Capítulo 4: Um bom acordo
—Então quer dizer que você não é daqui?
—Sim, na verdade eu vim de um vilarejo mais ao norte, porém, eu tive que fugir, e infelizmente esse foi o único lugar que me abrigou. A maldita cidade em que o mercado negro tem controle total, Nirrat.
—Hm... Talvez isso explique o por que daqueles guardas estarem protegendo carroças com escravos...
—Sim, apesar da escravidão ser permitida agora, boa parte da população não aceita isso, por isso existem muitas revoltas de escravos e pessoas como eu, que tentam libertá-los, mas no meu caso, foi meramente oportuno...
"Como eu suspeitava. Minandre permitiu a escravidão para criar uma cortina de fumaça para a legião de mortos-vivos."
—Ei, você já ouviu falar da guerra entre Minandre e Rikiat, certo?
—Está brincando?Quem não sabe disso? Ambos os impérios estão enfraquecidos em termos militares, e insistem em continuar com essa droga, eles só dificultam a vida das pessoas dessa maneira...
—Sim, mas e dos exércitos de mortos-vivos, já ouviu sobre isso?
—Exército de quê?
"Como eu imaginava."
—Bem, à algum tempo, um mago de Rikiat descobriu como trazer os mortos de volta à vida, e então, usando os mortos das lutas na guerra, criaram um exército, mais eficiente ainda, já que eles não hesitam e não precisam de cuidados, e são mais fortes que pessoas vivas.
—Certo, mesmo que algo assim exista, onde quer chegar?
—O problema é que Minandre também descobriu como fazer isso, e a pouco tempo permitiram a escravidão.
Kiere arregalou os olhos, de um momento para o outro, ela conseguiu imaginar algo assustador.
—Está me dizendo... que eles estão usando pessoas inocentes para fazer algo assim?
—Bem, ao que tudo indica, sim.
"Então a legião de mortos realmente é um segredo militar agora, mas antes da minha morte, era algo tão natural..."
Kiere não conseguia se mover.
Por um momento, imaginou todas as pessoas que viu sendo levadas para um abatedouro, para serem mortas e depois usadas como meras marionetes.
Lágrimas começaram a escorrer de seus olhos.
—Ei, por que tem que ser assim?
Por que nós temos que sustentar o desejo sujo desses canalhas por sangue?
Zelgle apenas observava a garota, sem expressar uma palavra sequer. Depois de alguns minutos, Kiere limpou as lágrimas e continuou andando.
—Eu espero que eles morram, eu espero sinceramente que todos eles vão para o inferno!
Os olhos de Kiere ficaram afiados por um momento, flamejantes, emanando sua raiva por tudo que tinha ouvido.
Depois de algum tempo andando, eles finalmente chegaram no centro comercial, que por mais incrível que parecesse, era do lado dos guetos.
Mesmo no centro comercial, onde a economia deveria se mostrar próspera, era possível ver os sinais da desgraça que estava acontecendo naquela cidade: pessoas mal vestidas implorando por comida enquanto eram expulsos a base de chutes dos estabelecimentos, crianças correndo de vendedores, provavelmente por ter roubado comida, até mesmo escravos sendo obrigados a carregar mercadorias.
—Estou morrendo de fome, não comi o dia todo!
Zelgle olhou repentinamente para Kiere, que incomodada, o indagou:
—O que foi?
—Nada... você apenas parece familiarizada com essa situação.
—O que? A pobreza? Sou acostumada com isso desde que nasci, minha mãe era uma prostituta, e deu à vida por mim e minha irmã, enquanto meu pai, apenas a abandonou. A vida é complicada, mas assim que minha mãe se foi, minha irmã foi levada por um estranho, ela tinha um talento esquusito desde pequena, deve tê-lo chamado atenção, então eu estou sozinha, e ter que cuidar apenas de si mesmo facilita muito as coisas.
—Entendo.
—Bom, eu matei aquele velho gordo e roubei o anel, acho que se vendermos ele, podemos conseguir algum dinheiro.
—Não será necessário, eu tenho algum comigo, guarde para uma situação mais crítica.
—Claro, claro... mas você devia arrumar suas roupas antes, não?
