14. Estranha plenitude
𓅯 Capítulo 14 | O Canto dos Pássaros 𓅯
Na manhã seguinte, prestes a desligar o despertador, Lucas deparou-se com mais de dez mensagens no grupo de seus vizinhos. As constantes mensagens não o surpreendia, pois todos os dias Raoni era o primeiro a despertar aquele pequeno recinto virtual com seus bom-dia exagerados. Mas, naquela manhã, Lucas viu seu nome em meio às tantas mensagens na tela do aparelho. Mensagens de feliz aniversário.
O rapaz franziu o cenho. Como eles sabiam? Lucas não era do tipo que se expunha em redes sociais, exibindo sua data de nascimento e o que fazia da vida. Mal tinha foto de si mesmo. Portanto, ele não tinha a menor ideia de como eles descobriram que seu aniversário fora no dia anterior.
As mensagens foram enviadas às dez da noite, horário em que Lucas provavelmente já estava dormindo. Ainda sonolento, a primeira coisa que ele fez foi visualizar as mensagens. Esfregou os olhos, lendo-as lentamente. Como de costume, Raoni foi o primeiro:
Ontem, 22: 13 p.m:
RAONI: HOJE É ANIVERSÁRIO DO LUCAS!! PARABÉNS, CARA! TUDO DE BOM P VC. QUANTOS ANOS?
Laura: Feliz aniversário, Lu! Que seja muito feliz. Conte conosco ❤
Laura: Raoni, pare de gritar
Miguelito: FEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEELIZ ANIVERSÁRIO!
Bianca: Um aquariano, eu sabiaaaaaa
Bianca: Parabéns, Lucas ☺☺☺
Laura: Lucas, iremos ter um lanche na sexta-feira, aqui em casa. Você está convidado. Afinal, você faz parte do grupo agora
Beatriz: Ei, Lucas! Feliz aniversário :)
RAONI: TODOS ENVIAM UM ABRAÇO
Bianca: Ele já entendeu, Raoni
Miguelito: que implicância com o meu parça, Bibi
Bianca: não me chame de Bibi. Eu não te dei essa liberdade
Miguelito: paz ✌
Lucas sentiu a boca seca. Não sabia o que responder. Lera mais uma vez as mensagens, parando sempre em uma em específico. Seu coração palpitou mais forte, e um sorriso espontâneo se formou no canto dos seus lábios. Ei, Lucas! Feliz aniversário :), ele leu pela quarta vez, quase sem acreditar. Sentia uma felicidade genuína, um devaneio que quase o fez se esquecer de que tinha que se arrumar para ir à faculdade.
Rapidamente, com os dedos trépidos, ele respondeu:
Lucas Evans: Bom dia, gente. Muito obrigado!
Lucas Evans: Fiz 25, Raoni
RAONI: Bom dia! É sério? Caraca, vc é mais velho q todo mundo
O rapaz inclinou a cabeça. Estar ciente de que ele era o mais velho daquele grupo ameaçou levar o seu pouco ânimo embora. Mais uma vez, teve a terrível sensação de que estava atrasado no enredo da vida — sensação esta que o sufocava a cada ano, e ele não sabia colocar em palavras se alguém o perguntasse. Atrasado na vida? Como assim? Alguém perguntaria. Lucas olharia para os seus novos amigos e diria: não está óbvio? Veja eles. Eu sou um fracasso.
Tentando espantar aquele pensamento estúpido da mente, ele se arrumou e partiu rumo à Universidade de Belmontine. Mal engoliu o café da manhã. À caminho, já dentro do ônibus, pensou nas mensagens que havia recebido — no feliz aniversário de Beatriz, no convite de Laura e no fato de ser o mais velho daqueles jovens. Ele era, portanto, mais velho que Beatriz. Desejou de repente saber quando era o aniversário da moça, quantos anos tinha, onde tinha nascido, qual era o seu sobrenome, e quem sabe o seu signo.
