Capítulo 54: Misericórdia para nós

Zelgle levantou a cabeça, e seus olhos púrpuros se encontraram com os olhos castanhos do soldado. O homem estava sorrindo como se soubesse de tudo que havia para se saber no mundo. As lembranças de Zelgle sobre sua vida passada eram vagas, tinha leves ideias das sensações que sentiu ao fazer algo que considerava importante, ou quando sofria, mas essas lembranças não eram nada nostálgicas, na verdade eram como fragmentos separados de sua existência atual, como se não tivessem nada a ver com ele, e sim pertencessem a outra pessoa, completamente diferente. Porém, ainda sim ele conseguia se lembrar daquele homem, não era uma pessoa importante para ele, não, na verdade, era o motivo dele ele estar como estava agora.

—Você...

Murmurou o gigante, olhando para o homem médio, de barba marrom e cabelo curto da mesma cor, com uma cicatriz enorme no lado direito do rosto. 

—Lembra de mim, Zelgle? Eu lembro bem de você... mas o que lhe aconteceu afinal? Seu cabelo não tinha essa cor com toda certeza, e você não era tão pálido assim... até parece, que está morto.

Sibilou o homem, com um sorriso de orelha a orelha. Zelgle se levantou de sua cadeira, obrigando o homem a quase se dobrar para encara-lo, devido à diferença de altura entre os dois.

-É, deve parecer mesmo. E sabe de quem é a culpa? 

Disse Zelgle, se inclinando para falar no rosto do soldado. Em momento nenhum, o sorriso no rosto do homem sumiu.

—Ah Zelgle, vamos, o que é isso? Tenho certeza de que nos dávamos muito bem antes. Muito bem. Não se lembra? Sabe, eu esperava que pudéssemos reacender essa nossa velha parceria... você sabe. Todos teremos vantagens aqui. Veja bem, se você trabalhar para mim, vai poder fazer o que quiser dentro da cidade...

—Trabalhar para você?

Murmurou Zelgle, olhando fixamente nos olhos do homem.

—Sim, pra mim. Você não sabe? Nós somos os donos daqui agora. O antigo rei está morto, e o rei atual não tem poder para mandar alguém recolher uma pedra do chão. Portanto, nós, soldados, temos que manter as coisas em ordem, não concordam rapazes?

Falou o homem em voz alta com os braços estendidos. Tolfret olhou para a penumbra ao redor da mesa em que estavam, e podia ver várias pessoas se movendo ali, entre as sombras. A prudência de Tolfret era uma qualidade realmente excelente, mas até mesmo ele sabia quando não havia como se escapar de uma luta, ainda mais quando se está encurralado daquela maneira.

—E então, Zelgle? O que me diz? Há inúmeras coisas apropriadas para alguém como você fazer, coletar impostos, ameaçar uma pessoa ou outra pessoa, dar uma lição em quem merecer... essas coisas que tem que ser feitas. Como vai ser? Ah, e só pra deixar claro, sei que estão em mais pessoas... Tem aquele cara com a máscara e aquelas três mulheres. Uma loira...

Essa citação fez com que Tolfret olhasse para o homem em fúria, quase pulando em cima daquele desgraçado. 

—Uma ruiva...

O cavaleiro só precisava de mais uma palavra para acabar com a raça daquele maldito.

—Uma meio humana...

Estava acabado, Tolfret não conseguiria se controlar ao ouvir aquilo. Deu o primeiro passo na direção daquele imbecil. Ele já estava morto.

—Mal consigo imaginar o que aconteceria com as três caso você dissesse não, assim, por acaso sabe... por isso, acho melho-

Tolfret já estava farto, ia acabar com aquele lixo com as próprias mãos. Deu um segundo passo, mas antes que ele e o soldado pudessem terminar suas ações, o homem foi levantando pelo pescoço por Zelgle, usando a mão direita.

—Urgh...

Grunhiu ele ao ser segurado como uma criança pelo gigante. Ele pousou as mãos sobre o braço de Zelgle, na tentativa de afrouxar o aperto, mas a força de Zelgle era desumana, monstruosa, descomunal. Ele pensava que Zelgle era o mesmo de antes, que era fraco, frágil, pequeno... mas não tinha como estar mais errado.

