15. Apenas um jogo
𓅯 Capítulo 15 | O Canto dos Pássaros 𓅯
No dia seguinte, Wallace adormeceu novamente sobre a carteira. Lucas fez de tudo para acordá-lo, cutucando-o com objetos pontiagudos. Mas nada acordava o garoto; que mais parecia um morto que ainda mantinha ativo seus pulmões. Após cinco tentativas inúteis de despertá-lo, o rapaz desistiu, deixando-o à mercê do sono durante as duas primeiras aulas. Lucas também não era um grande exemplo de aluno exemplar, pois eram raras as vezes que ele compreendia o que os professores estavam explicando. Seu foco estava no compromisso que teria naquela tarde de sexta-feira, na casa de seus vizinhos. Pensava em como se comportaria diante de todos, especialmente na presença de Beatriz. Pensava na roupa que vestiria ou se ele próprio deveria cortar um pouco do cabelo; que já lhe cobria as orelhas. Ele pensava em tudo, menos em Matemática Financeira.
Quando a última aula do dia terminou, Lucas se martirizou por tamanha irresponsabilidade. Não havia compreendido nada das disciplinas; nem mesmo daquelas que ele mais se interessava. Durante a última aula — algo relacionado a Filosofia — Wallace já estava desperto, fazendo anotações em seu caderno. Lucas, entretanto, ainda pensava em qual cor de roupa ficaria melhor nele.
— Planeta Terra chamando Lucas Evans! — Wallace acenou exageradamente diante de seu rosto. Lucas olhou para ele, fechando a mochila. A maioria dos alunos já havia saído da sala. — Bernardo disse que já está nos esperando na biblioteca. Você vai?
Lucas olhou para ele, sem graça, e assentiu. Mal estava se lembrando que haviam combinado de se encontrarem na biblioteca para a tal das aulas de reforço em matemática. Ele não estava nada disposto para mais uma hora de explicações e números, mas sabia que era preciso. Por isso, seguiu com Wall pelos corredores, subindo alguns lances de escadas até chegar à biblioteca. O acesso exigia o cartão de identificação dos alunos e a permanência das mochilas nos armários. Grandes placas exigindo silêncio e a proibição de alimentos no interior da biblioteca estavam dispostas na entrada. Lucas guardou a mochila no armário, levando consigo apenas um caderno velho, uma caneta e seu cartão de identificação — o qual Wallace logo se interessou.
— Aí, por que tampou a sua cara? — Wall pegou o cartão de Lucas, observando seu rosto oculto por um adesivo de caderno qualquer. — Ficou assim tão ruim?
Lucas tentou pegar o cartão de volta, mas Wall desviou de seu braço e deu um pulo.
— Seu aniversário foi anteontem! — ele exclamou, arregalando os olhos ao ler sua data de nascimento. — Por que não me disse?
— Shhhhhh — um dos bibliotecários chiou, olhando para Wall com o cenho franzido. Apontou para a placa, levando o dedo aos lábios.
— Foi mal, cara — sussurrou Wallace, passando pelo rapaz. Lucas o seguiu, encarando o cartão em suas mãos. Precisava recuperá-lo antes que Wall arrancasse aquela porcaria de adesivo. — Eu falo alto quando fico empolgado. Gostei muito da biblioteca.
O bibliotecário assentiu. Lucas olhou ao redor, observando a biblioteca. Já a havia visto antes, mas não o seu interior. Era grande, confortável e silenciosa. Mesas redondas e poltronas de leitura estavam espalhadas pelo espaço. Enormes estantes, formando corredores, estavam abarrotadas de livros — a grande maioria sobre assuntos que envolviam ciências econômicas.
— Tudo bem, calouro. No andar de cima têm mesas sobrando — o bibliotecário disse. — Nos computadores, vocês podem pesquisar os nomes dos exemplares ou seus autores. Caso não achem o que procuram, podem me perguntar.
— Valeu. Como sabe que sou calouro? — Wall perguntou, tomando para si um dos marcadores de livros dispostos sobre o balcão. Um deles dizia: NÃO MALTRATE OS LIVROS, ELES TÊM SENTIMENTOS.
— Está óbvio — o rapaz deu um sorrisinho. Wall maneou a cabeça, despedindo-se. Vendo-o distraído, Lucas tentou agarrar a sua mão, mas o garoto correu em direção à escada. Levemente irritado, ele o seguiu.
