Capítulo Quatro.

Do lado de fora os flocos de neve caíam unitariamente. O céu estava nebuloso e as nuvens enroladas sob si mesmas como os panos encardidos e retorcidos que Laura Gross pendurava no varal dos fundos. Os trilhos de trem estavam mais uma vez soterrados e os trabalhadores tinham grandes dificuldades para manter a viabilidade de qualquer tipo de transporte naquele continente.

Em Inverno as estradas não eram tão utilizadas quanto as ferrovias. Metade dos mantimentos e matérias prima percorriam o continente de gelo balançando em caçambas apoiadas em trilhos de metal. Com as irregularidades no clima, os pequenos mercados estavam com falta de mercadoria. Com as irregularidades no clima, poucos trens chegavam, poucos trens partiam e menos ainda se produzia em um continente que quase não permitia uma única flor nascer. Mas o trem das autoridades sempre dava um jeito de chegar. Hadassa estava contando com isso.

Enquanto o continente colapsava, Inverno havia estado na casa dos Gross. Vergonhosamente enfermo.

Era fato que o continente não parecia tão terminal quanto sua deusa, mas sem dúvida estava em linhas de se desmantelar por completo. Mas aquilo não assustava Hadassa. Todos os continentes estavam desabando, era apenas se atentar aos noticiários. O mundo estava partido. Gaeaf não a assustava com suas palavras bonitas. E ela só tinha uma coisa em sua cabeça. Isso era tudo que sabia. E iria até o fim.

– Então você está indo. Mais uma vez – a voz de Laura soou um pouco entristecida. Um pouco desamparada. Ela tentava engolir a noticia ao a explanar ao mesmo tempo em voz alta. Não estava funcionando muito bem.

Desde que havia chegado em casa, acompanhada de seu marido, seus olhos perdiam o brilho cada vez mais, em uma evidente vitória de seu lado protetor em detrimento a sua consciência.

Hadassa e Giordanna se entreolharam, cientes de que a culpa da cara de desamparo infiltrada no rosto de Laura era das duas. Contudo, não conseguiriam desistir. Não quando estavam tão decididas. Quando alguma coisa fazia sentido na cabeça de qualquer um dos Gross, eles iam até o final. Laura e Samuel sabiam disso, mas mesmo assim não deixavam de se sentir ligeiramente desolados.

– Não estava preparado para perder minha filha outra vez – Samuel compartilhou, ligeiramente entristecido. Hadassa se aprumou após sua fala, respirando fundo. – Você mal voltou.

– Sim, e não está nada bem – Laura completou por ele, com a sua voz tenra e seus olhos marejados. Foi então que Hadassa finalmente retrucou.

– Eu estou ótima.

– Eu consigo sentir o cheiro de seu hálito daqui – sua mãe acusou de volta, o que fez Hadassa inspirar sem paciência.

– Isso é exagero. Eu bebi alguns goles apenas!

– Antes do almoço! Isso não é saudável!

– Laura – antes que o tom de voz de Laura Gross aumentasse alguns mínimos decibéis, Samuel interviu, segurando a mão da esposa e forçando todas as mulheres que dividiam espaço com ele prestarem atenção em sua boca fina, esperando pelo prosseguimento de sua fala. Samuel era sempre o mais racional das quatro, e sempre fazia questão de dar a palavra final. Era dele que Hadassa havia puxado sua rigidez e desconfiança. O patriarca suspirou em desalento, e quando o fez, uma pontada de cinismo foi detectada por todas as Gross. – Precisa mesmo ir atrás desse rapaz?

Hadassa não vacilou meio segundo antes de o responder.

– Sim. Eu não abandono pessoas, pai. Eu não estou abandonando vocês – retirou seu olhar do firme de seu pai para pousar no marejado e doce de sua mãe. – Eu voltarei, como da última vez. Eu só preciso consertar a porcaria que fizemos. Todas elas.

– E eu estou indo também – por algum motivo nebuloso, Giordanna achou que aquele seria o momento perfeito para confessar a seu pai que também estava partindo. Sua fala fez o mais velho deixar seu queixo cair, mas ela continuou sem hesitar, encarando-o a fundo. – Papai, eu me alistei.

