Capítulo 9: Iniciantes
Kiere e Zelgle deixaram o prédio da guilda após terem aceito uma das missões, que inclusive era em um vilarejo próximo à cidade.
Eles levaram cerca de trinta minutos andando para chegar, e então foram se encontrar com o chefe da pequena vila.
-Vocês vierem pela missão de resgate?
Disse o homem velho, aparentando ter mais de sessenta anos, com o cabelo branco e a barba por fazer.
-Sim, nós começamos hoje como aventureiros, e a sua missão era a com melhor pagamento naquele momento.
Respondeu Kiere.
-Graças aos deuses!
Eu fui até a cidade dois dias atrás fazer esse anúncio, a situação é urgente.
-Aqui está dizendo que vocês estão tendo problemas com... cachorros?
Estranhou a meio humana, enquanto olhava para o papel com uma cara boba.
—Eram criaturas estranhas, diferentes da maioria dos monstros ou animais que vivem pela região...
—Como eles eram, exatamente?
—Eles eram quase como cães, mas tinham uma coloração estranha...
Verde... talvez?
Kiere soltou um longo suspiro pela boca.
—Olha...
—Eu sei, eu sei, a descrição é muito pobre... porém quando fomos atacados a noite já havia caído, por tanto era complicado avaliá-los corretamente, mas tudo que posso dizer é que eles eram ferozes, eles mataram em poucos minutos os guardas que cuidavam da vigilância do vilarejo, e levaram algumas pessoas.
O homem parou e respirou fundo por momento.
-Uma delas é a minha filha, eu e maioria das pessoas aqui não temos esperanças de seus familiares levados estarem vivos, mas caso estejam, os salvem por favor!
-Claro, é pra isso que estamos aqui.
Disse Zelgle, com um olhar inexpressivo, suas primeiras palavras desde que chegaram à vila.
—Mas isso é estranho, você não acha?
Disse Kiere, encarando o chão com uma expressão pensativa.
—O que?
—Bem, se eles são monstros do tipo besta, ao que tudo sugere, eles não deviam ser tão racionais... não concorda?
Porque é muito comum monstros humanóides sequestrarem pessoas, como aqueles goblins nojentos sequestram mulheres para se reproduzir... mas eu nunca ouvi falar de bestas que levam humanos para fazer estoque de alimento...
"E se eles não estiverem armazenando comida?"
Ponderou Zelgle dentro de sua própria cabeça.
—Agora que você disse isso, eu me lembro de ter visto um deles de longe, ele parecia bem maior que os outros, mas sua cor era diferente, ele era escuro... roxo, talvez?
—De novo com o "talvez"?
—Ah, vamos, perdoe esse homem de meia idade, eu não enxergo muito bem...
O idoso soltou uma risadinha, que não soou como o esperado, pois a tentativa de tentar esconder a aflição era inútil.
—Tinha mais alguma coisa estranha nesse ai que era diferente?
—Ele tinha algo estranho nas costas... pareciam espinhos.
Me desculpem, mas isso é o máximo de informações que eu consigo lhes oferecer.
-Tudo bem.
Nós daremos um jeito.
Os olhos do velho homem brilharam.
-Que bom!
Muito obrigado, como somos uma vila pequena, é muito difícil de aventureiros aceitarem as missões.
-Bom, nós estamos indo então.
-Certo, voltem em segurança, por favor!
Dito isso, eles foram até os campos, na tentativa de localizar o ninho das criaturas.
Depois de algumas horas de busca, eles finalmente acharam algo.
-Isso é...
Era o cadáver de uma pessoa, pelas roupas, ficava óbvio de se dizer que era um fazendeiro.
-Aparentemente ele foi morto por um animal grande...
Disse Zelgle, ajoelhado, se apoiando no cabo do machado que estava cravado no chão.
O corpo estava ensanguentado do lado esquerdo, onde um dos dois braços havia sido arrancado, deixando apenas um buraco que chegava até o pescoço.
"Isso foi arrancado com uma única mordida?"
-O que você acha?
Perguntou Zelgle enquanto olhava para Kiere, mas a garota não ouviu, ela estava encarando o cadáver com uma expressão triste, Zelgle conseguiu entender e deixou a pergunta de lado.
-Vamos prosseguir.
-Não.
-Hm?
-Vamos enterrá-lo antes, por favor...