O segundo andar era tão amplo quanto o térreo. Alguns alunos estudavam sobre as mesas, outros liam livros deitados nos tapetes. Mais estantes, mais livros e placas pedindo silêncio e cuidado com os exemplares. Lucas logo viu Bernardo em uma das mesas, próxima à grande janela retangular. Concentrado nas folhas de artigos, o rapaz não os viu se aproximar.
— Oi! — Wall jogou seu caderno sobre a mesa, e Bernardo ergueu os olhos. Sorriu, fazendo um gesto para que se sentassem.
— Achei que não viriam — Bernardo disse, deixando seus textos de lado.
— É claro que eu viria. Eu adoro números — disse Wall, sentando-se em uma das cadeiras. Lucas aproveitou sua distração e tentou recuperar seu cartão, agarrando a mão de Wallace. — Ei! Espere, eu ainda não vi tudo.
O garoto tentou se desviar dos braços de Lucas, que finalmente arrancou o cartão de sua mão. Wall tentou pegar de novo, puxando o braço de Lucas. Bernardo observava tudo com as grossas sobrancelhas arqueadas.
— Vocês se deram bem mesmo — o colega observou. Finalmente, recupenando o maldito cartão, Lucas verificou se sua foto estava devidamente oculta e enfiou-o no bolso na calça. — Então... Como posso ajudá-los nesta linda manhã de sexta?
✦✦✦
Mais tarde, já em casa, Lucas abriu seu guarda-roupa e se deparou com os mesmos trajes de sempre: algumas calças jeans, poucas bermudas, blusas básicas e sem estampas e três pares de sapatos. Costumava doar algumas peças de roupa no final do ano, mas esquecia-se de repor. Fitou duas das camisas sociais que tinha e se perguntou porque de repente estava tão preocupado com a roupa que vestia. Decidido, ele pegou a camisa social branca, cobrindo o peito nu ao vesti-la e deixando alguns botões soltos. Conferiu a calça jeans, passando a mão úmida nas coxas. Lucas estava nervoso. E se Beatriz não estivesse lá? O rapaz ainda não sabia como agiria na presença dela; sobretudo depois de reconhecer o que sentia em relação à moça. No entanto, sentia uma necessidade tão grande de vê-la que em nenhum momento pensou em voltar atrás.
Olhou para o seu reflexo no espelho do guarda-roupa, quase rindo de si mesmo. Parecia que estava prestes a ir ao seu primeiro encontro amoroso, mas era apenas para comer salgadinhos e bolos na casa de seus animados vizinhos. Recordou-se do lembrete espalhafatoso de Bianca no grupo: SEXTOU, MEU QUERIDOS! NÃO SE ESQUEÇAM DE TRAZER COMIDAS SAUDÁVEIS. PROIBIDO CHEETOS! O CHEIRO É PÉSSIMO.
Contrariando o pedido da moça, Lucas optou por levar um dos muitos pacotes de balas de chocolate que Ben sempre comprava e deixava de reserva. Costumava presentear seus alunos caso se comportassem durante as aulas de piano; e, no final do ano, sempre vestia-se de papai noel para distribuí-las em saquinhos natalinos. Então, furtando gentilmente um dos pacotes de balas de Ben, Lucas se viu em frente à porta branca da casa de seus vizinhos. Respirou fundo, batendo duas vezes com o nó dos dedos sobre a madeira. Segundos depois, um rapaz loiro e sorridente surgiu por detrás da porta.
— Lucas! Vai acontecer algum casamento e eu não estou sabendo? — Miguel riu, recuando com a cadeira de rodas. — Você está elegante. Entra, cara. Os noivos estão esperando na cozinha.
Lucas sentiu as bochechas esquentarem. Raoni e Bianca, na cozinha, olharam para eles. Bianca franziu as sobrancelhas, olhando feio para Miguel.
— O que você disse?
— Eu disse que os noivos estão esperando na cozinha — ele repetiu, o deboche estampado em seu rosto. — E o que é isso? Balas?
Lucas ergueu o pacote de balas, sem graça. Miguel o agarrou, os olhos brilhando como os de uma criança faminta por doces. A porta se fechou atrás dele, e o rapaz olhou ao redor como se fosse a primeira vez que entrasse naquela casa. Parecia um tanto diferente sem as decorações apavorantes e as luzes coloridas girando no centro da sala.
