Bônus Dois
Narrador:
A luz encantada brilhou um pouco mais intensamente, despertando Lídia suavemente de seu sono. Ainda com os olhos pesados, ela seguiu sua rotina quase mecânica: lavou o rosto com a água fria de um pequeno balde ao lado da cama, sentindo o frescor despertar cada parte de si. Sem demora, pegou a velha vassoura que estava encostada no canto da parede e, com passos suaves, saiu da cabana silenciosa.
De pé na soleira da porta, Lídia respirou fundo, espreguiçando-se enquanto sentia o aroma da madrugada. O ar fresco contrastava com a escuridão que envolvia tudo ao seu redor. Com os olhos ainda entreabertos, ela aproveitou o breve momento de paz antes de começar a tarefa diária. Quando os abriu novamente, já com um brilho determinado, segurou a vassoura com firmeza e começou a dançar com ela, como se fosse uma extensão de seu próprio corpo. Movia-se com uma precisão graciosa, fazendo a poeira se erguer suavemente ao ritmo de seus movimentos. Tomava o máximo cuidado para não desordenar os papéis meticulosamente espalhados pelo chão — os planos complexos e enigmáticos de seu tio, que pareciam um enigma constante em sua vida.
A cabana era simples, quase rústica, mas havia uma pureza em sua simplicidade. As roupas de Lídia, brancas e antiquadas, eram impecáveis, refletindo uma disciplina que contrastava com sua juventude. Sua cintura, esguia e reta, lembrava a tensão de um arco prestes a disparar. Apesar de estar envolvida na tarefa mais humilde, seu semblante mostrava uma serenidade quase sagrada. O movimento da vassoura em suas mãos era delicado, quase coreografado, guiado não pela força bruta, mas pela precisão suave dos pulsos. O chão, antes coberto por uma fina camada de poeira e detritos, logo ficou limpo, como se fosse acariciado pela brisa.
Lídia era uma menina de apenas dez anos, mas carregava em seus olhos cinzentos, que brilhavam intensamente sempre que seu poder se manifestava, uma sabedoria inquietante. Seus cabelos, brancos como a lua cheia, contrastavam com sua juventude e transmitiam a carga dos segredos que carregava. Ela era a aprendiz de seu tio, um homem enigmático e rigoroso, que a guiava nos mistérios da magia. Apesar de todo o seu esforço, Lídia sabia que seu progresso era lento — três anos se passaram desde que começou a estudar e, ainda assim, ela só conseguira acessar um terço da magia primordial que existia dentro de si. Seu tio não a deixava esquecer que aqueles que vieram antes dela já haviam ultrapassado esse estágio bem antes dos quinze anos, alcançando posições elevadas e prestígio. Mas para Lídia, o futuro ainda parecia distante e nebuloso, envolto em suspiros e expectativas frustradas.
Seu progresso limitado a tornava alvo de desprezo, uma "mediocridade" nas palavras duras de seu tio. Ele não hesitou em utilizá-la em um ritual sombrio para trazer Matteo Shipka de volta dos mortos, uma experiência que quase a destruiu. Por três dias, Lídia esteve à beira da morte, consumida por febre, enquanto os sussurros dos mortos infestavam sua mente, atormentando-a com pesadelos terríveis. Gritos abafados de desespero ainda ecoavam dentro dela, mesmo depois que o pior havia passado.
A vida naquela casa isolada era um ciclo interminável de práticas e obrigações, sempre sob o olhar severo de seu tio. Lídia se lembrava com amargura das vezes em que ficou dias sem comer, punida por um feitiço malfeito ou por pronunciar incorretamente uma palavra mágica. O sorriso cruel em seus lábios quando a castigava era um lembrete constante do perigo que ele representava.
Ela sabia, no fundo de seu ser, que foi ele quem tirou a vida de seus pais assim que descobriu o potencial da magia primordial que ela possuía. A magia primordial, uma das forças mais antigas e temidas do mundo, havia moldado lendas e tragédias ao longo das eras. Em livros antigos, estava escrito que aqueles que nasciam com essa dádiva eram explorados como meros instrumentos, suas vontades esmagadas por familiares e conhecidos que os tratavam como objetos, sem direito a escolhas ou sonhos.
