Capítulo 45: Ossos do ofício
A vida é feita de coisas que preferiríamos não fazer. Esse é um ditado muito popular em Minandre, principalmente entre os trabalhadores, que se sacrificam em seus serviços de maneira quase literal, apenas para serem tratados com desprezo pelos próprios governantes. Porém, esse mesmo ditado se encaixava perfeitamente em Hylia nesse momento. Era de uma certeza nítida que ela odiava a ideia daquela viagem com aquele grupo, mas como diz o ditado, a vida é feita de coisas que preferiríamos não fazer.
-Eu poderia perguntar aonde está nos levando?
Murmurou ela nas costas de Zelgle. Tolfret e Lauren se viraram em sua direção, assim como Kiere, e Holsung olhou de soslaio. Já Zelgle, no ápice de sua indiferença infinita, apenas continuou andando.
-Eu nunca disse que você não poderia fazer perguntas, só disse que tinha que responder as minhas.
-Então responda porra, onde estamos indo?
-Arrumar um meio de locomoção. Ou será que Vossa Majestade prefere caminhar daqui até Ardium? Seria um exercício e tanto, de fato.
Os olho de Hylia se reviraram, cavando o mais fundo que pudessem em sua consciência na tentativa de achar apenas mais um pingo de paciência para não pular no pescoço de Zelgle e estrangular o sujeito da maneira mais delicada que pudesse, como uma verdadeira princesa de contos de fadas faria. Logo, eles pararam em um lugar perto de um dos portões da cidade.
O grupo composto por cinco pessoas, a princesa e seus dois servos, a meio humana e o mascarado esperavam pelo gigante que se encontrava a uns trinta metros de distância, falando com um homem careca. Um cavalariço.
-Seu amigo terá bastante sorte se acordar com a garganta fechada amanhã.
Rosnou Hylia na direção de Kiere, que subiu o olhar e fixou-o no da princesa.
-Acho que você teria que fazer mais que isso para matá-lo. Você deve ter percebido quando lutou com ele. O sujeito é bem... resistente.
Hylia bufou. "Resistente" com certeza não era a palavra correta para definir Zelgle. Na verdade, era um eufemismo de proporções épicas.
-Tem alguma explicação por trás daquela aberração ali?
A princesa voltou os olhos para Zelgle novamente. Kiere a fitou de esguelha, pensando em contar a ela a mesma história que Zelgle havia lhe contado quando se encontraram pela primeira vez.
"Morto-vivo..."
Pensou a meio humana enquanto fechava a cara. Nunca questionou Zelgle sobre aquilo de novo, mas não era como se ela acreditasse também, e muito menos duvidasse, afinal, tinha visto com os próprios olhos o gigante sofrer inúmeros ferimentos que poderiam matar qualquer outro ser vivo, mas lá estava ele, vivíssimo enquanto caminhava na direção do grupo.
-Desculpe, mas não tenho a resposta para a sua pergunta.
Respondeu a meio humana por fim. Não tinha confiança total em Zelgle, mas confiava muito menos em Hylia. E o gigante já tinha a salvo em diversas ocasiões em que simplesmente poderia ter continuado seguindo seu caminho sem se importar.
"Embora ele fosse fazer exatamente isso da primeira vez..."
No fim, se Hylia quisesse implicar com Zelgle, que procurasse as próprias respostas. Kiere não ia se meter em nisso. Sempre fora boa em se manter longe de confusão, tinha que ser, afinal, mesmo antes de encontrar Zelgle pela primeira vez, já tivera inúmeros problemas com suas tentativas de furto, que quase acabaram de maneira trágica para a meio humana, por isso, suas habilidades para lidar com situações perigosas eram bem elevadas.
"Ossos do ofício... ossos do ofício..."
Pensou a meio humana com um sorriso na boca. Zelgle estava de volta, prestes a se juntar com o restante do grupo.
-E então, o que conseguiu?
