Capítulo 36: O portador da entropia
Se uma qualidade de Tolfret pudesse ser exaltada, essa era sua prudência. Por mais grosseiro que pudesse parecer, jamais gostou de causar confusão ou se colocar em risco sem que fosse necessário. Muitas vezes foi chamado de covarde por isso, por sua irmã e até por Hylia. Mas ele sabia que não era, elas é que eram orgulhosas demais, se achavam inalcançáveis. Já ele, preferiu nunca subestimar um inimigo, sendo ele um ladrão comum ou um general de Rikiat. Porém, por algum motivo, um sorriso enorme se estendia em seu rosto enquanto encarava aquele homem mascarado. Não sabia o motivo, estaria animado demais com esse torneio? Ou aquela figura apenas o deixava inquieto? Viu ele lutando antes, era perigoso, tinha certeza disso, mas mesmo assim, ele mal podia esperar para a luta começar.
O apresentador observou os dois, deixando se encararem por um momento. E então, sorrindo, ele gritou:
—Comecem!
Tolfret rapidamente levantou o escudo. Era quase como uma muralha ambulante. A lança na lateral do escudo, apontando para frente. Fitou o adversário com os olhos frios, não o tirou de vista nem por um momento, mas... ele não estava mais lá.
"Que merda?"
Tolfret virou para o lado procurando o indivíduo. Viu uma sombra na lateral esquerda do corpo, só teve tempo de erguer o escudo nessa direção para segurar um chute que quase o derrubou de tão forte. Ele deslizou pela arena de pedra, ficou longe o bastante para ver o adversário novamente.
"De onde caralhos ele surgiu? E que força é essa?"
Começou a pensar sobre os atributos do oponente, mas logo foi interrompido pelo mesmo vindo em sua direção com mais um chute poderoso o bastante para o jogar para trás, apesar de todo o peso em metal que carregava consigo.
"Nem a pau que esse cara é humano!"
Tolfret desistiu de defender, isso não o levaria a lugar algum. Aproveitando-se do alcance enorme de sua arma, mirou uma estocada no peito do sujeito de capuz, mas o mesmo girou e escapou do ataque, e quase acertou um soco no rosto de Tolfret com o ímpeto do movimento. O cavaleiro se jogou para cima do mascarado com o escudo levantado, mas "ele" apenas pulou para longe, como uma folha voando com o vento.
—Decepcionante.
Falou "ele", a voz abafada por conta da máscara. Tolfret voltou a postura normal, com a lança apontada para cima e o escudo rente ao corpo.
—O que é decepcionante?
Sibilou ele sério, com um olhar ainda mais raivoso no rosto.
—Sua velocidade. Você tem ótimos reflexos e bons movimentos. Mas como era de se esperar, todo esse aço te deixa lerdo. Esse medo de morrer, e por conta disso, usar uma armadura tão pesada... é suicídio.
O mascarado avançou para cima dele em uma velocidade completamente absurda. Um humano comum nunca poderia se mover tão rápido, e ele nem sequer estava usando um reforço de mana, e não parecia estar sobre efeito de algum tônico ou poção, e mesmo que fosse, nem os da melhor qualidade, feitos por mestres alquimistas, teriam um efeito tão forte.
"Ele" venho com tudo para cima de Tolfret, que tentou o acertar com a lança novamente, mas errou a estocada. O mascarado estava ao seu lado, fez um arco com a aste da lança, tentando acertá-lo com ela como se fosse um bastão, mas o sujeito se movia rápido demais. Não importava o quanto tentasse, Tolfret não o acertava. Até que "ele" se esgueirou para trás do cavaleiro, pronto para acertar um soco em sua cabeça, mas o mesmo se virou rápido, e tentou acertar o cabo da lança em seu rosto mais uma vez, colocou metade da haste da arma para trás, com a mão próxima ao ombro, encurtado o alcance e aumentando a velocidade. O mascarado se esquivou num salto rápido, dando uma cambalhota no ar. Sua agilidade era algo simplesmente bizarro, Tolfret não estava errado, não tinha como ele ser humano. Se afastou alguns passos, mas antes que pudesse estar seguro, o cavalheiro estava pronto para aplicar um golpe com o escudo. Tolfret levantou a placa metálica, e em seguida pisou com força no chão usando o pé esquerdo, descendo o escudo no movimento. Teria sido destroçado pelo golpe, mas por sorte, "ele" já estava longe quando o ataque passou. Só não percebeu a ponta da lança vindo em sua direção no momento seguinte.
