12. Lugar distante
𓅯 Capítulo 12 | O Canto dos Pássaros 𓅯
No dia seguinte, Lucas acordou sobressaltado e ciente que já passava das sete da manhã. Pela claridade que invadia o seu quarto, não precisou olhar as horas para saber que estava mais do que atrasado. O despertador havia tocado às seis, portanto, não poderia culpar senão a ele mesmo por ter adormecido novamente. Trocou de roupa em segundos, agarrando as alças da mochila e disparando escada abaixo. Mal vira Miriam e Ben ao atravessar a sala.
— Lucas! Achei que já tinha saído — Miriam falou, baixando a xícara de café. — O que aconteceu?
— Eu dormi de novo. Tenho que ir. — o rapaz respondeu, apalpando o bolso para procurar suas chaves. Não estavam ali.
— Não vai tomar café? — Ben perguntou. Lucas olhou para o padrasto, mas sua atenção foi desviada para o relógio digital sobre a bancada. Eram sete e meia; e o ônibus que deveria pegar chegava ao ponto às sete.
Lucas bateu os pés no chão, irritado, apalpando os bolsos da calça jeans mais uma vez.
— Droga! — exclamou, sentindo os olhos pesados de sono. — Perdi o ônibus. E as chaves. Onde estão essas porcarias de chaves?
— Acalme-se, meu filho — a mãe o observava preocupada. Ela não estava habituada com aquele comportamento dele. Ao contrário do filho mais novo, era raro Lucas demonstrar agressividade. — Não está no seu quarto? Ou na mochila...
— Não — Lucas estava prestes a abrir a porta com a própria cabeça quando Ben, erguendo as próprias chaves, entregou-lhe um recipiente de tampa vermelha e o guiou até a porta da sala.
— Um sanduíche natural — ele bateu a mão na tampa, abrindo a porta e impulsionando-o gentilmente em direção à garagem. Lucas pôde ouvir os passos da mãe atrás deles. — Eu te levo, não se preocupe. Diga ao professor que teve uma dor de barriga. Sempre dá certo.
— Seu suco! — Miriam gritou, e Lucas se virou para pegar uma garrafinha gélida.
Ele queria dizer-lhes que não estava mais na escola; que não levaria nenhuma advertência se chegasse atrasado. Ele simplesmente odiava chegar atrasado onde quer que fosse. Mas sabia que seria inútil e não queria descontar a sua irritação no padrasto ou na mãe. Estava irado consigo mesmo. Irritado por pensar demais a ponto de não dormir o suficiente. Pensara em tudo o que havia acontecido naquele primeiro dia de aula, além da inquietante conversa que tivera com Pedro — e no fato de que eles não haviam se falado desde então.
Lucas enfiou o sanduíche e o suco dentro da mochila e Ben deu partida no carro. O padrasto não disse nada durante todo o percurso até a universidade, mas o rapaz sabia que ele tentava adivinhar o que estava acontecendo — assim como fazia quando Lucas era criança. As sobrancelhas franzidas por debaixo dos óculos e os olhos atentos ao trânsito lhe davam o característico ar intelectual de quem estava tentando decifrar um enigma. E este enigma era Lucas.
— Meu filho — Ben parou no sinal vermelho, segurando o volante com leveza. — Está acontecendo alguma coisa? Posso ajudá-lo em algo?
— Não, Ben — Lucas respondeu em tom baixo, já avistando os muros de Belmontine. — Só não gosto de chegar atrasado. Você sabe.
— Hum — o padrasto assentiu, acelerando o veículo. — Qualquer coisa, me ligue. Ou melhor, mande uma mensagem que virei buscá-lo... Caso passe mal e realmente tenha uma dor de barriga.
Lucas teve vontade de rir. Algumas coisas não mudavam — Ben, às vezes, ainda o tratava com uma criança dependente. Talvez, mas não por maldade, Benício realmente o visse daquela forma. Despedindo-se do padrasto, agradeceu e, apressado, correu em direção ao prédio azul-cobalto. Só desacelerou os passos quando se viu no segundo andar, vazio e silencioso. Parou para recuperar o fôlego, encarando a porta fechada da sala B13.