—Você quer fazer ameaças a mim? Tem certeza? Eu ainda lembro bem da sua cara enquanto corria em desespero tentando se salvar, como um rato. Você não é nada mais do que um covarde. 

Cuspiu Zelgle na cara do homem, e o pescoço do mesmo fez um estalo, com os ossos se comprimindo perante ao aperto do gigante. Tolfret nunca havia visto Zelgle agir daquela maneira, ele não parecia irritado, não, ele estava com a mesma expressão de sempre. Vazia. Sem esboçar qualquer emoção. Os soldados ao redor começaram a se aproximar, sacando facas, desembainhando espadas e outras armas. Zelgle meneou a cabeça na direção deles, encarando-os de relance, com os olhos púrpuros brilhando na escuridão. Os homens ficaram paralisados, tremeram e se imobilizaram.

—Eu vou dar um conselho a você. Finja que você não me viu. Finja que eu não existo. Finja que eu ainda estou morto, assim como você viu acontecer antes. Acredite, vai ser melhor para você se for assim. Única e exclusivamente para você e sua corja. 

Zelgle abriu a mão e soltou o homem, que caiu mole no chão, com as mãos no pescoço, o rosto vermelho devido a falta de ar. 

—Espero que meu aviso seja o suficiente.

Falou Zelgle, Tolfret atrás dele sabia que não seria assim. Inúmeros homens armados contra apenas dois e desarmados, em um local fechado? Não importava o quão assustador Zelgle pudesse parecer, nunca que eles deixariam aquilo barato. E foi como ele previu: no momento seguinte em que Zelgle largou o outro no chão, uma espada reluziu enquanto descia em sua direção. O gigante bloqueou a arma com o braço, sem se importar. O soldado ficou sem entender ao ver sangue jorrar do corte no braço de Zelgle, sentiu-se vitorioso ao ver o braço de Zelgle quase decepado, faltando apenas alguns milímetros para ser arrancado. O soldado sorriu e olhou para o rosto do gigante, mas tudo que teve em resposta foi um olhar frio, aterrorizantemente frio. O soldado retraiu a espada, mas sem que pudesse executar qualquer outro movimento, uma mão venho na direção de seu rosto e ele foi arremessado, batendo contra várias mesas e cadeiras no processo, causando um estardalhaço sem proporções. Os outros correram na direção de Zelgle e Tolfret, mas antes de se aproximarem o bastante, Tolfret arremessou a mesa retangular sobre eles com um rugido. O móvel de madeira se chocou de frente com os soldados, quebrando-se em pedaços e derrubado os que estavam na frente. 

—Matem, matem eles!

Disse o homem que Zelgle havia levantado antes, dando uma gargalhada enquanto se rastejava para fugir da confusão. Zelgle e Tolfret ficaram de costas um para o outro. Tolfret, apesar de apreensivo, estava tentando parecer o mais calmo possível, porque ele sabia que se o nervosismo transparecesse, estaria perdido. Já Zelgle, como sempre, agia como se não se importasse e como se todos a sua frente não fossem nada além de pedras. Incontáveis gritos trovejaram enquanto eles avançavam na direção dos dois, Tolfret escapou por pouco da estocada de uma faca, segurou o braço do sujeito e o puxou contra seu punho. Acertou o rosto do homem, que despencou no chão, em seguida se abaixou, escapando de uma espada curta, se levantou e chutou o joelho do portador da arma, que foi ao chão com um guincho de dor, com mais um chute ele fez com que o individuo apagasse. Olhou na direção do restante, todos apreensivos quanto a ele, com medo. Como tinha que ser. Embora, o próprio cavaleiro estivesse quase se borrando. Tolfret não desviou o olhar, mas os soldados fizeram, quando um brilho roxo fez com que a escuridão ao redor do lugar sumisse. Em instantes, o braço de Zelgle, que antes estava sendo segurado por uma faixa de pele e uma lasca do osso estava completamente normal de novo. 

