Capítulo 47: O lado negativo

-Eu pensei ter ouvido você dizer que eles não atacariam antes de todos estarem dormindo!

Gritou Deodor para Crust, no meio do acampamento. O sol estava nascendo, iluminando com clareza as poças de sangue cobrindo o chão lamacento. Os vários cadáveres jogados por todos os cantos, as armas ensanguentadas brilhando de maneira opaca contra a luz do sol ao alvorecer. Crust olhou para o amigo furioso. 

-Eu disse que não teria lógica nos atacarem antes de dormirmos, eu não esperava um ataque surpresa!

Respondeu Crust, a expressão de raiva se desfazendo e deixando apenas uma tristeza enorme em seu rosto. Ele percorreu o acampamento com os olhos murchos, a boca fechada em uma linha minuscula. Olhou ao redor, vendo os soldados que foram perdidos, cerca de uns oito, uma perca trágica para a pequena guarnição. 

-Desgraça...

Murmurou Deodor contornando o acampamento com os olhos, viu Kserthy encostada na mesma arvore de antes. O pequeno livro jogado na lama. Ela estava bebendo desesperadamente. 

"Não adianta, Tenente... se embriagar nunca é a solução."

Viu os soldados que haviam sobrevivido juntando os pertences dos mortos e os colocando nas carroças de madeira, a atmosfera do lugar havia se tornado fúnebre e não havia uma única palavra sendo dita por ninguém.

-Alguma ideia do que eles poderiam ser?

Irrompeu a voz de Deodor, quebrando o silêncio enquanto virava o cadáver de um dos homens que os atacaram na noite passada com os pés, como se fosse um saco de arroz. Os olhos do sujeito estavam brancos, o peito cravejado com três setas da besta de Deodor. Crust se aproximou, olhou para o corpo por algum tempo e então deu de ombros.

-Bandoleiros talvez?

-Talvez, mas se fossem só simples bandidos eles nunca teriam atacado uma guarnição de soldados armados com tanto afinco, sendo que estavam em menor número.

Crust analisou a constatação por um tempo, assentindo logo após.

-Tem razão. Eles realmente queriam nos matar. Acha que isso pode ser obra... deles?

Deodor encarou o amigo por um tempo, sabia muito bem a quem ele estava se referindo, e o menor pensamento sobre essa possibilidade já o deixava enjoado.

-Até mesmo aquele frouxo do Jundair ou o pateta do Adrivarius sabe que alguns mercenários não conseguiriam dar conta de nós dois, ainda mais juntos. Mesmo que eles achem que somos só dois párias, não acredito que nos subestimariam tanto assim.

-Bom, de qualquer forma é melhor partirmos agora. Não temos muito tempo.

Disse Crust enquanto balançava a cabeça para baixo e para cima, as mãos na cintura, o rosto pálido com uma expressão séria e aflita ao mesmo tempo.

"Sempre racional não é, Crust? Ainda bem que está aqui... para nos lembrar que ainda temos uma missão a cumprir."

\0/

Se uma coisa pudesse ser dita sobre Deodor naquele momento, era que ele estava impaciente. Quando Crust disse "perto dessa colina" Deodor nunca imaginara que haveriam mais dez delas tão próximas. Não sabia distinguir aqueles montes de terra distorcidos, esperava que Crust realmente soubesse o que estava fazendo enquanto vinha logo atrás, com um mapa em mãos.

-Estamos quase chegando.

Exclamou tirando os olhos do mapa molhado e os lançando sobre o horizonte cinzento. Desde que saíram do acampamento, Crust parecia extremamente melancólico, assim como todos os outros soldados após perderem os companheiros de maneira trágica.

-Ótimo, estou cansado dessa maldita marcha...

Resmungou Deodor. Água escorria da aba de seu chapéu que sequer havia secado por completo. Chuva. Essa era a palavra para definir aquela maldita planície, chuva, e apenas isso. E Deodor estava mais que farto disso. E não bastando o aguaçal interminável, ainda havia aquela neblina infernal. Por mais que forçasse os olhos, Deodor não conseguia enxergar mais de dez metros adiante. Xingou baixinho e então olhou para trás, na direção dos soldados. Eles pareciam cadáveres, os olhares sem vida encaravam o nada. Mais da metade da força tarefa foi perdida no ataque noturno, fora os feridos, que tiveram que ser escoltados de volta para o Front leste. Agora só sobraram doze soldados. Foi então que Deodor viu os óculos de Kserthy reluzindo através de pequenas gotículas de água que se acumulavam na lente. A mulher parecia tão inabalável quanto os próprios generais. Nem se importava com a chuva ou qualquer outro infortúnio.