Lídia não era exceção. Seu tio a via apenas como uma ferramenta, fria e descartável, e ela aprendera a esconder suas emoções, a sufocar seus próprios desejos. Contudo, havia algo indomável dentro dela, um pequeno resquício de esperança que se recusava a ser apagado. Em meio ao silêncio da madrugada e à poeira que se dissipava ao seu redor, ela jurou a si mesma que, algum dia, encontraria uma forma de quebrar essas correntes invisíveis. Mas, até lá, tudo o que podia fazer era continuar dançando com sua vassoura, limpando não apenas o chão, mas também as cicatrizes em sua alma.
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Varrer o chão parecia uma tarefa simples, mas o tempo escorria devagar, como a manhã que se arrastava enquanto Lídia lutava contra sua própria fragilidade. Não era a força física que a exauria, mas sua saúde debilitada. O suor que escorria por seu rosto após a primeira refeição do dia revelava o quão precária era sua constituição. Cada movimento exigia mais dela do que deveria, tornando até as tarefas mais banais um esforço monumental.
Foi então que ouviu passos pesados se aproximando. O coração de Lídia disparou, e ela se afastou instintivamente ao reconhecer a silhueta de seu tio, acompanhado por seus aliados sombrios. Eles estavam prestes a discutir o plano para tomar o controle do Império das Rosas. Ela sabia que aquela conversa não era para seus ouvidos. Manteve-se à distância, observando da penumbra enquanto eles falavam em sussurros carregados de malícia.
Seu tio estava visivelmente irritado. Matteo, o homem a quem tanto temiam, havia sido eliminado antes que o plano pudesse ser executado, e por ninguém menos que Marlon Shipka, em uma batalha que durou segundos. Lídia mal conseguia conter seu prazer ao lembrar da cena. Ela odiava Matteo com todas as suas forças e sentia uma estranha satisfação ao saber que ele foi derrotado de forma tão humilhante. Seu corpo agora era uma casca instável, uma lembrança frágil do poder que ele um dia ostentou.
Mas essa alegria foi breve. Quando seu tio mencionou que Lídia não faria um feitiço para criar um novo corpo para Matteo, ela se sentiu aliviada, apenas para logo em seguida ver algo que fez seu sangue gelar. Uma figura encapuzada emergiu das sombras, suas mãos contorcidas envolveram o corpo destruído de Matteo, e com um toque maligno, sombras começaram a se fundir com a carne despedaçada, tentando restaurá-lo. Aquilo era um terror vivo, algo além do que uma criança deveria testemunhar.
Era nesses momentos que Lídia sonhava com outra vida — uma vida onde não fosse tratada como uma ferramenta, mas como um ser humano. Ela ansiava, no mais profundo de seu coração, por alguém que simplesmente se importasse com ela, que a visse além do seu poder e a tratasse com o carinho que nunca conheceu. Mas ninguém nunca perguntou o que ela realmente desejava. Para todos ali, Lídia era apenas um meio para um fim.
Seu destino foi decidido sem que tivesse voz. A única certeza que carregava era que, enquanto estivesse viva, precisaria continuar obedecendo. De certa forma, havia aceitado aquele caminho, onde sobreviver significava não ter escolhas. Mas os sussurros dos mortos, sempre presentes em sua mente, diziam para fugir. Cada palavra espectral pedia que ela deixasse aquele pesadelo para trás, mas o medo a mantinha presa.
Ela queria viver. Abraçou a vassoura contra o peito, como se aquele simples objeto pudesse lhe dar alguma segurança. Seu tio saiu da cabana, caminhando em sua direção com passos pesados. Lídia observou enquanto ele avançava, a escuridão envolvendo sua figura. No instante seguinte, uma explosão violenta sacudiu o chão, lançando-os em direções opostas.
O caos se instaurou. Lídia, assustada, fugiu o mais rápido que suas pernas podiam. O grito de raiva de seu tio ecoava pelo ar, mas ela não ousou olhar para trás. O frio cortante atravessava suas roupas encharcadas de suor, penetrando em seus ossos. Tudo ao seu redor parecia flutuar por um momento, antes de colapsar em direção ao solo. A dor que percorreu seu corpo foi lancinante, mas não havia tempo para lamentar. Precisava fugir.