Perguntou Holsung, que estava jogado em em um banco de madeira com os braços esticados sobre encosto de madeira. O mascarado levantou a cabeça que estava jogada para trás antes.
-Uma carruagem e dois cavalos. Uma moeda de ouro por tudo.
-Uma boa pechincha então.
Holsung se levantou do banco, se espreguiçou cruzando o braço esquerdo com o direito. O braço amaldiçoado já estava quase totalmente negro, apenas uma pequena parcela de sua mão estava branca, pálida como neve, como se não tivesse sangue correndo naquela parte do corpo. Zelgle olhou para o membro direito de Holsung impassível, como se não fosse o culpado por aquilo, mas como o próprio assassino dissera antes: Zelgle não era de sentir culpa. Assim como todo o resto.
-Vamos, é melhor partirmos logo.
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O gigante guiou o grupo até onde o cavalariço havia dito para ele lhe encontrar. Um estábulo, pouco depois de onde haviam conversado antes. Hylia estava encarando a carruagem de maneira fixa, avaliando as condições do transporte. Era apenas uma carruagem simples, de madeira. Aguentaria a viagem, pelo menos ela esperava a que sim.
-Me desculpe se te decepcionei, Princesa.
Soou uma voz extremamente desagradável as costas da garota, junto a um clangor metálico rítmico. Era Zelgle, que havia reavido seu enorme machado. A imensa espada, ou o que sobrou dela, agora estava cruzada as suas costas, segurada por um corda.
-Acho que não é hoje que vamos andar em uma carruagem de cristal. Mas fazer o que... espero que isso não incomode você.
Ele então passou pela garota, indo até a frente da carruagem, onde ficavam os cavalos. Hylia olhou em sua direção sem desviar o olhar enquanto ele se movia, desejando fortemente que um raio caísse em sua a cabeça, que azar o dela, o dia estava extremamente ensolarado.
-Não dê ouvidos, sabe que ele só quer te provocar.
Disse Lauren surgindo as costas da princesa. Hylia deixou que seu olhar se virasse para a ruiva devagar, com esperanças que a descarga elétrica atingisse Zelgle a qualquer momento, e ela não queria perder a cena, caso acontecesse mesmo.
-É, então eu tenho que admitir que em pelo menos uma coisa ele é muito bom.
Rosnou a princesa com raiva para a companheira, e então subiu na carruagem de maneira apressada. Lauren sorriu em sua direção, sabia o quão difícil poderia ser lidar com Hylia, e com o modo de agir de Zelgle, ela tinha certeza de que isso se tornaria um enorme problema para o gigante alguma hora.
"Eles com certeza não começaram da melhor forma..."
Lauren suspirou, olhou para o céu e só então entrou na cabine de madeira. O interior da carruagem era simples, mas confortável. Os dois assentos eram revestidos com couro negro e ambas as portas de madeira tinham janelas. Lauren se acomodou ao lado de Hylia, nos bancos traseiros. Zelgle e Holsung estavam de frente para as duas. Hylia de frente para Zelgle e Lauren de frente para o mascarado. A princesa estava encarando o gigante com um ódio assassino no olhar, já Zelgle apenas devolvia um olhar indiferente. Os olhos púrpuros reluzindo nos da princesa. A viagem com certeza não seria agradável. Lauren arfou imaginando a possibilidade daqueles dois tentarem se matar dentro da carruagem. Não seria muito divertido.
Então que eles sentiram um solavanco, e carruagem começou a se movimentar.
"Lá vamos nós..."
Após a partida, a carruagem ficou em silêncio total durante praticamente toda a viagem. Os únicos barulhos que soavam de hora em hora era da roda do transporte se chocando contra uma pedra ou afundando de supetão em uma poça de lama. De vez em quando, era possível se ouvir o canto de um pássaro ou o farfalhar de folhas. Hylia e Zelgle continuavam se encarando como inimigos mortais, mas não falaram uma única palavra durante toda a viagem. Já Holsung estava esticado no assento como uma pele de animal após o processo de curtume, soltava um grunhido de dor a cada dez minutos
"Espero que ele não morra sem aviso prévio..."
