Capítulo Dois.
Agatha Braga estava em Outono outra vez. Enfurnada no mais laranja dos continentes. Adstringida por completo no mais puro Outono que poderia pedir. E poderia afirmar, sem relutância, que se encontrava quase tão destruída quanto as folhas alaranjadas que eram esmagadas pelos seus indelicados e indiscretos pés.
O cheiro ao seu redor era de grama molhada, e a paisagem tão familiar quanto seus dois braços magrelos. Sabia de antemão, e comprovara naqueles dias, que não sentira falta alguma de Outono no final, muito menos do que ele representava em seu âmago. No fim, achava que não sentia falta de mais nada. Achava que não sentia mais nada. Bom, nada além da culpa e da tristeza imaculadas em seu peito. Sentimentos tão familiares a si que pensava em patentear seus sentidos e quem sabe fazer dinheiro o suficiente para passar uma noite em um hotel e não em um banco no meio da rua.
Vestida da mesma maneira a semanas, a menina com os cabelos engalfinhados seguia em linha reta por uma floresta sem saturação com nada além de um papel em mãos e o peito palpitante. Sua jaqueta abrigava pingos finos que escorriam pela vegetação alta e depenada. Suas pernas estavam doloridas depois de quase uma hora caminhando sob grama e terra úmida, mas ela evitava olhar muito para ela, para não correr o risco de vislumbrar novamente o pequeno pingo persistente e amarronzado de sangue seco em sua calça. Aquela simetria corrosiva a fazia se lembrar de algum tempo antes, e relembrar do seu passado era quase sempre como arrancar um dedo pouco a pouco com um bisturi. Seu passado era desolador como a falta de vida em meio àquelas matas. E quase tão melancólico quanto a garoa fina que cismava em acumular em seus ombros caídos.
Aquela singela memória a fez inspirar profundamente o forte odor de madeira que a rodeava por completo. Não sabia mais por quanto tempo tinha que caminhar até finalmente chegar ao acampamento. Não sabia ao menos se acharia o que procurava antes do anoitecer. Naquele ponto, não sabia mais o que fazia, ou o que queria, tudo que sabia era que se tinha ido até ali, precisava ir até o final. Afinal, aquela motivação era a única que lhe restava. Achar o acampamento dos mestiços era a única coisa que a mantinha aquecida às noites e a forçava a se manter alimentada. Ela precisava pedir desculpas a cada um que machucara para conseguir engolir aquela nova realidade. Primeiro a família da criança que Luzia havia usado e que havia sido morta por Hydref graças ao seu feitiço. Depois a família de Yanna. Depois a todo o resto.
Parecia idiota, mas ela não tinha nada além de sucumbir a uma loucura ou duas para fazer. Não tinha mais uma casa, não tinha mais roupas, não tinha mais propósitos, não tinha mais ninguém. Depois que Hadassa discutiu com todos que tentaram ajudar e largou Braga com o corpo de Saulo e o inconsciente Dantas, ela percebeu que não queria mais lutar batalhas fadadas a tragédia. Depois que deixou Dantas no hospital, percebeu que não queria mais ter que cuidar de nenhuma pessoa ferida. Depois que participou sozinha de um funeral improvisado feito para Saulo, percebeu que não queria mais matar ninguém. Não queria mais entrar em combates que não podia vencer. Não queria mais ameaçar o deus de Outono e terminar com diversos assassinatos em sua conta enquanto ele duplicava seus domínios. Tudo que ela queria naquele momento era se livrar um pouco da culpa, e pedir desculpas era a única forma que seu pai a havia a ensinado para tal.
Bom, no mundo dos adultos não era tão fácil assim, e ela sabia disso, mas não tinha mais o que fazer. Por isso estava a caminho do acampamento dos mestiços, com um mapa adquirido com a falecida Luzia em mãos e nada além de sua bagagem emocional nas costas.
O acampamento era uma lenda, a qual Luzia comprovara ser real ao sequestrar um dos mestiços que ali viviam: Nicolas sem sobrenome, um menino de apenas dez anos que foi assassinado a sangue frio por Hydref. Braga sabia pouco dos bastidores do feitiço, mas Luzia havia tomado a precaução de a deixar um recado final.
Depois do funeral de Saulo, Braga deixou seu corpo em meio ao gelo, ciente de que não poderia fazer nada além e que a neve o resguardaria tempo o suficiente para que alguém o encontrasse e incinerasse seu corpo veronensse. Não tinha dinheiro para pagar um enterro, nem músculos para cavar uma cova. Portanto, se despediu de Saulo por longas horas antes de seguir até a estação de trem mais próxima, esperar pelo próximo trem da Vigia e embarcar novamente com sua identidade falsa até Outono. E foi naquele mesmo trem que a bruxa escondeu sua última mensagem.
Quando Agatha foi até o banheiro, dois papeis estavam pregados magicamente nas paredes e ocultos aos olhos de todos, menos aos dela. Em um Luzia contava como aquele papel surgiria caso tudo tivesse dado errado e a deixava de "herança" o segundo. Um mapa para o acampamento dos mestiços, que nunca deveria cair em mãos erradas e nunca deveria ser sabido por alguém além daqueles que ali já estavam ou que fossem chamados.
Luzia havia o achado, e agora Braga estava em meios de fazer o mesmo. Ambas não deveriam ter o feito, mas faziam mesmo assim.
Agatha ficara sabendo do acampamento dos mestiços graças a Hydref, quando conseguira se apossar ligeiramente de seus pensamentos ao dividir o mesmo corpo que ele. A menina sabia que ele desejava encontrar esse acampamento sem nunca ter de fato o feito. Ela pretendia completar o que ele nunca pudera, e se ajoelhar para que perdoassem os pecados daquele deus que de forma muito inconveniente pareciam respingar em seu corpo miúdo.
