Capítulo Cinco

Marlon Shipka:

O navio deslizava sobre as águas revoltas, cortando o mar com uma velocidade e leveza que pareciam desafiar as próprias leis da natureza. As velas inchadas capturavam cada sopro de vento contrário, impulsionando a embarcação a uma altura e velocidade que nenhum pássaro jamais alcançara. O horizonte se estendia infinito à nossa frente, mas meus olhos voltaram-se para trás, onde o porto começava a desaparecer na distância.

As figuras no cais ainda eram visíveis, pequenas manchas de cores vibrantes contra o céu cinzento. O pessoal no porto acenava com entusiasmo, seus gestos carregados de esperança e despedida. Entre eles, Max se destacava ao lado de Ian, ambos acenando vigorosamente, como se pudessem prolongar aquele momento de conexão. Ao lado deles, a filha do meu amigo saltava de alegria, sua pequena mão acenando com uma energia contagiante, o rosto iluminado por um sorriso radiante.

Virei-me então em direção a Steven, que estava pálido e visivelmente enjoado pelo balanço incessante do navio. Ele se agarrava ao corrimão com força, os nós dos dedos brancos, enquanto tentava conter a náusea que o assombrava. A cada onda, ele se inclinava um pouco mais, até que, sem conseguir mais se conter, vomitou por sobre a borda. Arthur, sempre atento e prestativo, estava ao seu lado, esfregando suavemente as costas de Steven em um gesto de conforto e apoio.

— Ele vai ficar bem? — perguntei, preocupado.

Arthur olhou para mim, e embora seus olhos mostrassem cansaço, seu sorriso era reconfortante.

— Dentro do possível, sim — respondeu, a voz carregada de uma tranquilidade que parecia capaz de acalmar até as águas mais turbulentas.

O céu havia se tornado de um cinza metálico, como a superfície de uma lâmina prestes a ser empunhada, e as nuvens pesadas se acumulavam, carregadas de presságios sombrios. O navio avançava, cortando as águas em direção à divisão dos oceanos, onde os impérios se encontravam, e o ar parecia vibrar com a tensão de um confronto iminente.

Nunca, em nenhuma das minhas vidas passadas, eu havia embarcado em uma viagem como essa. Sempre ouvi histórias sobre como era extraordinário navegar pelos mares, mas, sinceramente, não encontrava nada de tão especial. O navio apenas deslizava sobre a imensidão azul, com o capitão firmemente ao leme, guiando nossa trajetória. O que me surpreendia, no entanto, era como tudo nesse mundo parecia preso ao passado, mesmo com a presença dos Tecsoul, que poderiam facilmente impulsionar um avanço tecnológico incomparável. Se ao menos permitissem que o tio de Max produzisse mais de suas invenções... Como aquele barco voador, por exemplo, que, embora precisasse de uma quantidade imensa de magia para se mover, era uma prova viva do potencial inexplorado deste mundo.

Sacudi a cabeça, afastando esses pensamentos, e voltei meu olhar para a cabine do capitão. Otto estava lá, em conversa séria com um de seus guardas, suas palavras se perdendo no ruído do vento. O telhado da cabine brilhava como prata antiga, levemente manchada pelo tempo, e a paisagem ao redor era uma vasta extensão de águas cristalinas, intercaladas por ilhas distantes que só podiam ser vislumbradas se eu apertasse bem os olhos. De vez em quando, eu imaginava ver figuras encapuzadas se movendo furtivamente no mar ou nas ilhas, mas era difícil ter certeza de qualquer coisa a essa distância, observando apenas com a visão desarmada.

Foi então que senti uma presença se aproximando, e, ao virar, reconheci a cavaleira pessoal de Otto.

— Quanto tempo já passou? — perguntei, minha voz revelando a inquietação que começava a se acumular dentro de mim.

— Cinco minutos desde a última vez que perguntou — respondeu ela, sua voz calma e controlada, enquanto se virava para observar Otto, que agora estava apoiado no corrimão da escadaria, a cabeça inclinada para trás, parecendo exausto ou talvez enjoado pela constante oscilação do navio.

