Capítulo 60: Deus estaria orgulhoso
Não era possível saber como, nem quando Zelgle havia deixado sua humanidade totalmente de lado para se tornar o "monstro" que era agora. Sobre humano ou não, ele queria que as coisas pudessem ser diferentes. Queria que um final bonito pudesse ser acrescentado a sua história mais que terrível. Mas a verdade é que até o conto mais bonito é cercado de um final trágico se a análise for feita da maneira certa, mas isso não é necessário aqui. Zelgle teve certeza que esse não era o caso depois da cena que presenciava, e apesar de não poder sentir, algo dentro dele dizia que havia sido derrotado, não por um vilão, mas sim pela própria indiferença.
—O que foi, Zelgle? — falou o soldado no meio da escuridão. Um sorriso de imensa satisfação estava estampado em sua face. — Não gostou da minha surpresa?
Logo atrás do homem, havia um corpo caído no chão. Zelgle não precisou se esforçar para reconhecer quem era. Os outros integrantes do grupo estavam horrorizados com a cena. Kiere virou a cabeça na direção da desgraça que todos contemplavam, Kette abraçou Lauren com força, escondendo a face no corpo da mulher que encarava a cena imóvel.
"É incrível como as boas pessoas sempre tem o pior dos fins."
Pensou o garoto olhando de relance para a cena, apesar de sua encenação de ingenuidade, sua expressão não mostrava um pingo de surpresa. Zelgle olhou entre a escuridão, vendo o corpo de WIlni caído no chão, as roupas rasgadas e ensanguentadas, com partes do corpo amostra. A expressão no corpo da garota era vazia, fria. Não havia mais vida nela, e isso era óbvio, entretanto, o terror de seus momentos finais ainda jaziam estampados em sua face.
—Sinceramente, eu não consigo nem imaginar o quanto ela o amaldiçoou por isso. — disse o homem de armadura parado rente ao cadáver de Wilni. Ele sorria na direção de Zelgle, que o fitava inexpressivo. O soldado riu enquanto encarava Zelgle, como se aquilo fosse tão engraçado que mal podia segurar a risada. Foi então que algo voou em sua direção e não o acertou por pouquíssimos centímetros. A risada do homem cessou ao olhar para trás e ver uma adaga crivada na parede ao fundo. Ao voltar seu olhar para frente mais uma vez, viu os olhos de Kiere brilhando dentro do capuz, seu braço estendido após ter arremessado a arma, porém, sendo segurado por Zelgle. A meio humana ergueu os olhos para encara-lo.
—O que caralhos está fazendo? — rosnou ela, com uma raiva profunda sendo desenterrada das mais fundas camadas de seu ser. E não era como se fosse algo totalmente sem sentido, passara por uma situação imensamente parecida num passado não tão distante, envolvendo uma pessoa em comum daquele momento.
—Espere, eu mesmo vou cuidar disso. — falou Zelgle, sua voz saiu levemente mais atroz que o normal. Kiere olhou para ele por mais alguns segundos até decidir que não deveria se intrometer. Reprimiu a raiva e deu um passo atrás. Juntando-se uma vez mais a desajeitada formação que o grupo havia montado de forma improvisada. — Posso saber qual seu objetivo com tudo isso? — perguntou Zelgle ao homem parado em meio a escuridão.
—Objetivo? Não acho que isso seja necessário nos dias de hoje. Veja bem, não é divertido simplesmente tornar a vida das pessoas um inferno? O que mais eu ganharia com isso além de prazer? — respondeu ele sorrindo.
—Compreendo. Então era só isso? Achei que você pudesse ter uma motivação mais sórdida por trás, porém, você só queria me provocar, era isso. Não o culpo. — enquanto falava, Zelgle se aproximava do homem sem qualquer preocupação de ser apunhalado ou atacado de surpresa novamente. Ficou a menos de um metro do soldado sorridente. Olhou para o chão e viu o corpo de Wilni caído e então voltou os olhos para o sujeito a sua frente uma vez mais. — Eu não sei onde você estava com a cabeça quando imaginou que eu me importava, mas que fique claro, você não está mais a salvo.
O homem riu, gargalhou desesperadamente, e aos poucos sua risada perdeu a força e a ênfase, dando lugar ao desagradável som desafinado, como se a risada tivesse ficado entalada na garganta do soldado, e tudo que saia era tosse embrulhada em uma imensa vontade de continuar rindo.