-Ah, claro...
"Onde está minha sensibilidade?
Eu realmente deixei de ser humano?"
Após eles terem terminado de enterrar o corpo, eles prosseguiram buscando pelas criaturas misteriosas,
mas no fim das contas, eles não encontraram nada e acabaram retornando para a guilda.
-Um monstro que pode arrancar o braço de uma pessoa com uma única mordida?
Olha, existem diversos, sem mais nenhuma informação é impossível de chegamos à uma conclusão.
Já no prédio da guilda, Kiere e Zelgle estavam informando o que viram e também tentando encontrar mais informações sobre as criaturas.
-Os aldeões nos disseram que eles parecem cachorros, e que um deles tinha espinhos nas costas.
Respondeu Kiere.
-Isso ainda não é o suficiente, me desculpem...
-Hum, falhando na primeira missão... tem certeza que estão tentando direito?
Como podem ter sido classificados com ranks mais altos que o meu?
Um aventureiro que estava próximo se intrometeu na conversa entre eles a balconista.
Kiere estava encarando o homem com um olhar de gelo.
—É raro ver um aventureiro rank ouro falhar em uma missão, mas sendo a sua primeira e ainda de rank beonze... isso não é patético demais?
O homem estava sentado ao redor de uma mesa com um grupo de cinco pessoas, quatro deles estavam com um sorriso de desdém no rosto, igual ao homem, apenas uma das pessoas não estava se comportando de tal maneira, mas não dava para se ter certeza, ela estava coberta por um longo capuz, não deixando ver seu rosto caso se estivesse de pé.
Kiere pensou em avançar sobre o homem, assim que ela se levantou, Zelgle segurou seu braço.
-Kiere, não.
Ele a impediu sem se virar.
-Hum, o que foi?
Por que tá com medo grandão, aposto que você é forte não?
Zelgle não respondeu à provocação.
-Moça, nós iremos cancelar essa missão, tudo bem?
-Ahm?
Ah sim, tudo bem, mas... vocês não receberão recompensa alguma mesmo que tenham tentado, certo?
-Claro.
Zelgle então se levantou.
-Vamos Kiere, vamos tentar outra.
Eles se foram em direção à placa de anúncios.
-Vê se tentam algo mais fácil dessa vez.
Disse o aventureiro para os provocar.
-Seguirei seu conselho.
Zelgle encarou o homem lateralmente enquanto ia em frente.
Ele acompanhou os olhos de Zelgle com os próprios.
"O que há com esse cara?"
-Você não precisava ter feito aquilo.
-Precisava sim.
Você pretendia matá-lo por acaso?
-Eu s-
-Olha Kiere, eu sempre fui feito de idiota, minha vida toda foi assim.
Eu sei que é uma droga, mas se você se deixar levar pelas provocações vai acabar sendo vista como uma tola, e será feita de massa de manobra.
Dizia Zelgle, enquanto procurava nos anúncios algum trabalho.
-Mas se você não reagir, será feito de covarde!
-Um covarde pensa, massa de manobra não tem essa chance, geralmente se é descartado antes de se ter.
O que você quer ser então?
A garota abaixou a cabeça, pensando sobre o que havia escutado.
-Mas...
Ela não disse mais nada.
-Aqui, essa parece simples, a recompensa é de uma moeda de prata.
-Só isso?
Qual o rank dessa me-
O que?
Rank Ferro?
Não é baixo demais?
-Mesmo que você diga isso, nós só temos coisas assim disponíveis, é o que teremos.
-Hmmm... Isso vai ser um saco...
A missão em questão era um extermínio de criaturas que estavam causando uma grande confusão em um vilarejo próximo.
E então eles partiram, mais uma vez.
Até metade do caminho nenhum dos dois disse uma palavra sequer, o que deixava a atmosfera completamente estranha, apenas com sons naturais, emitidos por animais pequenos como passaros ou até mesmo cervos que podiam ser ouvidos mata a dentro, enquanto eles caminhavam naquela estrada arenosa cercada por uma muralha de árvores, já do lado de fora dos muros de Nirrat.
Para Zelgle, isso era algo natural agora, a partir de que seu sentimento de inquietude sumiu, mas para Kiere, era completamente esquisito andar com uma pessoa por tanto tempo sem dizer uma palavra, então a garota decidiu quebrar o gelo por si mesma, deixando de esperar algo da figura ao seu lado.
