18. Incontrolável e controverso
𓅯 Capítulo 18 | O Canto dos Pássaros 𓅯
Ele não conseguiu dormir naquela noite. E nem na noite seguinte. Relembrava a todo momento sobre a conversa com o pai e na reação de Luan ao contar-lhe sobre a viagem. Alberto está tentando comprá-lo, o irmão havia dito; a expressão debochada e incrédula de sempre. E se o irmão estivesse certo? Luan poderia ter seus defeitos — e ser o caçula — mas era bem mais esperto que Lucas. Ele não havia se esquecido das vezes em que Alberto comprava-lhe sorvetes e presentes de natal e depois ficava meses sem ligar para saber como estava. Luan também não se esquecia daqueles pequenos acontecimentos da infância, cujo pai ausente lhe garantiu altas doses de ressentimento. Lucas não sabia o que pensar sobre a súbita oferta de trabalho oferecida por Alberto — pois só de se imaginar trabalhando em sua loja, o nervosismo o atacava e tirava ainda mais o seu sono.
Além de tudo, havia Beatriz. Lucas tentava de tudo para tirá-la da cabeça; e ao mesmo tempo, gostava de pensar nela. Gostava de se lembrar daqueles poucos momentos em que estiveram próximos e perguntava-se se teria outras oportunidades — por mais que aquela possibilidade também o deixasse ansioso. Mas ele queria. Queria tanto que, mesmo exausto e cheio de artigos para ler a trabalhos para realizar, Lucas queria sair correndo em direção à casa na qual a moça estava hospedada e observá-la; ouvir a sua voz e sua risada. Queria perguntar se ela ainda estava comendo as balas de ursos, se ainda sentia-se triste, ou se por um acaso queria fazer uma caminhada para espantar o tédio.
Mas ele não faria isso. Não era autoconfiante o suficiente e sua mudez não colaborava com suas tentativas frustrantes de paquera — a não ser que colocasse em prática o que ele tinha em mente: usar a tecnologia e as palavras escritas ao seu favor. Entretanto, apesar de facilitar as coisas, não o exigia menos coragem. Lucas nunca havia feito aquilo. Nunca havia conversado com alguém que estava interessado; nem mesmo virtualmente. No entanto, ele se viu diante daquela possibilidade e pensou se deveria agir. Temia incomodá-la ou ser invasivo demais ao mandar-lhe uma mensagem através do número de telefone exposto no grupo.
Lucas só saberia se reagisse. Talvez ele estivesse sendo insensato e estúpido, mas ele tinha que fazer algo. Por isso, no caminho para a faculdade naquela manhã de segunda-feira, ele adicionou o contato de Beatriz e mandou-lhe uma mensagem. Agora já era, ele pensou, as mãos trêmulas e o coração à mil. Seu corpo sacudia de um lado para o outro enquanto o ônibus acelerava pelas ruas de seu bairro. Analisou mais uma vez a mensagem, tentando se convencer que não estava fazendo nada de errado.
Hoje, 7:12 a.m:
Lucas Evans: Oi. Você está melhor?
O rapaz apertou os olhos e jogou o celular na mochila. Não esperaria por respostas, e nem ficaria chateado caso Beatriz não quisesse respondê-lo. Ele entenderia. Afinal, quem era ele para mandar uma mensagem sem autorização? Pelo menos, Lucas estava tentando algo — e algo que nunca havia feito antes. Tudo bem se ele agisse como um idiota. Tudo bem se Beatriz ficasse brava com ele. Durante todo o trajeto, Lucas imaginou todas as respostas possíveis, enumerando-as: 1) Oi, quem é você? 2) Estou melhor sim. Mas quem te passou o meu número? 3) Olá, garoto que não fala.
Com aquelas expectativas maravilhosas em mente, Lucas desceu do ônibus e atravessou o campus mal conseguindo respirar. A primeira aula do dia — uma disciplina sobre economia — pareceu demorar uma eternidade para terminar. Lucas nada compreendia o que estava sendo passado, e, apesar disso, sua mente não parava. Ele podia ouvir a caneta de Wallace batendo insistentemente sobre o caderno; e, ao olhar por cima do ombro, viu o garoto esparramado sobre a cadeira e fitando as árvores do outro lado da janela.
Quando a primeira aula acabou, Wallace o chamou baixinho. Lucas se virou para o colega, que havia desenhado um ser estranho no caderno.
— Sabe qual é a próxima matéria? Precisamos mudar de sala? — ele perguntou, procurando algo por entre as folhas do caderno. O rapaz viu algumas anotações aleatórias por entre as folhas. — Eu perdi a minha grade curricular. Caramba... Eu acho que vou me ferrar nessa matéria. E a gente deveria ter sentado na janela. Odeio ficar do outro lado.
