20. Entre palavras silenciosas
𓅯 Capítulo 20 | O Canto dos Pássaros 𓅯
As nuvens cinzentas cobriram o céu de repente, escurecendo todo o campus. O ambiente ficou abafado, dificultando ainda mais a respiração entrecortada de Lucas. Wallace tirou o moletom vermelho que combinava com seus cachos desordenados; revelando a sua pele pálida e uma blusa do The Rolling Stones. O garoto tagarelava algo sobre um jogo o qual se considerava muito bom — e que Lucas não conhecia — e fazia convites insistentes para que ele fosse até sua casa jogar algo juntos. Ele queria dizer que não gostava muito de jogos e que ele se daria melhor com Luan nesse quesito; mas Wall já estava acostumado com sua mudez e parecia gostar o suficiente do monólogo para se recusar a calar a boca. Lucas já estava se habituando com aquilo, por mais que a tagarelice de Wallace por vezes o deixasse desnorteado. O rapaz notara que Wall falava ainda mais quando estava ansioso para algo — e naquela manhã, em específico, o motivo era que a viagem para visitar os avós (cujo avô realmente não parecia estar muito bem) estava marcada para aquela tarde de quarta-feira.
— Eu queria faltar hoje, mas meus pais não deixaram — ele admitiu, explicando que a viagem seria longa e cansativa pois a estrada era péssima. — Não vou conseguir assistir todas as aulas. Terei que abandoná-lo, Lucas. Sinto muitíssimo.
Lucas ergueu as sobrancelhas ao perceber o tom teatral de sua voz na última expressão. Wall sorriu-lhe exageradamente, colocando a palma sobre o peito.
— Depois te pago uma coxinha como um pedido de desculpas.
Ah, não, você não fará falta, ele queria dizer, na brincadeira, mas a única coisa que conseguiu expressar foi seu escárnio e uma risada muda. A verdade era que ele não sabia como seria ficar alguns dias sem Wallace enchendo-lhe a paciência com suas piadas ruins e sua presença agitada.
Os dois estavam prestes a entrarem no prédio da faculdade quando Bernardo, ao lado de uma moça alta e cabelos escuros, acenou para eles. A moça sorriu de longe, e Lucas percebeu que estavam de mãos dadas.
— Olha, o meu casal preferido! — Wallace apressou-se para cumprimentá-los. — E aí, Susana! Tá bonitona hoje.
— Susane, Wall — Bernardo corrigiu, soltando uma risada anasalada. O rapaz olhou para Lucas, e ele se esforçou para não baixar o rosto. — Susane, esse é o Lucas. Estudamos juntos no ensino médio, e agora ele também faz Administração. Lucas, essa é minha namorada, Susane.
A moça fitou-o com os olhos amendoados e amistosos, erguendo uma das mãos para cumprimentá-lo.
— Bernardo me falou de você — ela disse. — Faço Artes Visuais. Somos praticamente vizinhos universitários.
— A Faculdade de Artes fica bem próxima — o rapaz explicou. — Dá pra ver pelo terceiro andar, à leste.
— Artes! O prédio colorido e bonitão que parece um castelo medieval? Demais! — Wallace exclamou. — Vou visitá-la um dia, senhorita... — ele estreitou os olhos para ler o cartão de identificação pendurado no pescoço de Susane. — ...senhorita Tanaka. Sobrenome legal. Japonês? Eu adoro o Japão. Aprendi alguns kanjis*.
— Sim e sim, senhor Cup — Susane sorriu. Wallace franziu o cenho.
— Aí, como sabe meu apelido? — perguntou, desconfiado, inclinando-se em sua direção.
— Bisbilhotei o seu Instagram. Bernardo me contou que você é uma estrela de rock, e eu fiquei curiosa. — ela revelou. — Gostei das suas fotos, Cup Wall.
Wallace abriu um sorriso tão brilhante quanto as luzes que iluminavam o térreo do prédio. Suas pernas trocaram de peso três vezes em menos de dois segundos, como se de repente o chão estivesse ficando quente demais.
— Gostei dela! — Wall quase gritou. Bernardo riu de sua empolgação súbita, e Lucas reparou que ambos haviam ficado mais próximos do que ele havia imaginado. Por algum motivo, o rapaz sentiu-se um pouco incomodado com aquilo. Wallace e Bernardo já haviam trocado as redes sociais e o garoto, pelo visto, já se sentia íntimo o bastante para elogiar a namorada de seu novo amigo.
