Capítulo 48: Por bem ou por mal
-Hylia Maren... ou eu deveria lhe chamar de Majestade?
Bradou uma das figuras de preto após o grupo se aproximar. Ficaram pouco mais de dez metros de distancia, menos do que aquilo e Hylia sabia que correriam perigo. Sabia o que eles eram, sabia do que eram capazes... se alguém tivesse os mandado para mata-la, era melhor que só aceitasse de uma vez. Lutar ou tentar fugir era estupidez.
-O que vocês querem?
Sibilou ela com a voz rouca de nervosismo, encarava os sujeitos com uma expressão séria, mas era apenas uma máscara inútil para aqueles dois.
-Vamos leva-la de volta a Rikiat. É isso.
Disse o homem, sem nenhuma cerimônia. Ele tinha olhos fundos, o rosto era fino e sua expressão era terrivelmente severa, como a de alguém que nunca teve um único dia bom na vida. Já o outro homem era enorme, quase do tamanho de Zelgle, mas ao mesmo tempo era muito mais robusto. Ambos usavam uniformes completamente negros, com duas estrelas douradas no casaco, indicando suas patentes militares. Também usavam grandes chapéus, de cor igual ao uniforme. O homem mais baixo tinha seu cabelos quase completamente escondidos pela aba do chapéu, já o mais alto tinha mechas do cabelo longo e liso descendo pelas laterais da cabeça.
-Isso está fora de cogitação. Não vou voltar com vocês. Sabem que todos lá querem a minha cabeça, não é?
Respondeu Hylia, incrédula. Seu samblante era de espanto e nervosismo.
-Não se preocupe Princesa, sua segurança estará garantida, assim como a dos seus servos. Ninguém irá tocar vocês.
-Gostaria de poder acreditar em você, General Deodor.
Zelgle observava os dois conversando de maneira impassível, não estava entendendo nada do que estava sendo falado, a não ser uma palavra: "Deodor". Era um nome com toda certeza, e ele se lembrava de ter ouvido esse nome antes. Lauren e Tolfret estavam olhando na direção dos dois homens de preto com os olhos arregalados de surpresa. Já Kiere e Holsung, assim como Zelgle, não entediam nada do que estava sendo dito.
-Sinto muito Princesa, nós gostaríamos de poder deixa-la em paz, mas você sabe, ordens são ordens.
Falou o enorme homem de preto, dando um passo a frente.
-Nós perdemos homens ontem a noite, e não estamos dispostos a fazer sacrifícios em vão. Você vai voltar conosco porque Rikiat precisa de você, seu povo precisa de você...
-Seu pai precisa de você.
Disse Deodor, completando a fala do amigo com a voz áspera. A citação da palavra "pai" fez com que a expressão séria de Hylia se dissolvesse. Encarou o chão relutante por um momento, quase em lágrimas, mas antes que elas pudessem cair, Hylia as enxugou com as costas da mão direita.
-E nós vamos leva-la de volta, Hylia.
Finalizou o homem, olhando para a princesa com os olhos frios. A garota titubeou por um momento, repuxou os lábios pensando em responder, mas sabia que seria inútil tentar negociar se estivessem seguindo ordens. Ela lentamente recuou, pensando em como poderia escapar da situação, mas nenhuma resposta clara venho a mente. Não havia como fugir.
-Vocês vão me perdoar, Generais... mas estou a caminho de parar essa guerra sem sentido, não posso voltar com vocês.
-Hum, eu agradeceria muito se você conseguisse, mas me parece longe de ser possível. Por isso, a melhor chance que temos de manter alguma estabilidade é leva-la de volta. E isso não pode esperar...
-Não pode esperar? Primeiro me expulsam e depois precisam de mim? Por que acha que eu deveria voltar quando todas as pessoas daquele país me querem morta?
Antes que Deodor pudesse continuar, o outro homem estendeu o braço em sua direção. Deodor o encarou com a boca meio aberta, pronto para falar, mas parou e apenas voltou o olhar na direção de Hylia. O enorme homem deu mais um passo a frente, encarando o grupo de maneira compassiva. Seu olhar ficou sério de repente, enquanto mexia os lábios pensando no que falar.
-Hylia, o Rei está...
O homem hesitou por um momento antes de terminar, Hylia franziu a testa em sua direção, ansiosa e desesperada pelo final da sentença.
-Doente.
