Capítulo Vinte e Quatro

Marlon Shipka:

Saindo do restaurante, meus pensamentos começaram a vagar, trazendo à tona memórias de um tempo não tão distante, quando os anciãos tentaram forçar um casamento arranjado para mim. Eles tinham planos de me unir ao filho de uma família renomada por suas habilidades com poções no vilarejo onde cresci. A família em questão era a Qinuy, conhecida por seus gêmeos idênticos, tão semelhantes que até mesmo seus pais tinham dificuldade em diferenciá-los.

Havia um boato de que, quando os gêmeos nasceram, o mundo estava imerso no caos da guerra, e, após o fim dos conflitos, ninguém sabia dizer ao certo qual dos dois era o mais velho. Essa confusão deu origem a uma rivalidade feroz entre eles. Desde crianças, brigavam incessantemente para provar quem era o primogênito, suas disputas eram tão intensas que se tornaram lendárias no vilarejo.

Quando as duas famílias começaram a planejar o casamento conjunto, o mestre da Família Qinuy insistiu que o irmão mais velho deveria ser o único a se casar comigo. Ele sabia, como todos no vilarejo, que ambos os irmãos eram arrogantes e cruéis, verdadeiros monstros que já haviam cometido inúmeras atrocidades contra outros. No entanto, a disputa entre eles se tornou ainda mais acirrada, pois ambos se consideravam o mais velho e, consequentemente, o único com direito a se casar comigo.

No dia marcado para o casamento, ambos apareceram, determinados a reivindicar o que acreditavam ser seu direito. Todos que haviam sofrido nas mãos dos gêmeos também estavam presentes, preparados para revelar as atrocidades que os irmãos haviam cometido. Aproveitando a oportunidade, lancei um feitiço que os fez sentir, na pele, tudo o que suas vítimas haviam experimentado nos últimos momentos de vida. O terror em seus olhos enquanto eram consumidos pelo medo foi um lembrete claro de suas maldades.

Quando o feitiço finalmente se desfez, os gêmeos me olharam como se eu fosse um demônio encarnado, o medo e o pavor estampados em suas faces. Dias depois, soube que ambos haviam sido expulsos da família Qinuy e que, misteriosamente, desapareceram.

No fundo, sempre senti que aquele destino foi uma dádiva para o mundo. A justiça, embora cruel, havia sido feita, e a sociedade estava livre de dois seres que só traziam dor e sofrimento. Por mais que aquela lembrança carregasse um peso sombrio, eu sabia que havia sido necessário. Cada passo que dou hoje é um reflexo do que aprendi e do que precisei fazer para proteger não apenas a mim mesmo, mas aqueles que não podiam se defender.

Otto, que caminhava ao meu lado, parecia perceber minha introspecção. Ele lançou-me um olhar curioso, mas não disse nada, apenas apertou minha mão, como se quisesse me lembrar que, independentemente do passado, o presente nos pertencia. E, com isso, continuei em frente, deixando aquelas memórias para trás, onde pertenciam.

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Quando a carruagem chegou, Otto estendeu a mão para me ajudar a subir, e eu aceitei seu gesto com um leve sorriso. Assim que entramos, ele se sentou ao meu lado, e a carruagem começou a se mover em direção ao palácio. Durante o caminho, Otto continuou a conversar animadamente, falando sobre como os meus planos para lidar com as pessoas que se opunham a ele estavam funcionando. Ele me contou que, após verem os resultados dos meus ensinamentos, muitos começaram a mudar de atitude, e outros, ainda mais impressionados, desenvolveram novos encantamentos.

Eu apenas assenti, satisfeito por saber que meu feitiço de azar e pesadelos, lançado sobre essas pessoas, estava surtindo o efeito desejado. Eles agora temiam o que eu era capaz de fazer, e isso trouxe um certo alívio, embora soubesse que o trabalho ainda não estava concluído.

Quando chegamos ao palácio, subi para o meu quarto, buscando um momento de tranquilidade. No entanto, não demorou muito para que a porta se abrisse com força, revelando Lila. Ela estava parada na entrada, com sua postura elegante e equilibrada, mas havia um brilho de indignação em seus olhos.

— Como você pôde não me chamar para ajudá-lo a se preparar para o encontro com o imperador? — exclamou, quase gritando.

— Lila, não precisa exagerar — Guilherme disse, surgindo logo atrás dela, tentando acalmar a situação.

Logo em seguida, Lopes também entrou, e eu soltei um suspiro ao vê-los se acomodarem na minha cama, todos me analisando de cima a baixo.

— O que você fez desta vez para rejeitar o imperador novamente? — Lila perguntou, sua voz carregada de frustração enquanto me olhava com um olhar ameaçador. — Parece que você faz questão de dificultar qualquer chance de vocês se apaixonarem. Posso até ler sua mente dizendo que não vê futuro nessa relação!

