13. Tempo perdido
𓅯 Capítulo 13 | O Canto dos Pássaros 𓅯
16 de fevereiro de 2022
Quarta-feira, 6:25 a.m
O campus estava quase totalmente vazio naquela hora da manhã. Lucas, tomando um dos ônibus mais cedo, partiu rumo a Belmontine quando o sol ainda não havia aparecido no horizonte. Não queria encontrar com os pais pela manhã com o típico bolo de fubá de padaria com velinhas acesas. Não queria receber parabéns, não queria presentes. Ele queria ficar em paz — pelo menos, pela manhã. Sabia que ao chegar em casa não haveria escapatória: o bolo e as velas estariam esperando por ele, fazendo-o se lembrar de seu tempo perdido.
Lucas nunca foi muito fã de festas de aniversários, porém, era sempre muito divertido receber presentes e sentir-se especial naquele dia. No entanto, a cada ano que se passava após os dezoito anos, ele se torturava mais. Era inevitável. Esperava-se dele um adulto de vinte e cinco anos, confiante e maduro o suficiente para tomar suas próprias decisões. Esperavam dele um diploma da faculdade. Uma namorada, um trabalho estável, uma carteira de motorista. Mas ele não tinha nada disso. Nada que esperavam de um jovem adulto de sua idade.
Com exceção de algumas mudanças, ainda sentia-se um adolescente do ensino médio, perdido entre tantas opções de carreira. Tiravam os jovens passarinhos de um ninho espaçoso e os jogavam da árvore sem ensiná-los a voar. Lucas ainda não havia aprendido como bater suas asas — asas quebradas que ele tinha perdido as esperanças de serem curadas. Para ele, mesmo respirando aquele ar universitário, não sentia certeza de nada. Não tinha certeza de seu futuro, do que gostava, e como faria para ser alguém se não conseguia se comunicar com as pessoas. Estava perdido, caindo por entre as folhas e galhos; e seu aniversário o lembrava disso. De sua desgraça para consigo mesmo.
Sua garganta ardia enquanto caminhava pelo campus, avistando uma das mesas de pedra no extenso jardim. Altas árvores, esparsas pelo campo, sacudiam suas folhas conforme o vento as atingia. O rapaz sentou-se no banco de pedra cinza, jogando a mochila na mesa arredondada. Dali do alto, ele observou a parte de trás do prédio da faculdade e o estacionamento ao lado. O céu tingiu-se de violeta e dourado, e ele sentiu o sol aquecer a sua nuca. Ficara ali, em silêncio, ouvindo o agradável farfalhar das folhas e observando os primeiros grupos de alunos aproximando-se do prédio. Algumas aulas começavam às sete, mas, no caso de Lucas, a primeira aula seria somente às oito — o que lhe restaria um bom tempo para tentar colocar os seus pensamentos em ordem.
Com a vista já cansada daquele cenário, Lucas pegou o celular e fez algo que já fazia há alguns dias; desde o dia da festa-zumbi: contemplava todas as fotos que Beatriz aparecia; compulsão esta que o envergonhava. Era como se ele estivesse invadindo sua intimidade, observando cada detalhe de seu rosto e sua pele. Pensar em Beatriz trazia-lhe uma ânsia diferente — era excitante, mas não menos assustador. Desde o dia da festa, não a vira mais pessoalmente. Vez ou outra, pegava-se olhando pela janela do quarto, fixando os olhos na calçada e no pouco que conseguia ver por entre as árvores da casa vizinha. Recusava-se a acreditar que estava gostando da moça, mas não resistia ao ímpeto de ver seu rosto e seu sorriso naquelas fotos. A fotografia que ele mais gostava, contudo, era aquela em que ela segurava uma câmera. Era como se a moça estivesse sorrindo para ele.
— BU!
Lucas deu um pulo no banco, derrubando o celular no chão. Antes de inclinar-se para pegar o aparelho, virou-se assustado para Wall, que pressionava a palma contra os lábios.