Fitou o mapa em suas mãos um pouco cansada demais de andar. Já havia passado pelas mesmas árvores por tempo demais. Tomado o cuidado de se manter beirando uma pequena estrada de terra sem uma visível utilidade por tempo demais. Atentando-se ao topo das árvores o máximo que conseguiu. Buscando o que o mapa marcava como seu tesouro por um bom tempo. Até que finalmente, avistou.
Até mesmo seu peito anestesiado deu um pulo quando seus olhos fitaram uma pequena casa na árvore a alguns metros de distância.
Braga prendeu sua respiração e começou a caminhar de maneira mais apressada.
Sozinha e estranhamente deslocada, aquela construção apoiada em galhos de uma grande e grossa árvore quase toda desnuda atraiu Agatha como um imã. Em suas mãos, o mapa apontava para ela. A casinha era o X em vermelho no centro do papel. O motivo daquele ser seu destino ela não entendia. Ainda mais ao vislumbrar sua decadência mais evidente a cada passo. Era uma casa na árvore, ponto final, e ela estava pestes a entender o que ela tinha de tão especial.
Consumida pelo mais próximo do sucesso que estivera em dias, aproximou-se às pressas, mas foi obrigada a parar com mais rapidez ainda quando uma movimentação súbita a fez prender a respiração.
– Quem é você? – rispidamente, um rapaz pálido surgiu por detrás da única janela da pequena casinha de madeira. Mais alto que ela. Habitando o X de seu papel.
Sua voz se assemelhava a de um garoto, mas ele parecia ter quase o dobro da idade de Agatha. Com metade de seu rosto encoberto por um tecido xadrez e seus olhos protegidos de quase nenhum raio de sol por óculos escuros, ele carregava uma espingarda em mãos, e não fez cerimônias ao apontá-la para a menina pelo pequeno buraco.
Ela se surpreendeu minimamente ao ser ameaçada, levantando seus braços no sinal universal de rendição. Estranhamente, não se sentindo tão nervosa quanto deveria.
– Luna – mentiu, alto o suficiente para que ele conseguisse ouvir por detrás da janela, mas baixo o suficiente para que nenhum deus o fizesse.
O sujeito preocupou-se em ajeitar seus óculos, ostentando cabelos castanhos e grisalhos.
– Está perdida? – indagou, com o dedo precisamente apoiado no gatilho.
– Não.
Ele franziu a testa, ainda mais desconfiado. Era difícil, entretanto, para Agatha, entender suas emoções enquanto ele mantinha os óculos posicionados sem nenhuma finalidade além da mais óbvia.
– O que é isso na sua mão? – perguntou, utilizando sua arma como uma extensão de sua mão e apontando para o pequeno papel erguido junto as mãos da menina acima de sua juba volumosa.
– Um mapa – foi sincera, ciente de como deveria proceder. – De como encontrar vocês.
Ele se aprumou.
– Onde conseguiu isso?
– Nicolas.
O sonar daquele nome foi como se restos de um chá quente fossem arremessados em sua consciência. Agatha o atingiu em cheio. Ele ficou sem palavras, então tiveram que assumir o controle da situação.
– Deixe-a entrar – a voz surgiu, mas não se vira um rosto. O sujeito voltou seu olhar para alguém encoberto pela madeira do casebre em cima da árvore e Agatha teve que abafar um suspiro de alívio.
Dentro da casa na árvore, o sujeito levantou o tecido de seus lábios para se fazer ouvir pela única mulher também armada que dividia a vigia com ele naquele momento, e que até então se escondia de Braga.
– Ela não parece mestiça para mim – sussurrou o sujeito, tão baixinho que Agatha não o escutou. – Muito menos lembro de termos convidado alguém.
A mulher, que estava sentada até então, colocou-se de pé, espiando a intrusa por um buraco singelo na madeira.
– Bom – anunciou, depois de uma espiada rápida. – Ela parece destruída para mim – abaixou seu tom antes de continuar. – E pode saber de alguma coisa.
– E se ela estiver armada? – murmurou o rapaz com os óculos errantes.
– A revistaremos.
– E se ela estiver possuída?
– Então não há realmente nada que possamos fazer – anunciou, ameaçando avançar na direção da janela, mas sendo impedida de continuar pelos mãos frias do rapaz assustado. Ele agarrou seu pulso sem impor muita força, mas ela não gostou nada daquele gesto. – Gregory, se ela sabe alguma coisa sobre Nicky, ela entrará – anunciou, puxando sua mão com agressividade. – Deixe que eu cuido dela e se mantenha em seu posto – ordenou, encarando-o com olhos de gavião e enfiando seu rosto finalmente no buraco da janela. – Luna, venha comigo.
O chamado assustou Agatha, que estava quase distraída com seus braços esticados acima de si e seus olhos sem foco no horizonte.
Ela desviou sua atenção para a casa na árvore mais uma vez, e, se ainda fosse míope, não teria enxergado os olhos azuis descombinares com a pele negra daquela mulher claramente destacada pelo continente.
Naquele ponto, sentia seu coração bater timidamente em seu peito em uma euforia controlada, tentando se livrar de todos seus parasitas e tempos ruins. Abaixou seus braços, assistindo o corpo da mulher sumir e logo em seguida reaparecer descendo pela escada de madeira abaixo da construção.
Não acreditava que de fato havia conseguido. Havia sido quase simples demais. Suspirou, observando nada além de um casaco enorme que encobria todo os cabelo e as costas daquela mulher. Ela desceu com destreza, mas para Agatha parecera uma eternidade. Naqueles segundos que preencheram o silêncio, todo o nervosismo que até então não havia manifestado pareceu florescer rapidamente como se seu peito fosse um campo fértil e não um substrato venenoso. Ela não gostou muito daquilo.
Depois de intermináveis minutos de descida, a mulher deu um salto e pousou com graça na terra amassada logo abaixo. Quando o fez, seu capuz desceu, e finalmente seus cabelos escuros pularam aos olhos de Braga.