Completou demonstrando uma sincera tristeza no olhar. Deodor virou os olhos para o lado, sentido-se culpado por fazer o amigo dar a notícia, mas tinha que ser, pois Deodor era péssimo com as palavras, provavelmente teria falado de uma maneira muito menos... agradável, e essa não era uma coisa que pudesse ser dita assim. Hylia parecia atordoada com a notícia, não sabia o que pensar. Sua mente ficou em branco. Não queria nem pensar naquilo, quanto menos acreditar.
-Não se sabe quanto tempo ainda o resta, por isso precisamos de você, para assumir quando ele se for. Não podemos nos dar ao luxo de perder você por conta das sua birrinhas. Você vai voltar conosco, por bem ou por mal.
Rosnou Deodor, com o olhar cravado direto em Hylia, o rosto agora tinha uma expressão de raiva e sua boca estava escancarada com os dentes à mostra.
-Cuidado como fala!
Gritou Tolfret em rikiatiano dando alguns passos a frente, Deodor virou o rosto carrancudo em sua direção e Tolfret tremeu, se arrependendo quase imediatamente de ter repreendido o general, mas o homem não fez nada, encarou o cavaleiro por alguns segundos e fechou os olhos, respirou fundo e os abriu de volta.
-Me desculpe... é que estamos sem tempo.
Tolfret cambaleou com a resposta, esperava tudo menos aquilo. Já tinha escutado histórias sobre os generais de Rikiat antes. Sobre Deodor, em específico, as histórias o amedrontavam até hoje, por isso, não esperava de jeito nenhum que o homem fosse se desculpar. Zelgle continuava ouvindo a conversa sem entender nada, até que se virou para Lauren.
-Quem são essas pessoas?
Sussurou ele, a ruiva olhou em sua direção assustada, o nervosismo que estava estampado em seu rosto poderia ser visto a quilômetros de distância.
-Pessoas importantes, muito importantes. E querem levar Hylia de volta para Rikiat...
-Ham? E por que?
-Aparentemente o Rei está doente e eles precisam dela para substitui-lo.
Zelgle voltou seu olhar na direção das duas figuras de preto, o mais baixo deles virou os olhos em sua direção, e eles se encararam por alguns segundos. Em sua outra vida, Zelgle teria desviado o olhar na mesma hora, por medo, mas agora, ele não sentia nada.
-E então, qual sua resposta, Princesa?
Hylia mordeu os lábios, procurando o melhor jeito de responder, mas nada vinha a mente. Teriam chance de fugir se lutassem? Não conseguia dizer, afinal, eram dois generais. Olhou um pouco mais adiante, na direção da guarnição de soldados, eram pouco mais de dez homens. Viu uma mulher loira a frente deles, com óculos de lente retangular reluzindo em sua direção. Era uma situação horrível para o grupo, estavam em menor número e ainda por cima estavam enfrentando dois dos oponentes mais formidáveis que Rikiat poderia oferecer. E como a cereja do bolo, Hylia estava incapaz de lutar por conta da falta de mana. Se render não era apenas a melhor opção, como praticamente a única viável. Mas não seria o certo a se fazer, e por mais que Hylia não estivesse satisfeita com sua vida atual, ainda tinha um propósito a cumprir, algo que ela acreditava que poderia trazer paz à todos, e ela não desistiria tão fácil disso...
-General Deodor, General Crust, me desculpem... mas eu não vou voltar.
Ambos os homens de preto a encaram com expressões de tristeza. Deodor arfou, levantou o olhar na direção dela mais uma vez, repuxou os lábios e passou a língua pela arcada dentária.
-Por mal então.
Crust ergueu uma das mãos, e Kserthy deu a ordem para os soldados, que contornaram o grupo e o cercaram.
-Saiba que nenhum de nós dois gostaria que fosse assim Princesa, mas parece que você não entendeu a gravidade da situação.
-Não, eu entendo perfeitamente. E sei que se eu não terminar o que comecei, essa guerra inútil não terá fim e irá matar cada vez mais. É isso que vocês querem?
Nenhum dos dois respondeu, mas Deodor desejou fortemente que ela realmente pudesse fazer algo quanto a isso, porém, a vida o ensinou que a esperança é nada mais que um veneno disfarçado de cura. E o mais mortal dos venenos.
-O que eles estão fazendo?
