Capítulo 56: Segure-se em algo

O grupo havia partido de Ardium, se levantaram cedo e partiram antes do sol nascer. Iam em direção ao antigo vilarejo onde Zelgle vivia. Zelgle encarou a muralha  por alguns instantes antes de deixarem a cidade cinzenta para trás no horizonte. Era uma pena que um pedaço de sua vida "real" tão importante quanto aquele estivesse em tal estado de decadência, mas mesmo quando era vivo de verdade, Zelgle não tinha muito apreço pelo local. 

"Mais uma cidade cheia de muros cinzas com o fedor da pobreza e os ruídos da miséria. Podem riscar essa do mapa."

Em contra partida, estava quase se sentindo curioso em relação a voltar para sua terra natal, não tinha esse sentimento de forma literal, mas conseguia manter uma certa ansiedade pensando nas reações das pessoas que um dia chamou de conhecidos. Já havia rumado demais na direção oposta, enfrentando o desconhecido inúmeras vezes, e a si mesmo principalmente, que era a coisa na qual estava mais curioso até então. Mas pensaria nisso depois, agora, precisava se decidir entre entregar o cristal estranho para a autoproclamada princesa ou não. Para ele, essa não era uma decisão realmente difícil, afinal de contas, tudo era leviano para ele. A guerra terminar ou não, todos morrerem ou viverem, o mundo acabar ou perdurar. Nada disso o importava de verdade. Se perguntava até mesmo se realmente se importava com a própria mãe, que estava prestes a reencontrar, mas nem isso lhe fazia sentir qualquer coisa. Deixou de lado os pensamentos sobre si, já que nunca encontraria uma resposta certa sobre isso, e voltou os olhos para o restante do grupo. Holsung havia retornado pouco antes de partirem, o assassino estava atordoado e parecia cansado. Extremamente cansado.

"Imagino o quão insano deve ter sido todo aquela diversão..."

Pensou um sorridente Tolfret sentando em uma carroça que estava sendo puxada por dois cavalos. Junto a ele estava Kiere. Encostada na lateral de madeira do transporte despreocupadamente. Na outra ponta, estavam Lauren e Kette. A ruiva sorria na direção do garoto, e dizia algo baixinho, pela expressão de Kette, o que quer que fosse que estivesse sendo dito, era tão interessante quanto ler um livro com nada escrito.

—Eu ouvi você dizer que não era muito longe... — resmungou Hylia em cima de um cavalo.

—Sim, disse, e realmente não é. Chegaremos lá ao pôr do sol. — respondeu Zelgle, montando em um dos cavalos que puxavam a carroça. 

Logo ao seu lado estava o mascarado, debruçado sobre o animal como um cadáver. Hylia que ia um pouco mais à frente, em um cavalo separado não conseguia esconder sua ansiedade em finalmente se livrar de Zelgle. Seria a melhor sensação do mundo saber que não teria que vê-lo de novo. Só mais algumas horas, e ele a entregaria o maldito cristal. Eles partiriam em sua jornada, Zelgle ficaria com sua mãe. Todos sairiam felizes. Não tinha como dar errado. Não tinha. Fizeram uma pausa perto de uma fonte de água. Zelgle se sentou ao lado de Holsung em cima de uma pedra. O assassino não poderia parecer mais morto nem se realmente estivesse.

—As coisas devem ter sido selvagens. — zombou Zelgle, sem um pingo de deboche na voz.

—Foram, foram sim. Pode apostar que foram. — Holsung resfolegou. Nunca era possível dizer o que ele realmente estava pensando, o mascarado podia variar do mais intenso sarcasmo ou do sarcasmo mais intenso ainda. Ele era basicamente isso.

Hylia estava de pé mirando o horizonte da margem do rio. Tolfret estava ajoelhado, bebendo água com as mãos. Percebera que Hylia observava as cadeias montanhosas ao longe.

—Teremos que atravessa-las para chegar lá, não? — perguntou se aproximando da princesa enquanto sacudia as mãos molhadas. Colocou as manoplas logo em seguida.

—Sim, teremos. Só estou pensando em como faremos isso. 

—Bom, tenho certeza de que iremos conseguir. — falou o cavaleiro de maneira despreocupada.

—Espero que esteja certo — Hylia olhou na direção dele — ou vamos morrer no processo. — falou ela enquanto caminhava em outra direção.

