11. Alguém a ser evitado
𓅯 Capítulo 11 | O Canto dos Pássaros 𓅯
14 de fevereiro de 2022
Segunda-feira, 7:23 a.m
Quando o ônibus parou no terceiro ponto de sua rota, a poucos metros da entrada da Universidade de Belmontine, Lucas respirou fundo e desceu os degraus, sentindo as portas automáticas do veículo se fecharem abruptamente atrás de si. Ele não foi o único a descer naquele ponto, mas foi o último a sair do ônibus com uma mochila nas costas e um semblante perdido. Não que ele não soubesse para onde ir, pois já estava habituado a pegar ônibus sozinho e havia feito uma tour virtual pelo mapa do campus disponível na internet; tudo isso para não precisar pedir informações a ninguém.
Em menos de dez minutos de caminhada, ele já pôde ver o prédio azul de sua faculdade. Ao seu redor, alunos e alunas transitavam pelas calçadas; alguns conversando baixinho entre si, outros com fones de ouvidos e expressões sonolentas. Ônibus que circulavam dentro da universidade passavam pelas ruas asfaltadas, levantando as folhas secas das muitas árvores que compunham o espaço acadêmico.
Lucas suava frio, tremendo por dentro e por fora. Fechou o casaco verde-musgo que usava até o pescoço, mas sabia que não estava tão frio quanto tentava se convencer. Segurou as alças da mochila nova — presente de Alberto — e foi de encontro às escadas que o levaria ao lugar que passaria boa parte de seus dias a partir daquela semana. Por um instante, o rapaz sentiu-se como aquele garoto que acabara de adentrar no ensino médio, passando pela portaria da escola com o mesmo casaco verde — que sempre fora grande demais para ele — pressionando as alças da mochila e se preparando para o vexame que passaria ao se confrontar com um professor novo. Esse garoto que ele fora, de alguma forma, ainda estava vivo dentro dele.
Erguendo os ombros, Lucas disse para si mesmo que aquele não era o ensino médio. As pessoas seriam mais compreensivas. Mais maduras, menos julgadoras. E ele não seria mais aquele garoto que se encolhia como uma tartaruga dentro de seu casaco quando perguntavam seu nome. Pelo menos, era isso que ele esperava. Não pense nisso, ele se repreendia, tentando ignorar o pânico que crescia dentro dele quando penetrava pelos corredores brancos e cheios de jovens — alguns com um ar um tanto colegial, e outros nem tanto. Fora a primeira coisa que Lucas notara naquele ambiente: a diversidade de pessoas e idades. Muitas portas, muitos corredores e escadas. Ninguém estava guiando-o. Assim como todos ali, Lucas andava com os próprios pés, pois havia assinado seu nome com suas próprias mãos. Definitivamente, não era como a escola. Não seria como o ensino médio.
No entanto, a visão do quadro branco e as carteiras enfileiradas da sala B13 — uma das muitas salas do segundo andar na qual os calouros se reuniriam para o primeiro contato uns com os outros — o fez estacionar próximo ao umbral da porta.
— Oi. Aqui é a sala de encontro dos calouros de Administração? — uma moça parou ao seu lado, fitando-o com uma expressão de dúvida. Lucas sentiu o desconforto piorar, mas ele conseguiu movimentar a cabeça em sinal positivo. A garota agradeceu e entrou na sala, e Lucas obrigou-se a fazer o mesmo.
Os murmúrios dos calouros preenchiam o lugar, e o rapaz percebeu que alguns deles estavam tão perdidos quanto ele. Numerosas carteiras estavam dispostas em filas até o fim da sala, que tinha um formato retangular. As janelas eram grandes, dando uma visão quase panorâmica do jardim que ornamentava a fachada do prédio. Caminhando até os fundos, ele escolheu uma das carteiras ao lado da janela. Sentindo-se levemente sufocado, ele inalou o ar fresco que passava pela fresta da vidraça e sentou-se na cadeira, observando as folhas dos coqueiros oscilarem com o vento. Quando voltou seu olhar para dentro da sala, observou os calouros conversarem entre si e se ajeitarem nos lugares escolhidos. Às vezes, ele se impressionava com as habilidades sociais alheias — as pessoas pareciam se enturmar muito facilmente, excluindo aqueles que não sintonizam com o seu modo e integrando aqueles que lhe parecem agradáveis. Em menos de cinco minutos naquela sala, escutando conversas paralelas e os ruídos das cadeiras sendo arrastadas, formaram-se vários grupos distintos.