— Foi mal! — ele riu, a voz abafada. — Você assustou mesmo. Aí, chegou cedo hoje. Ficou com medo de chegar atrasado de novo?
O rapaz assentiu, conferindo a tela do celular. Nenhum arranhão. Sua preocupação maior era outra — que Wallace tivesse visto o que ele tanto olhava. Sentiu as bochechas quentes ao pensar nessa possibilidade, mas o garoto não perguntou nada a respeito. Talvez estivesse mais interessado em assustá-lo.
— Já foi apadrinhado? — perguntou Wall, jogando a mochila sobre a mesa. Lucas franziu o cenho, expressando dúvida. — Ah, tipo, os veteranos do mesmo curso adotam alguns calouros. Para orientação. Dão dicas sobre as matérias, repassam artigos, fofocam sobre os melhores e piores professores e falam onde estão os lugares mais adequados para dar uns pegas. Sabia que pode beber cerveja e fazer um churrasco na Sala de Descanso?
Lucas piscou, absorvendo aquelas novas afirmações. Não, eu não tenho nenhum padrinho, ele queria dizer. E eu não bebo. Wall bocejou e prosseguiu:
— Aquele cara, o Bernardo, se ofereceu para me apadrinhar. Quem sabe ele também não queira ser seu padrinho acadêmico? Vocês já se conhecem. Seu colega do ensino médio, né? Ele me disse. Que legal, cara. Não tive a sorte de ter meus amigos tão próximos.
O rapaz assentiu, querendo lhe dizer que Bernardo nunca foi seu amigo. Foram apenas colegas. Colegas que vez ou outra sentavam juntos para fazer um trabalho em dupla porque ambos sempre ficavam para trás. Com exceção de algumas obrigações escolares, eles nunca ficavam próximos.
Wall bocejou novamente e esfregou os olhos.
— Acho que vou cochilar um pouco. Se eu não acordar até às oito, me cutuque como faria com um morto. Eu durmo feito uma pedra. Beleza? — Wall, sonolento, pegou a mochila e a levou até debaixo da árvore mais próxima. Fez suas alças de travesseiro, esticando as pernas e cruzando as mãos sobre o peito.
Lucas observou seu rosto pálido salpicado de poucas sardas; o peito subindo e descendo serenamente. Dois minutos depois, ele roncava baixinho. O silêncio envolve-o outra vez, e ele ficou atento às horas. Desbloqueou o celular, lembrando-se que a foto de Beatriz e sua câmera fotográfica ainda estava lá.
Dez minutos antes das oito em ponto, Lucas cutucou o braço de Wall. Sem sucesso, ele sacudiu seu ombro, mas o garoto acordou apenas no terceiro sacolejar.
— Ah! Watermelon! Watermelon! — ele balbuciava ao despertar. Abriu os olhos, fitando Lucas com os olhos arregalados. — Quê? Já acabou a aula?
Sorrindo-lhe com escárnio, Lucas ajudou-o a se levantar e, juntos, partiram rumo à sala para a primeira aula do dia. Para a sua sorte — quem sabe um presente do universo pelo seu aniversário — não houve nenhuma situação constrangedora envolvendo a sua mudez. No intervalo, Wall insistiu que lhe comprasse uma coxinha na lanchonete. Sentaram juntos no refeitório, e o garoto mais falava do que comia. A princípio, Lucas sentiu-se um tanto desconfortável em comer na frente dele; mas Wall degustava a coxinha como uma criança que ainda estava aprendendo a comer — e ele não parecia nem um pouco constrangido com isso.