"Ou ela só está bêbada, claro."

Deodor virou-se para frente de novo. Eles cavalgaram por mais algumas milhas, sem dizer uma palavra. Até que Crust parou de repente, logo a frente, uma colina alta e robusta, coberta de grama.

-É aqui?

-É, chegamos.

Crust então desceu do cavalo, fazendo lama voar quando suas botas bateram no chão. Deodor xingou ao tentar descer da montaria, lutou com um dos estribos que se prendeu ao seu pé, e xingou novamente ao quase tropeçar naquela porcaria e ir parar no chão. Finalmente desceu do cavalo, e caminhou para o lado do amigo, com a cara mais fechada que nunca. Kserthy estava logo a frente de Crust, e o destacamento de soldados vinha atrás, em carroças e cavalos.

-Quero que a guarnição fique atrás, entendeu? Você está no comando, se eu levantar as mãos você dá a ordem, Tenente.

-Não seria mais sábio se mandássemos os soldados na frente, senhor?

-Não é um ataque, vamos tentar negociar primeiro. A força vem em ultimo, dessa vez.

-Negociar com quem?

Perguntou a Tenente confusa.

-Você irá descobrir em breve.

Crust e Deodor se viraram, caminhando em direção ao topo da colina. A rota que Hylia supostamente estava seguindo contornava morro. Deodor e Crust caminharam pelo lamaçal em direção ao topo do barranco. Deodor ia pisando com cuidado, as botas chapinhando sobre o chão lamacento. Olhava atento para baixo, desviando-se das imensas poças de lama que recobriam o solo.

"Não seria muito agradável se eu acabasse tropeçando e caindo de bunda na lama... já consigo imaginar a fanfarra dos soldados com a cena."

Deodor virou o olhar na direção do amigo, Crust apenas andava como se não estivesse em um campo minado de poças de barro molhado, seus pés afundavam como âncoras. Deodor se virou e então acabou pisando em falso, o pé afundou em uma poça, quase teve que apoiar as mãos na terra para se prevenir de cair de cara no chão e engolir uma colher de barro.

-Desgraça!

Xingou ele ao desatolar a bota da lama, que saiu num jorro marrom de pedaços amolecidos e úmidos de terra pelo ar. Crust parou e olhou para ele sem entender, mas Deodor apenas continuou andando, com o máximo de dignidade que pôde reunir. Chegaram ao topo do barranco e olharam o entorno. Podiam ver ao longe uma fina camada cinza na névoa branca, um fio no horizonte, como um traçado de lápis num papel em branco.

-É a muralha de Ardium.

Sussurrou Crust forçando os olhos para poder enxergar mais adiante, inutilmente. Tinham sorte do terreno ser plano e não haver muitas coisas que pudessem obstruir a visão, além da maldita neblina claro, que apareceu na melhor hora possível.

-Então aquela é a famosa cidade quartel general de Minandre, hein...

Murmurou Deodor enquanto sacudia os pés para desgrudar a lama das botas.

"Quando nós achamos que já deixamos de chafurdar na imundice da vida, ela nos prega mais uma peça..."

Pensou ao pousar o pé devagar sobre o barro novamente.

-Em pedra e aço.

Exclamou Crust, olhando atentamente na direção de Ardium.

-Em pó, você quis dizer. Ouvi falar que ela está em ruínas.

-É o que dizem. Mas não estamos aqui para tirar as provas, felizmente.

-É.

Concordou Deodor balançando a cabeça vigorosamente.

-Acho que já tive o bastante de cidades em chamas para o resto de minha vida.

-Todos tivemos. O que me faz pensar o motivo de Hylia estar vindo para cá.

-Vamos perguntar quando encontra-la?

-E você acha que ela responderia? Pft... não conheci na minha vida uma garota mais obstinada que ela.

-Tal pai, tal filha... só temos que esperar agora, não é?

-Isso, só esperar.

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O sol estava nascendo, os pássaros começavam a piar em cima dos galhos das arvores, felizes como sempre, ao contrário do grupo que ia na carruagem. O caminho entre as arvores era estreito, e não bastasse isso, o chão era um atoleiro completo. Tolfret já não aguentava mais ter que guiar os cavalos por aquele lamaceiro enorme. Para ajudar, um maldito nevoeiro se formava a frente, deixando quase impossível  de enxergar a rota. E mais, aquela era uma rota perfeita para uma emboscada de bandidos. Eles adoravam esses caminhos lineares, pois podiam facilmente contornar o alvo de toda as direções. O cavaleiro olhava ao redor, atento aos barulhos e a possíveis pessoas escondidas nas sombras das arvores, diferente do resto do grupo, que estavam tão relaxados quanto se estivessem na sala de casa, como se não a possibilidade de um grupo de bandoleiros emergir da neblina e mata-los todos nem fosse real... Mas não poderia julga-los de qualquer maneira, era muito provável que eles conseguissem acabar com qualquer ameaça que aparecesse no caminho. Tolfret deixou o olhar se virar para Kiere, a meio humana estava recostada sobre o assento despreocupadamente.