—Então no fim, Deus não teve misericórdia.
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Tolfret olhou de um lado para o outro, desamparado. A enorme alabarda em mãos, segurava a arma enrijecido, não conseguiria soltá-la até tudo aquilo acabar. O firme cabo de madeira alimentava a sua confiança na arma, sentiu-se imensamente aliviado por tê-la. Agradeceu Kiere por ter escolhido aquela entre todas as outras armas, mas mesmo assim, confiar unicamente na sua arma é um erro, e a vida o havia ensinado isso das piores maneiras possíveis. Não confiar nas próprias habilidades também se encaixava nessa categoria, entretanto, era bem difícil não desacreditar de si mesmo quando se está encurralado por um número de inimigos bem maior do que o de aliados. Sentiu uma gota de suor escorrer por sua testa, deixando-o em agonia profunda por não conseguir mover um músculo para enxuga-la. Estava focado exclusivamente nos homens a sua frente, não estavam pouco mais que quinze passos dele e do restante. Queria olhar para trás e ver qual era a situação, mas o pescoço estava travado, petrificado pela tensão. Foi então que viu um dos homens abaixar a arma e disparar na direção dele. Preparado não era a palavra correta para descrever Tolfret em nenhuma situação, porém, dessa vez ele tinha vantagem. O soldado em questão segurava uma espada curta, contra o alcance de uma arma longa como a de Tolfret, era uma idiotice completa fazer aquilo. Contudo, a vantagem do cavaleiro acabava ai, já que logo atrás dele vinham os outros soldados correndo enfileirados. Tolfret juntou toda a força que tinha e atacou. Perfurou o estomago do primeiro e o levantou, rosnou enquanto fazia uma careta, demonstrando ferocidade com o esforço. Foi então que o segundo venho, a lança que esse em questão portava, reluziu a pouco menos de dez centímetros de seu braço, e logo em seguida seu dono foi ao chão. Inúmeros estardalhaços metálicos irromperam, e os soldados caíram um por um. Ninguém estava entendendo a cena, até que o último dos homens caiu. Todos mortos. Enormes buracos atravessavam partes diferentes de cada corpo, mas todos tinham o mesmo tamanho. Fosse na cabeça, peito ou estomago. O grupo olhou ao redor sem entender. Aquilo era um absurdo sem proporções. Tolfret sempre achou que milagres ou salvações mágicas ficavam só nas lendas, entretanto, como diabos aquilo poderia ser explicado?
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—E então, como vai ser? Acho que você ganhou não é? Vai me matar agora?
Após o horrendo acontecimento de antes, Zelgle pediu para que todos do grupo o deixassem a sós com aquele soldado. Não sabia o nome dele, não sabia suas motivações, mas isso não importava.
—Não se preocupe quanto a isso. Teremos bastante tempo ainda, você pode me dizer o que está acontecendo aqui enquanto isso. — respondeu o gigante, sentado a frente do homem. Ele afiava o enorme cutelo que anteriormente era de Wilni. Virou a lâmina e viu sua face sem vida reluzir contra o metal polido.
—O que você quer saber? Pensei que tudo já estivesse claro a essa altura. — respondeu o soldado. Ele estava amarrado a um pilar de madeira do centro do estabulo, olhando para Zelgle atentamente.
—Tudo. O que realmente aconteceu aqui. O que ainda acontece, e principalmente, o que aconteceu comigo. — respondeu o gigante se levantando.
—Eu já contei isso a você. O exército manda em tudo agora. Nós podemos de tudo, somos a própria encarnação da lei. Será que você não conseguiu entender isso? E por isso se recusou a se juntar a nós, mesmo tendo a oportunidade de fazer tudo o que quisesse?
—Inclusive o direito de estuprar jovens indefesas?
—Eu disse tudo. Por quê? Ficou magoado pela sua amiga? Ora, não seja hipócrita. Você mesmo disse que não se importava.
—E não me importo. — respondeu Zelgle. — Porque não consigo. Você viu antes, não foi? Não sou mais humano agora. Sequer sei o que sou. Me desfiguraram completamente. Agora, sou apenas um boneco. E toda a culpa disso é sua.