– Pelos deuses! – exclamou, apertando a mão que sua esposa. Laura chorou baixinho. Samuel inspirou profundamente, claramente anestesiado. Mas, não demorou muito tempo para voltar a dizer: – Vocês certamente puxaram isso da sua mãe.

Brincou, mesmo que suas palavras saíssem trêmulas pelos tapas dados em cada uma pela tristeza que sentia. De certa forma, nenhum pai gostaria de ver suas duas filhas a mercê de um mundo como aqueles. Mas as suas garotinhas pensavam ao contrário, e ele nunca poderia as segurar. Não quando as havia ensinado tão bem a serem tão livres quanto as nuvens.

– Só peço que voltem.

Reivindicou o mais velho, mais uma vez firme, pragmático e ligeiramente incrédulo.

Giordanna mordeu seus lábios emotiva, debruçando-se para segurar a mão que seus pais compartilhavam. Seus dedos apertaram o dos dois com uma afetividade quase visível. Seu rosto se acendeu em uma pureza capaz de cegar qualquer impositor. Laura deixou mais lágrimas caírem. Samuel sorriu com certo esforço e Hadassa assistiu a cena em silêncio.

– Eu amo vocês – confirmou a mais nova, com um sorriso em seu rosto angelical, antes de voltar seu olhar para Hadassa e sorrir com mais avidez. – E você também, irmãzinha – soltou, tratando de puxar a mão de Hadassa e a obrigar a se juntar aos três. A morena resmungou com o gesto, mantendo sua mão colada aos dos outros apenas por estar sendo obrigada. Mas, mesmo não sendo a maior fã de demonstrações de carinho como aquela, não conseguiu evitar sentir uma palpitação em seu peito. Mais uma vez as palavras de Gaeaf sussurraram em sua cabeça. Tornando-a indigesta, confusa e naquele instante, ligeiramente assustada.

– E nós amamos vocês – Samuel ratificou, com a voz embargada, o peito apertado, mas nenhuma lágrima nos olhos. As irmãs não se lembrariam de ter visto seu pai chorar nenhuma vez. Hadassa também evitava chorar. Seu pai a havia dito uma vez que isso era sinal de força. Giordanna o havia questionado. Gross nunca mais chorou.

Chorara por Hass.

Had se sentiu mal. Com os olhos tão secos quanto os de Samuel, ela puxou suas mãos com pressa, pensando. Nenhum dos seus três familiares protestaram, já acostumados com aquele comportamento. Mas eles não sabiam o que se passava na sua cabeça dessa vez. Não sabiam nem metade do que acontecia em seu cérebro naquele exato momento.

– Muito mesmo.

Laura acrescentou, chamando novamente a atenção de Hadassa. Os olhos da menina fixaram o de seus pais. Laura fungou.

– Por favor, prometam que vão escrever o máximo que conseguirem – a mãe suplicava, acariciando de forma quase inconveniente os dedos claros de Giordanna. A mais nova assentiu e então a sua atenção se voltou para a mais velha. – Hadassa, você pode escrever para sua irmã.

Apontou, de forma gentil. Então todos os olhares da mesma cor se voltaram para os nada discretamente errados da filha mais velha. Ela suspirou antes de responder:

– É. Escreverei.

– Eu estou tão animada! – Giordanna exclamou, sorrindo. E então a conversa foi desviada para ela e Hadassa foi deixada comodamente sozinha com seus pensamentos.

Foi então que se embolou de vez na teia de sua mente.

Estava certa do que fazia. Certa do que devia fazer. Mas também estava certa de que todas as palavras deferidas por Gaeaf eram verdade. Aquela última certeza a deixava completamente incerta do que aconteceria se ela simplesmente as ignorasse. Tentou se apoiar em seu apurado pressentimento, mas ele parecia amortecido naquele instante. Tudo que ela tinha para se apoiar era a sua voracidade. Ela levou aquilo como um sinal. Quaisquer que fossem as circunstâncias, ela partiria. E faria de tudo para voltar e não decepcionar seu pais. No final, tudo que menos queria era mentir para eles mais uma vez.