Pensou Lauren enquanto olhava em sua direção. Estava com os braços cruzados. O estômago roncava de tempos em tempos. Não tinha comido nada o dia todo, e estava começando a sentir as consequências disso. Tolfret e Kiere iam na parte da frente, tão ariscos um com o outro quanto Zelgle e Hylia, a diferença era o ódio mortal de uma das partes, que não existia nessa situação, ao invés disso, era apenas uma leve aversão. Kiere olhava para Tolfret pelo canto dos olhos enquanto o cavaleiro guiava os cavalos ao longo da estrada. Tinham um longo caminho juntos pela frente, e essa ideia não era muito empolgante para meio humana, principalmente depois que Tolfret descobriu sua real identidade, mas agora que sua verdadeira natureza fora exposta, ela não tinha muitos motivos para não tentar puxar papo, afinal, suas oportunidades de conversar eram muito raras, já que o máximo que saia da boca de Zelgle era uma palavra ou outra. Ela moveu os lábios, pensando em dizer algo, mas assim que juntou o ar e a coragem suficiente, o cavaleiro tomou a frente:
-Me desculpe por ter saído daquele jeito antes. Eu precisava avisar a ela sobre o que você tinha dito, era importante...
Kiere franziu a testa ao virar em sua direção, tentando esboçar o máximo de desprezo possível para com o cavaleiro, mas não era bem o que ela sentia por ele agora, principalmente depois daquelas palavras no quarto.
-Esqueça isso. Não é como se você me devesse algo para estar se desculpando... eu só gostaria de saber porque você segue aquela mulher com tanto afinco. Ela me parece bem arrogante.
-E é, de fato. Arrogante, narcisista, orgulhosa, egoísta... e muitas outras coisas. Mas ela também é forte, inteligente, bondosa... nem tudo são flores claro, mas ela luta pelo que é certo, isso me deixa feliz. Além disso, eu e Lauren devemos muito à ela...
-Devem em que sentido?
-Bom, digamos que nós só estamos vivos hoje por causa dela...
Os olhos de Kiere ficaram vidrados em Tolfret. O cavaleiro olhou na direção da meio humana, imaginando se ela gostaria de ouvir toda história, a resposta era sim, provavelmente, pelo menos ele chutou que fosse, já que ela pareceu tão interessada.
-Digamos que nós dois estávamos em uma situação difícil...
As palavras saíram da boca de Tolfret tão abafadas quanto um sussurro, como se ele não quisesse que a meio humana ouvisse ou não quisesse se lembrar do passado.
-Nos tornamos servos de Hylia após termos sido encontrados comendo lixo na frente do castelo... éramos crianças na época, havíamos sido abandonados... ela gostou da gente, e insistiu para que nos tornássemos serviçais. Eu sequer sei se Lauren é minha irmã de sangue, mas cá estamos.
-Então ela basicamente adotou vocês?
"Como... cães de rua?"
-Acho que dá pra falar assim... não é tão diferente disso. Mas ainda assim, esse é o motivo de devermos tanto à ela. Pra falar a verdade, eu não estaria aqui se não fosse por ela...
"Pelo menos sua lealdade cega tem uma justificativa decente."
-É uma história bonita. Agora eu sei que ela não é só uma garota mimada.
Tolfret riu ao ouvir isso, até mesmo Kiere se permitiu dar um sorriso.
-Eu ainda me lembro dela gritando para os guardas quando nos encontrou, ela era tão ou menor que nós naquela época. Apenas uma criança. Pode ser um pouco difícil se lidar com ela, mas é uma boa pessoa.
-É, a parte de ser difícil de lidar eu já tinha percebido...
-Bom, são o ossos do ofício, não é? Nem tudo é um mar de flores.
Disse o cavaleiro enquanto ria, Kiere desistiu de parecer apática e gargalhou, fazendo até mesmo Zelgle desviar o olhar da cara emburrada de Hylia e olhar em direção ao par conduzindo a carruagem.