Lucas balançou a cabeça, apontando para o chão. Queria dizer que não precisavam mudar de sala, pois a próxima disciplina seria ali também. Wallace pareceu compreender, pois largou a mochila no chão novamente e sorriu.
— Aí, me passa o seu número — ele levou o caderno em sua direção. Lucas olhou desconfiado para ele. — Por gentileza. Não estou te dando mole. É que vou faltar nos próximos dias.
O rapaz ergueu uma sobrancelha, expressando dúvida. Wall maneou a cabeça.
— Eu vou viajar com meus pais e minhas irmãs — ele explicou — Visitar os avós, sabe como é. Um deles está mais com o pé lá do que aqui. Mamãe me disse que posso considerar uma urgência. E você é meu amigo o suficiente para não espalhar o meu número... Você sabe, quando eu ficar famoso. Preciso que me passe as matérias e os malditos trabalhos que passarem essa semana.
Lucas reprimiu uma risada e pegou a caneta. Anotou o seu número no caderno, e Wallace abriu um sorriso exageradamente largo.
— Valeu! Vou te registrar como Lucas Meu Brother — ele disse, pegando o caderno de volta. O professor entrou na sala, e os alunos voltaram às suas carteiras. Por entre murmúrios e o arrastar de mesas, Lucas escutou seu celular vibrar dentro da mochila.
Ele olhou para baixo, fitando o zíper semiaberto por alguns instantes. Seu coração acelerou. O professor começou a dar a aula, mas Lucas mal prestou atenção às primeiras palavras. Ao pegar o aparelho, viu a mensagem que ele tanto esperava. Beatriz havia respondido. O rapaz tentou conter o sorriso que crescia em seus lábios ao ler a resposta:
Beatriz: Olá, Lucas. Estou sim, obrigada. E vc, como está?
Estou ótimo, estou maravilhoso, nunca estive tão bem. A propósito, estou completamente apaixonado por você. Que tal sairmos para tomar um sorvete?, ele queria escrever. No entanto, ainda não havia perdido completamente a razão. Não ainda.
Lucas sentiu-se um idiota, mas um idiota feliz. Sentia que a qualquer momento poderia sair pulando pela sala, dar um beijo nas bochechas sardentas de Wallace e gritar feito um louco. Ele não se lembrava de que estar apaixonado deixava as pessoas insanas.
Levemente atordoado, Lucas levantou-se e saiu da sala. Estava agitado demais para permanecer sentado e focado em outra coisa que não fosse a mensagem que recebera. Após andar pelos corredores, com o aparelho firme nas mãos, ele parou ao lado de uma grande janela de vidro ao lado de um bebedouro. O rapaz se enfiou ali, apoiando as costas na parede, torcendo para que ninguém o visse. Ainda trêmulo, Lucas visualizou a mensagem de Beatriz e ficou alguns minutos pensando como deveria responder. Ele não havia planejado essa parte. Não esperava que Beatriz fosse tão gentil. E se Lucas estivesse incomodando-a?
Comprimindo os lábios, ele escreveu:
Lucas Evans: Estou bem
Lucas Evans: Que bom que está melhor
Lucas Evans: os ursos azuis foram úteis?
O rapaz franziu o nariz, querendo de repente bater a própria testa no vidro. Ele não tinha o humor dos melhores — no entanto, fora o máximo que ele conseguiu pensar. Lucas estava prestes a deletar a mensagem quando Beatriz visualizou-a, respondendo de imediato:
Beatriz: Foram muito úteis. Raoni estava certo
Beatriz: Vc está na faculdade?
Lucas Evans: Estou. Mas estou matando aula
Lucas Evans: Não conte a ninguém
Beatriz: Pode deixar 😂
Lucas Evans: me desculpe
Beatriz: pq?
Lucas Evans: Por estar te mandando mensagem
Beatriz: Não tem problema. Fiquei surpresa, na verdade
Lucas apertou ainda mais o celular nas mãos. Como sempre, ele estava estragando tudo. Parecia que a qualquer momento poderia explodir. Seu coração, seus nervos, seus vasos sanguíneos. Ele nunca havia sentido aquilo antes. Para muitos, aquilo poderia ser considerado um exagero. Um grande descontrole emocional. E, de fato, Lucas era intenso demais para sentir pouco. Sempre foi uma pessoa ansiosa, e as paixões descontroladas eram como mais lenha à fogueira incontrolável que existia em seu interior.