Muitos dos calouros eram jovens que haviam acabado de se formar no ensino médio. Outros, como Lucas, pareciam menos entusiasmados. Os mais velhos, já adultos formados, reuniram-se entre si. Portanto, havia por aquela sala cabeças grisalhas e rostos ainda cobertos por espinhas juvenis — e Lucas, surpreso, reconheceu um deles, parado diante da sala observando o alvoroço. Wallace. Com a mesma touca escura achatando os cachos alaranjados, o garoto caminhou lentamente por entre as fileiras, procurando por uma mesa vazia. Dessa vez, ele usava uma camisa preta com estampa de guitarra e calças jeans. Os mesmos bottons e a mochila surrada; e provavelmente mascava o mesmo chiclete de melancia. Lucas desviou o olhar rapidamente, torcendo para que ele não notasse a sua presença. Mas era tarde demais. Inspecionando as carteiras rente às janelas, Wallace também o reconheceu. Aproximou-se rapidamente, parecendo aliviado por vê-lo.
— Ah, conheço você! E aê? — ele exclamou, sorridente, jogando a mochila na mesa atrás de Lucas. O rapaz mordeu os lábios, manejando a cabeça em um cumprimento rápido e sem o intuito de dar a mínima atenção.
Tal como Lucas havia previsto, Wallace exalava o mesmo aroma de chicletes de melancia. Ficou imaginando se ele também era um colador de gomas sob carteiras — e sobre cadeiras —, o terror dos auxiliares de limpeza do colégio.
— Cara, achei que fosse me perder nesse labirinto — Wallace começou a dizer. — Fui no quarto andar e me perdi no terceiro. Até que lembrei que as salas com a letra B de bola ficam no segundo andar. Por que B é a segunda letra do alfabeto... Mas o térreo não conta. Penso em deixar migalhas de pão na próxima vez.
Lucas não podia acreditar que aquilo estava acontecendo. Entre centenas de calouros e dezenas de salas, Wallace fora parar literalmente atrás dele. O rapaz não soube como reagir, pois aquilo havia saído de seu controle. Não soube sustentar aquele personagem que criara em sua cabeça; aquele que pretendia abrir a boca para falar caso alguém desconhecido viesse cumprimentá-lo. Mas por que não testá-lo com aquele garoto? Ele sabia porque não conseguiria: de alguma forma, Wallace já havia acessado o verdadeiro Lucas. Aquele que não respondeu às suas perguntas. Aquele que recusara suas preciosas gomas de mascar.
Quando todos os calouros estavam devidamente em seus lugares, o diretor do curso de Administração e outros coordenadores entraram na sala, apresentando-se e orientando a todos. Falaram sobre o curso. Sobre o privilégio de se estar em uma Universidade como aquela. Deram boas-vindas, comunicando que aquele dia seria exclusivamente para recepcioná-los.
Lucas estava atento à fala dos coordenadores até o momento em que começaram uma apresentação de slides. Metade da sala ficou escura, e de repente alguém cutucou seu ombro. Ele olhou por cima do ombro, e uma folha de caderno dobrada tocou o seu nariz. Ele também viu os olhos astuciosos de Wallace, que logo fingiram estar colados no quadro adiante. Rapidamente, o rapaz pegou a folha e colocou-a sobre a mesa, desfazendo as dobras.
Com a pouca luz disponível, vinda das frestas das persianas amassadas, Lucas fitou as letras grandes e trêmulas de Wallace:
Ei, porque não quer falar comigo?