"Pelo menos alguém está se divertindo aqui..."
-Ah, será que temos como fazer uma pausa? Eu não aguento mais! Preciso de algo pra comer...
Resmungou Lauren com as mãos na barriga, Hylia a assentiu com a cabeça sem desviar o olhar de Zelgle. O grupo então parou a carruagem em meio à uma clareira bem iluminada. Ao redor, as únicas coisas eram arvores e outros tipos de vegetação. Kiere e Tolfret desceram primeiro, cada qual amarrou um dos cavalos em uma arvore. Lauren desceu da carruagem junto a Hylia, e então vieram o gigante e o mascarado logo em seguida.
-Cacete... quanto tempo faz desde que saímos?
Perguntou Holsung se espreguiçando, seu braço parecia ter piorado consideravelmente.
-Algumas horas... acho que é uma pausa merecida.
Respondeu Lauren olhando ao redor.
-É, eu concordo... porra de dor nas costas...
Resmungou o assassino enquanto tentava endireitar a coluna. Lauren continuou olhando ao redor, procurando algo, uma presa, mais especificamente.
-Seria mais fácil se você tivesse nos dado tempo para nos preparar, nem temos comida agora...
Sem se importar, Zelgle foi em direção a uma arvore com seu machado em mãos. Ele acertou o tronco grosso da arvore duas vezes, na terceira, a arvore tombou para o lado. Um pouco para a esquerda da carruagem. Um estrondo abafado junto ao farfalhar de incontáveis folhas correram pela floresta. Ele se sentou no tronco devagar, com todos olhando em sua direção.
-Se vocês conseguirem caçar alguma coisa, eu cozinho. Pode ser?
Ninguém respondeu. De certa maneira, essa fala foi ainda mais impressionante do que ele ter derrubado a arvore como se fosse uma flor.
-Você ao menos sabe qual lado de uma panela usar?
Perguntou a ruiva incrédula.
-Garanto que sim, sei que não parece, mas eu sou bom nisso.
Não era de se estranhar que ninguém acreditou, mas não contestaram também. Era melhor pôr a prova. Lauren pegou seu arco e foi em direção á floresta. Os olhos abertos, a respiração suave contra o vento frio. Atenta a qualquer movimento. Tentava ao máximo filtrar o farfalhar das folhas, a procura do som de algum possível animal. Respirou fundo, e então ouviu algo vindo em sua direção, virou rapidamente mirando o arco com a corda retesada e a flecha apontada na direção do barulho.
-Ei, ei! Não preciso que você abra um buraco na minha cabeça agora, acho que já vou morrer de qualquer jeito... com ajuda ou sem.
Disse Holsung com os braços para cima e um sorriso através da mascara negra.
-Se você não está em condições de ccaçar deveria ter ficado lá.
-Acho que sim, mas vim ver como estavam indo as coisas aqui.
A ruiva se virou na outra direção, olhou atentamente e então percebeu algo.
- Se abaixa!
Sussurrou ela para o assassino enquanto se colocava de joelhos. Holsung seguiu o movimento e se ajoelhou também. Observaram entre os arbustos.
-O que tem lá?
Perguntou o mascarado. A garota virou em sua direção com um sorriso.
-Comida.
E então ela se levantou devagar com o arco já retesado. Mirou e disparou. Acertou em cheio em um cervo que estava de passagem. A flecha cravou-se na lateral do corpo do animal. Os dois se aproximaram rapidamente. O animal ainda estava agonizando, soltando guinchos de dor que ecoavam por toda a floresta. Lauren tirou uma faca longa do cinto coberto pelo capuz verde. Cravou fundo na cabeça do bicho, que finalmente morreu.
-Credo, você é mais fria do que parece.
Entoou Holsung ao mesmo tempo que dava risada. Lauren olhou em sua direção, sorrindo de volta.
-Bom, eu não gosto de ficar brincando com a comida, então é melhor só acabar com ela logo, não é?