Seus fios paravam nos ombros, e eram cuidadosamente cacheados, armando-se de forma mais precisa que os de Hadassa. Agatha envergonhou-se rapidamente dos seus, totalmente quebrados. Espelhos de sua alma.
– Lorena – se apresentou a mulher, estendendo sua mão e dando um passo em sua direção. Ela era bem mais alta que Braga, e, carregando um par de olhos claros, lábios carnudos e uma arma atravessando seu peito, bem mais intimidadora.
Agatha não conseguiu tirar os olhos dos seus ao apertar seus dedos gelados. Eles eram do mais claro azul que se poderia idealizar e deixavam sua pele negra ainda mais evidente. Aquela mestiça era hipnotizante, e a primeira que a menina de fato tinha contato. Não conseguiu evitar aspirar saber qual seria a sua história.
– Luna.
Repetir aquela mentira era bastante difícil para Braga, que por pouco não escorregou e entregou a moça seu verdadeiro nome. Lorena sorriu fraco, arregaçando suas duas mangas.
– Vamos fazer isso de uma vez. Não é seguro ficar aqui fora por muito tempo – disse, escaneando Agatha sem ao menos disfarçar. – Ao menos não para mim.
Uma pontada de insatisfação foi captada pela menina, mas ela não teve tempo de se preocupar, não quando a mulher apontou com braveza em sua direção.
– Pernas abertas. Mãos para cima.
Ordenou, Braga obedeceu, e então ela passou a revista-la rapidamente, sem muita paciência ou dedicação, finalizando parte do protocolo com uma cara de tédio evidente. Agatha se mantivera calada por todo aquele tempo, um pouco ansiosa e assustada demais para se manifestar.
– Odeio ter que fazer isso, mas é parte do protocolo – admitiu, recolhendo novamente suas mãos e puxando suas mangas. – E Gregory esbravejaria sobre isso por semanas se não o fizesse.
Braga engoliu a seco, dobrando cuidadosamente o mapa em suas mãos, Lorena acompanhou cada dobra que ela dera no papel, e a outonensse não conseguira evitar comparar seu olhar firme com o de Hadassa Gross. A egoísta Hadassa Gross.
– Tudo bem – mentiu, escondendo parte do desconforto crescente que parecia criar raízes dentro de si.
Lorena soltou uma risadinha sem sentido antes de continuar.
– Certo – cruzou seu braço. – Então venha, Luna.
E então ela começou a caminhar sem cerimônias na direção da escada mais uma vez, e Agatha a seguiu, mesmo que não soubesse bem para onde estavam indo. Tudo que havia ali eram árvores, um horizonte alaranjado e dois mestiços armados.
Adentraram a parte debaixo da casa da árvore, e Agatha conseguiu ouvir os passos de Gregory logo acima, sentindo que ele continuava a apontar a espingarda para as suas costas. Outono parecia um pouco mais distante quando debaixo daquela estranha torre de vigília que improvisaram, e Agatha não fazia ideia do que Lorena queria ao guiá-la até lugar nenhum. Será que iriam a matá-la?
– Espere – impediu Agatha de continuar subitamente, segurando-a pelo ombro com uma pressa quase desesperadora. Braga paralisou onde estava, encarando confusa enquanto ela puxava um Walkie Talkie do bolso e de repente começava a falar com ele. – Blanca? Blanca?
O chamado pareceu demorar uma eternidade para ser respondido, e a cada segundo Braga tinha mais certeza que estava sendo guiada para o abatedouro e que o acampamento dos mestiços era uma farsa. Contudo, estava tão exausta que ao menos cogitou fugir.
– Hm? – um murmúrio quase inaudível explodiu no pequeno radinho nas mãos de Lorena depois de segundos de um silêncio imaculado. A mestiça não demorou para ordenar:
– Afrouxe o feitiço por alguns instantes.
Feitiço? Braga a encarou com a sobrancelha franzida, mas ela não fez questão de a responder, usando os dois minutos de atraso entre a ordem e a realização dessa para terminar de arrancar um adesivo de carrinho grudado na lateral de seu rádio, entediada.
– Feito – quando Blanca respondeu junto com um chiado, Lorena finalmente voltou ao presente, guardando seu Walkie Talkie novamente em sua cintura e suspirando.
– Perfeito – falou, para ninguém em específico, antes de voltar seu olhar transparente para a outonensse e se aprumar, impaciente. – Pode ir, Luna.
Agatha mais uma vez vislumbrou um pouco do que havia ao seu redor. Árvores, terra, mais árvores, a escada para Gregory e a sua arma um pouco mais atrás. Naquele momento ela confirmou o pior. Iriam matá-la.
– Para onde? – conseguiu perguntar, apesar de temer saber a resposta. Lorena sorriu diante de sua pergunta, pouco prepotente.
– Entre na árvore.
– Quê?
A mulher riu novamente, divertindo-se com a confusão da outonensse.
– Certo. Eu vou primeiro.
Disse, antes de abrir caminho na sua frente e se agachar para passar por dentro de um buraco pouco cavernoso no tronco da árvore onde a casinha se apoiava; o qual Agatha julgara ser o abrigo assustador de algum animal grande, não o seu caminho.
A menina assistiu um pouco incomodada a mulher se abaixar consideravelmente para caber do lado de dentro e logo em seguida sumir aos seus olhos.
O quê?
Voltou seu olhar para a casa que se tornara seu teto. Os passos de Gregory haviam cessado, e ela sabia que ele estava logo acima de si. Aquilo a deixou mais amedrontada que o fato de Lorena ter adentrado uma árvore e desaparecido. Afinal, ela já havia ouvido falar de portais escondidos quando criança e entendia melhor do que ninguém o que um tiro poderia fazer. Mas, ao contrário de uma espingarda, Braga nunca tinha visto um portal, nem nunca julgou sua existência verdeira. Contudo, Lorena havia sumido, o que transformava aquele buraco em bem mais que um vazio em um tronco espesso.
Mordeu seus lábios. Ah, que se dane!
