I
"Palermo, 22 de março de 1942.
Ela balança. Para trás, em seu passado esquecido. Para frente, em seu olhar que não alcança. O alcance que busca é algo impossível. Busca chegar na Itália de antes. A que viveu com seu filho. Inacessível para seus olhos na ilha da Sicília. Assim como é seu passado. Quando vivia na cidade de Roma. Esta foi a primeira coisa que lembrou. A primeira e única memória fruto do balançar. Da cadeira do litoral da Sicília.
de Angeline Dellatorre
para Angeline Dellatorre"
***
Ettore dobrou a carta e explicou para Lily: ''Ela passa boa parte do dia sentada. Ou escrevendo coisa, ou olhando pro horizonte.''
Os dois discutiam, enquanto a mulher balançava-se na cadeira.
Lily questionou: "E... Ela simplesmente recuperou a fala, a audição, a visão e o movimento das mãos assim? De repente?"
Ele engoliu seco e afirmou com a cabeça. Suspirou. E lembrou-se de uma cena: "Após ela acordar... Perguntou-me quem eu era. Eu fiquei confuso. Pois... ela voltou a falar e... E olhava diretamente para mim... E... E eu notava que ela mexia a mão por baixo do lençol..."
A outra pareceu sentir pelo irmão maior. Mas opinou: ''E... E por que não dizer a ela o que aconteceu? Não é mais simples?''
Ele discordou com a cabeça, explicando: "Naquela situação, na sala de hospital, com eu vendo ela... Ela recuperada de tudo. Movia as mãos, enxergava... ouvia... Eu não pude negar confidencialidade sobre seu passado. Ela quis isso. Eu só pude dizer que sou seu filho."
Ela continuou sentida: "Mas... Você a lembrou de mim?"
Sua calma se foi. Ele alterou a voz: "Não ouviu? Ela só queria saber sobre mim! Não posso forçá-la a lembrar-se, se ela insiste em não querer ajuda!" E culpou a irmã, ironizando-a: "Talvez se você estivesse conosco, ela quisesse se lembrar."
Ela justificou-se: ''Não me recrimine, Ettore! Eu estive em Toronto a trabalho e você sabe disso!''
Ele continuou o tom: "Seu trabalho era mais importante que sua mãe quase morta numa cama. Ok. Entendi.'' E forçou uma voz amena. ''Fale baixo, ou ela irá ouvir. E vamos embora logo, antes que ela reclame de companhia.''
A mulher abaixou a cabeça. E também falou com voz moderada: ''Mas... mas eu quero falar com ela. Para me reaproximar...''
O outro respondeu: ''Ela vai mandar você embora. Ou vai te ignorar até que vá por conta própria.'' E também abaixou a cabeça. ''Mamãe não se lembra de você, Lily.''
A mulher encontrou um drama. Encharcou-se de lágrimas e de desconfiança rapidamente: ''Eu... eu não acredito! Você está fazendo isso pra ficar com a herança dela... pra sua esposa e pra seus filhos! Pra que... pra que ela morra louca e esquecida neste casebre!". Foi até o irmão: ''Ela não pode ter perdido toda a memória, Ettore! E não pode ter se recuperado de tudo assim! Isso é impossível! E... Aquele atentado jamais...'' E calou-se com um tapa.
O mais velho engoliu seco: ''Certo! Vá lá e prove que estou errado! Prove que inventei tudo! Prove que ela se lembra de você!''. E respirou, antes de abaixar a cabeça de novo, como que desculpando-se.
Ela seguiu o dito pelo irmão. Subiu o andar. Abriu a porta da varanda. O ranger das dobradiças paralisou o balançar da mulher. Angeline paralisou o olhar para o lado. Para o da outra.
Com a maquiagem manchada. Com as lágrimas grudadas no rosto. Com os joelhos grudados no piso de madeira. Gesticulando, e com a mão segurando a da outra, Lily perguntou, baixinho: ''Mamãe... lembra-se de mim? Sou Lily. Sua filha mais nova.''
Angeline fugiu do olhar dela, recolheu a mão e gritou: ''Ettore! Quem é essa? Eu já te disse que não preciso de nenhuma enfermeira!''
As lágrimas se desgrudaram do rosto da irmã. Sua boca abriu-se de surpresa. Ettore levantou-a. Os joelhos se desgrudaram do chão.
Angeline pensava. E reparava na moça. Em todos seus pormenores. Nas cicatrizes dos dois calcanhares. No cabelo cacheado. E ainda sentia a mão dela.
Eles voltaram para o andar de baixo. Lily limpou o rosto e incomodou-se, alterando a voz: ''Não... Como isso é possível? Vivi vinte anos com ela antes do acidente. E... e ela está falando... E sentindo as mãos... E... nem se lembra de mim?!''
Ele aproximou-se do ouvido dela e sussurrou: "Já deu."
Angeline pensava no que ouviu do diálogo forçado. E voltou a balançar-se. Admirava o agito do mar.
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