"Uma finta?"
Viu a ponta de metal reluzir diante dos olhos, a apenas um centímetro de distância do próprio rosto.
Tolfret parou, sentiu algo preso a lança. Olhou na direção do que quer que fosse. Algo negro estava pendurado. O capuz do mascarado. Percebeu que o dono não estava lá. O tecido estava rasgado, provavelmente ocorreu quando o homem desviou. Tolfret olhou em sua direção, e ele estava parado não muito longe.
Lá estava "ele", parado. Os olhos vermelhos, as pupilas escuras e ferozes. O cabelo branco eriçado para cima, jogado pelas laterais, caido para trás, espalhado por todos os lados. A máscara negra cobrindo todo o queixo, com pequenas astes e placas de ferro cobrindo as laterais e deixando um espaço para a boca, coberta com um tecido preto. Suas roupas eram simples, apesar de serem estranhas. Duas faixas de tecido verde se cruzando. Uma faixa negra amarrada na cintura segurando a vestimenta. Contudo, o que mais chamava atenção eram duas estranhas bracadeiras que ele estava usando. Ambas feitas de metal, com duas faixas de couro preto predendo-as ao braço do usuário, uma barra fina barra de metal na palma da mão. Um par de garras feitas de metal, comumente usadas por...
—Um assassino...
Sussurrou Kiere. A garota ao seu lado pareceu extremamente desconfortável com a citação.
—Um o quê?
—Um assassino. Aquelas são as roupas de um assassino da guilda dos assassinos. Eu já vi um deles em ação... eles são...
"Ele" ficou parado por um tempo, em silêncio, junto à plateia e até mesmo o próprio oponente, que só o observava. Todos estavam esperando o que ia fazer. Alguns deveriam estar pensando que "ele" estava profundamente irritado por ter sido exposto, mas tudo que havia atrás de sua máscara era um sorriso enorme. Levantou um pouco a cabeça, cruzando o olhar de Tolfret.
—Eu estava errado, você vale a pena.
Tolfret ouviu um som metálico, como se fosse uma espada sendo tirada da bainha, mas foi diferente, era algo mais rápido, mais agressivo, mais... afiado. E então, Holsung apareceu em sua frente, percebendo o movimento abrupto, o cavaleiro ergueu o escudo, que foi atingido pelas lâminas das garras. O som do ataque ecoou por toda arena, as garras raspando no metal do escudo produziram um chiado irritante aos ouvidos. O efeito do golpe no escudo de Tolfret foram três linhas retas, consequências do metal arrancado. Num segundo ataque, mirando a cabeça, o escudo foi perfurado pelas pontas das garras. Elas estavam juntas, como se fossem uma só lâmina, naquele formato, elas pareciam estranhamente com o bico de um corvo. Tolfret quase teve o rosto perfurado pelo ataque. Se afastou para escapar da sequência de cortes.
Avaliou o escudo velho, além de deteriorado, agora ele estava com três arranhões e um buraco. Maravilhoso. Mas mesmo sendo velho e estando desgastado, aquele tipo de arma não deveria conseguir perfurar um escudo. Aquelas garras não eram feitas de metal comum. Já teriam quebrado se fossem.
Tolfret viu um brilho azulado reluzir perto de seus olhos antes de mais um ataque vir. Ele se abaixou instintivamente, deixando o ataque passar por cima do corpo. Cambaleou para o lado, mas Holsung já estava vindo de novo. Um ataque pela direita, fora do alcance do escudo e perto demais para Tolfrer contra-atacar com a lança. As lâminas afiadas rasparam na armadura de Tolfret e arrancaram pedaços do metal na placa da braçadeira. Faíscas voaram enquanto as garras de Holsung relampejavam sobre o braço de Tolfret. O cavaleiro se afastou dando alguns passos para trás. Sentiu o braço adormecer, havia sangue. "Ele" conseguiu atravessar a armadura de Tolfret sem problema nenhum mesmo usando aquelas armas. Quem diabos era ele, afinal?