O mascarado gargalhou.
-Ham, eu sou justamente o contrário. O que me faz pensar que somos como água e óleo.
-E quem seria o óleo?
-Isso importa? O que quis dizer com essa metáfora, minha cara, é que com toda a certeza nós dois não formaríamos um bom casal.
-Uma conclusão interessante a sua.
Respondeu a ruiva rindo.
-Veja, eu prefiro as verdadeiras princesas sabe? Aquelas delicadas, frágeis, inofensivas... mulheres fortes não combinam comigo.
-Logo você? Um maluco ensandecido?
-Assim você me ofende. Eu sou um homem mais simples do que aparento, sabia?
-Hum... mas sua observação está um pouco equivocada. Temos algo em comum. Eu também prefiro homens frágeis...
Holsung gargalhou em resposta mais uma vez.
-Já que está aqui, me ajude a levar essa coisa até lá.
Disse ela segurando em um dos chifres do animal. Os dois voltaram para o acampamento. O sol estava prestes a se pôr, lançando sombras ao redor da única fonte de luz advinda de uma fogueira que fora acendida pelo isqueiro de Tolfret. Em cima da fogueira, sobre um suporte de madeira improvisado, havia uma panela com água borbulhando.
-Conseguimos algo.
Disse Holsung largando o cervo pelos chifres na frente de Zelgle.
-É, eu percebi...
-Eu consegui algo, ele quis dizer.
Falou Lauren enquanto passava pelos dois em direção a carruagem para guardar seu arco. Zelgle se levantou, levou o corpo da animal até uma bancada improvisada com um tronco de madeira cortado na metade na horizontal. Jogou a carcaça do animal sobre a bancada, retirou a faca longa que ainda estava cravada no crânio e começou a esfolar o animal. Embora a visão em si não fosse nada agradável, era impressionante de se ver a performance de Zelgle. Quem imaginaria que as mesmas mãos que eram tão ruins em esgrima podiam usar uma faca tão habilmente? E ainda cortar a carne com tanta perfeição...
Kiere assistia deliciada enquanto Zelgle virava os grandes pedaços de carne nas estacas de madeira. Gotas de sangue e gordura pingavam nas chamas crepitantes, fazendo o fogo subir e produzir estalos ainda mais altos.
-Você nunca disse que sabia cozinhar...
-Eu tinha esquecido que sabia.
Kiere não respondeu, apenas o encarou confusa. Na verdade, isso era uma das únicas coisas da qual Zelgle se orgulhava, mesmo que um pouco. Sempre gostou de cozinhar. Mas isso foi deixado para trás, na época em que o sangue em suas veias ainda corria da maneira correta.
"Acho que é normal se esquecer de algo assim quando você sequer precisa se alimentar para permanecer vivo... ou morto. Dependendo do ponto de vista."
Mais alguns minutos e estava tudo pronto. Zelgle serviu em pequenas tigelas de madeira o conteúdo do caldeirão. Composto de batatas e algumas plantas da região.
-Você ao menos sabe se essas coisas são comestíveis?
Indagou Hylia remexendo a sopa na tigela com o colher de madeira. Zelgle olhou em sua direção.
-Eu vivi minha vida toda nessa província, conheço a maioria das plantas e animais que vivem aqui. Mas se você acha que sou pouco confiável...
O gigante deu de ombros e se virou novamente para o caldeirão.
-Não posso fazer nada.
Hylia voltou a encarar a sopa. Imaginou se ele teria colocado algum tipo de planta venenosa, sabia que não, já que Kiere ia comer também.
"Que seja..."
Pensou ela antes de mergulhar a colher na tigela e levar até a boca uma fração do conteúdo. Ela engoliu a sopa como todos os pensamentos desdenhosos sobre a comida. Tentou mentir para si mesma, mas no fim, teve que admitir: aquela era a coisa mais parecida com uma refeição que ela tinha provado nos últimos dias.