Quando se deu conta, estava sorrindo, sentindo o corpo balançar à medida que o ônibus acelerava. Os fones soavam uma canção de Camille Saint-Saëns; e seus ouvidos pareciam levemente mais sensíveis. A aflição que o perturbava dia após dia desaparecera por alguns minutos, dando-lhe um momento de estranha plenitude — como no dia em que estava sentado sob a árvore, observando a luz da tarde coroando a figura sorridente de Beatriz.
Lucas Evans não podia acreditar. Ele estava apaixonado.
✦✦✦
As quatro aulas daquele dia foram finalizadas sem grandes problemas para Lucas. No entanto, após uma semana de aulas, sentia que estava perdendo o foco. Já haviam sido apresentadas todas as disciplinas do curso de Administração, e grande parte delas não despertavam um interesse maior em Lucas. Sabia que era cedo demais para julgar assuntos que mal havia acabado de conhecer; mas não via em si o mesmo ânimo dos outros calouros, que pregavam os olhos no quadro e nos professores e faziam perguntas sobre economia e mercado de trabalho. Por mais que tentasse, Lucas não conseguia se interessar por aqueles assuntos. Seu raciocínio parecia mais lento; e, quando percebia, sua mente não estava mais ali. Estava em sua casa, em seu quarto, em sua infância, em suas músicas, em Beatriz. Era estranho como uma pessoa podia tomar seus pensamentos de forma tão intensa — e em circunstâncias tão impróprias. Ele tentava ao máximo sentir-se interessado por aqueles assuntos; que para ele começaram a ser apenas palavras soltas e vazias perambulando pela sala de aula.
Wallace, que firmou o seu lugar na sala atrás de Lucas, também não parecia tão dedicado quanto nos primeiros dias de aula. Vez ou outra, o rapaz o pegava dormindo sobre o grosso caderno com estampa de guitarra. As anotações das aulas perderam-se por entre os desenhos estranhos e frases em inglês. Em um de seus cochilos, na segunda aula daquele dia, uma professora mais exigente cutucou seu ombro e nada disse. Wall murmurou um pedido de desculpas, claramente desorientado.
Lucas sabia que o pretexto da garganta inflamada — dada por Wallace para livrá-lo de falar — não estaria ao seu favor por muito tempo. Os professores não exigiam muito, apesar de pedir a opinião sobre o assunto apresentado vez ou outra. Para a sua sorte, nunca escolheram Lucas para argumentar. Os colegas também não o questionavam — o rapaz não era de grande interesse para aquelas pessoas. Com exceção de Wallace. Às vezes, Lucas escutava-o conversando com os colegas ao redor; e via até mesmo acompanhá-los durante o intervalo entre as aulas. Era comum terem que fazer a troca de salas a depender da disciplina ministrada, e nem sempre Wall escolhia sentar-se perto dele. Lucas não esperava que Wallace firmasse uma amizade com ele, por isso, não se surpreendia quando o garoto se afastava e tentava se entrosar com outros colegas.
Lucas não o repreendia por isso. No lugar dele, talvez não se sentisse confortável em ter como única companhia um cara que não falava. Um cara mais velho que ele, que não tinha o mesmo gosto musical e nem o mesmo falatório. Lucas já estava esperando o dia em que Wallace passaria por aquela porta e não mais lhe desse um bom dia. Por isso, tentou não sentir-se decepcionado quando Wall desapareceu pelos corredores; sem esperá-lo no final da última aula. Mas, quando estava prestes a sair do prédio, o rapaz o viu na Sala de Descanso (lugar o qual todos chamavam de SD), um amplo aposento do primeiro andar destinado aos estudantes.
— Lucas! Chega aê! — ele ouviu a voz de Wallace no interior do aposento. Lucas virou-se, vendo-o rodeado de outros universitários. Todos olharam para ele. Agradeceu pela distância que os separavam, pois pôde sentir o rosto esquentar e o suor começar a umedecer sua roupa.
