Capítulo 50: A linha mais tênue

Kiere continuava com o rosto sendo forçado contra o chão, de maneira que mesmo sendo uma meio humana não poderia se livrar facilmente. Moveu a cabeça para cima o máximo que pôde, na tentativa de enxergar de onde estavam vindo todos aqueles gritos. Conseguiu ver o que estava acontecendo, e a cena não era muito agradável. Havia uma grande muralha de fogo se erguendo à uns vinte metros de distância de onde estava. Via várias sombras se contorcendo entre as chamas, gritando, guinchando, morrendo, sofrendo enquanto eram queimadas vivas por aquele fogo de coloração anormal. A meio humana ficou espantada, pois conhecia de perto a origem desse fenômeno: viu Zelgle a alguns metros de distância do pilar de chamas. Imediatamente ela voltou a si, lembrou que havia sido jogada contra o chão por um dos soldados enquanto tentava ajudar Tolfret. Viu o cavaleiro caído ao seu lado, aparentemente inconsciente, sendo segurado por um soldado. 

-Meu Deus...

Disse o homem que estava forçando o joelho contra ela, a voz abafada transmitia um terror descomunal, ela sabia como era essa sensação. Em seu primeiro contato com Zelgle, teve o desprazer de ver de perto o quão desumano o gigante poderia ser, por isso, ela já não se surpreenderia mais com algo daquele nível. Aproveitando a perca de atenção do soldado, Kiere se esforçou o máximo que pôde em reunir energia mágica, o soldado que estava em cima dela olhou para baixo confuso, mas antes que pudesse reagir, uma explosão ocorreu, arremessando o homem longe. Uma onda de energia percorreu o lugar, com um barulho de trovão ecoando pela planície. Kiere se levantou num salto, seus olhos pareciam recipientes contendo relâmpagos dentro. O soldado que estava segurando Tolfret só teve tempo de esboçar uma expressão de surpresa antes de receber um chute tão forte no rosto que o fez voar, girou no ar, caiu, e rolou por uns seis metros antes de parar. Kiere então se abaixou mais uma vez ao lado de Tolfret, colocou as mãos sobre ele na tentativa de acorda-lo. Devagar, Tolfret abriu os olhos. Conseguia enxergar algo brilhando, mas a visão estava turva demais para ele entender o que era, apenas após alguns segundos ele conseguiu identificar Kiere. Ele se levantou assustado, seu rosto e o de Kiere ficaram próximos por conta de seu movimento súbito.

-Voc-

Ele pensou em falar algo, mas antes que pudesse, olhou na direção da imensa parede de fogo negro que agora queimava a uma altura de mais de cinco metros. Ficou horrorizado ao ver os corpos ruindo no meio do fogo, quebrando, despedaçando como se fossem estátuas de argila feitas à milhares de anos. O olhar do cavaleiro se tornou vazio enquanto assistia a cena. Kiere sabia como ele se sentia, então ela colocou a mão sobre seu ombro e o fitou nos olhos. Tolfret a encarou por um segundo, surpreso. Viu seus olhos reluzindo na cor azul, e imediatamente se lembrou dela dormindo encostada em seu ombro na viagem. Mesmo sendo em uma situação completamente inadequada para isso, estava se sentindo estranhamente atraído por ela. 

-Temos que ajuda-los, entendeu?

Tolfret balançou a cabeça sem descolar os olhares.

-Certo...

Ele então olhou na direção de Hylia. A princesa e o general Crust agora encaravam a luta entre Zelgle e Deodor, cujo cada movimento de ambas partes causavam explosões de lama, que se levantavam em rajadas em todas as direções. Os olhos de Deodor brilhavam conforme ele girava e floreava sua enorme espada curva na direção de Zelgle, que ocasionalmente era acertado ou bloqueava o ataque. Tolfret então se colocou de pé junto a Kiere, procurou pelas armas, que estavam enterradas na lama. Mergulhou a mão na água marrom, buscando por elas. Encontrou o cabo da lança, puxou e desenterrou a haste do barro, em seguida pegou a alça do escudo e puxou a placa de metal completamente suja. Começou a caminhar na direção do general e ele rapidamente notou sua aproximação. 

-Eu recomendaria fortemente não tentar de novo. Não vai ser diferente da outra vez.