Raoni cumprimentou-o com um aceno, levando uma travessa cheia de mini-pastéis para a mesinha de centro da sala. Um novo tapete, cor de vinho, ocupava boa parte do pequeno aposento. Pela primeira vez, Lucas viu fotos polaroid penduradas na parede da sala. Um violão estava encostado no canto, e um gato cinza dormia sobre um dos sofás. Lucas sentou-se no chão, sobre o tapete, ao lado de Raoni e frente à mesinha de centro. O pacote de balas que trouxe já havia sido aberto, e Miguel mastigava soltando gemidos de aprovação.
— Hum, caramba, há quanto tempo eu não comia isso — ele dizia, inclinando-se em sua cadeira. Lucas achou que ele fosse despencar no chão, mas, pelo movimento dos braços e a destreza com o qual se jogou no tapete, levando suas pernas consigo, já havia feito aquilo milhares de vezes. — Coma essas delícias, Raoni.
— Achei que você estava de dieta — Raoni abriu uma das balas e enfiou-o na boca. Bianca se juntou a eles, carregando alguns jogos de tabuleiros.
— Hoje é sexta — Miguel deu um sorriso perverso. — Sempre abro exceções na sexta.
— Hoje, eu voto em Quest — Bianca disse, estendendo uma caixa de jogo de perguntas e respostas.
— Eu voto em Uno — Raoni rebateu. — Laura sempre vence no Quest. Ninguém aguenta mais aquela nerdice.
— E você sempre vence em Uno. — Bianca juntou as sobrancelhas. — Isso é injusto.
— Acho que Lucas deveria escolher o que vamos jogar — a voz de Laura foi ouvida, ecoando escada abaixo. Beatriz a acompanhava, e sua simples aparição fez com que Lucas sentisse o seu estômago gelar. — Miguel escolheu a última vez, e eu ganhei.
— Aê, você está virando uma puxa saco desse cara — Miguel murmurou. — E você ganhou porque eu fui preso e fiquei duas rodadas sem jogar. — ele olhou para Lucas, que tentava agir naturalmente ao perceber que Beatriz pretendia sentar-se a poucos metros dele. — Banco Imobiliário, meu jovem. Escolha Banco Imobiliário e eu vou acabar com o império milionário desta ingrata.
— Desista, você não a vence — Raoni ergueu as cartas de Uno, jogando-as sobre a mesa. — Eu voto em Uno.
— Depois você diz ser meu melhor amigo — Miguel balbuciou, erguendo um dedo. — Banco Imobiliário.
— Quest — Beatriz sugeriu. — Exercita o cérebro.
— Concordo com Bea — disse Laura. Bianca deu um sorriso, colocando as caixas de jogos sobre a mesa lado a lado.
— E você, Lucas? O que quer jogar? — Bianca perguntou. O rapaz olhou para os jogos, indeciso. Sabia que seria impossível participar se votassem em Quest, um jogo de perguntas e respostas. Mas foi para este que Lucas apontou, decidindo-se em poucos segundos. Ele pôde ver o sorriso no canto dos lábios de Beatriz e Bianca movimentando os braços, comemorando sua escolha.
— Tá bom — Raoni disse, derrotado, recolhendo suas preciosas cartas. Bianca organizou o tabuleiro e as peças coloridas. Lucas escolheu a peça azul, e Beatriz, a roxa. Raoni posicionou a amarela ao lado da vermelha de Bianca, empurrando-a para fora do ponto inicial. Bianca olhou feio para ele, jogando a peça amarela para o lado.
— Se começarem a brigar, vou expulsá-los do jogo — Laura advertiu. — Miguel, escolha a sua peça. A preta é minha.
Miguel olhou para a única peça que sobrou: A verde.
— Como se eu tivesse outra escolha...
— Lucas — Laura ergueu os olhos para o rapaz, ignorando o comentário de Miguel. — Há quatro alternativas de respostas para as perguntas: A, B, C ou D. Você pode responder levantando os dedos demonstrando os números correspondentes às letras.
— Você quer que eu traduza? — Raoni fitou Lucas, levantando os dedos das mãos. — Um, dois, três e quatro. Acha que é resposta B? Dois. Sacou?
— Ele entendeu, Raoni — Laura disse séria, posicionando sua peça junto com as outras. Raoni enfiou dois pastéis na boca, e Miguel cruzou os braços. — Lembrando a todos: é apenas um jogo.
— Apenas um jogo — Bianca encarava Raoni, que sorriu-lhe debochadamente enquanto mastigava. Lucas engoliu em seco, observando as cartas sendo embaralhadas pelas mãos de Beatriz. Seu peito palpitava. Suas palmas suavam. É apenas um jogo, Lucas disse para si mesmo. Apenas um jogo.
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