Perguntou Holsung, observando atentamente cada movimento dos soldados. Zelgle e Kiere faziam o mesmo, sem entender nada do que estava acontecendo.
-Eles querem me capturar... eu preciso da ajuda de vocês.
Sussurrou ela, engolindo todo seu orgulho para fazer aquele pedido.
-E por que deveríamos ajudar?
Respondeu Zelgle de maneira fria.
-Porque fizemos um trato!
-Hum... o que vocês dois acham?
Perguntou o gigante para Holsung e Kiere.
-Eu vou morrer de qualquer jeito se levarem ela... além disso, eu nunca vou fugir de uma boa briga.
Holsung deu mais uma vez sua gargalhada distorcida, e deixou as laminas das garras deslizarem, com um retinir metálico. Kiere hesitou por um momento, era apenas uma ladra qualquer, não tinha um motivo nobre ou algo do tipo, mas estava em busca de algo melhor que sua vida anterior.
-E temos escolha?
Respondeu ela enquanto sacava suas duas adagas médias
-Eu ficaria fora disso se fosse vocês...
Disse Deodor, no idioma de Minandre, tão perfeitamente que Zelgle quase sentiu inveja, se pudesse sentir.
-Não podemos deixar você leva-la, temos assuntos pendentes.
-Que pena para vocês então.
Os soldados que antes tinham cercado o grupo agora se aproximavam com armas em punhos. Lanças, espadas, alabardas, floretes, entre outras... Zelgle segurou o machado com as duas mãos, pronto para golpear, mas antes de realizar a ação, olhou na direção de Hylia.
-Devemos mata-los?
A princesa pigarreou, hesitou por um momento enquanto pensava, o cenho franzido na direção dos dois generais.
-Se possível, não.
-Hm...
O gigante se virou novamente para os soldados, estavam vindo em sua direção lentamente, todos com olhares sérios, com lanças e espadas apontadas para ele. Em sua vida anterior, ele congelaria em uma situação como essa, mas agora, já parecia rotina.
-Vou perguntar uma última vez, Princesa. Você vai vir conosco ou não?
Falou o general Deodor, num tom sério e com um olhar assustador no rosto.
-Mesmo que eu voltasse e assumisse o trono, quanto tempo acha que eu duraria com tantas pessoas querendo me tirar dele? Uma semana? Duas? Do que adiantaria eu voltar a essa altura?
"É uma boa pergunta, e como para a maioria das boas perguntas em minha vida, eu não tenho a resposta."
-Eu não sei. Só cumpro ordens.
-É uma ordem que não faz sentido. Pense direito General, o que estou fazendo é importante!
"Todos gostamos de acreditar que estamos fazendo algo importante, Princesa, mas infelizmente, não é a maioria dos casos."
-Eu realmente sinto muito... mas não podemos voltar de mãos vazias agora. Peguem ela!
Os soldados avançaram ainda mais com a ordem. Todos parecendo extremamente apreensivos, até que um deles partiu para cima de Holsung. O assassino se esquivou de uma espada que passou a poucos centímetros de seu rosto e bateu no chão, lançando um jato de lama para os lados. Holsung então acertou o joelho no estomago do soldado, que despencou no chão com um grunhido estranho. O acerto deixou uma mossa em sua armadura. Esse pequeno ato deu inicio a luta. Todos os soldados correram em direção ao grupo.
-Atrás de mim, Hylia!
Falou Tolfret levantando o escudo ou o que sobrou dele, para proteger Hylia, e ela odiava quando ele fazia isso. Sempre odiou ser "a princesa em perigo" mas nas condições em que se encontrava, não tinha escolha. Um dos homens venho na direção de Tolfret e tentou acerta-lo com uma espada, bloqueou a tempo e empurrou o escudo contra o agressor, o homem foi jogado para trás quando a placa metálica acertou seu corpo com tamanha violência. Mais um se aproximava, mas Tolfret o acertou com a haste da lança no pescoço e ele caiu desacordado, mas antes que o cavaleiro pudesse retomar sua postura, um dos soldados venho correndo em sua direção e se jogou contra ele. Tolfret foi arrancado do chão e levantado, o escudo e a lança voaram de suas mãos, ambos ele e o soldado caíram e rolaram na lama. O cavaleiro gritou, xingou, babou, e golpeou, acertando o nada, enquanto tentava afastar o soldado, nada funcionava, o homem estava o segurando com tanta força que parecia estar sendo comprimido por um montanha. Se concentrou o máximo que pôde, tentando juntar energias parar usar o reforço de mana, fazia pouquíssimo tempo que havia aprendido aquilo, e ainda não tinha dominado. Foi quando uma sombra cobriu seus olhos, o homem passou o braço pelo seu pescoço e ia estrangula-lo, mas antes que pudesse faze-lo, foi chutado para longe com uma força absurda e rolou por uns cinco metros. Tolfret parou de se mexer, passou a mão na garganta e tossiu. Olhou para cima, sua vista estava turva, mas ele conseguiu ver algo de cor rosa, o cabelo de alguém. Era Kiere, a meio humana estava estendendo a mão para ele, segurou com força e ela puxou com mais força ainda. Se pôs de pé com dificuldade, ainda tossindo. Encarou Kiere nos olhos, nunca imaginou que seria salvou por ela, a pouco tempo, pensou que a garota o odiasse, mas agora não sabia o que pensar.