Sorri sem jeito, tentando aliviar a tensão.

— Como você poderia saber? Não consegue ler minha mente, Lila. — Respondi calmamente. — Mas entendo sua preocupação. A verdade é que, no passado, já me entreguei a alguém que não merecia minha confiança, alguém que só me enganou com gestos parecidos com os de Otto. Por isso, estou sendo cauteloso.

Minhas palavras surpreenderam os três, que me olharam boquiabertos.

— Ainda não consigo acreditar que alguém conseguiu enganar você, Marlon — disse Guilherme, incrédulo. — Se Sofia souber disso, ela e Dimitri vão dizer que perdi a aposta que fizemos sobre a existência de um lado romântico em seu coração.

— Isso é uma calúnia absoluta, Guilherme! — retruquei, apontando para ele, que apenas deu de ombros. — Mas talvez seja minha culpa por ser tão reservado sobre o meu passado.

Os três concordaram, e eu revirei os olhos internamente, sabendo que não adiantaria discutir.

— Mas deixando de lado seu passado romântico, o imperador Otto realmente te ama, Marlon — Lila disse, levantando-se com uma aura de determinação e sinceridade. — Ele não está tentando te enganar. Você pode confiar nele e nas ações que tem tomado nos últimos dias.

Desgostoso com suas palavras, dei alguns passos para trás, tentando me afastar do olhar desafiador de Lila.

— Se já terminaram a conversa, podem me dar licença? Tenho um compromisso com as crianças e preciso falar com Dennis sobre parar de morder o Drake — falei, e os três assentiram antes de sair do quarto, ainda com expressões pensativas.

Assim que fiquei sozinho, senti uma onda de frustração me dominar. Na minha vida anterior, não dava muita importância a esses assuntos do coração, mas desde que voltei para este mundo, parece que até os sentimentos que eu achava enterrados começaram a ressurgir. O medo de ser enganado novamente, o receio de abrir meu coração... Tudo isso estava voltando com força.

Deixei meus pensamentos de lado e fui encontrar Alice e Dennis no campo de treinamento. Para minha surpresa, encontrei um Jam apavorado, enquanto as crianças estavam sentadas, calmamente comendo biscoitos.

— Marlon, Dennis mordeu a canela daquele homem de novo — disse Alice, assim que me viu. — Ele gritou desta vez.

Olhei para Dennis, que abaixou a cabeça, claramente esperando que eu o ignorasse ou não brigasse com ele. Desde que começaram a morar no palácio, notei que Dennis parecia ter medo de cometer erros, como se temesse que eu desistisse dele e o mandasse de volta para o outro mundo.

Alice, por outro lado, parecia alheia à luta interna do amigo, e eu não podia deixar de sentir um certo peso em ser mais do que apenas um mestre para eles. Dennis passava por mim com a cabeça baixa, tentando evitar meu olhar, e isso me machucava mais do que eu estava disposto a admitir. Se ele não estivesse sob minha proteção, eu sabia que Drake não hesitaria em mandá-lo para a masmorra ou fazer o possível para expulsá-lo do palácio imperial.

Suspirei e chamei Dennis.

— Dennis, posso conversar com você? — pedi, e Alice, percebendo o tom sério, chamou Jam para irem buscar mais biscoitos. Sentei-me ao lado de Dennis. — Por que você continua mordendo o Drake?

Ele não respondeu, apenas ficou em silêncio, e eu soltei outro suspiro, tentando abordá-lo com mais suavidade.

— Por favor, me conta. Não vou brigar com você — falei docemente, esperando que ele confiasse em mim.

— Ele fica dizendo como devo me comportar quando estou na minha forma animal e insiste que você errou ao me escolher como aprendiz. Diz que sou muito selvagem para isso — Dennis finalmente confessou, sua voz embargada de tristeza e raiva.

Meu coração se apertou ao ouvir isso, e por um breve momento, quis ir até Drake e dar-lhe um soco bem dado.

— Não se preocupe com o que ele diz, Dennis. Eu te escolhi como meu aprendiz porque acredito em você. Sou eu quem decide o que é certo ou errado — falei, sorrindo e passando a mão pelos cabelos dele. — Mas tente não morder mais ele, a menos que eu autorize ou seja extremamente necessário.

Dennis me olhou com os olhos brilhando, e para minha surpresa, me abraçou.

— Pode deixar, Marlon — disse ele, sua voz cheia de animação, o que me fez rir um pouco.

— Assim é melhor — falei, enquanto Alice e Jam retornavam com mais biscoitos.

Observando-os juntos, não pude deixar de sentir uma leve esperança de que, com o tempo, as feridas que todos carregávamos começassem a cicatrizar. Afinal, estávamos todos aqui, tentando nos adaptar, e talvez, só talvez, o futuro pudesse ser um pouco mais brilhante.

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Gostaram?

Até a próxima 😘

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