O rapaz engoliu em seco, ouvindo a voz abafada de um homem vinda lá de dentro. A aula já havia começado. Pensou em aguardar do lado de fora até que a aula finalizasse, pois não havia passado pela sua cabeça ter que abrir a porta e ser encarado por mais de cinquenta alunos. Martirizou-se por tanta pressa, visto que teria que esperar mais de meia-hora. Porém, quando estava prestes a voltar ao pátio, a porta da sala se abriu e ele se deparou com um dos colegas — que ainda não conhecia e nem chegaria a conhecer.
— Oi. Está perdido? — o outro rapaz perguntou. Mais de vinte pescoços se viraram em direção a porta, inclusive o professor. Lucas encolheu os ombros, balançando a cabeça em sinal negativo. Tarde demais para fugir novamente.
O rapaz passou por ele, deixando a porta aberta, e Lucas viu o seu plano ir por água abaixo. Entrou na sala, sentindo os olhos curiosos sobre ele. O professor, um homem de cabelos grisalhos e óculos, continuou dando a aula. Lucas baixou a cabeça e agilizou os passos em direção à mesma carteira que escolhera no dia anterior — a única vazia naquela fileira, fato que ele achara um tanto estranho a princípio. Quando viu o único objeto sobre a mesa — um estojo vermelho, o qual Wallace erguera rapidamente o braço para pegar de volta — o rapaz compreendeu: o garoto havia guardado o seu lugar.
Lucas se sentou apressadamente e pegou um dos cadernos novos. Não se lembrava, naquele momento, qual disciplina estava sendo ministrada. Aos poucos foi se acalmando, dando-se conta que os colegas estavam mais preocupados em se concentrar no que estava sendo dito pelo professor do que em observá-lo. Logo viu o nome da disciplina no quadro: Teoria da Administração I. Pôde escutar, atrás de si, o som do lápis de Wall sobre a folha, anotando as falas do professor. Mais uma vez, Lucas sentiu-se um estúpido por ter sido rude com ele — a única e a primeira pessoa que teve interesse em conhecê-lo.
Por isso, no fim da aula (que ele não conseguiu se concentrar muito bem), Lucas rasgou um pedaço de uma das folhas de seu caderno e escreveu:
Meu nome é Lucas
Wallace pareceu surpreso quando Lucas se virou e deixou a folha ao lado de seu estojo vermelho. Ele tinha o semblante sério e concentrado, terminando as últimas anotações sobre a aula. O professor já havia finalizado, preparando-se para sair da sala. A resposta de Wall veio a Lucas segundos depois:
Eu sei. Aquele cara do 7º período me disse o seu nome.
Foi mal por ontem, Lucas respondeu.
Não esquenta. Aceita um chiclete?
Lucas deu um sorrisinho e ergueu o polegar. Wallace entregou-lhe uma goma de mascar e voltou às suas anotações. O rapaz ouviu-o murmurar para si mesmo:
— Taylorismo... Eu já ouvi isso. Mas eu achei que tinha algo a ver com Taylor Swift.
O rapaz riu baixinho, enfiando a goma sabor melancia na boca. As próximas três aulas foram relativamente tranquilas. Todas elas, uma introdução geral da disciplina; relembrando conceitos que Lucas se lembrava de ter estudado superficialmente na escola. Na última aula, entretanto, a professora de Economia I teve a brilhante ideia de fazer uma apresentação interativa: todos os calouros tinham que dizer seus nomes e porquê escolheram o curso de Administração.
O coração de Lucas logo começou a disparar. As palmas das suas mãos suavam, e achou que não sobreviveriam àquela tortura até chegar a sua vez. Ele não conseguiria. Não conseguiria estrear com aquele personagem que ele tentava dar à luz; aquele que ergueria sua voz e diria o seu nome serenamente para um pouco mais de cinquenta pessoas.
Foi naquele momento, com os batimentos cardíacos fora do controle e as mãos trêmulas, que ele se deu conta que aquela máscara não caberia nele. Não naquela hora. Estava se exigindo demais — exigindo-se em ter uma confiança que não tinha, em manobrar todo aquele medo e ansiedade que o consumia naquelas situações. Quando chegou sua vez, novamente foi como se ele estivesse de volta à escola; confrontando um novo professor que não sabia sobre ele. A sua reação diante daquela professora foi a mesma: abaixou a cabeça, paralisado. Sentiu mais uma vez os olhos de todos sobre ele após o silêncio; dessa vez, realmente interessados nele.