Ele caminhou até eles, se pondo sob o umbral da porta. Rapidamente, observou a sala. Era grande, mas não mais que as salas de aula. Havia sofás verde-musgo espalhados pelo lugar, um enorme tapete marrom e duas mesas redondas. Em uma delas, havia cartas de baralho espalhadas e latinhas de coca-cola. No canto, uma estante e uma cômoda velha sustentava velhos papéis e apostilas. Uma ampla varanda dava para a parte de trás do prédio. Haviam quatro estudantes, todos com aparência jovem. Um deles, um rapaz loiro, fumava um cigarro de palha na varanda, e um outro tinha uma latinha de energético nas mãos. Duas moças estavam sentadas em outro sofá.
— Senta aí, cara. Aceita? — o rapaz com o energético, com uma barba espessa e olhos esverdeados, abriu uma caixa de isopor e sentou-se ao lado de Wallace. — Ou quem sabe uma cerveja?
Lucas balançou rapidamente a cabeça em sinal negativo.
— Acho que ele não bebe... — Wall sugeriu. — Mas acho que agora eu aceito. A aula daquela professora me deu um sono do caramba.
O rapaz deu uma latinha de energético a Wallace. O garoto abriu e tomou um longo gole, tossindo.
— Esse... cof, cof... — ele apontou a mão com a latinha para o rapaz barbado ao lado. — Esse também é Lukas. Lucas, este é o Lukas. Lukas com K.
O outro Lukas riu. Uma das moças, de cabelo curto e mechas roxas, fixou seus olhos nele. Parecia curiosa quanto ao seu comportamento silencioso; fazendo com que ele se sentisse um animal exótico em exposição. Mesmo assim, ele se sentou ao lado de Wallace e tentou parecer relaxado. O ruivo já havia tomado mais da metade do energético.
— Prazer, xará — Lukas ergueu a latinha. — Quinto período de Administração. Estou sobrevivendo à base de cafeína.
— E nicotina — o outro rapaz saiu da varanda com seu cigarro e ofereceu à Lukas. Este o pegou e deu um trago. Lucas observava tudo de soslaio, sentindo-se desconfortável. De repente, quis sair correndo dali. A moça de mechas roxas ainda o observava, e a outra parecia ocupada demais no celular para fazer o mesmo.
— Então, você tinha uma banda — Lukas deu mais um trago no cigarro, e Lucas quase tossiu com a fumaça que vinha em sua direção. Perguntou-se como aquilo era permitido em uma universidade pública; até lembrar que na SD tudo era permitido. Da porta para fora, o bom exemplo deve ser seguido. Da SD para dentro, os atos ilícitos não eram de responsabilidade da faculdade. Se aquilo fazia sentido ou não, Lucas não estava disposto a refletir naquele momento.
O rapaz tentou prestar atenção na conversa, mesmo incapaz de participar dela oralmente.
— Sim. Eu apresentava na minha escola e em alguns festivais. Nada de mais — Wall contou. Lucas não sabia daquele detalhe da vida do colega, e atentou-se ainda mais. — A banda acabou se desfazendo por motivos idiotas.
— E você já gravou alguma música? — a moça de cabelo roxo perguntou. — Você disse que era rock. Eu amo rock!
Wall deu um sorriso nostálgico.
— Rock, Indie rock. Gravamos algumas demos. Mas acho que são péssimas músicas, para dizer a verdade.
— Se você está dizendo, prefiro poupar meus ouvidos — disse o rapaz loiro. Lukas soltou uma gargalhada, segurando o cigarro entre os dedos. Ofereceu-o a Wall, que deu um sorriso sem graça. Lucas não soube dizer se fora por causa do comentário sobre suas músicas ou por causa do cigarro. — Aceita?