Sem pensar muito, Braga decidiu seguir Lorena, agachando-se e adentrando pelo escavação ligeiramente apertada, sentindo-se um pouco estúpida em o estar fazendo, mas não tendo muita escolha.
Seus olhos analisaram pouco da estrutura vegetal antes que sua atenção fosse roubada por uma das visões mais estranhas e excitantes de toda sua vida. Ela deu menos de um passo para dentro da árvore antes que sua teoria de que aquele buraco era um portal se concretizasse, e ela fosse metaforicamente roubada para um mundo completamente novo que surgira em um piscar de olhos bem a sua frente; como se alguém tivesse subitamente cortado o outro lado. Então ela o seguiu sem cerimônias, atravessando por um túnel estreito. Um túnel oculto magicamente que a levara ao acampamento mais lendário de toda Esaon.
Piscou diversas vezes, paralisando atrás do corpo alto de Lorena e voltando seu olhar para a árvore da qual acabara de sair. A casa na árvore com Gregory continuava visível a seus olhos, assim como o buraco, que agora se assemelhava de fato a um túnel. Ela simplesmente havia atravessado aquela árvore e entrado no acampamento. Estavam na mesma mata, com o mesmo cheiro, mesmo clima, mesmas insistentes gotículas congeladas, mas de certa forma, entrar pela árvore a havia revelado seu destino. Incrível.
Ao perceber a surpresa e o encantamento estampado no rosto de Agatha, Lorena riu, cruzando seus braços encasacados e a encarando de forma divertida. Todos que adentravam a árvore pela primeira vez tinham a mesma reação, e a mulher gostaria de enquadrar cada uma das caras de incredulidade que já havia guiado em seus trinta anos no acampamento.
– Gostou?
Braga assentiu, franzindo a testa logo em seguida.
– Por que a árvore?
A mulher riu alto antes de a responder. Parecia subitamente mais simpática quando depois da passagem.
– Blanca. Ela ama espetáculos. E leu muitas fábulas quando pequena.
Agatha assentiu com a cabeça mesmo sem acompanhar, percebendo que aquele nome havia sido repetido vezes demais em poucos minutos, mas não conseguindo o manter muito tempo na cabeça. Não quando Lorena finalmente saiu de sua frente e seus olhos enxergaram de vez o acampamento dos mestiços. Percebendo que o nome era bastante apropriada ao que servia, mas nunca poderia resumir a dimensão do que se tornara.
A errata deixou seu queixo cair ao observar a pequena comunidade que ali se mantinha.
Estavam em uma floresta, mas de certa forma, Braga se sentia quase fora dela. Sentia que havia adentrado em um mundo novo, completamente diferente do qual estava acostumada.
Diversas barracas de lona pularam em seu campo de visão, grandes o suficiente para se assemelharem a modestas casas. De diversas cores, abrigavam as mais diversas pessoas, que transitavam sem cerimônias pela sua pequena cidade. A maioria gastando algum tempo para se surpreender com a chegada de Agatha, que, no meio de tantos mestiços, parecia ser o diferente.
O terreno era realmente enorme. Ali viviam ao todo cento e dois mestiços e Braga sentia-se dentro de uma outra cidade. De um outro mundo. Esaon não poderia ser assim. Sentiu seu peito se apertar.
Por detrás dos cabelos escuros de Lorena, ela enxergou uma menininha correndo com um carrinho amarrado a um barbante logo atrás. Ela sorria com a pele clara como as nuvens, mas os cabelos pretos e armados, e os olhos completamente errados e verdes. Atrás de seu corpo miúdo a floresta se estendia como um paraíso quase convidativo. Haviam lampiões presos em seus galhos, brinquedos infantis improvisados com madeira e mestiços pisando em terreno de Hydref.
Cada vez que Agatha olhava, parecia captar algo diferente. Aquele lugar tinha um encantamento diferente, um simbolismo quase deprimente, e ela não conseguiu evitar se sentir como uma aranha em um formigueiro.
Nicolas morava ali. Ele era uma daquelas crianças misturadas que passavam correndo a sua frente, até que ela o mandasse ser sequestrado e por fim o matasse. Ela o havia roubado a vida. Aquela vida. Que parecia boa, mágica. Ela havia o roubado de seu mundo, de todos os mundos, e no fim, não havia dado em nada. Não havia servido para nada.
– O que aconteceu contigo? – sem fazer mais cerimônias, Lorena perguntou, retirando de Agatha um olhar perdido e vazio. A menina estava tão submersa em suas melancolias que ao menos havia percebido quando Lorena a guiou mais para dentro do acampamento, parando com ela em frente a uma grande e apagada fogueira. Braga decidiu que deveria ser sincera naquele ponto.
– Perdi tudo.
– Você conhecia Nicolas? – indagou, sem esconder a ansiedade em sua voz. A desconfiança pareceu mais evidente ainda em seus olhos errados. Braga teve que engolir suas lágrimas junto com sua culpa e falta de jeito para se manter de pé. – Sabe o que aconteceu com ele?
Naquele momento seu peito parecia mais uma vez derretido. Ela olhou ao redor por alguns instantes, inspirando profundamente antes de voltar a falar. Ela estava ali por um único motivo, mas no momento, sentia que não teria forças para o completar.
– Onde está... a família dele?
– Aqui – apontou para si mesma, antes de apontar para um sujeito gordo que passava ao lado das duas. – E aqui – seus dedos levaram os olhos de Agatha a uma mulher a metros de distância. – E lá – como se não tivesse ficado claro, ela continuou: – Somos todos uma família aqui.
E aquilo foi demais para o autocontrole de Agatha. Sem que ela conseguisse se manter, sentiu seus olhos marejarem. Ela tentou disfarçar abaixando o rosto, mas Lorena captou seu desmoronamento com maestria, apesar de fingir não ter o feito.
– Eu vou levar você até um chuveiro, arrumar umas roupas novas... depois podemos conversar melhor.