De repente, uma preocupação intensa cresceu dentro de mim, como uma sombra se alastrando em meu peito. Pela primeira vez, eu compreendia as palavras dos meus pais, quando diziam que certos sentimentos poderiam me confundir, quando finalmente surgissem.

A incerteza sobre o que o futuro reservava se enraizava profundamente em minha mente. Eu sabia que o caminho à minha frente era imprevisível, mas, ao mesmo tempo, estava certo de que as escolhas que eu fazia agora moldariam o meu destino. Era como se cada decisão que eu tomasse fosse uma pedra lançada no oceano do tempo, criando ondas que se propagariam muito além do que eu poderia ver.

Senti a necessidade de registrar cada passo que me levaria na direção que estava escolhendo, pois sabia que eram as minhas ações no presente que definiriam o amanhã. Mas havia algo mais, algo que eu não conseguia entender completamente — uma parte de mim que queria se esconder, voltar a não sentir quase nada, trancar novamente meus pensamentos e emoções, como havia feito por tanto tempo.

— Ainda falta muito para chegarmos ao Império das Rosas? — perguntei a Sofia Mosby, tentando desviar minha mente desses pensamentos inquietantes.

— Ainda sim — respondeu ela calmamente. — Otto está analisando onde será o melhor local para abrir um portal que não cause um grande impacto na costa do Império Summer.

Imaginei o tamanho do estrago que um portal poderia causar ao transportar um navio como o nosso.

— Entendo... Mas por que ele não faz isso com menos coisas? Para um imperador, Otto gosta de fazer as coisas de maneira bastante extravagante — comentei, soltando um suspiro, e, por um breve instante, um sorriso divertido cruzou o rosto de Sofia. — Digo isso com todo respeito, claro.

— Marlon, você me lembra a falecida imperatriz — disse Sofia, com um sorriso simples e nostálgico. — Ela tinha o mesmo jeito com Otto, ou com o pai dele.

Olhando para ela, percebi uma expressão que não havia notado antes, uma vulnerabilidade que a cavaleira inexpressiva dos últimos dias não havia demonstrado.

— Quando Otto assumiu o trono, ele se tornou o equilíbrio entre os nobres e os plebeus. Até conseguiu que os homens-feras e o Império formassem uma aliança — continuou ela, o tom de sua voz misturado com respeito e orgulho. — Sou sua escolta desde nossa juventude. Mesmo com seu jeito travesso, ele é uma pessoa incrível.

As palavras de Sofia me fizeram recordar de uma cena em meu quarto, quando Otto disse que eu era a pessoa ideal para estar ao seu lado. Ele mencionou que meu intelecto e poder mágico, além da minha preocupação com o bem-estar dos outros, me tornavam o parceiro ideal que ele procurava. No entanto, ele havia estragado o momento dizendo que seria melhor se eu fosse alguns anos mais velho... Embora tenha tentado corrigir a situação, dizendo que seu sonho de uma família feliz não seria abalado por isso, as palavras ainda ecoavam em minha mente.

Naquele instante, meu coração acelerou de uma maneira diferente, me forçando a pedir que ele saísse do meu quarto, deixando-me sozinho. Assim que ele saiu, tranquei a porta e me joguei na cama, lembrando de uma época em que pensei estar apaixonado pelo meu ex-noivo, que, no fim, não passava de mais um esquema do meu primo. Foi doloroso descobrir a verdade, mas percebi que não poderia continuar preso a uma relação tão irrealista.

Coloquei-me em segundo plano, abandonando tudo por aquela relação, acreditando que ele valia mais do que qualquer coisa no mundo. Eu o amava de uma maneira que me consumia, e em todos os lugares, eu queria estar ao lado dele. Mas no final, foi uma ilusão, e essa época agora parecia tão distante de mim.

Voltei ao presente com um sobressalto quando alguém gritou para que nos segurássemos em algo. Olhei para frente e vi uma enorme porta azul surgir à nossa frente. Apoiei-me firmemente no corrimão enquanto o navio atravessava o portal, mergulhando em um novo e desconhecido destino.