Lucas desviou o olhar, sentindo de repente que não deveria estar ali. Que não fazia parte daquele trio, e que a qualquer momento perderia o seu colega de sala. No entanto, ele já esperava que Wallace se afastasse dele. Por que então Lucas estava se importando tanto com aquela possibilidade?
O casal se despediu de ambos, e Wallace permaneceu com um sorriso largo no rosto. Envolvido em seus próprios devaneios, o garoto girou os calcanhares e se dirigiu à larga escadaria. Lucas permaneceu onde estava, paralisado, observando-o se afastar. Wall, percebendo a ausência do colega ao seu lado, parou no segundo degrau e olhou para trás.
— Ei, foi atacado pela Medusa? — perguntou, fazendo um gesto em direção à escada. — Vamos, cara.
Lucas reprimiu aquela breve sensação de desamparo e seguiu o colega escada acima. Sabia que Wallace fizera aquilo por mera educação, e não porque ansiava pela sua companhia. O rapaz não sabia de onde vinham aquelas convicções, mas escutava sempre as vozes de sua mente que lhe diziam: você está incomodando essas pessoas, mas elas são boas demais para ignorá-lo.
O rapaz observou o colega de soslaio, mirando seus cachos e os bottons tortos na mochila. Sabia que uma hora o perderia, mas não sabia quando.
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Wallace foi embora na metade da segunda aula do dia. Despediu-se rápido com um gesto, agarrando a mochila pela alça e retirando-se da sala. O rapaz voltou a sua atenção para a professora; mas não o suficiente para distraí-lo de seus pensamentos acelerados. No fim da aula, quando todos os alunos se encaminharam para a próxima sala, Lucas seguiu por outro caminho. Andou sem rumo pelos corredores por alguns minutos, deixando com que suas pernas o levassem aonde quer que elas fossem. As escadas e corredores anteriormente cheios ficaram vazios, os murmurinhos das vozes aos poucos sendo abafados pelas portas fechadas.
Lucas continuou andando até parar em frente à biblioteca. Soube que era exatamente ali que mataria a próxima aula. Decidido, ele enfiou a mochila no primeiro armário vazio que viu, levando consigo um pequeno caderno e seu estojo. O bibliotecário cumprimentou-o, e Lucas enfiou-se por entre as estantes repletas de livros. Àquela hora, havia poucas pessoas ali. Algumas estudavam e outras descansavam nos grandes puffs dispostos do outro lado da biblioteca. O rapaz foi até o segundo andar, sentando-se em uma das mesas redondas. O silêncio do lugar e o aroma de terra úmida que penetrava pela janela o acolheu como uma mãe amorosa. Ele gostava da sensação que aquele espaço lhe oferecia. Era o único lugar em que a quietude era bem-vinda — ou melhor: que o silêncio era uma regra que deveria ser rigidamente cumprida. Contudo, também era ali que se encontrava o maior número de palavras possíveis.
Em meio àquela contradição quase irônica, Lucas abriu o caderno e fez os primeiros rabiscos, sem saber exatamente o que pretendia reproduzir sobre as folhas. Aos poucos, através de suas mãos habilidosas, formaram-se os primeiros contornos. Livros. Pequenos arbustos. Gnomos de jardim. Um rosto sombreado; o olhar gentil e um meio sorriso contemplando Lucas através do papel. Ele não costumava desenhar rostos sem uma referência clara, mas aquele em especial já estava tão entranhado em sua mente que não foi necessário. Lá fora, a fina chuva transformou-se em uma cortina translúcida, baixando a temperatura de repente.
O rapaz se encolheu quando um vento frio atingiu seus braços nus. Pousou o lápis ao lado do caderno, observando os desenhos aleatórios que havia feito. Lembrou-se de que costumava fazer o mesmo quando estava no ensino médio; quando desistia de fazer os exercícios de matemática e ficava uma aula inteira concentrado em seus desenhos. Tudo o que ele não podia dizer, ele desenhava. Desenhava até seus dedos ficarem dormentes. E ali, naquela biblioteca, Lucas voltara àquele tempo em que o lápis, as tintas e os fones de ouvido eram seus melhores amigos. Na biblioteca da escola, no fundamental, ele costumava enfiar-se por entre as estantes para esconder-se dos garotos que implicavam com ele no intervalo. O menino Lucas costumava representá-los em seus desenhos como monstrinhos. Agora, os monstros hostis estavam presos em sua mente. A biblioteca da escola tornou-se a biblioteca universitária; e garoto calado e esquisito que desenhava ainda era o mesmo desenhista calado e esquisito.