Todos terminaram de comer a sopa junto a uma ou duas fatias de carne, satisfeitos, imaginou Zelgle. Até mesmo Hylia, apesar de todo o desprezo, ousou repetir a sopa uma vez. O único que não estava satisfeito era o próprio cozinheiro. Zegle provou a comida uma ou duas vezes. Sem gosto. Ele suspirou. Olhou para o céu, a lua estava logo acima da clareira, iluminando o grupo com sua luz azul.
Kiere e Tolfret que estavam sentados em um banco adjacente ao de Zelgle, pareciam estar se divertindo. Os dois davam risada enquanto contavam coisas um para o outro. Hylia se encolheu sobre o canto o máximo que pôde. Até mesmo Holsung e Lauren conversavam sobre um assunto qualquer. A princesa passou os olhos pelo acampamento. A única figura que restava era Zelgle. O gigante estava parado encarando o céu. Voltou o olhar para ela depois de alguns instantes. A encarou sem desviar o olhar, e já incomodada com aquilo e garota rosnou:
-O que foi? Quer falar algo?
Zelgle não respondeu, apenas permaneceu estático feito uma estatua no tronco de arvore retorcido.
-Você realmente tem que ser assim o tempo todo?
Murmurou ele após alguns segundos.
-Assim como?
Indagou Hylia com seu olhar ameaçador.
-Escrota. Tem mesmo que ser tão escrota assim o tempo todo?
A garota não respondeu, apenas o encarou espantada, a boca aberta e o pescoço curvado como se ela tivesse levado um chute no estomago. O restante do grupo olhou na direção dos dois. Tolfret e Lauren pareceram um pouco nervosos, mas no fim, Hylia não respondeu, apenas deixou o olhar penoso se voltar para o chão.
O restante do grupo se manteve calado durante uns segundos, mas voltaram a conversar rapidamente.
-Então você está basicamente me dizendo que era uma ladra?
-Eu sou uma ladra. Não perdi o costume ainda.
Disse Kiere sentada no banco improvisado junto a Tolfret.
-Não sei se é uma coisa que você deveria falar com orgulho...
-Bom, não tem orgulho ai, realmente. Mas veja, era isso ou eu estaria morta ou teria sido escravizada por algum nobre. Então, roubar foi o meu melhor caminho. Pode não ser honrado, mas eu fiz o que fiz para sobreviver e não me arrependo nem um pouco disso.
Tolfret assentiu, de certa maneira ele entendia o lado da garota. Era um mundo cruel, ainda mais para uma meio humana, que mesmo em Minandre, onde a população de tais seres era elevada, eles não eram tratados de forma justa e muito menos igual as pessoas normais.
-Mas e a sua irmã, sabe de algo dela?
-Não. Sinceramente, nem gosto de lembrar. Não tive escolha a não ser entrega-lá para aquele estranho. Era ele ou...
-Um nobre degenerado?
Completou Tolfret se adiantando.
-Sim, um puto desses ai mesmo.
Os dois riram mais uma vez.
-E o grandão ali, quando você o encontrou?
O cavaleiro então jogou o olhar na direção de Zelgle. A meio humana fez o mesmo.
-Encontrei ele a pouco tempo. Decidi sair com ele da cidade em que estava porque achei que seria bom buscar uma vida melhor, mas estou começando a questionar essa minha decisão.
-Sei... bom, espero que encontre o que está procurando.
-Eu sempre encontro, sou uma ladra, afinal.
E então ela sorriu para Tolfret.
-Também espero que vocês consigam parar essa guerra, se é que isso é possível.
-É, isso se a Hylia não acabar matando todos nós antes.
-Nós dois nos encontramos em situações complicadas aqui, não é? Ambos temos que lidar com pessoas difíceis de se lidar.
E então Kiere voltou o olhar para a princesa e o gigante, que agora se encaravam novamente da mesma maneira que na carruagem.
-São os ossos do ofício, não é?
Perguntou ela sorrindo. Tolfret sorriu de volta.
-É, eles mesmos.
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