-Ei, consegue ver algo?

Sussurrou ele, sem obter resposta. Ia perguntar de novo, mas antes que pudesse, a roda da carruagem passou em uma poça rasa de lama, causando um solavanco e fazendo-os pular sobre o banco. Foi então que a cabeça de Kiere desceu em sua direção, batendo levemente contra seu ombro com armadura. Ele ficou imóvel por alguns segundos, mas então, lentamente voltou os olhos na direção da meio humana, ela estava dormindo. O cavaleiro prendeu a respiração por um momento, como se só isso fosse capaz de acorda-la. Soltou um suspiro lento e entrecortado. Novamente virou a cabeça na direção da garota, só para confirmar se ela estava realmente dormindo. Não sabia ao certo o que pensar, sua mente ficou em branco

Dentro da carruagem, a atmosfera era tão pior quanto o lado de fora. Hylia e Zelgle continuavam se encarando da mesma maneira de antes, Lauren estava encostada no canto da carruagem,e Holsung acabou dormindo, esticado e mole sobre o banco, parecendo um cadáver.

-Será que não está na hora de você nos dizer o que vamos fazer nessa merda de cidade?

Rosnou a princesa com o cenho franzido para Zelgle. O gigante levantou a cabeça um pouco para encara-la mais precisamente.

-Por que você não vai na frente? Me explique o que é esse cristal, o que vocês de Rikiat estão fazendo aqui, o motivo de você ter sido exilada... são perguntas demais que você tem que responder antes de começar com as suas.

Hylia bufou, não aguentava mais aquela idiotice. Mas ainda tinha que pegar o cristal. Teria que aguentar mais um pouco, só mais um pouco... ela disse algo que Zelgle não entendeu, falou em uma língua completamente diferente do idioma de Minandre. Lauren olhou na direção dela estupefata.

-Você vai saber quando for a hora, agor-

Hylia quase foi ao chão antes de terminar de falar, a carruagem havia parado abruptamente depois de um enorme tremor. Holsung acabou batendo a cabeça na parede de carruagem, fazendo um som oco.

-Mas que porra?

Xingou ele passando a mão na nuca enquanto olhava para trás.

-Por que paramos?

Grasnou enquanto descia da carruagem, atolou o pé numa poça de lama, e a resposta ficou clara. Olhou em direção a Kiere e Tolfret, ambos haviam descido da carruagem e estavam com a testa franzida para uma das rodas do transporte. Ela havia se partido após afundar na imensa poça de lama no meio da estrada.

-É, acho que nosso transporte já era.

Disse Holsung, constatando o óbvio. Zelgle se abaixou ao lado da roda quebrada, a borda do sobretudo negro raspando contra o chão imundo. Colocou a mão sobre a roda e a levantou, junto a enorme cabine de madeira, como se a carruagem fosse feita de papel. Um dos arranjos de madeira que segurava o aro caiu e a roda estava torta.

-Uma moeda de ouro por isso...

Grunhiu o gigante com sua voz que parecia um eterno murmúrio de decepção.

-Ainda temos os cavalos pelo menos.

Disse Kiere, o restante do grupo se virou em sua direção, todos com  o mesmo olhar, o olhar de uma mãe que acabara de escutar uma besteira imensa do filho.

-É, mas estamos em seis... quem exatamente vai sobre eles?

Perguntou Tolfret ao seu lado, ignorando totalmente o fato de que ela estava dormindo em seu ombro a alguns minutos atrás. 

-Temos que ver o lado positivo das coisas, não é assim que falam por ai?

Ela deu de ombros e então colocou os dois braços contra o pescoço. Expressões murchas se formaram no rosto do grupo como resposta.

-Seu otimismo é ótimo Kiere, só falta te fazer ficar rica.

Disse Zelgle soltando a carruagem, que bateu contra o chão e lançou um esguicho de lama para os lados, um pouco de barro acabou respigando na cara de Hylia, ela olhou para Zelgle com o cenho franzido enquanto limpava o rosto.

-Cuidado, idiota.

