A Primeira Valsa.
José quase era carregado pelo vento conciso, barulhento e glacial que ressoava pela viela a qual seus pés o levaram a se enfiar.
O feitiço havia sido realizado há apenas alguns minutos. O sucesso havia sido alcançado. O mundo havia mudado, mas o rapaz com os cabelos avermelhados e a identidade de outro continente ainda se sentia receoso o suficiente para não entrar no primeiro bar que encontrasse e se embriagar com certa segurança. Afinal, nada garantia que os filhos da neve não o matariam depois de verem seu cabelo vermelho.
A verdade era que no fim, para gente como ele, quase nada havia mudado.
Uma dor em seu peito o tornava zonzo. O frio o deixava descamado. A sua sanidade e sua consciência o deixavam amedrontado. O que faria agora?
Seria invocado de volta para a sua família? Seria recompensado por ter arriscado sua vida e sido invadido por Hydref? Claro que não. Ele era bobo, mas não ao ponto de acreditar que a bruxa teria algum tipo de bondade em seu coração. Não era assim que uma chantagem funcionava no fim das contas. Não havia ganho para ambas as partes, apenas para os deuses, apenas para Melinda. E ele estava arruinado.
Não havia uma forma de voltar para a sua família. Ele estava preso em Inverno até que alguém o descobrisse e ele fosse fuzilado. E nunca mais veria o rosto de sua esposa. E nunca mais abraçaria seus filhos.
Pelo menos eles estavam em segurança. Tentava se convencer de que isso era o suficiente, mas não conseguia abafar a parte de si mesmo que gostaria mais do que tudo de estar em segurança com eles. Droga de bruxa infeliz. Droga de deuses. Droga de mundo.
– Parece que esfriou ainda mais, não?
Como se fosse atraída pelo cheiro de melancolia e desgraça, a voz feminina de Gwanwyn preencheu por completo a cabeça pipocante e atordoada de José, sem ser convidada. Os passos do sujeito cessaram de imediato ao ouvir aquela voz sinistra e inesperada. Seus olhos se levantaram, forçando-o a entrar em pânico controlado ao fitarem a silhueta imponente e sem rosto daquela deusa, a apenas alguns passos de si.
Ela não usava corpo algum. Não usava nenhum humano. Não ainda. E estava ali em essência, poderosa como nunca. Sua voz saía por ressonância e cravava a fundo no peito tão fragilizado daquele sujeito usado; e, por algum motivo, ela tinha ido até ali para falar. Para agradecer. Em um gesto bizarro, porém muito característico da deusa de Primavera, que odiava que tocassem em qualquer coisa que fosse sua. Aquele sujeito era seu, por isso ela pairava na sua frente. Mas ele tomou aquilo como um deboche escandaloso. Com razão.
Sem conseguir se controlar, José soltou um soluço súbito. Lágrimas pesadas enfrentaram a gravidade e escorreram pela sua face pálida e envelhecida sem que ele pudesse controlar. Seu coração pareceu perder todas as forças conforme a silhueta sem rosto se aproximava de si, novamente sem pedir permissão. Ela nunca pedia.
– Por que está chorando? – indagou, com o tom doce e fraternal de sempre, forçando a cada pequena sílaba que ele se tornasse ainda mais desmantelado. Suas palavras recochetearam pela sua mente e o fizeram derreter. Ele não tinha mais nada naquele ponto, nem mesmo sua honra.
– Pode me levar a minha família?
Sua pergunta saiu tão ingênua e desarmada que até mesmo Gwanwyn, se tivesse um rosto, expressaria uma falsa empatia pelo sujeito. Afinal, ele havia perdido absolutamente tudo em um piscar de olhos graças a uma chantagem de Melinda. Ela o havia invocado até ali – e ele não sabia ao menos como ela sabia de sua existência – e o forçado a cooperar com um plano que não entendia para que sua família fosse poupada. E foi isso que ele fez, sem muitas opções. E era até ali que tudo aquilo o havia levado: ao fundo do poço. A uma súplica covarde e desesperada a uma deusa em uma ruela escura em Inverno. Em um dia congelante. Em um continente congelado. Em um mundo permanentemente injusto.