Tolfret engoliu seco ao ouvir a constatação. Odiava essa ideia. Morrer. Pra ele, a vida era algo muito valioso, a própria pelo menos, e ele não estava nem um pouco disposto a desistir dela tão facilmente, fosse pelo bem de todos ou não. Mas também não abandonaria a companheira, pois sabia que lhe devia mais do que a própria vida. O cavaleiro então olhou na direção de Kiere, estava achando estranho a maneira na qual ela estava agindo durante os últimos dois dias. Ela o encarava de maneira fixa, e quando ele devolvia o olhar, ela desviava. Nunca fora bom com mulheres, mas também nunca imaginou que elas teriam tanta aversão assim dele. Percebia que Lauren sorria na direção dos dois quando estavam juntos. Por acaso ela havia percebido algo sobre Kiere que ele não percebeu? Exceto pelo fato de Tolfret ser o único a saber que Kiere era uma meio humana, Lauren com toda certeza a conhecia melhor pelo tempo em que passaram juntas.

—Você ainda desconfia de mim, não é? — perguntou ele sério se aproximando. Kiere o encarou, estava encostada em uma árvore.

—Do que está falando? 

—Sobre eu saber que é uma meio humana. — antes de continuar, o cavaleiro se sentou na grama ao lado da árvore onde Kiere se recostava. — Tem medo que eu revele para alguém?

—Você pode falar se quiser — ela se abaixou, deslizou as costas sobre o tronco da árvore e se sentou na grama ao lado dele. — mas não garanto que não vou matar você depois.

Tolfret virou os olhos para ela de esguelha.

—Não gosto da ideia de morrer. Ainda mais depois de ser avisado... ainda assim, acredito que você não tem tanto medo disso assim. 

—E por que acha isso? — Kiere olhou de relance para ele, com metade do rosto escondida nos braços envoltos no joelho.

—Simples. Por que você ainda não o fez. — respondeu ele sorrindo. — Se você realmente estivesse com tanto medo de eu contar algo para alguém, e possivelmente armar uma armadilha para você, tenho certeza de que já teria me matado. Não estou certo?

Kiere suspirou, odiava quando alguém fazia palpites sobre o que estava pensando, mas odiava mais ainda quando essa pessoa estava certa. Ela se levantou, e começou a caminhar em outra direção, mas o cavaleiro segurou sua mão antes dela se distanciar o bastante.

—Me larga — rosnou ela.

—Eu estou certo, não é? — ele sorriu. Um sorriso irritante, que Kiere adoraria arrancar de seu rosto, mas não o fez, por algum motivo. — Por que não confia um pouco em mim?

A meio humana puxou sua mão de volta com virulência.

—Confiar nas pessoas é suicídio. — respondeu ela enquanto se virava e caminhava em outra direção.

Tolfret não sabia ao certo o que ela estava pensando, imaginou que já tinha alcançado certo nível de confiança com ela, mas aparentemente não estava certo. Com toda certeza ela era difícil de se lidar, mesmo não gostando de admitir. 

"Um passo de cada vez, então."

O grupo voltou a estrada. Todos mantiveram silêncio durante um bom tempo. Hylia já não aguentava mais aquela viagem toda. Já não bastava toda a jornada que havia feito dentro de Minandre, indo de cidade em cidade, enquanto buscava incessantemente por Ivan. Agora, tinha que acompanhar aquele desgraçado idiota porque ele simplesmente queria agir como uma criança e não entregar o maldito cristal. A princesa não conseguia entender o porque dele agir daquela maneira, por outro lado, se sentia meio culpada pela maneira que o tratou no princípio, poderia ter evitado todos os acontecimentos recentes se tivesse sido, como ele mesmo disse, um pouco mais cooperativa. Mas agora era tarde para se lamentar, e seu orgulho não deixaria que ela o fizesse, de qualquer modo.

Zelgle observava o entorno de cima do cavalo, passando os olhos sem vida sobre a paisagem. Se lembrava um pouco do lugar atual. Lembrava-se de passear por aqueles campos, saia com alguém de quem não conseguia se recordar, eles caminhavam pela mata, coletando plantas e outras coisas que encontravam. Lembrava-se do sorriso dessa pessoa, mas não de seu rosto. Não conseguia entender como isso era possível, mas ai estava. Essas lembranças não significavam nada para ele, mas ainda assim tinha muita curiosidade sobre elas. Querendo ou não, relembrar das memórias de sua antiga vida era o mais próximo que ele chegava de sentir algo, mesmo sendo uma mera curiosidade irrelevante. 