-Obr-obrigado...
Gaguejou enquanto ofegava. A meio humana olhou para a direção do inimigo caído, o homem estava se levantando da lama.
-Termine o serviço.
Zombou Kiere, se distanciando.
-Pode deixar.
Tolfret olhou na direção do homem, ele era enorme, maior ainda que o cavaleiro. O grandalhão correu em sua direção mais uma vez. Tolfret impediu seu avanço, prendendo os pés o máximo que podia naquele chão escorregadio. Levantou as duas mãos juntas, como um martelo, e acertou com força as costas do sujeito, ao mesmo tempo, seus olhos brilharam. O soldado caiu no chão lamacento, inconsciente. Tolfret cambaleou, usar o reforço de mana o cansava demais, mesmo que por pouco tempo. Olhou ao redor, ofegante, com as mãos apoiadas no joelho. Holsung estava lidando com três deles. O assassino se desviou da estocada de uma lança e acertou um soco com uma força tremenda no portador da arma, que cambaleou para trás e caiu sobre uma poça de lama, o segundo venho com uma espada curta, mas Holsung aparou a arma com a braçadeira de metal do braço direito, em seguida acertou um chute no peito do sujeito. Segurou o braço direito após executar a sequência de movimentos, parecia estar sentindo uma dor imensa, mas não teve tempo de descansar, já que uma mulher de cabelos loiros apareceu a sua frente. Viu um florete reluzir antes de passar a centímetros de sua cabeça, se esquivou dos golpes seguintes com dificuldade, enquanto a mulher o perseguia com um afinco assustador. Tropeçou em uma pedra e quase foi ao chão, viu a ponta da arma reluzir em sua direção, mas ela foi bloqueada. Lauren girou, para desprender as armas. A oficial se distanciou e encarou a ruiva.
-Vai proteger um Minandrense?
-E você vai mata-lo sem motivo nenhum?
-Só cumpro ordens.
-Eu também, mas sei diferir o certo do errado.
-Isso me parece algo inútil nos dias de hoje.
Então a mulher avançou, com os óculos brilhando, Lauren floreou o sabre que segurava na mão direita, girou e aparou uma estocada da mulher, mas ela executou mais uma dezena de movimentos parecidos. Lauren se manteve calma, somente se defendendo dos inúmeros ataques em sequência. Até que mais um soldado se juntou a luta. Observou os dois, calmamente enquanto pensava no que fazer.
"Merda..."
Pensou vendo que não tinha saída. Kiere estava correndo ao redor dos soldados na maior velocidade que podia. Pulava por cima das armas, e atacava pelas aberturas. Notou uma sombra se esgueirar pelas suas costas, levantar os dois braços, com uma grande sombra reta. A meio humana esquivou-se o mais rápido que pôde, então uma enorme alabarda bateu contra o chão onde ela estava até um segundo atrás. Kiere saltou, girou no ar e desferiu um chute no rosto de seu portador, que voou para longe com o golpe poderoso, mas antes que pudesse perceber, a meio humana estava cercada. Algo bateu as suas costas, e ela olhou para trás por reflexo. Era Tolfret. O cavaleiro também estava recuando enquanto lidava com inúmeros oponentes. Hylia observava a luta com o coração martelando no peito. A aflição de não poder ajudar a deixava tão desconfortável quanto estar nua na frente de uma multidão, mas não podia fazer nada, fora imprudente e estava pagando o preço. Sem que ela notasse, um soldado agarrou seu braço, ele tinha se esgueirado pelo campo e estava tentando arrasta-la para longe da batalha. A princesa lutou, tentando se soltar. Juntou toda a força que tinha e acertou a cabeça do indivíduo, mas o elmo o protegeu, e a única que saiu ferida foi ela mesmo, com um enorme corte na mão. Foi então que uma mão enorme agarrou o ombro soldado e o puxou com tanta violência que o elmo se desprendeu de sua cabeça e caiu no chão. O homem foi arremessado, bateu contra outro soldado e ambos caíram sobre a lama. Hylia olhou na direção de seu salvador, e viu os olhos púrpuros e sem vida de Zelgle.