– Oh, minha abelhinha – Gwanwyn começou, açucarada, flutuando sua fumaça com rastros de mulher na direção do rapaz assustado. Os olhos dele eram pouco amendoados e inchados, no presentes estavam vermelhos e irritados. – Na verdade eu vim agradecer por ter nos ajudado.
– Certo. O agradecimento pode ser esse? – insistiu, impaciente, nutrindo certa dificuldade para respirar ao sentir seu coração machucar suas costelas de tanto que batia.
Dentro de si, sua consciência boiava em uma sopa de pena por si mesmo e raiva pela sua situação. Sentimentos destruidores e explosivos, que provocavam pequenas e estranhas fisgadas nas palmas de suas mãos.
Literalmente.
– Eu faço tudo pelos meus, José... – garantiu a deusa, aproximando-se mais alguns centímetros.
Quando ela avançou, o rapaz prendeu conscientemente sua respiração, mas foi incapaz de controlar as pontadas em sua mão, que se intensificaram de maneira preocupante e imediata. Era como se ele levasse pequenos choques. Constantes. Que ascendiam até seus cotovelos toda vez que a deusa abria sua boca figurativa, ou se mexia. Mas que droga? Abriu e fechou suas mãos, tentando ignorar a sensação esquisita. Tentando ignorar o fato de que se sentia um pouco ansioso demais. Algo dentro de si não estava normal, ele se sentia quase... flutuando. Que. Droga?
– ...especialmente por aqueles que me ajudam.
Continuou finalmente, e José se forçou a encarar sua figura assustadora e imaterial. Tentando se concentrar nela, mas falhando miseravelmente ao sentir as pequenas descargas tomarem conta de todo o seu braço. Sem nenhuma sutileza, elas passaram a subir cada vez mais, dominando por completo seus membros periféricos. Seus dedos passaram a tremer. Ele arqueou uma das sobrancelhas, desistindo de a fitar e encarando seus braços completamente encobertos. Era mais algum efeito colateral do feitiço? Por que seus membros pareciam energizados?
A deusa de Primavera também franziria a testa naquele ponto, se tivesse uma.
– O que está acontecendo?
Perguntou, ao perceber que ele estava quase em pânico. Sua voz fez José se contrair, arfando, como se tivesse sido atingido por um dardo, ou uma injeção de adrenalina. Seus braços formigavam, estalavam, mas estranhamente, ele não sentia dor alguma.
– José?
Insistiu a fumaça, com sua voz amplificada parecendo tomar conta de Inverno. E aquilo o fez ainda mais enfermo. Ou talvez curado.
O sujeito engoliu a seco, pouco tonto, encarando seus membros atolados de neve. Sentindo mais do que nunca o frio abaixo de seus pés. A secura do continente ao seu redor. A ardência de sua pele descamada. As batidas abafadas de seu coração. Sua respiração ofegante. Ele pareceu imergir em si mesmo. Pareceu ser aumentado para muito além do que podia ser. Céus. Que droga? Engoliu a seco, desesperado. Por alguns instantes, a fumaça que saíra de sua boca parecera grande demais, voraz demais. Poderosa demais.
Ele sentiu todas as suas lágrimas se formarem na ponta de seus olhos cor de mato. Sentiu seu sangue correr pela suas veias. O frio o cortar. Seu pulmão desinflar. As fagulhas de suas mãos se alastrarem pelo seu corpo e o transformarem em algo diferente. Em algo mais do que um simples pai injustiçado. Do que um sujeito covarde qualquer. Em algo mais que um humano. Voltou seu olhar para Gwanwyn. A fumaça não tinha olhos, mas o encarava de volta e José poderia jurar pelos seus filhos que a deusa de seu continente estava assustada.
– Você...
Ela ameaçou falar, mas ele não se permitiu escutar. Lotado de amargor, fagulhas, frio, José se sentiu explodir. Sentiu-se consumir, e permitiu que seu corpo se transformasse. Aqueles deuses o haviam usado. Haviam amaçado a sua família. Haviam o desestruturado. O maltratado. Feito pouco caso. Eles eram todos bastardos infelizes e artificias. Todos monstros desonestos, rancorosos, anormais. E ele os odiava mais que tudo. E foi exatamente esse ódio que naquele instante foi amplificado, inflado. José sentiu seus pés queimares. Sentiu-se minúsculo, e, logo em seguida, grande demais.