Passaram por um grande monte de terra, que tinha um enorme rochedo como alicerce. Uma pedra robusta, grande e avermelhada. Tinha em torno de uns seis metros de altura. Zelgle se lembrava dela. Pouco, mas lembrava. Lembrava de brincar com a pessoa cujo nome era desconhecido para o seu eu atual. Mas conseguia ver quase claramente as imagens de si mesmo e tal pessoa correndo em voltar daquela pedra, rindo e se divertindo. Também conseguia se lembrar de quando era mais velho, ambos sentados lá, conversando e sorrindo um para o outro. Tentou se forçar a relembrar quem era, mas não conseguiu nada. Desistiu de tentar, seria inútil, de qualquer forma.

Um pouco mais adiante, ao descerem um monte de terra irregular, foi possível ver vários telhados de madeira ou telhas marrons, o sol estava se pondo ao longe. Logo adiante, após o barranco, um pequeno rio com uma ponte de pedra curva cortava o caminho entre o grupo e o vilarejo.

—É aqui?  — inquiriu Hylia em cima do cavalo.

—É. — respondeu Zelgle. — Chegamos.

O gigante desceu do cavalo. Todos o fitaram, esperando-o dar o primeiro passo adiante, para a própria morada. Ele demorou um tempo para fazê-lo, observou a vila antes de atravessar a ponte. Por quê? Por que não sentia nada de diferente? Estava à frente de seu antigo lar, prestes a reencontrar as pessoas que um dia amou. Ou pelo menos pensou amar. Mas agora, nada fazia diferença. Deu o primeiro passo em direção à vila, cruzando a ponte de pedras. Viu a água em baixo da ponte fluir, lenta e suavemente. Olhou em direção a vila, viu um caminho de terra, com pedras de tamanhos diferentes formando uma trilha desorganizada. As laterais do caminho eram cercadas com uma estacas de madeira, formando uma pequena cerca com pouco mais que um metro de altura. Os outros integrantes do grupo olhavam ao redor, avaliando a vila com os olhos. O lugar era simples, mas minimamente organizado. Não parecia nem perto de toda a desgraça na qual as outras cidade haviam caído. As pessoas, ao avistarem o grupo adentrar o vilarejo pareceram surpresas e assustadas. Crianças saíram correndo, dirigindo-se as suas casas. As mulheres fecharam as portas e janelas quando seus filhos entraram. Os homens do vilarejo, que trabalhavam recolhendo fardos de feno ou alimentando animais em seus cercados fixaram os olhos no grupo, com as ferramentas de trabalho em mãos, prontos para lutar. Os olhares não pareciam nada amigáveis, não era como Zelgle havia esperado, pensou que seria ao menos reconhecido.

—Tem certeza que você morava aqui? — perguntou Kiere, agora na parte da frente do transporte de madeira, escondendo-se ainda mais na escuridão dentro do capuz. — Eles não parecem gostar muito de visita...

Zelgle não respondeu. Estava claro que aquilo não era normal, mas depois de todo o tempo que passou fora, era aceitável que alguma mudança tivesse acontecido. Não sabia o que, mas com toda certeza tudo estava diferente. Foi então que ele deixou os olhos se voltarem para o caminho a frente. Tinha alguém lá, a menos de três metros. A pessoa parou a sua frente e o fitou nos olhos, como se o avaliasse. A pessoa em questão era uma garota. Deveria ter pelo menos uns vinte anos de idade. Carregava uma cesta de madeira, com várias frutas amontoadas, mas assim que viu Zelgle, o objeto caiu no chão, e uma das maças da cesta rolou e só parou assim que bateu no pé direito de Zelgle. O gigante observou atentamente a trajetória da fruta até ela parar, e só após isso, ele voltou os olhos para a garota de cabelos castanhos à sua frente. Os olhos cor de mel dela estavam vidrados em Zelgle como se estivesse vendo um fantasma. Ele também olhou atentamente, examinou cada centímetro de seu rosto, e antes que Zelgle completasse com precisão sua análise ela despencou, foi ao chão como se as pernas tivessem perdido a força de repente.