Dantas e Saory foram largados no quarto de visitas com as camas desarrumas quando Laura chegou do mercado acompanhada de seu marido e deu de cara com a situação na qual havia sido inserida. A conversa entre os Gross era particular, então os dois convidados ocuparam a força o quarto de hóspedes desarrumado.

Foram longos minutos de tédio naquele quarto apertado. Saory se sentou em cima da cômoda e basicamente palestrou um infinito monólogo por todo ele, enquanto Dantas arrumava sozinho os lençóis os quais nada higienicamente pisavam. Esporadicamente, o rapaz se irritava com a folga da princesa e jogava algum lençol para ela dobrar. Ela o fazia sem reclamar, mas era péssima nisso. O que não incomodava Dantas, que simplesmente não assistiria ela o escravizar. Portanto, enquanto falava, Saory dobrava com completa inexperiência os tecidos ao mesmo tempo que Dantas fingia escutar todo seu discurso sobre morar com Raíssa Cartelli.

– Ela consegue derrubar três caras de uma vez, Dantas! – exclamou, em algum ponto, realmente encantada. – E depois fazer suco de melancia.

– Ela é uma caçadora vegana – argumentou, balançando as poucas cobertas que faltavam dobrar. Céus, eram muitos cobertores usados em Inverno. Ele odiava aquele lugar. – O que você esperava?

– Ela não é uma ex-caçadora vegana. Ela é fabulosa.

Dantas riu ironicamente, sem conseguir evitar. Aquilo fez Saory arquear uma das sobrancelhas, ofendida. Ele não se preocupou minimamente com sua expressão, continuando:

– Fabulosa? Ela é uma assassina.

– E a pessoa mais doce que já vi – defendeu, balançando as pernas e apoiando a mão no único lençol que havia dobrado bem. – Ela conversa com os animais.

– Ah, ótimo. Ela é assassina e maluca. Saia de perto dessa garota, Saory – jogou o penúltimo edredom que precisava ser dobrado ao lado da cômoda. Sua expressão se fechou subitamente. Ele realmente se preocupava com a interação entre Saory e sua irmã caçadora. – É sério.

– Pare de ser cismado. Ela é boa para mim. Realmente boa. Mas eu simplesmente não a entendo...

– Claro que não. Vocês não conversam.

– Conversamos sim – defendeu-se, cruzando os braços. – Só não temos... tempo.

– Ah, claro. São muito ocupadas, não? – ironizou, debruçando-se para agarrar o último cobertor. – Com as sopas de abóbora e o pote de vagalumes...

– Com os combates, Dantas – explicou, tentando manter sua paciência. A lareira ao lado dos dois estava acesa, mas de alguma forma, parecia cheirar mal. Apenas Dantas se incomodou com aquilo. – Estamos protegendo a adaga.

Caique ainda estava contrariado o suficiente para debochar sem pudor.

– Uau. Muito nobre da parte de vocês.

– Não brinque com isso – pela primeira vez naquele diálogo, Saory usou seu tom de voz da realeza. O autoritarismo o atingiu em cheio. Dantas parou o que estava fazendo para a encarar. Seus olhos verdes falsos estavam fixos em seu rosto, e pareciam debulhados em flamulas e ansiedade. – Foram cinco ataques. Dezenas de homens mortos. Depois do primeiro Raíssa foi atacada no mínimo cinco vezes. Ela me defendeu em todas elas e em nenhuma saiu com mais de um arranhão. Eu... cortei a perna, o pé... – Dantas arregalou seus olhos, Saory cruzou seus braços, dramática, afrontosa. –  Sim, eu podia ter morrido e então você ia se desfazer em pó de tanta saudade – aquela sentença fez o seu amigo bufar, voltando a dobrar o lençol. Saory continuou, séria: – Não brinque com isso. É sério. Eles são... agressivos.

Completou, engolindo a seco no final. Suas pernas passaram a balançar com mais velocidade e Dantas percebeu que estava verdadeiramente preocupado. Dobrou pela última vez o último lençol, pousando-o ao lado de Saory e a cedendo toda a sua atenção.