Todo seu corpo foi eletrocutado no momento exato em que ele gritou "Calada", e forçou toda a neve acima de sua cabeça a parar de cair.
O continente ficou em silêncio por alguns instantes e José poderia jurar que ouvira Gwanwyn prender sua respiração.
Depois de descarregado, ele se sentiu murchar. Suas pernas falharam e ele apalpou seu peito, ofegante. De primeira, seus neurônios amortecidos não o permitiram entender o que de fato tinha acontecido. Não o deixaram entender o que tinha feito. Mas assim que voltou a encarar a silhueta de Gwanwyn, sentiu todo o peso da verdade o achatar como se fosse uma barata.
A deusa de Primavera estava escura. Sua silhueta esverdeada e antes clara estava paralisada e tonalizada de verde musgo. Ela não tinha rosto, mas José a enxergava perfeitamente naquele instante. E ela estava apavorada como ele. Irritada como ele. Perplexa como ele.
– Você fez parar de nevar – apontou a deusa de Primavera, forçando José a fitar o céu acima de si e encarar nada além de pesadas nuvens entupidas.
Ele havia feito isso? Não conseguia respirar. Não conseguia processar. Mas era a verdade. Não nevava mais em cima de sua cabeça. Na verdade, não nevava mais em Gelinho. Ele havia interrompido a tempestade em toda a cidade com os seus dedos eletrizados. Ele. Céus.
– Como isso é possível? – Gwanwyn perguntou, retoricamente, com a sua doce voz de certa forma cortando pedacinhos de José. A interrogação em seu tom era palpável, mas o entendimento de certa forma, fez-se rápido demais.
José, em contrapartida, estava sedento e ignorante. Parecia que havia feito o maior esforço possível e regurgitado todo o seu ar. Sentia-se vazio de novo, insignificante. Não entendia o que havia acontecido, mas Gwanwyn sim. E esse era o maior problema.
– Preciso consertar isso.
Anunciou, contida, forçando José a franzir sua testa. Com a mão no peito e o abdome contraído, ele processava muito lentamente o que estava prestes a acontecer.
– O que disse? – conseguiu perguntar, apesar de estar se recuperando de sua descarga de energia que provocou Inverno.
Gwanwyn o encarava com atenção, com os pensamentos borbulhando e o plano todo traçado em sua mente doentia. Precisava consertar aquilo.
– Sinto muito, querido. Eu realmente odeio ter que machucar os meus – disse, com uma pontada sincera de medo e sensibilidade em sua voz. – Mas você é uma ameaça.
Quê?
José teve tempo de levantar seu olhar assustado e exausto antes que ela começasse a agir.
Os poucos segundos que ele se sentira grande, inflado, poderoso foram de vez apagados. Assim como ele. A última coisa que seus olhinhos esverdeados enxergaram foi a silhueta de Gwanwyn avançando em sua direção, depois sentiu algo atingir sua cabeça. Sentiu seu ar ser para sempre expulso. Seu pulmão ser perfurado. E logo depois, não sentiu mais nada.
E caiu no chão sem nenhum grão de neve por cima. E Inverno o assistiu padecer em sua terra branca e macia e toda a sua eletricidade pulsante ser consumida pelos dedos de fumaça da deusa de Primavera mais uma vez.
Se ela tivesse dedos, poderia se ver que eles tremiam. Se ela tivesse coração poderia se perceber que ele palpitava. E se ela não tivesse conhecimento, teria o deixado viver. Gwanwyn sabia o que tinha acontecido. E agora precisava consertar isso. Um já havia sido neutralizado. Faltavam três. E ela sabia exatamente o que devia fazer a partir dali.
"Isto é o que vocês vão ganhar quando mexerem conosco"
Karma Police – Radiohead
Fim de capítulo.
Olá meus amores!! Que saudades! Aah!
O que acharam dessa introdução? To muito animada por voltar a postar! Não deixem de comentar suas impressões e teorias heinn. Vem MUITAS tretas por aí.
RIP José.
Nos vemos capítulo que vem.
Big beijo.
## perguntinha bônus:
1) O que Gwanwyn sabe?
Capítulo publicado em: 19/05/19.
Todos os direitos reservados.
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