— E você...? — a professora, uma loira de aproximadamente quarenta anos, perguntou pela segunda vez. O silêncio sufocava Lucas, e ele se recusava a levantar a cabeça. Não conseguia e não se sentia capaz de encarar aquela mulher.
— Ele está com a garganta inflamada, professora — Wallace disparou, desviando a atenção de todos para ele. — O nome dele é Lucas e ele escolheu o curso porque...bem, é a cara dele. E o meu nome é Wallace, e escolhi Administração porque, hum...Ih, boa pergunta, senhorita Carla. Eu ainda não sei.
A professora assentiu, dirigindo o olhar para a aluna atrás de Wallace. Ela não pareceu ter se importado com o fato de Lucas ter ficado calado diante a sua pergunta — que todos respondiam sem dificuldade ou hesitação. Alguns ficaram envergonhados, mas a timidez não os impedia de abrir a boca e dizer seus nomes baixinho. O rapaz os admirava por isso. Admirava ainda mais aqueles que, como Wallace, não parecia envergonhar-se ao se manifestar perante tantas pessoas.
Para o seu alívio, a professora de Economia I passou a aula toda sem ao menos olhar para ele. Não estava convencido de que ela havia acreditado em toda aquela mentira sobre garganta inflamada. Ela simplesmente estava mais interessada em dar a aula — que, por sinal, ela era muito boa nisso — do que questioná-lo. Ao finalizar a última aula, Lucas juntou seus materiais e foi o primeiro a sair da sala. Correu para o banheiro masculino no final do corredor e, deparando-se com o enorme espelho sobre o lavatório, assistiu seus olhos lacrimejarem e sentiu um nó se formar em sua garganta. Mas ele não conseguia e nem queria chorar. Engoliu a saliva que se acumulou em sua boca, deixando com que a água da torneira jorrasse em suas mãos ainda trêmulas. Ele não conseguiria. Ele não tinha coragem e força para ser alguém que não era. Aquele Lucas que tentava se tornar tão de repente estava bem longe dele; em um lugar distante e secreto, de difícil acesso. Naquele dia, sua ânsia e seu medo vencera mais uma vez; deixando-o à mercê da humilhação e vergonha.
Lucas voltou para casa sozinho, sentindo-se péssimo por aquele dia. Se sentiu ainda pior quando se lembrou que no dia seguinte seria o seu aniversário. Tal como o primeiro dia de aula na faculdade, ele queria que aquele dia nunca chegasse. Por isso, tentou aproveitar ao máximo o resto daquele dia recluso em seu quarto; o último dia de um Lucas com vinte e quatro anos. Tentou se esquecer da vergonha que passara, convencendo-se que no dia seguinte seria diferente.
À noite, após passar para o caderno as anotações de um rascunho que fizera na última aula, pegou o celular e visualizou as conversas do único grupo virtual do qual era membro. O Clã da Casa 10 estava a todo vapor: Miguel com suas piadas idiotas, Raoni com suas figurinhas macabras, Laura colocando ordem no grupo e Bianca mandando fotos constrangedoras de Laura dormindo de boca aberta na sala de estar. Beatriz quase nunca se manifestava, o que deixava Lucas um pouco decepcionado. Queria que, assim como Miguel, ela falasse um pouco de sua vida naquele pequeno espaço online. Em poucos dias, ele já sabia que Miguel cursava Medicina e pretendia ser cirurgião — e que não perdia uma aula de Anatomia Humana pois achava o professor um gato (na verdade, Miguel expressou-se com outra palavra com a inicial G). Recebia fotos de Raoni com suas peças de máquinas nas aulas práticas da faculdade, tentando provar ao amigo que operar máquinas era melhor que operar humanos.
Todos, aparentemente, estavam muito satisfeitos com suas escolhas acadêmicas — o que geraria uma pequena crise interna em Lucas, mas ele sabia que era cedo demais para ter certeza do caminho que escolheu tentar trilhar. Matricular-se naquele curso foi o único caminho que ele conseguiu vislumbrar — mesmo que ainda não conseguisse ver um futuro para si. Pois, para ele, era como se aquele futuro não existisse.
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