Rosnou para o gigante que se levantava. Ele só passou reto por ela, sem se importar. Prosseguiram calados pela floresta, a carruagem fora deixada para trás, junto a maioria da bagagem que eles não puderam carregar. Zelgle ia a pé, junto dele estava Tolfret, andando ao seu lado. A armadura prateada estava sem brilho nenhum, devido a sujeira que se acumulou durante a viagem. Holsung e Lauren iam em um dos cavalos, o mascarado segurava seu braço enegrecido com força, como se ele pudesse se desprender e acabar caindo do corpo a qualquer momento, já Lauren parecia entorpecida, melancólica, como se tivesse acabado de derrubar uma caneca de leite fresco no chão. No outro cavalo, estavam Hylia e Kiere, a meio humana ia despreocupada atrás, e a princesa a frente tinha uma carranca assustadora cobrindo o rosto.

"Acho que ela não está de bom humor."

Pensou Zelgle encarando ela de esguelha. Mas em algum momento ela pareceu estar de bom humor antes? Galoparam e caminharam devagar por mais alguns metros, até que chegaram num cenário horrendo. Tolfret arregalou os olhos, junto à irmã e a princesa. Já Kiere franziu o cenho. Os quatro que estavam sobre as montarias desceram. Olharam ao redor daquele acampamento abandonado, haviam fogueiras apagadas, várias delas. Umas seis, pelo menos. O chão era um enorme lamaçal com pegadas por todo canto, de maneira disforme, como se um exército tivesse marchado por ali, uma marcha desorganizada. No centro do lugar isso intensificava, havia um círculo de pegadas lá. 

-Houve luta aqui...

Disse Tolfret se abaixando e avaliando um corpo. Ele estava cravejado de setas, pelo menos umas cinco, todas miradas com precisão, elas se cruzavam conforme saiam pelo outro lado do corpo. Sua roupa estavam rasgada e suja, mais suja do que se era aceitável estar. 

-Eu nunca ia adivinhar se você não tivesse dito...

Falou Lauren passando ao seu lado. Andou pelo acampamento, até que viu dois corpos caídos ao lado de uma fogueira, um em cima dela, na verdade. Foi até lá e avaliou os cadáveres. Seu rosto se abriu numa expressão de espanto. 

-Hylia, Tol...

Sibilou ela com a surpresa no rosto logo contagiando o cavaleiro e a princesa.

-Eles são soldados rikiatianos.

Tolfret e Hylia se entre olharam, tensos e empalidecidos. Já os outros três membros do grupo apenas os observavam sem esboçar qualquer reação.

-Mas o que estavam fazendo aqui?

Perguntou Hylia olhando para o chão, pensando sobre todas as possibilidades e não conseguindo chegar à uma resposta boa o suficiente para explicar aquela atrocidade. Tolfret passou por ela indo até a irmã. O cavaleiro se abaixou, e começou a vasculhar o cadáver do rikiatiano caído ao lado da fogueira, com uma flecha cravada no pescoço. Morto, provavelmente.

-O que tá fazendo?

Perguntou Kiere com nojo no olhar. Tolfret apenas ergueu uma pequena caixa de madeira que ele encontrou em um dos bolsos do soldado morto.

-Os meus tinham acabado, lembra? E ele não vai precisar mais disso, de qualquer jeito...

Falou ele mostrando a caixa de cigarros a meia humana, que bufou e foi em outra direção. Por fim, o grupo deixou o acampamento destruído e continuaram sua viagem.

                                                                                \0/

De acordo com o otimismo de Kiere ou de algum ser que com certeza não existia, devemos sempre ver o lado positivo da coisa. Por isso, Hylia fechou os olhos, inspirou, expirou, e então abriu os olhos de novo, continuava sem ver o lado positivo. Tinha certeza de que ele sequer existia, mas se existia, onde estava? Para ela, naquela situação só existia o lado ruim e o lado horrivelmente pior. Onde ela estava com uma companhia pouco mais do que indesejável e desagradável, e ainda tinha aquele maldito clima irritante. Chovia, muito. Após saírem da floresta, a chuva caiu do céu como arroz sendo derrubado em uma tigela. Ah, a fome. Tinha comido na noite passada, a comida que o mais abominável dos seres naquela ilustre campanha havia preparado, mas agora, não tiveram tempo de arrumar comida. Tiveram que deixar os utensílios usados para cozinhar para trás, junto a maior parte de sua bagagem de roupa e outras coisas. 

"Ele tinha uma panela mas não trouxe comida..."