Ela sabia que não podia continuar naquela casa, sendo manipulada como uma marionete sem vida. A explosão foi a última gota. Com o coração batendo descompassado, Lídia correu, tropeçando enquanto as lágrimas ardiam em seus olhos. Mas ela não parou. Mesmo quando suas forças falharam e caiu de joelhos, começou a engatinhar, determinada a escapar daquele inferno.
Quando finalmente viu o céu se abrindo à sua frente, sentiu uma ponta de esperança. As nuvens se moviam lentamente, como se o mundo estivesse em pausa para observar sua fuga. Lídia continuou rastejando, ignorando a dor que pulsava em cada parte de seu corpo. Ao seu redor, algumas flores solitárias desabrochavam, como se estivessem saudando sua liberdade recém-conquistada. Mas será que essa liberdade duraria? O futuro ainda era incerto, mas pela primeira vez, Lídia sentiu que talvez, só talvez, pudesse encontrar algo além da escuridão que sempre a cercou.
— Finalmente estou livre — sussurrou Lídia, sentindo um breve e ilusório momento de alívio. Mas antes que pudesse tomar outra respiração, algo agarrou seus tornozelos com brutalidade. Ela se virou rapidamente e viu, horrorizada, uma das criaturas criadas por seu tio.
A criatura tinha braços desproporcionalmente largos e garras que pareciam lâminas afiadas, prontas para rasgar carne com facilidade. As garras cortaram sua pele com um movimento cruel, e a dor lacerante percorreu seu corpo. Ela mordeu os lábios para conter o grito que ameaçava escapar.
— Você tem um talento curioso para se contorcer quando está sob ataque, como um inseto desprezível. — A criatura rosnou, sua voz grossa reverberando no ar com uma maldade quase palpável. Uma corrente densa e pulsante de vida escorria por seu rosto deformado. — Você decepcionou muito meu mestre ao agir daquela forma!
Lídia engoliu em seco, lutando para não desmoronar. Seus olhos marejados buscavam desesperadamente uma saída, mas todo o seu corpo tremia. Ela sabia que voltar para as garras do seu tio seria o pior dos destinos. O medo esmagador tentava arrancar o resto de sua força, lembrando-a de que, no final das contas, ela era apenas uma criança magra e frágil de dez anos. Ainda assim, cerrou os dentes, teimosa, enquanto a dor latejava em cada corte e em cada músculo.
Enquanto lutava para se libertar, a magia ao redor da criatura começou a reagir, vibrando com uma intensidade que fez ambos perceberem que algo estava errado. Em um instante, o chão sob eles explodiu com uma força devastadora. Lídia foi arremessada violentamente para longe, sentindo o ar sendo arrancado dos seus pulmões. A queda seria fatal, ela tinha certeza disso. Contudo, antes que pudesse atingir o chão duro, algo a envolveu gentilmente no ar.
Havia um cheiro distinto que tomou conta de seus sentidos – algo frio e cortante, não de sangue ou sujeira, mas de uma presença intensa e enigmática. Uma voz masculina, firme e segura, rompeu o silêncio.
— Acho que nosso momento foi drasticamente interrompido — disse a voz com um tom ligeiramente desapontado.
Com esforço, Lídia abriu as pálpebras pesadas e viu, através de sua visão embaçada, um homem a segurando calmamente, como se o caos ao redor não fosse nada. Ao lado dele, um rapaz de óculos observava a cena com uma expressão doce, mas analítica.
Antes que Lídia pudesse entender o que estava acontecendo, o rugido da criatura ecoou pela floresta e ela viu, aterrorizada, a besta saltando em direção aos três com uma fúria implacável.
— Acho que há uma passagem para esse lugar — comentou o rapaz de óculos, com uma voz tão suave quanto preocupada. — Mas o mais importante agora é garantir a segurança desta garotinha.
Lídia queria reagir, queria lutar, mas sentia-se exausta, seu corpo e mente já não respondiam. As últimas reservas de energia a abandonaram. Ela tentou se agarrar à consciência, mas tudo ao seu redor começou a desaparecer. A luz que antes iluminava seu caminho sumiu, e sua visão se tornou negra como a noite.
Com a última fagulha de força, um sussurro trêmulo escapou de seus lábios pálidos.
— Me salve...
Então, tudo se desfez em escuridão completa, e sua consciência se desintegrou como poeira ao vento.
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Gostaram?
Até a próxima 😘
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