A errata engoliu a seco, tentando controlar suas lágrimas de forma miserável.
– Ok – fungou, encarando Lorena e recebendo uma enxurrada de atenção em seu rosto pálido. Droga, não queria mais fazer aquilo. – Obrigada.
– Não me agradeça ainda – naquele momento, Agatha não sabia dizer o que de fato a mulher sentia. Sua voz e sua expressão se encontravam completamente neutras. Ela não sabia se aquilo era algo bom ou ruim. – Vamos.
Foi a última coisa que disse, antes de cruzar seus braços e caminhar, esperando que Agatha a seguisse para dentro de uma das tendas, achando mais uma vez que seria assassinada ali mesmo. Mas ela estava errada. Lorena não a tocaria de forma ofensiva. Bom, não ainda.
Quando a noite despencou sob Outono, Agatha foi levada para a fogueira.
A menina passou todo o resto do dia enfurnada em uma das tendas, e só foi liberada quando o sol sumiu, as poucas estrelas se esconderam atrás das árvores depenadas, e os lampiões se acenderam.
Quase tão surpreendente quanto parecia, a tenda a qual a menina foi levada era uma espécie de ambulatório. Quase do tamanho de um pequeno hospital de verdade, do lado de dentro havia um médico, uma maca, remédios e uma divisão em três cômodos.
O doutor se chamava Felipe, tinha os cabelos de Outono e os olhos de Verão, e, a mando de Lorena, guiou Agatha até o cômodo mais afastado, a cedendo baldes com água, um sabão em barra em formato de folha e cheiro de alfazema e roupas limpas. Ela se banhou então rapidamente, esfregando forte o suficiente para tentar arrancar junto ao barro a sujeira de sua alma. Sem sucesso.
Quando saiu, vestiu-se como se pertencesse aos mestiços, sentindo-se mais uma vez camuflada em meio a um mundo novo. Lorena a deu um conjunto todo preto. Felipe a deu uma encarada desconfiada, antes de a guiar até o lado de fora, e a deixar a mercê da fogueira, como era de costume. Agatha não sabia, mas passar pela fogueira era parte do protocolo. Os mestiços a acendiam todas as noites, mas serviam o chá apenas quando chegava alguém novo.
Agatha Braga foi largada na frente da lona ambulatório, a alguns bons passos da fogueira, distante o suficiente para enxergar as chamas escalarem alto o suficiente para iluminar grande parte dos rostos que ao seu redor confraternizavam. Ela não havia visto a noite cair, mas de certa forma, aquele lugar parecia combinar bem mais com ela. A fogueira parecia convidativa demais e o evento ao seu redor quase chamativo. Ela cruzou seus braços, respirando fundo e encarando casais e amigos conversarem ao redor da fogueira com copos em mãos e crianças em seus pés. O barulho dos diálogos era quase incômodo, mas de alguma forma, familiar o suficiente para fazer Agatha se sentir mal outra vez. Será que Nicolas ia a fogueira como aquelas crianças? Ou será que ele ficaria em sua tenda esperando a noite passar como ela faria?
– Luna! – Lorena surgiu sem aviso prévio, alegre e receptiva como nunca.
Ela carregava um copo em mãos, um sorriso no rosto e uma mulher agarrada em seu braço. Agatha teve tempo de se surpreender antes que ela voltasse a falar:
– Essa é Deodora, a anfitriã oficial de nosso lar. Garanto que ela é muito mais receptiva que eu. Infelizmente, você esteve em péssimas mãos.
Os olhos de Agatha se voltaram para a mulher apresentada. Ela parecia mais velha que Lorena, mais baixa e realmente, mais receptiva. Em seu rosto levemente tonalizado de castanho ela apoiava um sorriso amigável, mas em seu olhar escuro, sua áurea nebulosa deveria ter alertado Braga que suas intenções não eram tão nobres assim.
– É um prazer, Luna – Deodora soltou, estendendo sua mão para apertar a da menina. Seus olhos se cruzaram rapidamente e sem muita conexão. Agatha se sentiu observada novamente por Lorena, que bebia calada o que quer que fosse que havia dentro de seu copo de bambu. – Chegou em bom dia! Hoje estamos comemorando o aniversário de Otávio!
– Ah – foi só o que respondeu, fazendo pouco caso e voltando seu olhar para a fogueira atrás de si mais uma vez. Tudo que havia conseguido pensar o dia inteiro e naquele exato momento era em Nicolas. Será que seus pais estavam ali? Será que ele havia nascido no acampamento?
– Oras, bobo! Não ligue para eles, Luna! Apenas não estamos acostumados a termos uma... Outonensse pura entre nós – aquela frase puxou a atenção da errata novamente para Deodora, que direcionava um olhar de reprovação a uma criança barriguda que espreitava as três. Com a bronca ela saiu correndo, e Braga se sentiu tentada a fazer o mesmo. Ela não ligava para os olhares tortos vinculados a sua aparência perfeitamente lapidada pelo continente. Ela ligava para os cochichos depois que eles soubessem a verdade de seu passado. Mas era claro que não disse isso a Deodora naquele momento. – É bastante atípico alguém como você nos achar. Nicky te deu um mapa?
A partir do uso daquele nome, a menina passou a dá-la a devida atenção, inspirando profundamente enquanto tentava achar as palavras certas para usar. Se estava ali, devia terminar logo com aquela angústia.
– Quase isso.
– Quase isso?
Agatha engoliu a seco.
– Podemos ir a um lugar mais reservado? – indagou, passando a ficar extremamente apreensiva com os olhares de Lorena, o barulho do aniversário de Otávio e a iminência de uma conversa perigosa.
Mas, para a sua surpresa, Deodora não pareceu preocupada com a situação. Pelo contrário, alargou seu rosto em um sorriso quase renovador.
– Oras, deixemos detalhes para outra hora – exclamou, encarando Lorena rapidamente antes de enlaçar seu braço no de Agatha e a assustar com sua aproximação repentina. – Vamos comemorar primeiro!