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Em questão de segundos, minha visão foi inundada por um cenário de tirar o fôlego. À nossa frente se estendia um lugar onde o verde exuberante e as águas cristalinas coexistiam em perfeita harmonia com os recursos naturais do entorno. Lá embaixo, um porto movimentado abrigava trabalhadores que se dedicavam às suas tarefas, mas que rapidamente desviaram a atenção para o nosso navio. Seus rostos se iluminaram de surpresa e reverência, e todos começaram a apontar em nossa direção, proclamando algo que, pelo contexto, presumi ser o anúncio de que o imperador havia finalmente retornado.

O local era evidentemente abençoado com uma abundância de recursos naturais. No topo da montanha mais alta, erguia-se um imponente palácio, sua silhueta majestosa dominando a paisagem. Mesmo à distância, pude perceber que grande parte de suas estruturas estava entrelaçada com a vegetação, como se a natureza e a arquitetura tivessem se fundido em um só. Era uma visão impressionante, onde a riqueza não se limitava apenas ao ouro ou à prata, mas também à beleza e à vitalidade que emanavam de cada canto daquele lugar.

O contraste entre o ambiente natural e a grandiosidade do palácio sugeria uma terra próspera e um povo profundamente ligado ao seu imperador. O ar parecia carregar uma sensação de retorno triunfante, como se tudo estivesse em espera, aguardando a chegada daquele que governava com sabedoria e força.

O barco desacelerou até parar suavemente no porto, e descemos com calma, sentindo a excitação no ar enquanto a população se aproximava para nos receber. Cada pessoa presente fez uma reverência respeitosa ao imperador, que retribuiu com um sorriso sereno, irradiando uma aura de tranquilidade e liderança.

Enquanto nos acomodávamos no cais, uma mulher se destacou entre a multidão, seus olhos cheios de curiosidade fixos em mim, Arthur e Steven.

— Quem são vocês, exatamente? — perguntou, sua voz carregada de genuíno interesse.

Antes que eu pudesse responder, fui surpreendido por Otto, que de repente me envolveu em um abraço de lado. O calor de seu corpo e a proximidade inesperada me fizeram congelar por um instante, enquanto ele se voltava para a multidão, sua voz alta e clara ecoando pelo porto.

— Este é Marlon Shipka, o futuro professor de magia do império, ex-príncipe de Summer e, o mais importante, companheiro do príncipe — declarou Otto, suas palavras carregadas de uma confiança inabalável. Ele então me olhou com um imenso sorriso, seus olhos brilhando com uma diversão maliciosa. — E ele também é... meu futuro esposo.

O choque se espalhou instantaneamente pelos rostos ao nosso redor. As pessoas presentes estavam horrorizadas, suas bocas abertas em surpresa, como se tivessem acabado de ouvir a revelação mais inesperada de suas vidas.

— Não sejam rudes com ele — continuou Otto, sua voz firme, mas suave. — Ele é meu aliado e, em breve, será meu amado. O Príncipe dos Bruxos.

Pelo breve silêncio que seguiu, parecia que Otto tinha mais a dizer, mas, por alguma razão, ele decidiu mudar de ideia. Nesse momento, os murmúrios da multidão voltaram, invadindo meus ouvidos e minha visão, enquanto as pessoas ao redor começavam a expressar suas opiniões com entusiasmo.

— Ele parece incrível! — exclamou alguém.

— Eu gosto disso! — concordou outra voz, cheia de admiração. — É realmente ótimo que o mestre Otto tenha encontrado alguém tão lindo e digno, que claramente atendeu aos critérios para se casarem.

A animação das pessoas era palpável, mas enquanto observava tudo isso, uma onda de raiva e constrangimento subiu dentro de mim. Olhei para Otto com uma mistura de fúria e incredulidade, desejando poder esfolá-lo ali mesmo por sua audácia e pela situação embaraçosa em que ele me colocou. E, claro, isso só fez o brilho de diversão em seus olhos se intensificar ainda mais.

Ele estava se divertindo às minhas custas, e, por algum motivo, isso apenas reforçou o riso silencioso que dançava em seus lábios.

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Gostaram?

Até a próxima 😘

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