—Minha? Rá! — o homem soltou uma gargalhada estridente após ouvir isso. — Eu pensei que ia sofrer nos meus últimos momentos depois de todas as coisas que fiz, mas você está fazendo isso ser bem mais divertido do que deveria. — ele respirou fundo e encarou Zelgle novamente. O gigante agora estava estático o encarando na penumbra. — Sabe, para sua informação, você não era o único que tinha uma vida, meu querido Zelgle. Laila e Natana. Esses eram os nomes da minha filha e esposa. Sabe o que aconteceu a elas? Opa, que coincidência, até agora pouco tinha alguém aqui que passou por algo muito parecido. — falou enquanto olhava para o lugar onde o corpo de Wilni estava despojando anteriormente. Ele então voltou os olhos a Zelgle uma vez mais, com o sorriso ainda estampado no rosto. — Deixe-me ver... minha filha tinha quantos anos mesmo? Sete? Oito? Não estou lembrado, que coisa! Mas veja bem, os tão civilizados rikiatianos não tem tanta misericórdia quanto dizem por ai.
—E o que isso tem a ver com o agora? — questionou o gigante.
—Tudo! Tem tudo a ver! Quando minha família foi tirada de mim, eu não tinha mais motivo para continuar vivendo. A não ser, claro, acabar com a vida de outras pessoas. É mentir para si mesmo dizer que você não quer ver os outros sofrendo igual ao que você sofreu. E eu nunca fui um bom mentiroso.
Zelgle não respondeu, apenas permaneceu fitando os olhos do soldado.
—Não me diga que não se sente assim? Somos tão iguais. Ambos perdemos tudo, e ambos não nos importamos com as pessoas a nossa volta. É tão difícil assim admitir que você gosta de ser o que é?
—Nós não somos iguais. — falou o gigante. — Porque a quantidade de dor que podemos causar é completamente diferente. — disse enquanto a lamina do cutelo descia na direção da mão do soldado.
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Tolfret olhava para o rosto dos outros integrantes do grupo, todos estavam inquietos. Menos Kette. Que não demonstrava surpresa nenhuma para nada. Até Holsung parecia confuso com os acontecimentos recentes, tudo tinha sido rápido demais. Não faziam ideia da trama dos soldados, e muito menos ideia de como todos eles tinham sido mortos na frente dele sem eles sequer saberem como. O cavaleiro virou os olhos para Kiere, a meio humana encarava a porta do celeiro com os olhos frios. Entre as três mulheres do grupo, ela foi a que mais pareceu atormentada com a situação. Ela havia contado a Tolfret como sua vida era antes, e ele entendia perfeitamente o que a falta de confiança nas pessoas podia causar. Não conseguia imaginar que tipo de situações ela passou antes, e ainda assim, ela conseguia ter empatia por algo que nem lhe dizia respeito.
—O que foi? — indagou ela ao perceber que Tolfret a espiava.
—Nada, nada... — respondeu enquanto tirava a caixa de cigarros que havia pilhado do corpo do soldado morto naquele acampamento destruído. Ele tirou um deles da caixa e o acendeu, tragando-o logo em seguida. Soltou um grande jorro de fumaça no momento seguinte.
—Me dê um desses. Parece divertido. — falou Holsung se aproximando. O sorriso feral transparecendo detrás da máscara.
O cavaleiro retirou mais um cigarro da pequena caixinha e o entregou, acendendo-o logo em seguida. Já sem a máscara, Holsung imitou o que o cavaleiro fez anteriormente. Pareceu surpreso, como se aquilo tivesse sido bem melhor do que esperava. Ia dar uma segunda tragada, mas antes que pudesse, um berro de dor horrível chegou aos seus ouvidos. Todos do grupo viraram os olhos na direção do celeiro, de onde aquilo tinha vindo. Um segundo grito venho então, mais desafiado e mais alto que o primeiro, aparentando ter muito mais dor envolvida também. Tolfret encarou o chão, entristecido, mas aliviado. Era um desgraçado a menos para o mundo ter de lidar, porém, esse não era exatamente o motivo de seu alivio, mas sim não ser ele no lugar. Foi então que ouviu um profundo suspiro, vindo do seu lado. Holsung soltava uma segunda onda de fumaça no ar.
—Sério, Deus estaria orgulhoso com toda certeza. — comentou ele sorrindo.
—Do quê? De estarmos matando uns aos outros? Da vida de inúmeras pessoas inocentes estarem sendo destruídas? — inquiriu Tolfret com raiva.
