Capítulo Vinte e Cinco
Marlon Shipka:
Na parte da tarde, o tempo pareceu passar tão rapidamente que nem percebi quando Otto me chamou para ir ao seu escritório para uma conversa. No caminho, cruzei com Drake, que me lançou um olhar severo. Senti a irritação subir, mas me contive para não lançar um encantamento em cima dele, mesmo que a tentação fosse grande.
Quando cheguei à porta do escritório de Otto, encontrei Sofia em prontidão, como sempre. Ela me cumprimentou com um sorriso caloroso enquanto eu passava para o lado de dentro.
Ao entrar, vi que a mesa de Otto estava coberta com uma pilha de livros. Ele estava sentado atrás dela, segurando uma caneta e apontando para os livros com um ar inquisitivo.
— Tem algo a mencionar sobre por que as Torres Ocultas te enviaram tantos livros sobre alquimia e uma parte sobre Cultivação Espiritual? — perguntou Otto, arqueando uma sobrancelha com curiosidade.
Havia esquecido que havia pedido a Solomon, o mestre das Torres Ocultas da Magia, para me enviar alguns livros sobre esses tópicos, juntamente com algumas estratégias para que uma pessoa jovem pudesse aprender sobre esses assuntos com sabedoria e paciência. No entanto, não esperava que ele me enviasse uma pilha de livros de história da cultivação, além de um manual detalhado com as melhores estratégias para o aprendizado.
Sorri internamente ao pensar que ser amigo próximo do imperador atual, alguém que Solomon respeita, tinha seus benefícios.
— Pedi esses livros para ajudar Alice a se tornar uma grande alquimista ou, quem sabe, desenvolver a capacidade de controlar a Cultivação Espiritual — expliquei, pegando a pilha de livros. Notei um bilhete preso ao topo. "Quando terminar de ler esses aqui, conversaremos em alguns dias. Irei até o Império das Rosas e criarei uma série de desafios. A garota deverá mostrar como pode superá-los com os recursos que tem."
Refleti por um momento, percebendo que Solomon provavelmente não sabia como alguém sem um pingo de magia poderia realizar tais feitos.
— Acho que devo conversar com Solomon sobre como tratar alguém como Alice quando ele vier nos visitar — murmurei em voz alta, o que fez Otto me lançar um olhar curioso.
Ele então mudou de assunto, sua expressão tornando-se mais séria e, de certa forma, magoada.
— Ouvi uma conversa interessante entre Lila e Sofia sobre o que vem acontecendo nos últimos dias. Os anciãos de onde você morava estão escolhendo alguém para que você se case? — Otto perguntou, seu tom revelando uma mistura de mágoa e preocupação. — Por que não me contou que estava recebendo essas propostas?
Por um momento, pensei que ele esperava que eu protestasse, que insistisse que nossas responsabilidades e deveres deveriam ser nossa prioridade e que não deveríamos nos preocupar com esses assuntos. Mas, naquele instante, eu me sentia cansado demais para me aprofundar nisso, ou em qualquer outro tópico.
— Entendo sua preocupação, Otto, mas agora, se me der licença, vou me preparar para os meus ensinamentos com os cavaleiros amanhã — respondi, tentando manter a voz neutra enquanto abria a porta e deixava seu escritório.
Saí do escritório sentindo uma mistura de emoções. Por um lado, estava aliviado por ter evitado uma conversa difícil, mas, por outro, não podia ignorar a sensação de que algo entre nós ainda precisava ser resolvido. Otto tinha suas razões para se sentir magoado, e eu sabia que, eventualmente, precisaríamos enfrentar essa questão. Mas não hoje. Hoje, eu precisava de um momento para mim, para refletir e, talvez, tentar entender melhor meus próprios sentimentos antes de lidar com os dele.
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Voltei para o meu quarto, a mente ainda fervilhando com as informações que havia lido. Coloquei a pilha de livros sobre a escrivaninha e comecei a devorar os conteúdos, analisando cada estratégia com cuidado. Depois de cerca de uma hora, o cansaço começou a se abater sobre mim, e finalmente me deixei cair na cama, exausto. Nem tive forças para tirar a roupa que estava usando. Meu cabelo estava completamente desarrumado, resultado de horas de concentração e experimentos enquanto testava algumas das ideias dos livros.
Olhei ao redor do quarto, observando os frascos de ingredientes espalhados pelo chão, e pensei que deveria ao menos me levantar para arrumar tudo e trocar de roupa. Mas meu corpo se recusava a obedecer. A exaustão era maior do que a minha vontade de manter tudo em ordem.
Foi então que a porta do quarto se abriu suavemente, e para minha surpresa, Otto entrou. Ele se sentou na ponta da cama, segurando um copo de vitamina de morango com um canudinho, seu rosto expressando uma ternura que me desarmou.
— Sabia que você estaria exausto depois de estudar tanto — disse ele, estendendo o copo em minha direção. — Quando fico acordado até tarde, sempre tomo um pouco de vitamina de morango para recuperar as forças.