– Princesinha – começou, fraternalmente. –  Não seria melhor você...

– Vamos.

Antes que Dantas pudesse terminar a sua sentença, a porta foi aberta com velocidade e sem cerimônias por Hadassa Gross. Os dois convidados a encararam confusos. Ela não se incomodou o suficiente para explicar sua intromissão antes de adentrar o quarto, pisotear a arrumação de Dantas e aquecer sua mão na lareira.

Saory e Dantas se entreolharam por alguns instantes antes que o viajante finalmente soltasse:

– O quê?

– Cartelli, faça sua mágica e consiga um trem para a gente – finalmente, Gross explicou, sem ao menos se dar o trabalho de os encarar. Seus olhos estavam perdidos nas chamas. – Estamos partindo.

A princesa encarou Dantas, buscando alguma explicação. Ele parecia tão confuso quanto ela.

– Ok... – arriscou a ruiva, desentendida. – Mas eu não tenho um celular aqui...

– O próximo trem das autoridades passa amanhã – Dantas respondeu por ela. – Eu perguntei o itinerário quando saí.

Aquela informação fez Hadassa se aprumar.

– Ótimo – exclamou, com pouquíssima emoção em seu rosto. Suas mãos foram acomodadas em seu bolso antes que ela voltasse a falar: – É um longo caminho até lá. Vamos.

Ambos franziram a testa.

– Você o ouviu? – Cartelli indagou. – É só amanhã...

– Sairemos agora.

– Mas...

– Cartelli. Agora.

Saory não gostou daquele diálogo, então cruzou os braços, pronta para argumentar por horas.

– Não é necessário ir tão cedo, Gross.

– Coisas podem acontecer no caminho que nos atrasarão – soltou, forçando um arrepio a subir a espinha de Saory.

– Que coisas? – indagou, desconfiada.

– Estamos em Inverno. Neve. Frio. Vamos. Levante sua bunda dessa cômoda torta e se prepare para caminhar.

– Gross, eu não acho que...

– Saory – foi a vez de Dantas de a interromper, ciente de que aquele embate entre as duas não acabaria tão cedo se não intercedesse. Ciente de que Hadassa estava exagerando, mas não querendo a contrariar. Não ainda. – Não adianta discutir com ela. Vamos. Venha.

Por sorte a princesa parecia mansa o suficiente para acatar o que ele falava. Então não fez mais cena alguma quando ele estendeu seus braços para ajudá-la a descer com classe da cômoda envelhecida. Saory caminhou até o outro lado para pegar sua pasta sem falar nada, puxando a identidade de Dantas do lado de dentro e a passando para seu dono. Aquilo fez Hadassa cruzar seus braços, arqueando uma das sobrancelhas.

– Dantas. O que está fazendo? – indagou, com a testa franzida. A ofensa estampada em seu rosto fez Caique franzir sua testa. Por que ela estava ofendida agora?

Como se não fosse óbvio, ele balançou a identidade que tinha em mãos.

– Separando minha identidade para entrar no trem.

– Para quê? Você não irá com a gente – soltou, com uma convicção absurda, pegando todos de surpresa.

– O que? – Dantas e Saory indagaram, em uníssono. Hadassa cruzou seus braços, impassível.

– Você não precisa trabalhar?

E foi com esse questionamento inocente que Dantas finalmente passou a entender o motivo de estar sendo excluído da busca do seu melhor amigo. Aquilo o deixou minimamente frustrado e arrependido de ter a defendido da língua afiada de Saory segundos antes. O suficiente para alfinetar a sempre estressada Hadassa Gross.

– Eu trabalho, boneca.

– Nunca vi.

– Nem eu – Saory se meteu, também entendendo o rumo daquele diálogo, recebendo uma encarada ofendida do amigo em resposta. Agora ela também havia mudado de lado. Claro que havia. Irmã estava sendo um assunto delicado para ela naqueles dias. – Desculpa, Dantas, mas é verdade.

– Viu – pela primeira vez, Hadassa concordou com algo que saía da boca da princesa. Saory apreciou ser validada pela outra. – Você é um viajante, não? Achei que devesse estar na Vigia.