E então não a deu mais margens para protesto. Com uma súbita alegria festiva, puxou a menina como se fossem amigas até a reunião ao redor da fogueira. Braga só queria se esconder.
Todos os olhares se voltaram a elas assim que chegaram, e naquele ponto ela não conseguia mais disfarçar sua falta de jeito e seu nervosismo crescente. Entretanto, para a sua surpresa, poucos mestiços foram rudes ou julgadores. Na verdade, ela foi cumprimentada por uma grande parcela deles. Tocando em mais corpos misturados do que já fizera em toda a sua vida. Eles foram gentis, simpáticos, trocaram algumas palavras e conversas casuais e a ofereceram um pouco do que bebiam. Mas nenhum diálogo seria capaz de afastar o gosto ruim em sua boca e a sensação de vergonha que despontava em seu estômago. Na verdade, a cada segundo, parecia piorar, ainda mais quando todos eram tão gentis.
Deodora se manteve presa a ela por grande parte do tempo, contando-a pequenas histórias e curiosidades sobre o acampamento com um carisma invejável. Braga não se sentia confortável. E cada vez que mais pessoas pareciam chegar, o barulho aumentava junto com a claustrofobia de Agatha.
Deodora percebia seu desconforto e a sua rigidez, então, em algum ponto, a ofereceu um pouco do que bebia, além de meia dúzia de palavras de conforto.
– Não fique apreensiva por causa do mapa ou nada a respeito – soltou, em um sussurro, em um dos momentos que ficaram totalmente sozinhas e próximas. Deodora tinha a voz estridente de uma criança. – Seja o que for que aconteceu para você cair aqui, não acredito que tenha sido por acaso.
Braga voltou seu olhar para a mulher enquanto ela falava. Seu rosto iluminado pelas chamas estava quase petrificado.
– Nicolas nasceu aqui. Não sei como se conheceram, mas Lorena acredita que você saiba o que aconteceu com ele – seus olhos se fixaram nos de Agatha como dardos, mas estranhamente, não pareceram tão ariscos naquele instante. Apenas naquele. – Se você souber de alguma coisa, por favor não nos esconda. Independente do que for – algumas lágrimas se formaram no canto de seus olhos, Braga não pôde deixar de perceber, e aquilo fez com que o mesmo acontecesse com os seus. – Ele é um menino de ouro.
Voltou seu olhar mais uma vez a fogueira. Agatha fez o mesmo, sentindo-se imersa em uma bolha. Subitamente, nem mais escutava o som dos diálogos inflamados por bebidas, só pensava em Nicolas. Ele era um menino de ouro. Droga. Droga.
– Sinto muito – soltou, em um sussurro, forçando Deodora a libertar uma das lágrimas que se equilibravam em seus olhos escuros. Agatha não aguentou olhar sua expressão por muito tempo, permitindo ela mesma que suas lágrimas também descessem. A mestiça a segurou com ainda mais força, entendendo parte do que havia acontecido. Era quase palpável o desamparo de ambas.
– Eu também – engoliu a seco, fechando os olhos por alguns segundos.
Agatha a cedeu privacidade, encarando a fogueira por detrás de lágrimas firmes e fixando seu olhar em mais uma mestiça peculiar. Ela passava perto o suficiente das duas para que Braga enxergasse um de seus olhos castanhos contrastar com seu segundo violeta. Ela passou rápido como uma folha carregada pelo vento, mas deixou um gosto de sangue na boca daquela errata. Cada uma das pessoas que a rodeavam fazia parte da história do menino que ela havia matado. Céus, me perdoem.
– Gosta de cerveja? – subitamente, Deodora perguntou, forçando um sorriso por detrás de suas lágrimas. A atenção de Agatha voltou novamente para seu rosto. Ela negou com a cabeça sem ao menos perceber. Estava perplexa com a mudança de rumo daquele diálogo. – Chá?
Insistiu, o que fez Braga engolir a seco, não nutrindo o mesmo talento que a outra para se recompor em segundos. Aquela era a não resposta que ela precisava.
– Vou pegar um chá para você então – anunciou, simpática, finalmente soltando o braço da menina e sorrindo para ela com a mesma intensidade de antes. Naquele instante os seus olhos eram dois gatilhos. Todos ligeiramente afundados e direcionados a uma errata em específico. – Não saia daqui!
Agatha abriu a boca para dizer que não queria nada, mas não teve tempo de protestar. Em segundos Deodora sumiu, e mais rápido ainda voltou, com uma xícara cheia até o topo.
Sentindo seu peito frio, ela não se esquivou do chá capturado para ela, bebendo um gole sem ao menos perguntar que gosto a esperava. Sem ao menos perceber que era a única em dezena de mestiços a beber algo de uma caneca de cerâmica. Sem perceber quando começara a se sentir zonza, muito menos quando foi colocada como centro das atenções e perdeu o controle de suas confissões.
Ela bebeu apenas um gole, mas foi o suficiente para esquecer a noite inteira, e acordar desorientada embaixo de uma árvore como todas as outras. O gosto daquele chá era de mentiras e farsas, e ao abrir finalmente seus olhos, se deparou com outros bicolores fixos e imersos em si. Despertou sem consciência, mas com sensação esquisita de que tudo estava prestes a mudar.
De fato, sua ida até ali tinha um motivo bem maior para ter acontecido.
– O que...
Jogada debaixo de uma árvore e soterrada por folhas, Braga se remexeu com dificuldade. Acordando de um longo cochilo sentindo todas as dores de ter dormido a noite inteira torta e de forma quase forçada.
Seus cabelos estavam cheios de folhas e suas pernas doloridas. Ela franziu sua testa, levantando seu olhar e se assustando ao vislumbrar uma menina com quase a mesma idade que ela a encarar como a um curioso animal de zoológico. Seus olhos tinham cada um uma cor. Um violeta e o outro castanho. Ela a reconheceu limitadamente da noite passada, que mais parecia um borrão em sua mente. Sua garganta estava seca como a grama abaixo de si. E a atenção que recebia daquela menina a deixou tensa.