Muitas coisas pareciam estar se repetindo, como se sua vida fosse um eterno looping — ou era porque simplesmente nada havia mudado? Ele não sabia dizer. No entanto, aquele sentimento; antes suportável pela imaturidade e pela dependência, lhe corroía o peito como uma lança cruel e afiada. Lucas não sabia até quando aguentaria.
✦✦✦
Uma chuva fina ainda caía quando Lucas desceu no ponto de ônibus a apenas alguns metros da entrada de seu condomínio. Ele diminuiu os passos quando ouviu uma voz familiar chamar por ele. O rapaz parou, o súbito frio da barriga fazendo-o perder o senso de direção. Lucas virou-se e viu Beatriz descendo de um carro preto parado próximo ao meio frio. O motorista, um rapaz atlético e de cabelos pretos, inclinou-se sobre o volante para observá-lo. Lucas desviou o olhar rapidamente, fingindo que nada havia visto, e acompanhou Beatriz com um olhar envergonhado. O veículo acelerou, perdendo-se de vista ao virar a esquina arborizada.
A sensação gélida na boca do estômago transformou-se em um peso que se espalhou por todo o seu peito. Nunca havia passado pela sua mente que Beatriz pudesse ser comprometida. Diante de tal suspeita, o que sentiu foi ainda pior que o fracasso e a impotência.
— Voltou mais cedo hoje? — a moça perguntou. Seus cabelos cor de carvão estavam presos em uma trança e levemente úmidos. Seus olhos brilhantes e o sorriso de sempre demonstrava o quanto ela estava feliz; e agora Lucas sabia o motivo.
Sem evitar pensar no rapaz que vira no carro, Lucas olhou para ela e assentiu. Sabia que sua cara não estava das melhores, e não estava nada disposto a disfarçar qualquer expressão suspeita. Ele estava exausto, deprimido e inseguro. Beatriz o acompanhou até uma estreita alameda de pedra que os levaria aos altos portões brancos do condomínio; a garoa fria dando lugar ao sol que surgira de repente por entre as nuvens.
— Estava pensando em convidá-lo para uma exposição — a moça quebrou o silêncio ao passarem pelo portão. — Será sábado, na galeria da faculdade de fotografia. Achei que pudesse gostar. Gostaria de ir?
Lucas forçou um sorriso, maneando a cabeça em sinal positivo sem hesitar. Ele não podia — e nem conseguia — negar qualquer convite vindo de Beatriz.
Satisfeita, a moça assentiu e tirou o celular do bolso da calça jeans. Um anel prateado e brilhante enfeitava seu dedo médio, e uma pequena cicatriz entrecortava o indicador. Lucas esqueceu-se de como respirar por um instante. Até as mãos de Beatriz eram bonitas — mãos estas que ele jamais tocaria. O rapaz desviou o olhar abruptamente, fitando sua casa a poucos metros deles.
— Mandei-lhe o convite. O endereço está lá — Beatriz falou. Lucas diminuiu os passos até parar em frente à sua residência. Encarou os próprios pés, apertando as alças da mochila em suas costas. Envergonhado, ele balançou a cabeça em sinal positivo.
A moça sorriu para ele, os olhos agora fixos em seu rosto. Aqueles momentos de silêncio eram constrangedores para Lucas. O rapaz sentia-se vulnerável diante de uma gentileza que ele não podia contribuir. Diante de um diálogo que ele não conseguia completar.
Lucas queria poder acompanhá-la até a casa 10 e dizer o quanto estava agradecido por aquele convite. Queria entrelaçar seus dedos nos dela e caminhar ao seu lado sob a garoa. Mas ele paralisou diante no jardim de sua casa, sem saber como agir.
— Combinado, então — Beatriz afastou-se devagar. — Te espero no sábado!
O rapaz retribuiu o aceno e observou-a se distanciar.
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*Kanjis: Os kanji (漢字) são caracteres da língua japonesa adquiridos a partir de caracteres chineses, da época da Dinastia Han, que se utilizam para escrever japonês junto com os caracteres silabários japoneses katakana e hiragana. É formado por onde cada um representa uma ideia concreta ou abstrata.
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