—Eu sempre achei você esquisito Zelgle, sempre. Mas nunca pensei que não fosse humano.

Falou o mesmo homem de antes com um risinho, ele estava sorrindo, encostado em uma pilastra de madeira enquanto observava seus capangas tentando matar os dois. Tolfret queria muito prestar atenção no que estava sendo dito, mas tinha que se preocupar em não receber um ataque direto na cara e acabar morto. Zelgle virou os olhos na direção da voz, mas não se preocupou em responder. Viu uma lâmina reluzir em sua direção, e deixou que ela encontrasse seu corpo. A espada perfurou a barriga de Zelgle, ele olhou para baixo para fitar o dono dela e o fazer temer por sua vida. Com a mãos abertas, ele acertava quem se aproximasse, com força o bastante para partir uma porta ao meio. Os soldados eram arremessados sem esforço, e não importava o quanto conseguissem ferir Zelgle, ele não ficava mais fraco. Escutou passos atrás de si, virou-se rapidamente, mas não a tempo de evitar que uma faca fosse crivada em seu estômago, seu portador era um assassino habilidoso, pois no mesmo momento em que perfurou Zelgle fez um rápido movimento com o pulso, pronto para abrir o gigante e deixar que suas entranhas se espalhassem pelo chão, mas antes que pudesse acontecer, Zelgle segurou sua mão, impedindo-o.

—Você não vai me matar. Porque eu já estou morto.

Sussurrou Zelgle na cara do mesmo homem de antes, que não tirava aquele sorriso do rosto. A palma da mão de Zelgle bateu contra o rosto do homem, fazendo sua cabeça ir de encontro com uma parede. O gigante pôde sentir o nariz do homem se quebrar por conta de sua violência mais do que brutal. 

—Eu espero que você tenha entendido.

Falou o gigante, soltando o homem, que deslizou pela parede. O rosto coberto de sangue, do nariz quebrado. Ele se engasgou no próprio sangue e saliva quando tentou rir, mas a risada saiu, maligna e desafinada.

—Não adianta... nós... vamos atrás de vocês... vamos matar você... nós vamos.

Falou ele, com a boca cheia de sangue num sorriso vermelho. Tolfret e Zelgle se aproximavam da porta enquanto ouviam isso. Os soldados restantes, que não tiveram coragem de lutar, se afastavam para os dois passarem, como se dois demônios estivessem em procissão. Antes de sair pela porta, Zelgle se virou para responder:

—Que deus tenha misericórdia de vocês então.

E então Zelgle bateu a porta, com tanta força que ela quase foi arrancada do limiar. Ele se virou, e encarou Tolfret. O cavaleiro estava com as mãos apoiadas no joelho enquanto fitava o chão, ofegante e extremamente nervoso. Zelgle deu um passo em sua direção, e ele ergueu a cabeça.

—O que diabos foi tudo isso? Você conhece aquele cara?

Perguntou o cavaleiro, em um grasnido desafinado. Zelgle o ignorou e estava prestes a passar por ele sem dizer nada, mas o cavaleiro não o deixaria fazer como quisesse dessa vez. Tolfret entrou na frente de Zelgle, impedindo-o de continuar andando. Agarrou Zelgle pelo colarinho, quase tendo que se colocar na ponta dos pés para fazê-lo. Zelgle abaixou a cabeça para encara-lo, como se olhasse para uma criança.

—Você me ouviu! Quem diabos era aquele cara?

Rosnou o cavaleiro, sem obter resposta. Zelgle o empurrou com o braço, fazendo Tolfret titubear para trás e então se aproximando dele novamente.

—Não me pergunte quem eram. Você não viu nada. Não ouviu nada. E não vai dizer nada aquela mulher, entendeu?

Tolfret o fitou espantado, os olhos arregalados e um terror genuíno exposto na face. Nunca havia visto o gigante agir daquela maneira, como antes, ele não parecia irritado, não, era a mesma coisa de sempre, ainda assim, conseguia ser mais assustador do que tudo que Tolfret já vira na vida, e isso sem nenhum esforço.

—Se você entendeu, responda.