Alertou o enorme homem, mas Tolfret não podia ceder. Não respondeu, apenas continuou andando na direção de Crust, que agora tinha uma pesada armadura cobrindo o corpo. Um capacete de aço com o topo plano agora cobria completamente sua cabeça, deixando apenas dois pequenos visores. O enorme escudo e a maça estavam à mão, olhou para Tolfret que vinha em sua direção com os olhos brilhando. Crust avançou sobre ele com o martelo erguido, e apesar da armadura pesada, Tolfret conseguiu se esquivar com um movimento ágil para o lado, levantou a lança e mirou com precisão no peito do general, mas nada aconteceu, a ponta da lança deslizou pelo peitoral de aço sem deixar um único arranhão. Viu o homem levantar a maça mais uma vez, mas antes que pudesse brandi-la, Kiere apareceu em suas costas. Crust sentiu uma pontada de dor aguda subir sua coluna, se virou e viu a meio humana. Desistiu de Tolfret e se virou com um giro, jogando o imenso martelo na direção de Kiere, mas ela saltou e pegou impulso em pleno ar dando um chute no rosto de Crust. Ambas as armas de Kiere brilhavam enquanto correntes elétricas serpenteavam pelas armas, como rios de relâmpagos correndo interminavelmente pelo metal. O general a encarou por um tempo, com a expressão sendo escondida pelo elmo. Crust ameaçou de brandir o martelo fazendo que Kiere saltasse instintivamente para o lado, ao mesmo tempo ele empurrou o enorme escudo contra ela, que pareceu uma parede negra indo na direção da meia humana, mas não a acertou. Kiere se apoiou na barra do escudo, pulando sobre ele enquanto o movimento era realizado. Deu uma cambalhota e tentou cravar as duas adagas no rosto de Crust, como caninos, e se não fosse aquela maldita armadura que cobria seu corpo, ele estaria morto agora. Mais uma vez Kiere empurrou o general com os pés, se impulsionando para trás, deslizou sobre o chão lamacento na queda, e disparou em outra direção, tentando flanquear o general. Crust ia acompanhá-la, mas sentiu uma pancada na lateral da cabeça e se voltou nessa direção, viu uma haste de metal reluzir enquanto se afastava. Crust jogou o enorme martelo com um esforço imenso, percebendo que a maça vinha em sua direção, Tolfret levantou o escudo danificado. Conseguiu se defender do ataque, mas sentiu o braço amortecer por trás do escudo. A pancada havia sido tão poderosa que uma mossa do tamanho de um crânio se formou no escudo, deixando uma imensa protuberância na parte de trás. O cavaleiro voltou os olhos para o general, e viu o imenso escudo negro vindo em sua direção. Uma pancada oca ocorreu quando ambos os escudos se chocaram, e o braço de Tolfret foi lançado para trás, junto com a placa metálica, em seguida, viu a arma do general vir em sua direção. Só teve tempo de se abaixar, segurou o fôlego até perceber que o ataque já havia passado, em seguida se levantou e girou com a haste da lança longa levantada, acertou a cabeça de Crust mais uma vez, mas era inútil, nunca conseguiria feri-lo enquanto ele usasse aquela armadura exageradamente pesada. Foi então que viu um brilho azul reluzir. Kiere estava vindo para flanquear o homem mais uma vez, mas Crust percebeu a aproximação da meio humana desta vez e jogou o martelo em sua direção. Tolfret sentiu um frio na barriga ao ver o movimento do general, e sem pensar, ele soltou sua lança e se jogou na frente do ataque segurando o escudo com as duas mãos. Kiere bateu sobre suas costas, e a arma de Crust bateu contra seu escudo, fazendo-o explodir e arremessando os dois juntos. O cavaleiro e a meia humana rolaram na lama, e só pararam depois de alguns segundos. Kiere tossiu, ofegou e com uma quantidade imensamente desconfortável de esforço ela conseguiu abrir os olhos. Sentiu algo pesado em cima de si, e viu uma mecha de cabelo marrom na frente do rosto. A meio humana então se virou, jogando Tolfret contra a lama. 

-Idiota, por que fez isso?

Grasnou ela com um horror comparável a quando fora capturada no rosto. Tolfret abriu os olhos devagar. Havia sangue cobrindo todo seu peito, a armadura nessa região havia sido destruída por conta do golpe. O cavaleiro suspirou enquanto encarava Kiere.

-Não sei...eu só fiz. Você ia morrer se eu não tivesse feito.