– Hadassa, eu sei o que está fazendo – apontou, extremamente sério. – Então pare, ok? Sem chance. Ele é meu irmão.

– E ela é minha irmã – argumentou, aumentando seu tom de voz. – Podemos fazer isso sozinhas.

– Hadassa, não. Eu...

– Dantas. Você sabe o que Hass diria se estivesse aqui.

Aquela simples frase fez Caique inspirar profundamente. Claro que ele sabia. Erick falaria para cuidar de Giordanna como um dia foi cuidado por seu avô. Por alguns segundos, tudo que ele fez foi pensar. Era claro que elas podiam fazer isso sozinha. Mais que isso, confiava que Hadassa faria de tudo para resgatar seu amigo. Mas era difícil o abandonar. Ele realmente não cogitou em nenhum segundo isso. Era difícil largar o serviço sujo na mão das duas. Era difícil estar na Vigia sabendo que o seu maior aliado estava sendo feito de marionete por uma deusa. Mas era mais difícil ainda olhar para o rosto daquela mulher a sua frente. Mais ainda para os seus olhos. Sempre tão misteriosos, tão ariscos. Naquele momento, quase tão esperançosos quanto perigosos. Quase tão desesperados quanto indestrutíveis. Ela estava com medo de perder sua irmã. Ele poderia ajudá-la. Ajudar a segunda neta do homem que o deu tudo. Ele não podia simplesmente ignorar aquele pedido. Não poderia. Por Alejandro, por Hadassa, por Giordanna, por Erick. E ele não o faria, mesmo que não quisesse ser colocado no banco do reserva, sabia que era o melhor que poderia fazer no momento.  Às vezes recuar e confiar era o melhor a se fazer.

– Dantas? – quando Hadassa perdeu a paciência e resolveu o chamar, o viajante não conseguiu se segurar. Mesmo que estivesse convicto de sua decisão, nunca perderia a chance de provocar alguém como Hadassa Gross. Não quando ela havia estragado seus planos ao o pedir, indiretamente, algo irrecusável como aquilo.

– Você só precisa pedir, Hadassa.

– Ela não vai. E ele fará – para o azar de Caique, Saory havia realmente escolhido um lado naquela discussão. E agora ele não teria mais nenhuma chance. Mesmo se não tivesse aceito até então, o faria à força.

– Ei. Quando isso virou um complô contra o Dantas? – indagou, acabando com o resto de paciência que Hadassa cultivava. 

– Isso não é uma piada, Dantas.

– Eu sei que não. Eu vou cuidar de sua irmã, Gross – afirmou, um pouco desconfortável, apesar de convicto. – Prometo.

– Ótimo, porque se ela se machucar eu vou caçar você.

Caique sorriu fraco.

– Não esperaria menos que isso. Eu vou cuidar dela. Acredite em mim.

– Acreditamos – Saory respondeu por Hadassa, sorrindo para seu amigo. Dantas sorriu de volta e Gross suspirou, pensando por alguns segundos antes de voltar a realidade.

– Vamos, Cartelli – foi só o que disse antes de abrir caminho e começar a caminhar até a porta. Saory fez uma careta ao se lembrar da ideia da menina.

– Isso é mesmo necessário? Quer dizer...

– Hadassa – Dantas interrompeu o miado de Saory com sua voz mais firme. Saory cruzou os braços contrariada. Gross fixou seu olhar desinteressado no seu. – Traga-o de volta.

– Eu irei.

Dantas sorriu fraco.

– Nos vemos.

– Nos vemos.

E então Hadassa saiu do quarto sem mais cerimônias; Saory a seguiu, sem nenhuma escolha, e os preparativos finais para a partida das duas foram organizados em minutos. O que era tempo demais. A cada segundo que passava, o frio do lado de fora se tornava brutal, inconstante e completamente direcionado.

Tinham que sair o mais rápido possível de Inverno, ou então não sairiam mais.