-Depois que isso acabar, você vai esclarecer tudo, gostando ou não.
Disse o gigante enquanto caminhava na direção da luta, Hylia não respondeu, apenas o observou andar calmamente. Um soldado desafiou Zelgle de frente, usando uma lança, acerto seu ombro, que foi atravessado. A ponta da arma reluziu vermelho ao sair do outro lado do corpo de Zelgle. Sem que o homem pudesse retirar sua arma, Zelgle segurou sua haste e puxou em sua direção, o soldado tropeçou alguns passos para frente e recebeu um soco no peito que o fez decolar para longe. Ele voou por cima do conflito, caindo a quase oito metros de distância e fazendo lama voar para todos os lados, não bastando isso, quando Zelgle retirou a lança de seu ombro, uma labareda de cor totalmente diferente emergiu e curou seu ferimento. Os soldados restantes encararam a cena confusos e perplexos, até mesmo os dois homens de preto de antes pareciam estar extremamente surpresos.
-Temos um monstro aqui...
Falou o general Crust, vendo o homem derrubar mais três soldados sem nenhuma dificuldade.
"Mais um monstro, você quis dizer."
Pensou Deodor, vislumbrando a cena com a carranca se aprofundando cada vez mais. Por mais que sua reputação fosse terrível dentro de sua própria nação, seu patriotismo era algo admirável, e ver soldados que estavam sob seu comando serem espancados daquela maneira, não o deixava nada confortável. Ele deu um passo à frente, mas acabou sendo segurado por Crust. Se virou para o amigo com o olhar distorcido, era impossível esconder sua ira, mesmo se ele quisesse fazê-lo. Voltou os olhos para a cena novamente.
Zelgle foi em direção aos soldados que estavam cercando Kiere e Tolfret. O primeiro venho em sua direção com a espada erguida, mas antes mesmo de executar o golpe, foi jogado para longe por um soco, a pancada fez um estalar que correu pela planície vazia. Os demais soldados se viraram em sua direção, ignorando Kiere e Tolfret. Ele continuou andando, mas parou quando foi atravessado por uma lança, olhou para trás. Um soldado estava segurando a grande arma. Seu rosto ficou branco de espanto quando viu os olhos de Zelgle. O gigante já havia sido apunhalado diversas vezes até o momento, e em nenhuma das ocasiões o inimigo teve a chance de descobrir que fazer aquilo era um erro. Zelgle se virou de maneira abrupta, a haste da lança se partiu, ficando metade na mão do agressor e a parte com a ponta atravessada no corpo de Zelgle. O gigante girou, o imenso machado fazendo um traçado no ar, descendo numa velocidade cada vez maior, acelerando mais e mais conforme descia. Os olhos de Deodor foram se abrindo, ficando arregalados com a cena, queria gritar algo, mas a voz não saiu, foi então que um grito estridente alfinetou seus ouvidos. Ecoando em sua mente como se tivesse acontecido do seu lado. Deodor perdeu a razão ao ver o soldado sendo partido no meio. O tronco fora separado das pernas, e agora, ambas as partes jaziam no chão com uma poça vermelha se formando ao redor do "corpo". Todos assistiram a cena horrorizados. A expressão aflita de Hylia sumiu, agora ela estava completamente inexpressiva, o restante dos soldados estavam pasmos. Até mesmo a mulher que estava lutando com Lauren pareceu espantada com a visão, assim como a própria ruiva. Já Holsung não conseguiu se conter, soltou sua gargalhada distorcida com a maior euforia que conseguiu, ignorando toda a dor e o cansaço, e foi ouvindo aquela risada maligna que Deodor desceu da colina, com os olhos vazios fixados em Zelgle e o anel brilhando em sua mão.
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