Lucas suspirou baixinho. Enfiou a mão dentro de um dos bolsos de sua mochila, onde havia colocado a velha caneta que usava para fazer esboços de desenhos que ele nunca terminava. Inclinando-se sobre o papel, ele escreveu:
Eu não falo com ninguém
Ele devolveu o papel, dando por encerrado aquele assunto importuno. Lucas voltou a dar atenção à apresentação. Falavam sobre as palestras oferecidas pela universidade e as oportunidades que se abriam ao se dedicarem aos cursos de extensão. Ele não ficou surpreso quando o mesmo papel despencou de seu ombro para suas pernas. Lucas pegou a folha novamente, pensando se deveria ou não dar continuidade àquilo. Sem conseguir conter a curiosidade — mesmo sabendo sobre o que se tratava — ele desdobrou o papel e leu a resposta:
Ah, legal! É alguma promessa ou algo assim?
Não, Lucas respondeu de imediato.
Jogando a folha sobre o ombro, sem esperar que Wallace a pegasse, Lucas deixou claro na firmeza de suas palavras e na estupidez de seu gesto que não responderia mais nada. E o garoto, por mais insistente que fosse, notou sua deixa. Durante toda a apresentação da aula inaugural, Wall não fez mais perguntas e não o importunou com cutucões. Até mesmo quando as luzes foram acesas e os calouros foram liberados para conhecerem o campus ao redor do prédio, o garoto ficou calado — mesmo com a oportunidade para falar pelos cotovelos.
Já fora do prédio, acompanhando o grupo de calouros de longe, Lucas perdeu Wallace de vista. Ponderou seu comportamento, sentindo-se culpado por ter sido tão rude. O garoto não parecia querer irritá-lo ou ser inconveniente, porém Lucas não pôde evitar sentir-se retraído diante aquela intrusão. O garoto era um desconhecido para ele; um ponto fora da curva. O rapaz estava acostumado a ser alguém a ser evitado — e não esperava ter que lidar com aquilo.
É melhor assim, pensou ele, dando mais razão ao alívio que sentira do que a culpa por ter sido um estúpido. Sozinho, ele explorou boa parte dos arredores da faculdade. Observou o campo que estendia-se ao lado do estacionamento, por onde alguns alunos caminhavam e deitavam sob as árvores. Considerou comprar algo na lanchonete, mas só de pensar em fazer um pedido no caixa, a fome já ia embora. Assim, pegou a única coisa que trouxera para comer — uma grande maçã a qual Lucas mal conseguiu mastigar. Ele só conseguiu comer a fruta quando estava longe da vista de todos.
Meia hora depois, os veteranos guiaram alguns grupos de alunos para dentro do prédio e lhes mostraram a biblioteca, as salas de impressão, as salas de descanso e lazer e o restaurante. Finalmente viu o gorro preto e a mochila de bottons de Wall, logo à frente, acompanhando um dos alunos que explicava o funcionamento do prédio e o sistema de apadrinhamento. Lucas se sentia deslocado com tanta informação e com tantos corredores, por isso, demorou a reconhecer um dos veteranos quando este acenou. Mais uma vez, o rapaz gelou. Bernardo, vestindo calça jeans e uma blusa com a logo da universidade, olhava diretamente para ele. Lucas quase olhou para os lados, esperando que ele estivesse cumprimentando outra pessoa; ou que ele estivesse delirando e vendo mais uma vez seu antigo colega da escola. Mas os olhos castanhos e os cabelos escuros de Bernardo eram inconfundíveis. Era ele. Mais alguém para esquivar-se naquele lugar que de repente ficou tão pequeno e sufocante.
Lucas deu um breve sorriso e acenou de volta. No mesmo instante, Wallace, próximo a Bernardo, olhou para trás. Depois, ele viu seus lábios se mexendo, o cenho franzido. Uma pergunta fora feita, mas pela distância e pelos murmúrios acalorados dos novos alunos, Lucas nada escutou. No entanto, ele teve certeza de que Wallace havia perguntado se o conhecia. A resposta era óbvia. E, como todas as pessoas que conheciam Lucas, Bernardo seria vítima da célebre pergunta: Por que ele não fala?
O rapaz foi embora antes mesmo de finalizar o tour pela faculdade. Lucas teria tempo o suficiente para fazer isso sozinho, sem olhares curiosos de um ruivo em sua direção e sem a familiar presença de alguém do seu passado. Com a garganta seca, ele atravessou o campus e correu para o ponto de ônibus, agradecendo aos céus por não ser um dia de aula habitual — mas ciente que, no dia seguinte, não haveria escapatória.
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