Ao mesmo tempo que ele se sentia feliz, sentia-se culpado e envergonhado. Ao mesmo tempo que queria sair correndo, cheio de euforia e uma intensa vontade de rir, ele queria se encolher naquele canto e chorar de tristeza — pois sabia que ela nunca se interessaria por ele. Você nunca vai ter uma namorada se continuar desse jeito, é o que sempre lhe diziam quando estava prestes a sair da infância. Lucas aceitou aquilo como verdade. Quem se interessaria em ter um romance com um cara que não falava?
As emoções de Lucas estavam tão confusas que ele ficou sem ar por alguns segundos. Beatriz começou a digitar. O coração de Lucas acelerou ainda mais — ainda mais que antes. Ele tinha a plena certeza de que a moça se despediria naquele momento (pois tinha mais o que fazer do que ficar conversando com ele), quando leu:
Beatriz: está gostando do seu curso?
Lucas Evans: estou sim
Beatriz: isso é ótimo
Por algum motivo, Lucas odiou mentir para ela. Mas eles mal se conheciam. Não poderia dizer-lhe simplesmente que não sabia se ele estava gostando ou não de tudo o que estava acontecendo em sua vida. Que ainda se sentia perdido. Beatriz o acharia dramático, chato e indeciso. E ele não queria passar-lhe uma imagem tão débil. Queria parecer confiante; um alguém que ele não sentia que era.
A conversa rendeu mais do que ele imaginara. Beatriz começou a falar sobre as pessoas às quais ela agora dividia a casa — sempre elogiando-as; dizendo algo bom delas. Lucas gostou disso. A moça disse sobre alguns trabalhos que estava fazendo na pós-graduação, mas não deu muitos detalhes. O rapaz queria saber mais; conhecê-la mais a fundo era o que ele mais desejava naquele momento. Entretanto, não queria pressioná-la com todas as perguntas que vinham em sua mente. Era cedo demais. Vez ou outra, Lucas sentia que a conhecia há tempos. Que eles tinham se reencontrado depois de uma longa viagem. Mas de onde vinha essa sensação? Ele não sabia dizer. Por um instante, Lucas quase achou que estivesse em mais um sonho. Esperava acordar a qualquer momento dormindo sobre a carteira, com Wall cutucando o seu ombro e advertindo-o. Se assim fosse, ele não queria despertar.
Mas Lucas não estava dormindo. Ele só percebeu que haviam se passado quarenta minutos quando Wallace encontrou-o no final do corredor, carregando a mochila de Lucas pela alça. Seu olhar expressava certa perplexidade, como se não estivesse entendendo a atitude do colega.
— Aula de Contabilidade agora. Sala B8. Você vai? — Wall estendeu a mochila, as sobrancelhas levemente arqueadas. — Ei, que cara é essa?
Desfazendo o sorriso estúpido e involuntário, ele olhou para o colega e deu de ombros. Pegou a mochila, jogando-a às costas, fazendo um sinal de agradecimento com a cabeça. Seguiu com Wallace pelos corredores até a próxima sala, quase tropeçando nos próprios pés ao fitar a tela do celular.
Lucas Evans: Tenho que ir para a próxima aula. Até mais :)
Beatriz: Ok. Boa aula ☺
Beatriz mandou-lhe um cãozinho sorridente que parecia-se com Mozart quando era filhote. Lucas teve vontade de rir. Quis mostrar a Wallace e dizer: Olha! Ela me mandou um cãozinho fofo! Mas aquilo era uma estupidez. Tudo o que estava sentindo era maravilhosamente estúpido.
— Cara — Wall olhou para ele. — Eu achei que estivesse passando mal e que fosse vomitar na lixeira. Depois, pensei: ele deve estar com dor de barriga. Não vou atrás. — o garoto tomou fôlego, disparando: — É perturbador ter companhia no banheiro nesses momentos, sabe? Isso já aconteceu comigo. Na escola. Ficaram me zoando por meses. Mas pelo visto você estava só matando aula conversando com a crush. Ou seria o crush? Nada contra, eu já achei que fosse gay por achar um cara aí um gato. Mas é só isso mesmo. Por que nós garotos não podemos achar outros caras gatos?
Lucas parou diante da sala B8 e encarou o garoto, o rosto rígido e sério. Wall encolheu os ombros.
— Saquei, entendi. Não é da minha conta. Foi mal. — Wallace ergueu as palmas em rendição. Lucas bateu de leve em suas costas, como se dissesse tudo bem, seu abelhudo. A propósito, você me acha um gato?
Juntos, eles entraram na sala e se sentaram próximos à janela. Lucas tentava compreender tudo aquilo que estava sentindo, mas não chegou a nenhuma conclusão coerente. Apenas duas palavras definiam bem a situação: incontrolável e controverso.
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