– Quem é você? – indagou, remexendo-se com brutalidade. Aos poucos começava a processar sua situação. Estava jogada atrás das tendas. O dia nascia timidamente no horizonte e os cabelos daquela menina pareciam cachoeiras castanhas enquanto os seus mais se assemelhavam a ninhos de pássaros. – Que droga aconteceu?
Não conseguiu disfarçar a rispidez em sua voz, sentindo-se bastante ofendida e... confusa com toda aquela situação. Os olhos diferentes da menina continuaram fixos no seu rosto, mas com a sua pergunta arisca, ela se sentiu motivada a agachar ao seu lado.
Agatha se encolheu. Ela não se deteve.
– Com licença – pediu, antes de tocar em seu braço sem nenhum motivo aparente. Suas mãos eram geladas como um cubo de gelo, e sua curiosidade tangível. Agatha não gostou daquele gesto, então puxou seu braço para longe de seu toque. Mas aquele pequeno contato havia sido o suficiente.
A menina a encarou com os olhos quase cintilando. Eles eram bizarros, mas encantadores. Braga sentiu medo de sua situação. Não entendia mais nada, só que precisava sair dali o mais rápido possível. Mas não conseguiu. Não antes que Blanca soltasse:
– Bárbaro! – exclamou, visivelmente encantada com alguma coisa. Agatha a encarou com a testa franzida e o peito batendo forte. Ela sorriu, animada. – Eu sabia.
– O que?
Sem a responder, a menina se colocou de pé, ajeitando a manga de seu casaco amarelo antes estender uma de suas mãos a Agatha.
– Venha comigo.
– Que? – ignorou a mão estendida da menina, encarando-a totalmente estupefata. – Quem é você? O que aconteceu? O que você sabia?
Metralhou-a com perguntas, mas a menina só arrumou tempo para a dar uma resposta.
– Meu nome é Blanca. Venha comigo.
Insistiu, balançando seu braço estendido. Agatha arregalou uma de seus sobrancelhas, ciente de que aquele nome havia sido muito proclamado no dia anterior. Ciente de que ela deveria saber de alguma coisa. Ciente de que algo grande acontecera. Ciente de que não devia ir com ela.
– Venha logo! – exclamou, urgente. Mas, apesar de sua rispidez, não conseguira soar mais arisca que um coelho. – Antes que eles acordem, de preferência.
– O que?
Depois de mais uma pergunta vinda da boca de Agatha, a mestiça simplesmente desistiu, recolhendo seu braço e iniciando seu caminho para longe dali. Braga se colocou de pé em um pulo, com a testa franzida. Sua curiosidade a fez agir sem pensar.
– Blanca? – chamou por ela, o que a fez se virar e fazer um sinal para que ela falasse mais baixo, antes de voltar a caminhar a passos largos. Agatha xingou em um sussurro antes de a seguir.
O coração da errata batia forte em seu peito, e, apesar de não ter certeza se deveria estar fazendo o que fazia, não conseguiu não seguir aquela menina. Ela tinha algo em seu olhar completamente exótico que fizera Braga se prender a sua lábia, obedecer seu chamado, e adentrar em silêncio uma barraca pouco afastada, que rapidamente percebera se tratar de uma pequena casa.
Seus pés pararam na frente da lona, em um lapso de sanidade, mas Blanca rapidamente a fez entrar, tomando a liberdade de a puxar para dentro e fechar finalmente a barraca. E então não tinha mais jeito. Seu destino havia sido traçado.
Agatha se surpreendeu de primeira com a quantidade de estantes e bugigangas que haviam ali dentro, mas não o suficiente para esquecer o aperto em seu peito. Quando a mestiça passou ao seu lado, seu pelos se arrepiaram, e ela a encarou caminhar freneticamente por aquela barraca com cheiro de incenso. Ela era claramente uma bruxa, só faltava saber em qual lado estava.
– Blanca? – insistiu, sem conseguir esconder o tremor em sua voz, e aquele chamado foi quase tão inútil quanto o feitiço que haviam realizado semanas antes.
Blanca começara a falar sozinha, dedilhando uma estante pouco torta e lotada de livros com seus dedos inquietos.
– Mas é claro! – exclamou, visivelmente animada. Agatha cruzou os braços, engolindo a seco.
– Blanca?
Chamou-a pela última vez, e finalmente foi efetivo. Depois de ser solicitada, a mestiça se virou de uma vez, puxando um livro junto com ela e ostentando um sorriso em um rosto quase angelical. Suas sobrancelhas eram finas como se alguém tivesse as desenhado. Mas seus grandes olhos mutados eram gigantes como a angústia que Agatha carregava, e fitavam a errata a fundo, com uma altivez completamente subjetiva até então.
– Eu desconfiei quando você sussurrou para mim seu passado na fogueira – começou, como se sua interlocutora fosse capaz de acompanhar, mas teve que se impedir de continuar ao testemunhar Braga juntar ambas as sobrancelhas. Ela estalou a língua, gesticulando a cada palavra. – Não, você não lembra, estava sob o efeito do chá das blasfêmias – Agatha arregalou os olhos. Blanca parou de falar, murchando sua expressão e suspirando. – É como conferem se é confiável...
Explicou, um pouco impaciente, e aquilo fez Agatha paralisar. Por isso não se lembrava de nada da noite passada. Ela havia sido drogada!
– O que eu disse?
Indagou, imediata. Seu medo quase transformou a tenda em uma fornalha. Começara a suar por debaixo da roupa emprestada.
– Hydref – Blanca soltou, com sua voz delicada, forçando Braga a engasgar com sua própria respiração. – Você me contou sobre a possessão.
Oh, céus.
– Para quantas pessoas eu falei isso? Para quantas pessoas eu contei do meu passado?