Foi então que Zelgle percebeu que estava coberto de sangue, remanescente dos guardas de antes, além da roupa estar toda rasgada também.
—Vamos procurar algo pra você.
Disse Kiere, com um sorriso no rosto, enquanto procurava por uma loja.
—Alí!
Assim que eles entraram, o vendedor se assustou, pela roupa completamente suja de sangue de Zelgle.
—V-vocês precisam de algo?
—Precisamos de algo para ele...
O vendedor encarou Zelgle por um momento, e então disse:
—Acho que tenho a coisa certa...
Ele rapidamente se dirigiu até uma porta que ficava uns seis metros à frente da entrada do local, e então trouxe com ele um sobretudo.
—Sim, isso! Isso ficará perfeito!
Kiere pareceu realmente animada quando viu a peça de roupa, então ela segurou a mão de Zelgle, puxando ele na direção do vendedor.
—Eu não sei... Algo assim, acho que ficará estranho.
—Mas não é tão diferente do que você está usando agora, acho que vai te deixar apenas um pouco menos... assustador?
—Eu sou assustador?
—Bem, você anda por ai carregando esse machado enorme e ainda usa um capuz coberto de sangue, não é muito amigável, não concorda?
—Por falar em sangue...
O vendedor que segurava a roupa, de repente se intrometeu na conversa.
—O que houve para você estar assim?
—Ahaha, nós somos caçadores, matamos alguns cervos mais cedo, só isso.
—Mesmo?
—Claro!
—Pobres cervos...
O vendedor claramente ficou desconfiado, porém, não ousou perguntar mais nada. Enquanto Zelgle se trocava, o homem pediu a ele que lhe deixasse dar uma olhada em seu capuz.
"Eu sabia..."
—Ei, você não gostaria de vender essa roupa pra mim?
—Ahm?
Pra que você quer essa coisa suja de sangue?
—Eu posso reutilizar os materiais par-
—Ei, não minta para nós.
Assim que o homem encarou Kiere, seu olhar fez-lhe sentir como se uma lâmina rasga-se sua garganta.
"Bem eu não menti totalmente mas..."
—Na verdade, essa sua roupa é feita de um material bem raro, então...
—Que material?
—Seda élfica...
Assim que escutou isso, Kiere estremeceu.
—Hm?
E o que teria de tão valioso nisso?
—Bem, a seda élfica é feita à partir dos fios das aranhas gigantes do norte.
—Você quer dizer as aranhas do covil de Wever?
—Isso...
—E o que tem demais nisso, afinal de contas?
Zegle só ficava mais confuso conforme Kiere contava para ele a origem do material.
—Bem, para simplificar, Wever é uma criatura lendária, uma aranha gigante que vive em uma ravina, que divide uma montanha, suas crias, as aranhas gigantes do norte, assim chamadas, são criaturas muito poderosas, e sua teia é muito valiosa, se tecida corretamente, ela se transforma na tal seda élfica e fica tão resistente quanto o aço, além de ser super leve.
—Só isso?
—Você não ouviu o que eu diss-
Ah, eu esqueci como é você...
Bem, além disso, em cima do covil de Wever, no planalto da montanha, vive mais um monstro, um dos dez dragões lendários, dizem que foi ele que criou a ravina em que Wever mora.
—Então a aranhazinha está se aproveitando da hospitalidade, afinal...
—Bem, deixando isso de lado, como você reconheceu esse material?
Kiere estava encarando o vendedor, buscando por uma resposta, como se fosse uma cliente não satisfeita.
—Ei, eu sou muito famoso, sabia?
Então itens de muita qualidade já passaram pelas minhas mãos.
—Sei, sei...
—E então, o que pretendia fazer com isso?
—Eu iria vendê-lo para um conhecido meu, ele poderia usar isso de um jeito incrível.
—O que, extamente?
—Com o meu auxílio, ele poderia usar para fazer uma armadura excepcional.
—Ele é um ferreiro?
—Sim, inclusive o mais famoso da cidade.
—Mesmo?
Bem, acho que poderíamos fazer algo com isso afinal...
O quê você acha?
Kiere desviou o olhar do vendedor e fitou Zelgle, até que percebeu que ele já tinha colocado o sobretudo.
—Como eu pensei, isso ficou ótimo em você!