Ao dizer isso, Tolfret tossiu, cuspindo gotas de sangue sobre a armadura. Olhou na direção de Kiere mais uma vez, e novamente, embora a situação fosse completamente desfavorável, ele não conseguia deixar de reparar nela.

-Você é bonita... Eu te disse isso antes né?

Sussurrou o cavaleiro com a boca se enchendo de sangue enquanto sorria na direção de Kiere.

-Sim, disse, e eu já odiei da primeira vez.

Respondeu ela sorrindo, um sorriso desesperado, tentando esconder as lágrimas prestes a caírem.

-Consegue se levantar?

-Não... 

Respondeu ele, Kiere olhou ao redor, buscando algo para Tolfret se apoiar. Viu alguns soldados se aproximando deles, devagar, com as armas em punho. Via muralhas de fogo negro se erguendo a distância, via sangue e via água marrom. Nada do que ela gostaria de ver estava ali, mas agora já era tarde demais para se arrepender de sua escolha. Tudo que poderia fazer era pensar em uma maneira de sair dali viva. Ela se levantou, entrou em posição de luta enquanto observava os soldados se aproximarem atentamente. Seus olhos brilhavam em linhas conforme ela movia a cabeça, relampejando junto as armas. Um soldado avançou contra ela, e ela estava pronta para se defender, mas antes de qualquer coisa, o soldado caiu com uma flecha atravessada no peito. Kiere encarou a cena sem entender, até que olhou na direção de Lauren, e viu a ruiva posicionando mais uma flecha no arco. Enquanto isso, Holsung lidava com a mulher loira, que agora tinha uma expressão de pura raiva no olhar enquanto via Lauren disparar mais uma flecha. Kserthy venho furiosa na direção de Holsung, executou uma estocada com o florete e conseguiu perfurar o ombro direito do assassino, que grunhiu de dor ao levar a outra mão para o braço ferido. Não bastasse a maldição que estava corroendo seu braço. O mascarado deslizou para o lado da ruiva, ofegando e segurando o braço ferido.

-Vai demorar?

Grunhiu ele para Lauren enquanto ela retesava o arco mais uma vez e disparava. A flecha acertou a cabeça de um soldado, causando um estalo metálico ao acertar o elmo. O homem caiu com a flecha se projetando no lado da cabeça. Kserthy observou a cena com um ódio indescritível no olhar, correu na direção de Holsung e Lauren, mas ao se aproximar a ruiva se virou, desferindo um arco com o sabre, que passou a poucos centímetros do rosto de Kserthy, que por sorte, parou antes.

-Vai!

Rosnou a ruiva para Holsung, que caminhava na direção de Kiere agora. Lauren passou os olhos pelo campo, e viu Hylia à alguns metros, mas logo à sua frente estava Crust. Lauren então voltou os olhos à inimiga que estava à sua frente. A mulher a encarou com os olhos afiados e frios.

-Vocês traíram sua própria nação. Como é ser o pior tipo de lixo que existe?

Falou a loira num tom ríspido, esguichando desprezo pela voz.

-Horrível. Você não vai querer saber, é melhor continuar com sua doutrina. Assim, você não sente a dor de saber a verdade.

Kserthy repuxou os lábios ao ouvir isso, em seguida avançou na direção de Lauren com o florete levantando. Lauren se esquivou do primeiro ataque, e em seguida desferiu mais um arco com o sabre, e antes que Kserthy pudesse reagir, metade da lamina de sua arma caiu no chão, e então ela recebeu um chute no estomago, se afastou de Lauren tropeçando, com uma das mãos na barriga, a outra segurava o cabo do florete destruído. Lauren olhou na direção do general Crust, o homem estava se aproximando de Hylia finalmente, pronto para agarra-la, mas antes que pudesse um relâmpago acertou seu elmo. Olhou para baixo para identificar o objeto, era um pequeno punhal, olhou na direção de onde ele havia vindo e viu Kiere com uma das mãos estendidas. Antes dele fazer qualquer outra coisa, Lauren apareceu em sua frente. Girou o sabre e acertou sua cabeça, e como antes, nada aconteceu. Crust tentou acerta-la com o escudo, mas a garota girou para o lado desviou do ataque. Se afastou deslizando pela lama, ficando ao lado de Hylia. 

-Você tem que sair daqui...