Quase comeu as palavras, ciente da desgraça que aquilo poderia gerar. O que eles fariam se descobrissem que ela havia matado Nicolas? Aquela situação havia saído completamente do controle, e ela estava mais amedrontada do que nunca.
– Não sei.
Blanca admitiu, passando seu dedo pela lombada do livro e fazendo uma careta. Braga levou ambas as mãos ao seu rosto.
– Merda!
Esbravejou, sentindo seu rosto queimar. Ela estava ferrada.
– Não se preocupe – a mestiça se apressou em dizer, corrigindo-se logo em seguida: – Quer dizer, não se preocupe comigo – estalou a língua mais uma vez, revirando seus grandes olhos. – Escute, precisamos conversar.
– Certo. Então seja breve – ordenou, nervosa. Sua cabeça trabalhava a mil. – O que você sentiu quando me tocou? Por que me trouxe até aqui?
Blanca não recuou, parecendo se acender novamente ao voltarem ao tópico principal.
– Eu tinha essa teoria... E eu a confirmei! – deu um pulinho de alegria no lugar. Agatha a encarou quase chorosa. Já imaginava o pior, em todos os cenários. – Obrigada. Vou patentear, antes que alguém ouse roubar minha genialidade de mim...
– Blanca – insistiu, ao perceber que ela estava se desvirtuando mais uma vez. – Que teoria?
A menina sorriu sem escrúpulos antes de a responder, caminhando rapidamente em sua direção.
– Tem esse poder, dentro de você.
– Poder? – Braga não escondeu sua bagunça mental. – Tipo... bruxaria?
– Não, nada como bruxaria – foi rápida ao negar, gesticulando brutalmente antes de sorrir. – É algo divino.
Agatha cruzou os braços, ligeiramente cética.
– Ta dizendo que eu tenho poder de deus dentro de mim? Essa é a sua teoria?
Blanca sorriu.
– Sim.
– Não sou uma deusa.
Explicou, como se não fosse óbvio, o que forçou Blanca a voltar a gesticular.
– Mas já possuiu um deus dentro de você – Braga engoliu a seco, prestando total atenção em suas palavras a partir daquele momento. – Sendo bastante específica, minha teoria é: depois da possessão, uma parte da essência dos deuses permanecem na errata. Mas nenhuma sobrevive para contar a história. Apenas você. E eu senti. Ele está gritando! – exclamou, sorrindo novamente. No final daquela história, Braga estava embasbacada.
– Isso é loucura.
Ponderou, forçando Blanca a revirar os olhos mais uma vez.
– Não, é obvio – argumentou, largando o livro que carregava em cima de uma mesinha repleta de papeis, passando a fazer movimentos com as duas mãos enquanto falava. – Eles são tipo vírus. Doenças. Seu corpo foi completamente mutado. Você teve um deus apalpando suas células. Acredite em mim, você tem algum poder dentro de você. Um poder único. E eu posso o fazer aflorar.
Agatha deu um passo para trás sem ao menos perceber. Estava atordoada.
– Não sei se é uma boa ideia.
Blanca estalou sua língua, juntando as mãos e caminhando em sua direção. Agatha se encolheu, engolindo a seco. A mestiça continuou, subitamente séria:
– Deixe-me ser mais específica – pediu, parecendo buscar as palavras certas em sua mente eletrizada. – Para matar um deus, como eu sei que você aspira fazer, primeiro você precisa ser um – Agatha arqueou uma de suas sobrancelhas. Dessa informação ela não sabia. A menina continuou. – Eu sinto um pouco de deus dentro de você – fez uma pausa, encarando-a esperançosa. – Entendeu?
Indagou, o que forçou Agatha a engolir a seco. Ela sentiu seu coração bater mais forte, mas não a respondeu. Seu silêncio incomodou Blanca, que voltou a explicar como se ela fosse idiota:
– Você pode o machucar! – apontou, quase cintilando com aquela descoberta. Braga não conseguia respirar. – E eu posso te ajudar.
A errata umedeceu seus lábios, sentindo seus dedos formigarem e suas mãos suarem. Então ela poderia vencer uma batalha contra Hydref? Então ela poderia fazer valer suas ameças? Então ela poderia vingar a morte de Nicolas, e de todos os outros? Ela poderia machucar Hydref?
Cruzou seus braços, tentando controlar a euforia e o medo que arranhavam seu peito. Seus olhos cravaram nos de Blanca. Ela engoliu o nó em sua garganta antes de a perguntar:
– E o que você ganharia com isso?
A mestiça soltou todo o ar de uma vez, sorrindo de canto.
– O que eu posso perder?
– Além da sua cabeça?
Riu com mais intensidade, dando de ombros. Alguma coisa em seu rosto parecia muito certa.
– Vai ser divertido – sorriu de forma quase infantil. Suas bochechas estavam coradas de excitação. – Eu estou dentro. Vamos acordar esse pobre poder adormecido e acabar com alguns deuses.
"O momento que eu tiver você em minhas veias. Eu tomarei conta do mundo."
Black Magic – Jaymes Young.
Fim de capítulo!!
Olá, meus amores, como estão?
O que acharam do babado? Muita gente se descobrindo poderosa por aí... isso vai dar bom, será? Ansiosa.
Esse capítulo foi dedicado a minha amiguinha a qual eu encho o saco mandando coisa da história, mandando dar estrelinha e que no caso, particularmente, não gosta da Agatha. Então sim, dediquei especificamente esse capítulo de propósito. Para dar uma clara alfinetada porque você precisa respeitar Braguinha, ok? Brincadeiras à parte, obrigada pela ajuda de sempre! Sério, sou muito grata.
E obrigada a todos que sempre estão aqui.
Espero que tenham gostado do capítulo! Não se esqueçam da estrelinha e de comentarem suas impressões ❤️
Nos vemos capítulo que vem.
Big beijo, Bia.
## perguntinha bônus:
3) Blanca é confiável?
Capítulo publicado em: 02/05/19.
Todos os direitos reservados.
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