Te deixa com um ar menos assustador, podemos dizer que você foi de um ceifador para um assassino?
—Um ceifador?
Eles não usam foices?
—Sim, esses mesmos, mas você é tão assustador quanto um!
—Que bom que gostou.
Quanto à minha antiga roupa, você disse que um de seus amigos podia fazer algo com ela, onde ele está?
—Vou levar vocês até eles, só esperem um pouco...
Assim que o vendedor terminou de se organizar, ele os levou até a casa do ferreiro.
A casa de forja tinha dois andares, no primeiro era uma loja de armas como qualquer outra, mas na parte de cima, havia a forja.
—Ei, Hargit, você tá ai?
—Estou aqui, na forja!
Uma voz alta pôde ser ouvida do andar acima.
Assim que o homem desceu as escadas, ele riu ao ver o rosto do amigo.
—Olha só quem temos aqui!
Se não é o grande fanfarrão Maoren!
E então, o que traz um homem tão ocupado à essa velha forja?
—Quero lhe apresentar esses dois clientes, eles tem algo interessante com eles.
Sem hesitação nenhuma o homem olhou de cima à baixo ambos Kiere e Zelgle, mas apesar de Kiere não estar usando seu capuz, que servia para esconder suas orelhas de meio humana, o ferreiro ficou mais impressionado com a aparência de Zelgle.
Sua altura avantajada e sua postura forte podiam lhe fazer um grande guerreiro, mas ele não pode deixar de reparar na sua pele, que era estranhamente clara, muito mais que o normal, além de seus olhos em um tom sem vida e inexpressivos,
até que ele chegou ao ponto que mais o chamou atenção:
O enorme machado de Zelgle.
Por que alguém usaria algo tão grande?
Mesmo possuindo a força necessária para tal, existiam armas melhores que podiam ter um custo menor e mais benefícios.
—Vejo que não são pessoas comuns, com certeza...
E então, o que vos trás aqui?
—Queremos que veja o que pode fazer com isso.
Kiere arremessou para o homem o capuz de Zelgle.
Assim que ele avaliou o item, teve certeza do que eles queriam dizer com aquilo.
—Como conseguiram isso?
—Eu encontrei, estava usando até agora pouco, eu realmente estranhei dela não rasgar tão facilmente sendo tão fina, não importasse o quanto eu fosse golpeado, além de não deixar armas leves atravessarem facilmente.
—Sim... mas o que vocês querem que eu faça com isso afinal?
—Seu amigo disse que vocês podiam arrumar algo com isso, e então?
—Bom, nós realmente podemos usar isso para algo, porém, isso seria para um de vocês dois?
—Não, nós apenas queremos vender este item.
—Bom, sendo assim... acho que terei que recusar.
"O que está fazendo, Hargit!?"
Pensou o vendedor de roupas, incrédulo
—Por mais que isso seja um material muito valioso, ele já está tecido, e para
desfazer isso levaria muito tempo, além de não ser o bastante para ser reutilizado em uma armadura e as cores estão arruinadas, até como um tecido simples isso não pode ser usado.
—Mesmo, então é uma pena...
Vamos embora.
—Esperem...
Mesmo que isso não sirva pra praticamente nada no momento, creio que eu possa arrumar um uso para isso, conversando com as pessoas certas...
Kiere olhou para o homem sem virar o rosto completamente para ele.
"É óbvio que ele quer pegar o material pelo melhor preço possível, e pra isso ele quer nos enganar?
Zelgle já deve ter percebido também, mas nossa situação atual não é boa, se causarmos mais distúrbios na cidade, podemos ser caçados, e Zelgle pode acabar ficando com uma recompensa pela sua cabeça também... acho que não poderemos simplesmente ameaçar ele para que nos conte a verdade, que saco..."
—E quanto exatamente você pode conseguir?
—Creio que no máximo umas cinquenta moedas de ouro...
—O que?
Moeran pareceu espantando com a resposta do ferreiro.
"Pela reação do vendedor de roupas, esse cara não está mentindo, e se ele pode conseguir pelo menos cinquenta moedas de ouro com isso, ele terá que nos pagar pelo menos trinta pela peça!"
—Hum hum, o que foi Moeran?