Sussurrou ela para a princesa, que franziu o cenho.

-Não podemos deixar aquele idiota para trás, ele está com o cristal!

-Eu sei, mas você estando aqui só dificulta as coisas!

Em toda sua vida, Hylia nunca pensou que ouviria palavras como aquelas. Sabia que em seu estado atual ela não conseguiria fazer nada. Não tinha sequer uma arma para lutar. Ela se afastou devagar, com descontentamento no olhar enquanto caminhava de costas.

-Vocês estão dificultando bastante as coisas...

Falou Crust. Lauren o encarou de maneira fria. Seus olhos estavam brilhando em vermelho, reluzindo na armadura de aço do general. 

-Você ouviu a Princesa. Temos algo importante pra fazer.

Disse ela enquanto levantava o sabre e corria na direção dele. Girou em várias direções, acertando Crust consecutivas vezes, mas nenhuma delas sendo efetiva. Saltou e escapou por pouco de um golpe do martelo, que afundou no chão. Quando Crust puxou a arma para tira-la, o solo explodiu. Lauren cobriu o rosto com os braços para se proteger da lama que voou em todas as direções, no momento seguinte, viu algo brilhar em meio a cortina de fumaça que havia se levantado, alguma coisa fez a água evaporar instantaneamente. A ruiva se abaixou, e por pouco escapou de um golpe lateral. Se distanciou até achar que estava segura, mas sem saber ao certo se essa distância existia. Por conta do reforço de mana, conseguia enxergar melhor, e podia ver algo brilhando através do vapor, uma esfera luminosa de cor dourada. Viu uma sombra enorme acompanhar a luz. Foi então que a luz se moveu, vindo na direção dela, era o martelo de Crust, que agora estava imbuído em uma energia estranha.

"Uma arma abençoada?"

Crust então correu em sua direção, os passos pesados faziam o chão em baixo de seus pés explodir. Lauren viu a arma brilhar acima da cabeça do general, girou para escapar do golpe, que acertou o chão causando uma explosão de luz. Lauren foi arremessada pelo domo de energia que se formou, escorregou na lama, deixando um rastro vazio, que aos poucos foi preenchido de volta.

"Eu não vou conseguir ganhar... tenho que pelo menos ganhar tempo para Hylia fugir..."

Lauren estava de joelhos, coberta de terra e ofegante. Não tinha muitas flechas sobrando, e não tinha mais mana para continuar lutando com o reforço ativo. Viu Crust vindo em sua direção, mas ele parou, e se voltou na direção dos outros membros do grupo. Hylia agora estava junto do restante do grupo, que estava à poucos metros da luta. Holsung conseguiu recuperar os dois cavalos, Tolfret estava jogado sobre um deles, sangue escorria por todos os lados, sua armadura, se é que podia ser chamada desse jeito, estava totalmente aberta na parte da frente, e o cavaleiro estava inconsciente. 

"Não podemos deixar Hylia escapar..."

Não haviam quase mais soldados para ir atrás do grupo, Crust então olhou na direção da outra luta que estava ocorrendo. Zelgle e Deodor já lutavam faziam cerca de três minutos, e nenhum dos dois parecia ceder. Deodor brandia a enorme espada curva e decepava membros inteiros de Zelgle, mas nem por isso o gigante parecia ficar mais fraco, na realidade, parecia que não estava tendo efeito nenhum, já que em poucos segundos o membro era alocado de volta ao corpo. Hora ou outra, Zelgle executava um movimento em arco, que fazia com que Deodor saltasse para longe. 

-Eu não sei se você já olhou ao redor, mas parece que seus homens já eram...

Disse Zegle quando o homem se afastou. Deodor parou e direcionou sua carranca para ele, com o cenho eternamente franzido. O general olhou ao redor, viu vários corpos caídos no chão, com flechas cravadas no corpo, olhou na outra direção, onde estavam os corpos carbonizados. O olhar de Deodor se tornou o sombrio, e cravou-se em Zelgle como uma lança. A lamina de sua espada estava tão vermelha que era difícil encontrar alguma parte do metal exposta.

-Você realmente pensou que fosse conseguir protege-los? Você tem sorte, afinal, eles são descartáveis, não é? São meras ferramentas que você pode usar. Antes eles, do que você.