—Zelgle... — falou ela baixinho, num tom choroso. Ela olhou para cima, e os olhos dela e do gigante se encontraram. Os grandes olhos púrpuros de Zelgle reluziram nos olhos da garota.

Zelgle a fitou por um momento, até que, enfim, acabou relembrando quem era aquela garota. Na verdade, se perguntou como não conseguiu se lembrar dela antes. Todas as memórias que tinha com ela, em sua grande maioria, seriam o que Zelgle chamaria de "melhores momentos da minha vida". Mas não via necessidade disso, não agora.

—Wilni... — murmurou. A garota permaneceu encarando-o com lágrimas escorrendo dos olhos. Sorriu quando ele disse seu nome.

—Sim, sou eu. — respondeu ela, com lágrimas caindo sobre o próprio vestido branco. — Eu pensei que... pensei que... estivesse morto. — falou ela.

Todos do grupo, com exceção de Zelgle ficaram surpresos. Kiere, sendo a única que sabia sobre o que Zelgle era, ou dizia ser, imaginou o que aquela garota deveria ter passado esperando a volta dele, embora não soubesse o que ela era de Zelgle, exatamente. 

—Você não voltou... desde aquele dia... — choramingou ela, com uma pausa. — Eu esperei por você, esperei que voltasse, dia após dia. Mas todos diziam que estava morto, mas eu acreditei... — tentou enxugar as lágrimas que caiam dos olhos com as mãos, a esmo. — E você estava vivo. Eu sempre soube que estava. — ela olhou para cima novamente, na direção de Zelgle.

O gigante a fitava através dos olhos vazios, sem qualquer emoção pelo reencontro. Simplesmente não conseguia entender, ela não havia percebido que ele estava... diferente? Que não era o mesmo que conhecera antes? Impossível. Até mesmo suas características físicas haviam mudado. Ele se abaixou, olhando-a nos olhos, tentando ser o mais gentil possível.

—Wilni... eu... — fez uma pausa, pensando em como prosseguir, a voz saiu grave demais e sem qualquer emoção. — Estou feliz em vê-la de novo. — mentiu. Não conseguia se sentir assim, embora desejasse que fosse real incondicionalmente. — Senti sua falta. — ela passou a mão sobre o cabelo dela, num drama extremamente forçado, que ele mesmo teria que se esforçar infinitamente para acreditar.

A garota sorriu, e Zelgle fez o mesmo, a diferença é que seu sorriso saiu torto e claramente fingido, mas ela pareceu não se importar com estes fatos. 

—Eu sei que está abalada, mas eu preciso saber... onde está minha mãe? 

A pergunta fez com que o sorriso no rosto de Wilni desaparecesse, como se de imediato ela tivesse se lembrado de algo horrível. 

—Me desculpe... eu não consegui... — o choro da garota ganhou intensidade mais uma vez, e o restante do grupo começou a estranhar a interação dos dois, assim como os cidadãos observando de suas casas. — Não consegui... — ela continuou chorando, cobriu o rosto com a palma das duas mãos, numa tristeza mais que profunda.

—Wilni, o que aconteceu enquanto eu estive fora?

Ela olhou para o rosto de Zelgle mais uma vez.

—Venha comigo. 

\0/

—Poderia me contar o que aconteceu aqui durante todo este tempo? — perguntou Zelgle seguindo a garota, percebia que todos as pessoas da vila observavam cada movimento do grupo. As pessoas olhavam de dentro da casa, todos com armas em mãos, ou os objetos mais parecidos com armas que puderam encontrar, sendo eles cutelos, facas de cozinha, ou foices, entre outras coisas... 

—É uma recepção calorosa, no mínimo. — falou Holsung rindo, aparentemente sua exaustão tinha ido embora, dando novamente o lugar à sua ironia cotidiana.

—Ah, sobre isso... agentes do exército vêm cobrar uma taxa de proteção de vez em quando, mas como o lugar é longe, eles são vistos raramente por aqui... — respondeu ela. — então todos tem medo que esse dia chegue, e ficam apreensivos quando qualquer pessoa nova chega no vilarejo.

—Entendo. — falou Zelgle. — Mas se cobram por proteção, pra que todo esse medo?