Sem que Wallace soubesse que era o seu aniversário, ele havia lhe presenteado com algo que Lucas não sentia há um bom tempo: a sensação de ter uma companhia que não fosse os membros de sua família. Estranhamente, a tensão que havia sentido com as perguntas incessantes e a presença hiperativa de Wall não existia mais. O garoto não o questionava, tampouco não o ignorava. Falava de sua vida, de seus gostos e suas aventuras como se há tempos não conversasse com ninguém. E foi naquele momento, no refeitório repleto de gente e cheiro de comida, que Lucas compreendeu que Wall sentia-se tão solitário quanto ele.
✦✦✦
Lucas não ficou surpreso quando, ao chegar em casa, viu balões azuis e brancos presos na sala e um bolo coberto de glacê sobre a mesa. Os números 2 e 5 se equilibravam sobre a superfície exageradamente coberta de morangos. O cheiro de comida assada — o familiar aroma da lasanha de Ben — alcançou suas narinas segundos depois. Mozart foi o primeiro a ir ao seu encontro, abanando o rabo peludo. Beethoven esforçou-se para sair de seu confortável colchão, emitindo um latido rouco. Um coro de parabéns pra você foi ouvido pela casa, e Pedro foi o primeiro a aparecer detrás da bancada da cozinha. Ben pulou de trás do sofá, e Miriam apareceu carregando um presente. Luan saltou os degraus da escada, fitando o bolo com cobiça.
— Parabéns, meu bebê! — Miriam abraçou-o, entregando o presente. A embalagem era vermelha e dourada, retangular. Lucas deu um sorrisinho, escutando as palmas de Ben e os assobios de Pedro. O menino Lucas de tantos anos atrás odiaria aquela algazarra; pois um simples parabéns pra você o deixava com os nervos à flor da pele.
— Parabéns. Está ficando velho! — Pedro aproximou-se, batendo a mão em seu ombro. Lucas não soube reagir à presença do irmão. Não esperava encontrá-lo em plena quarta-feira; e ainda não tinha tido coragem de se desculpar pela sua grosseria. — Melissa não pôde vir, mas mandou-lhe um feliz aniversário.
— Obrigado — Lucas disse, sem conseguir olhá-lo nos olhos. — Não achei que viria.
— É claro que eu viria. Pensei em preparar alguns ovos e farinha para jogar na sua cara, mas Ben não deixou desperdiçá-los e Miriam não gosta dessas brincadeiras. — Pedro falou. — Ela disse que é uma "brincadeira infantil e ultrapassada".
— Concordo — o rapaz murmurou, recordando-se imediatamente de seu aniversário de 12 anos. Lucas ficou fedendo a ovos por quase uma semana inteira (pelo menos, teve essa impressão); e, para o seu azar, um deles estava completamente podre.
Ben veio abraçá-lo, dizendo-lhe palavras de motivação. Disse o quanto se orgulhava dele, e que ele era um grande homem. Lucas bem que queria acreditar nas palavras do padrasto. Sabia que era sincero, pois Ben não costumava falar as coisas só para agradá-lo. Mas ele não se sentia um grande homem; e muito menos orgulhoso de si mesmo.
O rapaz deu um meio sorriso, agradecendo baixinho. Luan, com seu jeito peculiar de demonstrar todo o seu carinho pelo mais velho, deu-lhe um soco no braço.
— Feliz aniversário — ele disse. Lucas encolheu o ombro, sentindo latejar levemente onde o punho do caçula atingira. Aproximou-se da mesa, assoprando as velas. Em seguida, Miriam cobriu o bolo, anunciando que só seria provado após o almoço.
A lasanha estava deliciosa. Tinha, para Lucas, o sabor da infância e das vezes que o padrasto expulsava Miriam da cozinha nos finais de semana e fazia a comida preferida dele — e que Luan e Pedro nunca recusavam. Sua mãe não tem elegância na cozinha como tem em projetos de edifícios em formato de traseiros, ele sempre dizia, limpando as lentes dos óculos antes de começar sua obra alimentícia. E, não querendo ser tão duro com Miriam e sua boa vontade, Lucas tinha que concordar. Sua mãe tinha tanto histórico de queima de arroz que deveria fazer parte do Livro de Recordes.