Falou Zelgle, Tolfret não pensou duas vezes: balançou a cabeça repetidas vezes alegando que sim, havia entendido. Até bem demais. Zelgle passou por ele, sem dar a mínima para o terror que acabara de desencadear em Tolfret. O cavaleiro o seguiu, tremendo dos pés a cabeça.

—Você ouviu o que ele disse não é? Ele vira atrás de nós, isso é óbvio. Por que não o matou?

Inquiriu o cavaleiro, sem esperanças de obter respostas, mas com medo de obter um golpe na cabeça.

—Você mesmo disse que era melhor não chamarmos atenção desnecessária. Além disso, você ouviu aquele cara. O exército controla o lugar agora. Matar um deles seria a mesma coisa que mexer com um vespeiro.

—Não acho que vá fazer muita diferença. Eles irão retaliar, isso é certo.

Zelgle se virou para encarar o cavaleiro quando ouviu isso.

—Deixe que venham. 

                                                                                           \0/

—Tem certeza que devíamos deixar aqueles três sozinhos por ai?

—Não se preocupe. Eles conseguiriam dar conta de qualquer problema.

—Eles são o problema...

Falou Kiere ao ouvir a resposta de Lauren. A ruiva a fitava a cada dois minutos, analisando as expressões de Kiere com maestria. A meio humana não estava conseguindo esconder sua preocupação para com Tolfret, e Lauren estava adorando provocá-la por conta disso. 

—Posso perguntar o que estamos fazendo aqui?

Indagou Hylia um pouco mais à frente. 

—Tomando um pouco de ar. Ou você preferiria ficar trancada naquele quarto mofado?

Respondeu Lauren, indo atrás dela junto à Kiere.

—Para ser sincera, sim. Iria preferir isso a andar nessas ruas com cheiro de lixo.

Rosnou a princesa. Lauren revirou os olhos e desaprovou com a cabeça.

—Sério mesmo Hylia? Pare e pense um pouco, depois de tudo que já passamos até agora, por que não se dá uma chance de aproveitar, um minuto que seja?

—É, e o que tem para se aproveitar nisso?

Perguntou ela cobrindo o nariz e encarando uma parede coberta de lixo e fezes.

—É como eu ia dizer antes, precisamos trabalhar com o que temo-

Lauren parou no fim da frase, assim como da última vez que ia dizer a mesma coisa. Ela olhou para um beco escuro, um pouco mais adiante. Podia ver alguém entre as sombras, tentando puxar outra pessoa para o escuro. Ela já havia tido a mesma experiência, então sabia exatamente como era o terror daquela situação. Nem hesitou, saltou adiante na rua vazia. Viu as sombras lutarem na escuridão, uma tentando resistir e a outra insistindo na agressão. Seus olhos brilharam em vermelho, intensos como o fogo do inferno ou ainda mais. Ela se aproximou numa velocidade absurda, sem nem pensar no que estava fazendo. Ao estar perto o bastante, conseguiu identificar uma das sombras, era um homem alto, que estava tentando arrastar alguém para aquela direção, onde não havia muito movimento. Ele ouviu os passos detrás de si, e se virou surpreso, porém, não teve qualquer chance de reação ao receber um chute forte o suficiente no estômago para fazê-lo voar contra a parede. Ele bateu contra a superfície dura, fez uma expressão de raiva, mas novamente não teve chance de fazer nada. Lauren acertou um soco com tanta força no rosto do homem que o crânio do mesmo afundou na parede. Sequer segurou a força, para não acabar matando o sujeito sem querer. Não conseguiria fazê-lo mesmo se quisesse, devido a fúria. Kiere e Hylia estavam a alguns metros, correndo na direção dela sem entender.

—Você está bem?

Perguntou ela ofegante para quem quer que fosse que havia acabado de salvar. Olhou na direção da pessoa, mas só pôde enxergá-la após abaixar um pouco a cabeça, de imediato, a expressão em seu rosto se iluminou, como se estivesse diante de um pote de ouro.

—Estou... bem.

Respondeu um garoto pequeno, de olhos negros.

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