Deodor repuxou os lábios, as palavras de Zelgle eram como agulhas, cravando-se profundamente em sua consciência, cavando de maneira dolorosa em todas as lembranças onde ele perdera tropas e tropas de jeitos parecidos. Nunca fora um bom comandante, mas sempre doía lembrar que aqueles homens morreram na sua frente e ele não pôde fazer nada para impedir. Portanto, era uma atitude no mínimo hipócrita ele tentar demonstrar que se importava.

"É como ele disse, no fim. Eles são ferramentas, mas não minhas, e sim daqueles que estão acima. Todos somos. Todos servimos à propósitos sombrios demais para nos importamos com a morte de um ou dois soldados. É assim que é... mas por que dói tanto admitir isso?"

-Eu não aguento mais ter que ouvir sua voz...

Rosnou o general, mas Zelgle apenas o encarou inexpressivo como sempre, pensou em forçar um sorriso falso como fez com Hylia antes, mas não o fez, não se importava mesmo. Deodor pensou em avançar sobre Zelgle mais uma vez, mas foi interrompido:

-Deodor! Não podemos deixar a Princesa fugir!

Bradou Crust na direção do amigo, que desviou o olhar do oponente para encara-lo.

-Tsc...

Deodor nunca quis tanto terminar algo que começou quanto agora, mas a missão vinha em primeiro lugar, precisava vir. Deixou de lado Zelgle e correu na direção do grupo, em uma velocidade avassaladora. Zegle apenas observou o homem correr sem poder fazer nada. Lauren entrou em desespero ao ver o homem correr na direção de Hylia, em poucos segundos ele já estava a menos de vinte metros de distancia, mas foi obrigado a parar, quando uma bola de fogo negro bateu contra o chão logo a sua frente e explodiu. Ele olhou na direção de Zelgle, e o gigante já estava preparando outro ataque como aquele. Lançou a bola de fogo contra Deodor, mas ela errou o alvo, e ao invés disso, bateu contra o escudo negro de Crust, se dissipando no contato.

-Vai, não deixe ela fugir!

Exclamou Crust, de costas para o amigo. Deodor voltou os olhos para Hylia mais uma vez. O anel brilhou em sua mão, e sua besta surgiu. Mirou na direção do grupo, e disparou. Estava alvejando as pernas da princesa, ela poderia nunca perdoa-lo por isso, mas não tinha escolha. A seta sibilou na direção de Hylia, mas antes de acerta-la, o projétil bateu contra algo no meio do ar e caiu no chão. Hylia estava com as mãos estendidas, projetando uma barreira com a pouca mana que havia recuperado até então. Deodor pensou em executar mais disparos, mas viu um brilho purpuro se esgueirar atrás de sua sombra. Olhou para trás e viu Zelgle vindo em sua direção à passos largos. O gigante levantou a mão, e uma rajada de chamas negras emergiu, indo em uma onda na direção de Deodor, mas o fogo se dissipou antes, quando acertou contra algo invisível. Crust estava logo à frente, a maça estava ancorada no chão, como se sustentasse alguma coisa. 

-Você não vai passar daqui.

Disse ele para Zelgle que se aproximava.

-Nós já vamos descobrir se não...

Em seguida, Zelgle acertou com força o escudo de Crust, e até mesmo o general acabou recuando um pouco com o ataque da espada pesada. O general grunhiu com o golpe, mas ao se recuperar, executou um ataque com escudo, que acertou Zelgle em cheio. O gigante cambaleou para trás. Zelgle titubeou, parou após algum tempo e levantou a espada. Crust aparou um ataque vertical que causou um estrondo no impacto. Jogou o escudo junto com a arma de Zelgle para o lado, e o acertou com a maça na lateral do corpo em seguida. Zelgle cambaleou para o lado, com uma dor familiar latejando no corpo. Ser acertado por aquela arma brilhante era quase igual ao ser acertado pela espada de luz de Hylia, não doía tanto quanto, mas era quase a mesma coisa. Lauren se aproximou de Zelgle parecendo zonza, o gigante se virou em sua direção, aproveitando a distância que havia se formado entre ele e seu adversário.

-Aquela arma é abençoada, ela tem um  poder incrível contra você. Ele tem total vantagem.

Explicou a ruiva para Zelgle, que havia voltado os olhos para Crust novamente.

-Percebi...

-Deixando isso de lado, temos que sair daqui... não vamos conseguir derrotar esses dois.