A tarde fora agradável, contrariando sua manhã reflexiva e melancólica. Na caixa que Miriam lhe dera, havia um novo conjunto de pincéis e tinta acrílica. Quando estava sozinho em seu quarto, analisando as tintas novas sobre a cama, Pedro entrou trazendo um novo pacote. Era menor, com listras verdes e uma dedicatória escrito à caneta: DE PEDRO, MELISSA E BEBÊ. COM CARINHO.
— Ainda não chegamos ao consenso quanto ao nome da nossa menina — disse Pedro, conforme Lucas lia e abria a embalagem com cuidado. Ele sabia o que encontraria ali: um livro. Apesar de ter perdido o hábito de ler diariamente, Lucas gostava de livros. Vez ou outra, apanhava um dos exemplares grossos e amarelados de Ben para ler na praça do parque ou sobre os edredons. Aquele, ao contrário, cheirava a páginas novas. Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda. Lucas sorriu, reconhecendo a sensação de nostalgia invadindo o seu peito.
— Obrigado — Lucas agradeceu baixinho, colocando o livro junto às tintas sobre a cama.
— Me desculpe por ter dito aquelas coisas no sábado — Pedro se sentou na extremidade da cama. — Fui invasivo e idiota. Desculpe-me mesmo. Eu só...
— Tudo bem, tudo bem — Lucas maneou a cabeça, apertando os olhos. Ele se sentia desconfortável ao se lembrar daquele dia. No fundo, queria dizer-lhe que não tinha que se desculpar. Que ele fora um estúpido, como sempre. Que o irmão só queria ajudá-lo, mas Lucas não aceitava ajuda; e havia vários motivos para isso. Tinha vergonha e medo. Medo de, sobretudo, ser incompreendido novamente.
Mas Lucas não conseguia dizer nada daquilo a Pedro. Não conseguia admitir nem para si mesmo que precisava de ajuda; para saber mais ao fundo o que se passava com ele e o motivo de suas angústias existenciais.
Ele ficou olhando para as tintas novas e para o exemplar laranja de Rei Arthur por um bom tempo sobre a cama, sozinho novamente. Pedro já havia partido, Ben se preparava para dar uma aula particular e o bolo de aniversário já havia sido comido pela metade. Ao final da tarde, iniciando o crepúsculo, Lucas saiu de casa e caminhou por entre as árvores do parque, avistando poucas pessoas na praça. Estendeu-se sob a mesma árvore, observando o pouco movimento da rua. Mais tarde, alguns casais de idosos saíam para caminhar, e as crianças chegavam aos montes com seus responsáveis para brincar umas com as outras. E ali, sob a sombra de sua companheira de sempre, o rapaz ansiava ver Beatriz. Esperou avistá-la correndo pela calçada e cumprimentando-o de longe, envolta na mesma luz dourada que banhava as tardes de verão. Esperou sua aproximação, e quem sabe um feliz aniversário — mesmo ciente de que não era possível que a moça soubesse daquele detalhe. Mas Beatriz não apareceu. Lucas só foi para casa ao anoitecer, como era de costume, com um vazio a mais em seu peito.
Naquele dia ele completava vinte e cinco anos, mas ainda sentia-se o mesmo garoto melancólico e sem rumo de dezoito anos — talvez com menos espinhas e mais certo do que não gostava: Lucas não era fã de números, de festas barulhentas e sertanejo universitário. Estava mais ciente de que o mundo não era tão mágico quanto nos livros amarelados de Ben; e que era impossível voltar ao passado e liberta-se do demônio que prendeu sua voz. As páginas de sua vida pareciam-lhe vazias de conteúdo, com capítulos repetitivos e confusos demais para agradar leitores que desejavam encontrar um herói. Lucas não se sentia um herói.
Os números, assim como o tempo, eram apenas ilusões.
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