—Eles são violentos. — respondeu a garota. — Caso sejam contrariados, fazem coisas que... coisas que... — não conseguiu continuar, mas Zelgle compreendeu claramente a mensagem que ela queria passar.

"O exército tomou este lugar também?"

Se perguntou Zelgle, mas essa explicação era perfeitamente plausível, tendo em vista o que aquele maldito de antes tinha dito. E como o vilarejo de Zelgle, apesar de humilde, ainda ter uma boa base comercial, as pessoas conseguiam manter suas vidas apesar dos impostos não legais. Um abuso necessário, para o bem de todos. 

Mais alguns minutos de caminhada, e eles chegaram a uma casa quase escondida das demais. Os olhos de Zelgle se fixaram na casa separada das outras. Ele olhou para a casa de madeira com fundação de pedra, com um olhar que para alguns demonstrava relutância ou tristeza, porém, na realidade, para ele era como olhar para qualquer grão de areia no chão. A janela no andar de cima estava aberta, mas a casa parecia estar abandonada há muito tempo.

"Minha casa. Eu ainda deveria chama-la assim?"

Zelgle olhou para os degraus à frente da porta de madeira. Sua lembranças conseguiram se materializar aos poucos em sua mente, lembrando-se das vezes que sentou junto à porta, naqueles degraus, para ler algo ou apenas observar a atividade no vilarejo. Suas memórias desse tempo pareciam tão distantes, mas ele sabia que não eram. Wilni foi em frente, abriu a porta hesitante. Zelgle foi logo atrás, tendo que se abaixar para passar pela porta.

"É impressão minha ou fiquei mais alto?"

Se perguntou, não lembrava de ter que se abaixar para passar pela porta da própria casa quando ainda era vivo. Passou pela porta, adentrando à escuridão que se perpetuava dentro do local. Olhou para a lareira na parede esquerda da casa, estava apagada e parecia estar assim fazia muito tempo. O restante do grupo emergiu da luz do lado de fora, Hylia foi a primeira, passando os olhos pela casa, verificando cada canto com precisão cirúrgica, sua conclusão foi: miserável.

Holsung foi o próximo, com Kiere e Tolfret logo atrás, e só então Lauren e Kette. A sala era espaçosa o suficiente para que todos pudessem permanecer lá sem problemas. Wilni foi em direção à uma porta que ficava no fim do salão, ao lado da escada que levava ao segundo andar. Ela abriu a porta e entrou no cômodo, embora fosse o dono da casa, Zelgle a seguiu como se não soubesse o caminho. Os dois entraram no quarto, ele estava quase vazio. Tudo que havia dentro dele era uma cama, coberta com um lençol branco impecavelmente limpo. Wilni olhou para cama com uma tristeza imensa no olhar.

—Eu não pude salvá-la... — falou ela soluçando.

Zelgle olhou para a cama de maneia fixa. Era a cama onde sua mãe costumava ficar a maior parte do tempo, já que era doente e debilitada. Zelgle se lembrava de trazer comida para ela. Lembrava-se dela sorrindo, sempre estava sorrindo. Como se sua vida fosse a coisa mais bela que já existira. Ele sempre sorrira junto, feliz por aqueles momentos, mas agora, não conseguia entender como isso pôde, algum dia, ser real. Nada para ele fazia sentido, era como se a própria realidade fosse uma mentira gigante e que nada do que vira antes de se transformar no seu atual tivesse realmente acontecido.

"Então ela se foi."

—Eu não pude salva-la... não pude... —Wilni continuava se lamentando, as mãos tapando o rosto, como se escondessem sua vergonha.

Zelgle a abraçaria, caso achasse que fosse necessário, mas achou melhor não fazê-lo, afinal, aquele choro representava a pureza de alguém que tentou de tudo pelo melhor de uma pessoa que Zelgle julgou algum dia amar, e as mãos de Zelgle, agora, eram manchadas de algo totalmente contrário daquilo, e embora ele não sentisse nenhum remorso pelo que fez, sabia que aquelas mãos não eram mais dignas de tentar consolar alguém. Não aquelas mãos, não mais. O gigante olhou para a garota de esguelha, observando-a enquanto chorava baixinho.

"Então os finais felizes realmente ficam só nas histórias."












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