A constatação de Lauren era óbvia, o problema era como fazer isso, porque Crust continuava bloqueado o caminho. Zelgle então passou os olhos pela planície e viu uma mulher ajoelhada, com uma das mãos sobre a barriga. Não pensou duas vezes, ergueu a mão esquerda na direção dela e disparou uma onda de chamas purpuras. Crust não teve escolha ao ver o fogo indo na direção de Kserthy, correu o mais rápido que pôde para proteger a mulher, sua armadura havia retornado para o anel. Bloqueou as chamas com o escudo imenso, mas Zelgle não parou. Continuou direcionando o fluxo de chamas na direção dos dois enquanto andava junto à Lauren. Posicionou a espada sobre as costas novamente, e então se abaixou para pegar o machado que havia sido lançado na lama antes. Agora, ele mantinha seus olhos cravados no general e na oficial enquanto caminhava devagar disparando as chamas a partir de sua mão. 

Kiere viu Deodor se aproximar numa velocidade absurda, pensou o mais rápido que pôde em como faze-lo parar, mas nada vinha a mente. Até que olhou para o chão e viu um soldado agonizando. Uma flecha estava cravada em suas costas, mas parecia ter errado os pontos vitais. A meio humana tirou o homem do chão e o colocou de joelhos de forma violenta, e então colou uma das adagas em seu pescoço. A expressão do soldado que antes parecia sem vida, agora era de pavor completo. Deodor parou ao ver que eles tinham um refém.

-Não se aproxime! Ou vou abrir a garganta desse desgraçado!

Rugiu a meio humana, o pescoço do soldado começou a sangrar devido ao atrito com a lamina. Deodor não se mexeu, ficou parado e confuso, sem saber o que fazer. A escolha deveria ser óbvia para ele. Como Zelgle disse antes, um soldado é uma mera ferramenta que serve à pessoas que servem à propósitos mais sombrios que o dele. E é assim que deveria ser... mas por que as pernas dele não se mexiam então? Não conseguia dizer, mas olhar para aquele homem doía, machucava saber que se ele quisesse completar sua missão, sacrifícios eram necessários, ainda que ele já tivesse feito eles aos montes. Deodor então olhou para trás e viu Zelgle se aproximando junto á Lauren, ambos passaram por ele e ele não pode nem reagir, viu Crust próximo a Kserthy, uma parede de fogo negro cobria os arredores a frente deles. Os dentes de Deodor rangeram quando ele forçou uns contra os outros. Seu olhar sombrio estava cravado em Hylia.

-É com esse tipo de pessoa que você procura trazer paz ao mundo?

-Não tenho escolha. Eu te disse. O que estou fazendo é maior que todos nós, não posso deixar que uma ou duas vidas fiquem na frente disso.

"Eu não deveria deixar também... mas por que é tão difícil atribuir mais um ao número de mortos quando estamos cientes que a escolha é só nossa?"

Escolhas são coisas difíceis de se fazer geralmente, e Deodor sabia que escolher aquela vida podia custar a vida de milhares de outras pessoas.  

"Mas pra que se preocupar com isso? Afinal, temos a vida toda para nos arrependermos de nossas escolhas."

Pensou enquanto via grupo caminhar em direção à Ardium. Crust e Kserthy ficaram ao seu lado. Imaginou que o amigo gostaria de espanca-lo ali mesmo, mas tudo que estava exposto no rosto de Crust agora era frustração e tristeza. Kserthy continuava com uma das mãos sobre o local aonde havia recebido o chute, e Deodor apenas manteve o olhar sobre o grupo que caminhava para longe. Kiere continuava arrastando o refém, observando atentamente cada movimento dos dois generais. O rosto de Deodor se contorceu, tentando conter toda a raiva que ele estava sentindo, mas no fundo ele sabia, as coisas sempre terminavam daquele jeito. Um banho de sangue sem motivo nenhum, sem qualquer finalidade e sem um lado vencedor. Escolhas são coisas difíceis de se fazer, ainda mais quando elas envolvem uma vida que não é a sua, e embora fosse hipócrita da parte de Deodor deixa-los escapar apenas por  uma única vida, sendo que só naquele campo jaziam inúmeros cadáveres que morreram lutando por aquela causa, mas no fim, o general sabia que não existia uma linha que definia o bem do mal. Quem poderia dizer que ele estava errado? E quem poderia dizer que estava certo? Nem ele mesmo sabia.

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