—Não porra, de terem inventado isso. É uma maravilha. — respondeu o sorridente assassino apontando para o cigarro.
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—Viu? Completamente diferentes. — Zelgle agora encarava o cotoco que até alguns segundos era a mão direita do soldado a sua frente. Ele não tinha arrancando somente os dedos, mas a metade da mão, deixando apenas um pedaço da palma com uma pequena sobra do polegar.
O homem gritava, tremia e convulsionava. E apesar de todo o dolorido processo, o sorriso não sumia de sua boca.
—Parece estar se divertindo, Zelgle... — balbuciou ele engasgando na própria saliva. Uma gargalhada hedionda tomou conta do espaço.
—Não tanto quanto você, aparentemente. — respondeu Zelgle friamente.
—Vamos, não seja estraga prazeres. Pelo menos admita que você está satisfeito. Que finalmente conseguiu o que queria. Uma vingança! Não era isso que você esperava desde o princípio? Seu momento de fazer eu sentir tanta dor quanto você sentiu?
—Não. Eu não sinto nada. Porque até esse direito eles tiraram de mim. Sua família você disse? Quero que se fodam. Eu não me importo com seus motivos, e muito menos com seu passado. Você vai ter o que merece aqui e agora, sendo justo ou não.
—Muito bem, estou pronto. Mas... e quando for sua hora de receber o que merece?
—Não sei se vou conseguir me importar.
Mais um som de ossos se partindo e carne sendo mutilada irrompeu no lugar, ao mesmo tempo que um berro abafado de dor e um baque mudo de algo mais ao fundo. Zelgle observou o restante do coto sangrento, e então para a arma. Apenas o cabo do enorme cutelo remanescia, a lamina havia voado para longe quando o cabo se quebrou no impacto. A pesada peça de metal se cravou com força na parede ao fundo.
—É por isso que não gosto desse tipo de coisa, nem controlar mais minha força eu consigo. — falou o gigante enquanto se colocava de pé. Encarou o soldado, ele aparentava estar quase desmaiando devido a dor. Sua boca estava aberta com espuma recobrindo a parte de fora e sua cabeça estava jogada para trás. — Acho que nossa pequena diversão acaba aqui. Espero que tenha sido o bastante.
O homem não respondeu, apenas riu, uma risada que saiu terrível aos ouvidos, uma risada que só poderia ser ouvida de outra maneira se um sádico fosse levado para um enforcamento público. Zelgle o fitou por mais algum tempo, até que largou o cabo quebrado e levantou a mão direita na direção do soldado.
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Não demorou muito tempo até toda a construção emergisse numa imensa fogueira de chamas púrpuras, e no centro dela, uma enorme sombra caminhava. Os membros do grupo pareciam todos embasbacados com a visão. Os moradores do pequeno vilarejo observavam a cena com pesar, medo e raiva, mas não ousaram fazer nada. Zelgle se juntou a companhia, e ninguém disse uma palavra. Ele ficou de frente com Hylia, a encarou nos olhos por um tempo e então colocou a mão no bolso. Alguns segundos depois, um brilho azul surgiu na escuridão noturna, fazendo com os olhos de todos no local cintilassem. Zelgle empurrou o brilho preso em sua mão contra Hylia, a garota deu um passo atrás, desequilibrada, normalmente ela ficaria profundamente irritada por aquela ação, mas depois de todos os absurdos que vinha presenciando naquele dia, isso não a abalou nem um pouco. O gigante abriu a mão e deixou com que o cristal caísse nas mãos da princesa, ela olhou para o Coração da Tormenta por um segundo e então novamente para Zelgle.
—Eu vou ajudar você, mas que fique claro: eu não sou seu amigo e nem o seu escravo. Eu espero que você se lembre disso, Princesa.
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Nota do autor: Finalmente chegamos no fim do primeiro livro. Não é muito, mas é algo que eu dediquei um bom tempo da minha vida fazendo. Espero ter animo para continuar, coisa que acho meio difícil. Mas vamos tentar. Começarei a revisão do livro em breve, então esteja ciente de que muitas coisas no enredo irão mudar, muitas mesmo. Dando mais profundidade e sentido a momentos que chegam até a ser infantis. No mais, obrigado por acompanhar até aqui. Espero que todos releiam a reescrita e no caso de um futuro lançamento físico ou digital, que eu possa contar com o apoio de todos.
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