Trinta minutos se passaram desde que Hadassa quase obrigou Saory Cartelli a sair daquela casa quentinha e enfrentar com um dia inteiro de antecedência o frio para pegar o trem na estação. Naquele meio tempo Hadassa se despediu mais uma vez, pegou sua mala e recebeu mais abraços do que gostaria.

Aquela partida era diferente da primeira. De certa foma, sentia-se mais culpada ao receber abraços de despedida do que quando fugira sem olhar para trás. Era mais simples sumir do que arcar com os sentimentos alheios.

Durante os minutos que antecederam am partida, Dantas se deu bem com Samuel e com Laura, e passara longos minutos os convencendo que Giordanna não morreria na Vigia. Saory papeou com Giordanna, enquanto essa fazia chocolates quentes. E, pelo pouco diálogo que tiveram, Saory sabia que aquela menina seria mais do que mais uma simples viajante. Giordanna era uma menina doce, isso era indiscutível, mas ao mesmo tempo, era brutal. Saory adorara sua personalidade de primeira. E tinha certeza que ela se daria bem demais na Vigia. Mais que isso, que seria uma boa companhia para Dantas.

Depois que Saory terminou seu chocolate quente, Hadassa a fez lembrar que precisavam partir. Mas, ao ser sufocada pelos seus familiares mais uma vez, Dantas viu a oportunidade perfeita de se juntar a ruiva na cozinha. Afinal, eles também tinham que se despedir. Inesperadamente, essa era uma jornada que fariam separados. E Dantas achava engraçado como as coisas haviam se invertido. No presente, ele não escolheria seguir ao lado de Saory por pena. Ela sempre seria sua primeira escolha, e ele estava chateado em ter que a dar tchau mais uma vez.

– Nos vemos então, princesinha – soltou, assim que adentrou a pequena cozinha aquecida, com um sorriso forçado no rosto. Saory soltou sua caneca para sorrir de volta.

– Esse foi um encontro relâmpago – apontou. – Menor do que eu esperava. Nem tivemos tempo de conversar sobre...

– Sim, eu também – ciente do assunto que ela gostaria de emendar – seu ex-noivo – Dantas a cortou, forçando-a a suspirar e se colocar de pé. – Agora você vai conseguir fugir de mim por mais alguns meses.

– Eu não estava fugindo de você – começou, recebendo uma sobrancelha arqueada como resposta. Dantas sabia, então ela não teve como seguir com sua mentira. – Ok, talvez um pouco.

O viajante sorriu, cruzando seus braços encasacados e musculosos.

– Converse com a impostora – instruiu, forçando Saory ajeitar sua postura.

– Ela é minha irmã – defendeu-a mais uma vez. Dantas deu de ombros.

– Certo. Converse com a assassina.

– Dantas.

– A vida não é um conto de fadas, Saory – foi direto, encarando-a a fundo. – Ela fez muita coisa. Coisas ruins.

– Quem não o fez?

– Você. Hadassa...

– Destruímos o mundo.

– Tentando salvá-lo. Ela matava erratas, Saory.

Aquilo fez a menina engolir a seco, desarmando-se.

– Você está parcialmente certo.

– Isso te surpreende?

Saory o deu um tapa de leve no ombro, sorrindo fraco. Dantas sorriu de volta, tentando decifrar o que havia por trás de seus olhos ao mesmo tempo. Sem sucesso. Mais do que rapidamente, Saory adotou em seu rosto uma expressão diferente, a qual ele não conseguiu ler.

Inspirando profundamente, a princesa puxou sua pasta e a acomodou embaixo dos braços.

– Você vem? – indagou, retirando um suspiro dos lábios de Dantas.

– Não. Os Gross ofereceram estadia até o dia do embarque de Giordanna.

– Ai... – exclamou, segurando sem cerimônias a mão gigante de seu melhor amigo. Em seu rosto sua máscara havia caído, e Dantas percebeu que ela estava levemente ansiosa. – Me telefone, o máximo que conseguir. Eu senti tanto a sua falta!

Dantas sorriu verdadeiramente. Também havia sentido.

– Claro que sentiu – brincou, o que fez Saory revirar os olhos. Então ele mudou subitamente de assunto, apontando para a porta atrás da menina. – Boa sorte com a emburrada ali.