Não esperava um número tão alto também, não é?
O mercado deste material tem estado fraco ultimamente, então mesmo algo nesse estado pode valer bastante!
O ferreiro sorriu em direção ao amigo.
—Bem, quando você disse que não iria comprar eu achei estranho, já que isso realmente tem um valor bem alto, hahaha!
Disse o vendedor de roupas enquanto ria alto e passava a mão na nuca.
"O que está fazendo, Hargit?
Esse material vale muito mais do que isso!
É impossível você não saber...
A menos que esteja tentando enganar eles, mas... se você fizer isso, se eles descobrirem realmente vai ser um problema!"
—Bom, o valor que você citou era realmente alto, então quanto pretende nos pagar por ele?
—Bom, como eu cogitei um valor de cinquenta moedas de ouro, é justo que eu lhes pague pelo menos metade disso, não é mesmo?
—Nem pensar!
Quero pelo menos trinta moedas!
—Ei, ei!
Isso é um pouco demais!
Eu não tenho certeza se vou conseguir algo com isso, e ainda tenho que pagar uma taxa para Moeran, por ter guiado vocês até aqui.
Então no total, eu realmente teria que pagar trinta moedas, vinte e cinco para vocês e cinco para ele, não é justo?
Kiere continuava olhando para o homem com um ar de desconfiança.
—Bom, eu poderia incluir um serviço extra como pagamento também?
—Hm?
Kiere se mostrou interessada por um momento.
—O que você poderia fazer, exatamente?
—Vocês usam armas, não usam?
Eu poderia consertá-las, talvez?
"Ele percebeu minhas lâminas ocultas?"
—Creio que não seja o suficiente...
—Bem, que tal armas novas então?
Podem escolher qualquer coisa na faixa de cinco moedas de ouro!
"Se ele não quer nos pagar mais cinco moedas, por que ele nos deixaria levar armas nessa faixa de preço?"
—Muito bem.
—Zelgle?
—É um acordo justo Kiere, vamos apenas aceitar.
—Hmmm, tá bom, tá bom!
—Certo, aqui estão as vinte e cinco moedas, e podem escolher as armas que quiserem.
—Bom, eu não acho necessito de uma arma, pode pegar algo só você Kiere.
—Bem, nesse caso, posso dar pelo menos dar uma olhada nesse seu machado?
Disse o ferreiro, com seus braços musculosos estendidos sobre o balcão.
—Claro.
—Hmm... essa arma não tem nada de incomum além da aparência, acho que era uma arma para rituais.
—O que quer dizer?
—Pela curva da lâmina, posso dizer que foi feita para decapitação.
Por isso tem tantos enfeites e partes banhadas à ouro, mas mesmo assim, ela está bem acabada...
Tem certeza que não quer uma nova?
Eu posso fazer uma pra você...
—Mesmo?
—Claro, eu farei algo bem melhor que esse machado estranho, e não cobrarei nada a mais.
—Certo, já escolhi minhas armas.
Kiere pegou um par de adagas médias, diferente das suas lâminas ocultas, essas não podiam ser usadas como surpresas, mas ainda podiam ser úteis.
—Bom, podem voltar em três dias, eu terei terminado sua arma até lá.
Aliás, que tipo de arma você quer?
—Não me importo, só faça algo pesado.
—Você quem manda.
E então eles caminharam em direção à porta, e antes de passarem por ela, Zelgle olhou para trás, encarando o homem por um momento.
"Esse olhar... ele... sabia?"
—Ei Hargit, por que fez isso?
—Vamos Moeran, com o dinheiro que vou obter com isso eu posso realizar meu sonho.
—Mas por que enganá-los?
—Vamos, não foi tudo de ruim, eles saíram no lucro, poderiam ter feito muito menos dinheiro se tivessem vendido aquilo em qualquer lugar.
—Pode ficar com minha parte, eu não quero me meter nisso...
—Não é possível,... vai dizer que ficou com medo daqueles dois?
—Eu não sei...
Mas antes, quando aquela garota olhou pra mim, eu senti algo estranho...
—O qu-
—Esquece isso, apenas faça o que quiser.
"Ele realmente ficou com medo, é?"
Hargit ficou pensativo por um momento enquanto observava Moeran indo embora.
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