Sem muita escolha, aceitei o copo. Otto gentilmente colocou o canudinho nos meus lábios, e eu tomei um gole, sentindo o frescor da bebida revigorar meu corpo cansado. Quando terminei, me sentei na cama, e ele sorriu para mim, seus olhos brilhando com orgulho ao ver que eu seguia seu conselho.
— Melhor agora? — perguntou ele, sua voz suave, quase como um sussurro. Seus olhos revelavam o desejo de me tocar, e por um instante, quase senti sua mão se mover em direção ao meu cabelo, mas ele se conteve.
— Otto, preciso te contar uma coisa — comecei, soltando um suspiro profundo e apertando o copo em meus dedos. — Se depois disso você ainda quiser ficar comigo...
Ele inclinou a cabeça, curioso e um pouco preocupado, enquanto eu reunia coragem para continuar.
— Eu reencarnei... e regredi ao mesmo tempo. Minha vida tomou um rumo diferente do que havia acontecido antes — revelei, minha voz carregada de emoção contida.
— Isso é possível? — ele perguntou, quase num sussurro, seus olhos fixos nos meus, tentando entender.
— Sim — respondi, soltando outro suspiro pesado. — Não sei exatamente como aconteceu, ou por quê. No início, usei essa segunda chance para me vingar das pessoas que me fizeram tanto mal. Tenho certeza de que você já pesquisou o histórico da minha família e viu que, nos registros, diz que meus pais morreram de uma doença infecciosa. Mas a verdade é que eles foram envenenados... por alguém em quem mais confiavam.
Vi o choque atravessar o rosto de Otto, enquanto ele processava essa revelação.
— Meus pais sempre foram saudáveis, então, quando de repente adoeceram e morreram poucos dias depois, todos na vila suspeitaram que fosse uma doença altamente infecciosa. Inclusive eu pensei assim, antes da minha primeira morte. Não havia outra explicação para a morte súbita deles. Mas, no fim da minha vida anterior, meus tios confessaram que meus pais foram habilmente envenenados para que eles pudessem assumir seus títulos de bruxos e curandeiros, e se apossarem de todo o nosso estoque de poções. Quando ouvi isso, minha mente ficou em branco. Foi tão chocante que senti meu coração bater forte em meus ouvidos. Minha primeira vida foi um verdadeiro inferno. Depois, renasci em outro mundo, com outro nome e uma nova família que me amava... mas ainda assim, o peso do meu passado nunca desapareceu — continuei, mordendo o lábio com força ao relembrar aquelas memórias dolorosas. — Então, quando finalmente retornei a este mundo, consegui fazer com que aquelas pessoas pagassem pelo que fizeram anos atrás. Embora tenha demorado muito mais do que eu imaginava.
Antes que eu percebesse, Otto estava me abraçando fortemente, como se quisesse me proteger de todas as dores que já havia suportado.
— Eu realmente sinto muito, Marlon — sussurrou ele, a voz embargada pela emoção. — Não consigo imaginar o quanto deve ter sido difícil para você suportar isso tudo sozinho. Mas vejo claramente o homem incrível que você se tornou.
— Eu não sou tanto quanto você pensa — respondi, esfregando suavemente suas costas enquanto sentia, pela primeira vez, um peso saindo dos meus ombros. — Fiz apenas o que qualquer pessoa faria no meu lugar.
Otto afastou-se ligeiramente, o suficiente para segurar minha mão e olhar nos meus olhos.
— Como seus pais eram nessa vida regredida? — perguntou ele, um sorriso gentil iluminando seu rosto. — Quero saber sobre eles, já que criaram um filho tão amoroso e guerreiro ao mesmo tempo. Eu teria adorado conhecê-los... e também os da sua outra vida.
As lembranças de meus pais me invadiram, trazendo um sorriso suave ao meu rosto.
— Meus pais eram pessoas incríveis. Meu pai era um homem justo em tudo que fazia. Minha mãe, por outro lado, sempre dizia o que pensava e fazia o que achava certo, tudo pelo bem dos outros e daqueles que amava, sempre com um sorriso no rosto. Eu era filho único, então você pode imaginar quanto amor recebi — falei, sentindo a nostalgia apertar meu coração. — Quando eles morreram, fiquei completamente perdido.
Otto apertou minhas mãos com mais força, como se quisesse transmitir sua força para mim.
— Eles eram pessoas maravilhosas, Marlon — disse ele, a sinceridade em sua voz aquecendo meu coração.
— Os pais da minha segunda vida também foram incríveis. Em ambas as vidas, tenho certeza de que eles teriam adorado te conhecer, Otto — respondi, inclinando-me para lhe dar um beijo suave na bochecha.
Otto sorriu, e pela primeira vez em muito tempo, senti que havia compartilhado uma parte essencial de mim, algo que antes eu temia expor. E, naquele momento, soube que, apesar de todas as dificuldades, talvez fosse possível encontrar a paz e o amor que sempre desejei.
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Gostaram?
Até a próxima 😘
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