—Ei, quanto tempo acha que falta para chegamos?
—Não sei...
—Hmmm... eu realmente espero que nós consigamos completar este trabalho... não quero ser vista como uma fracassada, sabe?
—Se fosse você eu não me preocuparia demais com isso...
Não importa o quanto você se esforça ou é boa em algo, sempre haverá alguém pra fala mal.
—Bem... isso é verdade mas... meio que ainda assim é nossa culpa, então, eu me preocupo sim.
Zelgle olhou para a garota por cima dos ombros.
—Não se preocupe tanto, nós vamos conseguir dessa vez.
—É, espero que sim...
Kiere cerrou os olhos.
"Esse idiota... ele deixou a conversa morrer de novo!"
Eles já estavam perto de chegar no pequeno vilarejo, a caminhada deveria ter durado em torno de vinte minutos.
À primeira vista, o lugar parecia abandonado, as casas pareciam vazias, mas não havia nada destruído.
—O que aconteceu aqui?
—Não sei, acho que vamos ter que descobrir.
Eles começaram a vasculhar a vila em busca de pessoas, mas aparentemente os moradores haviam sumido.
—Não é possível que uma vila inteira tenha sido atacada mas que nem uma das casas tenha sido minimamente destruída
—Sim, há algo de errado aqui.
Eles estavam olhando para todos os lados, na busca de algo ou de alguém que pudesse ao menos indicar o que tinha acontecido ali, mas não acharam nada.
Quando estavam quase do outro lado do vila, até que, enfim, ouviram um barulho vindo de uma casa.
Se encararam por um momento, e em silêncio, foram até o local.
Não havia nada de anormal na pequena casa aparentemente, apenas não se era possível enxergar o que havia dentro através das janelas por conta da escuridão.
Zelgle foi até a porta, e Kiere estava logo atrás, de prontidão.
Ele então colocou a mão sobre a fechadura, rotacionando a lentamente até abrir a porta, assim que abriu a porta, um cheiro estranho correu pelas narinas de Zelgle.
"O que é isso?"
Kiere parecia enjoada, a ponto de desmaiar.
—Ei- is-s-so é san-
Olhou para a companheira rapidamente, e então devolta para dentro da casa, até que algo pulou em cima dele.
Zelgle voou para trás, deixando um rastro vermelho pelo ar.
Algo havia mordido seu pescoço.
A criatura realmente parecia com um lobo, mas também com a descrição que tinha ouvido do velho da outra vila.
Kiere gritou o nome do companheiro, que estava caído no chão, com sangue por toda a roupa.
A criatura então arrancou uma parte de seu pescoço, sua boca gotejava sangue.
Até que Zelgle tentou acerta lá com um soco, mas ela pulou para trás rapidamente.
Ele se levantou, com chamas púrpuras cobrindo a face, seu pescoço quase regenerado.
O monstro rosnou.
Seu machado estava longe, havia derrubado durante a queda.
A criatura então voltou a pular sobre ele, que não revidou, apenas deixou que ela mordesse seu ombro direito, e então a segurou com os dois braços.
—Agora, Kiere!
A meia humana saltou sobre o companheiro, tentando acertar a criatura, ela conseguiu, a garota acertou a região do estômago, e então o monstro parou de se mexer.
Zelgle a largou, ela caiu no chão, já parecendo sem vida, mas não era o que parecia, a criatura novamente saltou para longe.
—O que?
Esse desgraçado ainda tá vivo!?
Kiere parecia surpresa e furiosa ao mesmo tempo.
A criatura não voltou à atacar, mas sim fugiu.
—Droga!
—Vá atrás dele, você pode alcançá-lo, é provável que ele retorne para o ninho, e se tiver mais desses, eles estaram lá.
—Mas e você?
—Eu irei logo atrás, se eu tentar te acompanhar agora, só vou te atrasar!
—Muito bem!
A meia humana saiu em disparada atrás da criatura, era difícil acreditar que ela estava apenas correndo naquela velocidade insana.
Zelgle buscou o seu machado que estava jogado a cerca de dois metros de distância de onde ele estava.
Ele então fitou o rastro de sangue que o monstro havia deixado após fugir, e então, começou a seguir a trilha vermelha.
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