Saory se virou para dar de cara com Hadassa. Ela fez um sinal para a chamar e depois sumiu. Cartelli fez biquinho.

– Argh, ela me odeia tanto. Vai ser uma tortura. Eu aceito toda a sorte que conseguir.

Dantas riu, dando tapinhas na mão que ela apoiava na sua.

– Bobagem. Você vai ganhar ela. Você sabe como ganhar pessoas.

Aquela afirmativa inflou o ego de Saory, que sorriu de forma sapeca em resposta.

– Eu com certeza sei.

O sorriso em seu rosto cresceu, e Dantas percebeu que estava muito preocupado que um dia sumisse novamente. Foi então que ele segurou com força a mão que ela apoiava na sua.

– Ei, princesinha – chamou, forçando-a a encará-lo com atenção. – Tome cuidado.

Suas palavras saíram como um torrente de boa aventurança. Saory sorriu mais uma vez, não muito acostumada a aquela sensação boa na ponta do estômago.  

– Você também.

Soltou, largando novamente a pasta e o abraçando. Fora um abraço rápido, mas ambos sabiam o que significava. Em pouco tempo eles haviam construído uma amizade sólida, verdadeira. E no presente, eram tudo que sobrara para os dois.

– Cartelli. Céus. Chega disso – Hadassa resmungou, aparecendo mais uma vez na porta e os forçando a desfazer aquele breve abraço. Sua expressão era de imediates. – Venha. Agora.

E então ela sumiu, e Saory bufou. Suas orelhas estavam vermelhas. Não gostava que mandassem em seus passos.

– Dantas. Eu vou gritar com ela – ameaçou, retirando uma gargalhada do sujeito. – Eu não estou brincando.

– Acredite, eu sei – riu com mais intensidade, o que fez Saory respirar profundamente. Seria uma longa viagem ao lado de Hadassa Gross. – Vocês vão se acertar.

– Tomara. Ela é impossível.

– Você também.

– Pare. Você é meu amigo.

– Ta vendo? Insuportável.

– Ah, cale a boca – exclamou, puxando novamente sua pasta. Dantas a observou enquanto isso, pensativo. Ela tirou um tempo para o encarar também.

– Salve Erick – o viajante pediu.

– Proteja o mundo que destruímos.

Retrucou, o que fez Dantas rir. Saory o acompanhou com menos intensidade.

– Qualquer coisa, Saory, estou a um telefonema de distância.

– Ah, por favor. Estou com Hadassa e Raíssa... e eu mesma! Eu luto agora. Ficarei bem.

– Eu tenho certeza que irá – sorriu novamente, cruzando seus braços. – Até, princesinha.

Ela sorriu de volta.

– Até, Dantas – e então finalmente virou as costas, caminhando com sua pasta até a saída e obedecendo o que Hadassa a mandara fazer.

Dantas a seguiu, a tempo de assisti-la apertar a mão dos Gross e se juntar a uma Hadassa com a sua mochila bem em frente a porta de entrada. Os olhos de Laura estavam marejados novamente naquele ponto, Samuel estava ereto e sério e Hadassa inquieta.

– Até mais – disse a morena, com uma das mãos na maçaneta. Todos os abraços e despedidas possíveis já haviam sido feitos, e agora elas precisavam ir. O mais rápido possível. O tempo estava passando e ter consciência do que isso significava a deixava ansiosa.

– Amamos você, Had – Laura reafirmou, enquanto a menina se virava para entortar a maçaneta. Também amo vocês, pensou, com os dedos enluvados.

Saory sorria de forma simpática para todos. Dantas assistia com os braços cruzados a cena, e então Hadassa finalmente girou a maçaneta, empurrou a porta e percebeu que estavam presas. O pedaço de madeira não abriu nem um centímetro. Porcaria.

– Droga. Droga.

Praguejou, virando-se para encarar a todos. Eles a encaravam de volta confusos. Seus olhos estavam em chamas.

– A neve atolou a porta – explicou, entendendo o que acontecia quando ninguém mais fazia.