Wall acenou com a cabeça, pegando o fumo. Não faça isso, pensou Lucas. Mas o garoto fez. Tragou a fumaça, tossindo de imediato. O loiro riu, e Lucas teve a impressão que Wallace estava sendo usado como entretenimento para aquelas pessoas. Quis tirá-lo dali. Arrancar aquele energético de suas mãos e expulsar aquela substância que adentrara pelos seus pulmões inocentes.
Lucas estava prestes a se levantar e sair daquele lugar quando Bernardo parou diante da porta, cumprimentando a todos. Ele havia aparado a barba, deixando-o mais jovem e mais parecido com o garoto que conhecera no ensino médio. Com uma pasta transparente em uma das mãos, ele acenou.
— Wallace, posso falar com você? — perguntou, olhando de soslaio para Lucas. — Você também, Lucas. Tenho algo que pode ajudar vocês.
— Ah, esse é o meu padrinho acadêmico — Wall sorriu, dirigindo-se aos outros veteranos. — Tenho que ir. Nos vemos depois!
— Cuidado para não tropeçar nos próprios cadarços, rapazinho — o loiro do cigarro disse. Lucas, aproveitando a deixa, também levantou e se dirigiu para fora da SD. Os cadarços dos tênis de Wallace estavam desamarrados; fato que o rapaz percebeu ser algo constante.
Lucas apoiou-se no parapeito do corredor, observando o garoto amarrar as cordinhas com certa dificuldade. Bernardo ofereceu ajuda, mas ele recusou. Ainda tossia, franzindo o nariz e colocando a mão no peito.
— Sempre tem uma primeira vez — ele admitiu, os dedos agitados tentando fazer um nó. — É horrível.
— Wall, não entre na onda deles — Bernardo falou baixinho, olhando por cima do ombro para conferir se ninguém o escutava. — Não está aqui para ser um viciado, certo?
— Certo, certo — Wall se levantou, ajeitando a mochila nas costas. — Estou aqui para ser um admistrador foda... Mesmo que eu não saiba o que isso significa. E eu odeio matemática, cara. Vou me ferrar na prova. Você pode me dar umas dicas?
— É claro. Lucas...? — Bernardo olhou para ele, fazendo um gesto para que o rapaz se juntasse a eles. Lucas se aproximou, hesitante. — Também aceita umas dicas de matemática? Wallace disse que você ainda não foi apadrinhado. Poderei ajudá-lo sem problemas, se quiser.
Lucas sorriu, agradecido. Aceitou a ajuda, pois estava mesmo precisando. Ele não queria nem imaginar como seria acumular matérias e ter que encarar uma prova repleta de números. Às vezes, pensava se realmente conseguiria passar do primeiro período. No entanto, Bernardo estava disposto a ajudá-lo com aulas particulares e artigos que lera quando estava no primeiro período. Enquanto caminhavam pelos corredores rumo à saída do prédio, o rapaz entregou-lhes algumas papeladas. Artigos sobre Teoria da Administração, Sociologia e Contabilidade. As folhas estavam marcadas e cheias de anotações, e Lucas reconheceu a letra pequena de Bernardo.
— Os professores sempre pedem a leitura desses artigos. Se eu fosse vocês, já leria em breve. Não deixem nada para o final do semestre — ele aconselhou. Wallace leu os títulos, verificando o número de páginas.
Bernardo se despediu, deixando-os com artigos acadêmicos rabiscados e a promessa que os ajudaria a passar pela tortura de exatas (que ele garantiu que seria temporário). Wall enfiou os papéis na mochila.
— Ele parece mesmo gostar desse curso — observou. — Me deu até vontade de ser inteligente.
Sem perceber, Lucas fez uma careta. Olhou para ele, balançando a cabeça em sinal negativo. Queria dizer-lhe que ele não era desprovido de inteligência. Que ele havia escrito músicas. Lucas teve vontade de perguntar sobre sua misteriosa banda, de contar sobre Ben e seu amor pela música, sobretudo a clássica. Mas as perguntas e os argumentos permaneceram dentro dele, impassíveis.
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