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Mesmo Angeline opondo-se, Ettore transferiu-a para um pequeno hospital de freiras. Era vigiada por uma noviça grande parte dos dias. Quando estava sozinha, observava o quarto. As tentativas de desenhos de Tomé na cabeceira. A máquina de escrever na outra... Mas o que mais buscava sua atenção era o sonho no teatro. A garotinha que tossia e a chamava. Era a mesma da foto dada pelo homem dos passos pesados. A imagem que estava debaixo dos rabiscos do gêmeo.

Pegou ela. O sonho foi a materialização do dito pelo homem de passos pesados e da imagem. Uma vontade interna de haver uma verdade naquilo criou sua filha. Ou a reviveu. Lily pouco parecia com a garotinha. A cena inicial no casebre foi feita para ser ouvida pela mulher. Talvez Ettore soubesse de uma possível perda da mãe e quisesse forçar mais o esquecimento do trauma.

Angeline sentou-se na cama. Fingindo que era sua cadeira e que estava de frente para o mar. Arrastou a mesa de cabeceira com a máquina. Checou a folha. Reposicionou-a. Olhou para o calendário. E começou a escrever:

"Palermo, 3 de julho de 1942.

Não havia paralelepípedos na rua. Pois não continha desequilíbrio. Nunca houve quedas. Pois não continha origem. O irmão era inútil. Pois era único. O trauma da irmandade está fresco. Claridade necessitada de uma grossa camada de lama. A dos pés pesados de um enganador. Enganos compreensíveis e compreendidos. E talvez vindos de um desejo. Ó, filho meu! Obrigada por tentar me fazer não lembrar!

De Angeline Dellatorre

Para Angeline Dellatorre."

Dobrou a carta e colocou-a em cima da imagem. Era a primeira que contrapunha a atuação. A peça teatral para sua memória. Cuja percepção veio do lugar correto.

O homem de passos pesados e ela estavam também na imagem. Ou fingiam estar. O olhar para a velha foto foi interrompido pela noviça que entrou no quarto.

Ela disse com voz sossegada: "Escove os dentes, Angeline. Seu café está pronto."

A paciente acenou com a cabeça, escondendo da enfermeira o desconforto por estar ali. Tirou o lençol do corpo e sentou-se na cama, sabendo do auxílio que receberia. A freira abraçou com um braço Angeline. Ambas eram magras, mas a assistente era mais forte que a outra.

Mesmo estando bem; sem problemas presentes graves, estando somente em observação, a jovem preocupava-se meticulosamente com a mais velha. Como de mãe para filha. Uma filha para Angeline...

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