Isso é o melhor que consegue fazer, Gaeaf?  Incitou, enquanto ajeitava a alça de sua mochila e caminhava a passos largos até a cozinha.

Todos a encararam sem entender. Ela se virou para Saory.

– Vem.

E então a princesa obedeceu novamente, com a testa franzida. E todos as seguiram sem serem convidados. Gross passou voando pelo lado de Dantas, que trocou olhares confusos com Saory.

Todos adentraram a cozinha, e a veronense não fez cerimônia alguma ao subir na pia com destreza e abrir em um só puxão a janela não muito grande que ali residia. Assim que a janela foi aberta, um vento frio bagunçou seus cabelos. Ela xingou em um sussurro, antes de colocar seu plano em prática. Virou-se uma última vez para olhar seus familiares, com o nariz congelado e a cara emburrada.

– Se cuidem.

Repetiu, e então pulou sem cerimônias a janela da cozinha de seus tios, reaparecendo do outro lado, quase oculta pela neblina. Saory engoliu a seco. Hadassa a encarou a fundo.

– Está esperando um convite oficial, Cartelli?

A princesa expirou profundamente. O vento fazia um barulho aterrorizante.

– Pelos deuses! – resmungou, enquanto seguia pelo mesmo caminho que a veronense. Dantas se adiantou em segurar sua pasta e a ajudar a escalar a pia com suas centenas de casacos. Ela voltou seu olhar para seu amigo. – Retiro o que eu disse. Ela vai me matar.

Dantas sorriu, entregando-a a pasta assim que subira.

– Não seja uma fracote – provocou, tremendo ao receber o vento que vinha de fora. Saory revirou os olhos mais uma vez.

– Eu a odeio.

– Boa viagem.

Desejou, rindo alto antes de auxilia-la uma última vez a passar pela janela e pular para o lado de fora. Hadassa esperou-a limpar a neve de seu rosto antes de acenar uma última vez e começar a caminhar na lateral da casa.

Giordanna se debruçou na pia para gritar uma última vez:

– Boa sorte, Had! Tchau, Saory.

As duas se viraram para acenar, mas o sorriso no rosto de Saory talvez tenha sido o mais falso que já dera na vida. Ela não estava nem um pouco feliz naquele momento. Estava frio como o pior dos seus pesadelos e se tornava difícil enxergar mais do que um metro de distância. Pareciam ter emergido nas nuvens, e aquilo a deixou amedrontada.

Caminharam em silêncio até chegarem na rua. Estava de dia, mas tão escuro que a noite já parecia ter caído.

Inverno caía com força total sobre suas cabeças, e ambas o enfrentavam de volta. Saory sem ao menos saber. A conversa com Gaeaf havia iniciado a tempestade, e Hadassa sabia que era só ela colocar o pé para fora de Inverno que tudo ia piorar.

Cartelli espirrou, puxando seu gorro e sua luva. Sentindo seus ossos doerem de tanto frio. Had a manteve ao seu lado, guiando-a por um caminho que não entendia. O frio que Hadassa sentia era quase anulado pelo calor que suas mãos exalavam. Que sua certeza exalava.

Caminhavam com dificuldade, mas o faziam. E iriam até o final.

Eu estou saindo, Gaeaf. Você queira ou não.

"Qual o motivo para não fazer nada
Enquanto assisto à queda?"
Swan Song, Dua Lipa.

Fim de capítulo!

Olá, meus amores, como estão?

Gostaram do capítulo de hoje? Espero que sim.

Esse capítulo foi dedicado a LindaRosa0133 que sempre está por aqui, me mandando mensagenzinhas fofíssimas e se entusiasmando com os babados que acontecem do nada haha. Muito obrigada, Linda, por todas as mensagens no inbox, nos comentários . Significa muito mesmo.

Não esqueçam da estrelinha e de comentarem suas impressões!

Nos vemos no próximo capítulo. Agora sim OBDE começou, pessoal. Ansiosíssima .

Big beijo, Bia.

## perguntinha bônus:

5) O que esperar dessa dupla Saory e Hadassa?

(hahah eu amo)

Capítulo publicado em: 16/06/19.
Todos os direitos reservados.

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