O ódio que Hylia sentia por Zelgle estava voltando aos poucos, como uma fornalha quase apagada sendo alimentada com carvão de primeira qualidade. Na noite anterior, se pegou refletindo sobre o próprio ego após o que ele disse, mas agora, percebia que era inútil tentar melhorar se tivesse como companhia alguém tão indigno dessa melhora. Deixou o olhar irritadiço percorrer pela planície alagada. Haviam se distanciado consideravelmente da floresta de antes, e agora tudo que existia a frente era uma grande vastidão de nada. Só conseguia enxergar água e mais água, por algum acaso havia chegado no oceano e não prestara atenção? Não, a lama estava ali para confirmar que não. Só queria que aquilo terminasse logo, só isso. O gigante disse que faltava pouco para eles chegarem, mas pouco para o sujeito beirava o infinito pelo visto. Ela olhou na direção de Zelgle, que continuava caminhar ao lado de Tolfret, inabalável como uma montanha. Estava coberto de lama até os tornozelos, mas ainda assim estava tão indiferente quanto se andasse em um chão de mármore reluzente.

-Sobre o que você estava falando na carruagem?

Indagou ele, percebendo que a princesa o encarava. O olhar raivoso em seus olhos se intensificou ao ouvir a voz de Zelgle.

-Quando falai em rikiatiano? Nem se incomode, você com certeza vai preferir ficar sem saber.

-Não é disso que estou falando.

"E não é como se eu achasse que você iria recorrer a sua língua nativa para me elogiar."

-Pensei que você tinha aceitado os termos do acordo. 

Falou Zelgle olhando para a infinidade que era o horizonte logo a frente.

-Eu já não lhe entreguei as moedas? O que mais você quer?

-Respostas, eu quero respostas. Porque elas nunca são demais.

Hylia soltou um  suspiro pesado, o sujeitinho irritante! A princesa massageou as têmporas, estavam doloridas depois dela franzir a testa por tanto tempo.

-Você vai saber quando for a hora. E não é agora.

Rosnou para Zelgle, ele a encarou com os olhos frios reluzindo nos dela.

-Ao seu tempo então.

Falou enquanto se distanciava do cavalo. A planície aos poucos ia ficando para trás. Dando espaço à grandes morros de terra disformes. A chuva havia parado, ainda assim tudo estava molhado, e sem sinal de qualquer luz solar para ajudar. Mas Zelgle sabia, estavam se aproximando. Conhecia aquele lugar, pouco, mas conhecia. Se lembrava de quando ainda estava no exército, mas eram vagas lembranças, de tempos nem tão distantes, mas que pareciam ser de milhares de anos atrás. Olhou para o chão, viu a borda do sobretudo negro sujo de lama, olhou para o machado gigante e aterrorizante. Sua mãe reconheceria o seu eu atual? Ou ela negaria até o fim que Zelgle era seu filho? Embora quisesse descobrir, não se sentia ansioso, não sentia nada. Mas já estava acostumado com isso.

Meia milha depois, chegaram até um barranco de terra alto, calcado em uma enorme pedra, que parecia uma parede esculpida a mão a milhares de anos. Olhou para cima do barranco de terra, e viu algumas figuras a distancia, pequenas a principio. Conforme se aproximaram, puderam ver que eram várias pessoas. Podiam ver metal reluzindo a distancia, armaduras, escudos, lanças. Soldados, pensou Zelgle. Mas não lembrava de ver soldados minandrenses com aquela armadura. Seus olhos então se fixaram em outras figuras, duas apenas. Usavam preto do pé a cabeça. Uma era enorme, robusta e a outra era fina e de altura média. Forçou os olhos para ver melhor, a esmo. Foi então que percebeu a manopla de Tolfret tremendo, enquanto ele a estendia na direção do cavalo de Hylia. Zelgle olhou para seu rosto, se o cavaleiro pudesse ficar mais pálido ainda, com toda certeza ele ficaria invisível. 

-H-h-hylia...

Gaguejou ele, a armadura tremelicando, fazendo barulhos de metal. Tocou a barra da camisa de da princesa, e ela o encarou séria, olhou para seu rosto, pálido de nervosismo e então meneou a cabeça na mesma direção em que Tolfret olhava. Seus olhos se arregalaram, quase engasgou na própria saliva ao tentar dizer algo. Lauren que também já havia percebido estava tremendo no cavalo.

-O que eles estão fazendo aqui?

Grasnou a princesa com a voz saindo rouca e fina, muito diferente da maneira confiante que ela sempre falava. Já tinha desistido a muito tempo de procurar o lado positivo da situação, mas agora tinha certeza de que ele não existia. O único lado daquela situação era o negativo. O negativo e só.















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