficar ansioso novamente, desejando não ter aceitado o convite. Pensou em dar alguma desculpa, dizendo que havia amanhecido com febre ou algo do tipo. Beatriz não ficaria chateada — pelo menos, ele esperava. Ao mesmo tempo, aquela decisão doía-lhe o coração. Lucas queria, mais do que tudo, ficar ao lado dela. Por outro lado, ele não podia ir naquele estado. Ele tinha medo. Medo do que poderia acontecer, medo do que ela poderia pensar dele. Não só ela, como as pessoas que estariam lá também. Ele não conseguiria ir; não podia ir.
A súbita decisão abrandou um pouco a agonia, deixando-o mais leve. Estava determinado. Lucas não iria a exposição alguma.
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