—Seu desgraçado... não sabe pegar leve com gente comum?
Holsung sorriu por debaixo da máscara.
—Comum? Porra nenhuma! Eu nunca pego leve. E devo dizer, você tá aguentando bem. E só pra você saber: eu sou humano. A diferença entre eu e você, vem de um mero frasco.
Tolfret ficou paralisado por um momento, perdido em pensamentos.
"Não tem como esse cara ser humano, não com essa força estúpida... Um mero frasco? Do que esse demônio está falando?"
—Chega de conversa.
Mais um avanço veloz na direção de Tolfret, mas "ele" se viu obrigado a recuar com um pulo para trás no último segundo. Tolfret empurrou o escudo para frente em uma velocidade enorme, produziu uma onda de choque forte o suficiente para levantar uma cortina de poeira ao redor da arena. Em seguida, venho com uma estocada por cima do escudo. Holsung quase não teve reação para a combinação de movimentos precisos que o cavaleiro executou, mas ainda assim, conseguiu se esquivar da lança quando ela venho em direção de seu pescoço.
—Maldito...
A poeira baixou. Tolfret tinha um brilho estranho nos olhos, como se energia corresse na iris.
—Reforço de mana é? Porcaria para gente fraca!
Holsung disse isso como se estivesse sendo insultado. Gargalhou enquanto observava Tolfret andando sério, até ele avançar na direção dele e quase o perfurar no estômago. Holsung girou, mirando as costelas do cavaleiro, mas o mesmo estava mais rápido e muito mais forte que antes. Se virou rapidamente e bloqueou o ataque, em seguida tentou acertar o mascarado com a lança.
"Não consigo segurar essa coisa por muito tempo. Tenho que me apressar..."
Tolfret ia se preparar para dar mais um ataque, mas sentiu algo estranho de repente. Foi quando o brilho em seus olhos desapareceu.
"Merda, ainda é instável!"
Antes que ele pudesse pensar no que fazer. Holsung venho na sua direção com um ataque diagonal. Levantou o escudo para bloquear, mas a lâmina transpassou a placa de aço, arrancando um pedaço da extremidade esquerda. Tolfret segurou a respiração até ouvir o clangor do pedaço metálico triangular chocando-se contra o chão. Levou um chute no peito e caiu sem entender.
—Acabou. Desista enquanto tem chance. Ou eu vou acabar matando você.
Tolfret quis se levantar, mas viu Hylia ao longe, na entrada da arena, balançando a cabeça em sinal de negação. No fim das contas, ele era seu servo, e não desobedeceria uma ordem direta. Mas ficou imensamente preocupado em ter um cara como aquele como possível oponente de Hylia. Não tinha certeza se mesmo ela poderia vencer.
—Merda... Eu desisto!
Gritou o cavaleiro juntando o máximo de fôlego que pôde. Encarou o céu enquanto estava caído no chão. Não haviam nuvens, ele estava completamente limpo. O sol reluzia na armadura escurecida pela fuligem e a sujeira.
—Porra...
Tolfret cobriu os olhos com o braço esquerdo. Não era seu dever ficar enfrentando assassinos malucos por ai, mas uma derrota ainda é uma derrota.
Holsung saiu da arena pelo mesmo portão que entrou. A primeira rodada havia se encerrado.
—Holsung é o vencedor!
Exclamou o apresentador, seguido de uma conturbada gritaria da platéia. Todos estavam extremamente satisfeitos com aquele primeiro dia. As lutas não tinham como ser melhores. Agora, era só esperar até o próximo dia. Todos estavam deixando o coliseu. Kiere estava junto da garota ruiva. Ambas estavam conversando e rindo, desceram as escadarias ainda juntas. A meio humana logo viu Zelgle a esperando do lado de fora. As pessoas passavam encarando o gigante, mas ele sequer dava atenção, como se não se importasse. Mais alguns metros de distância, estavam Hylia e Tolfret, cujo se aproximaram das duas garotas que estavam conversando.
—Ha, olha ai se não é o perdedor...
Lauren sequer hesitou em zombar da derrota do irmão, apesar de todos os ferimentos visíveis e o equipamento danificado.
—E de quem é a porra da culpa? Se vocês duas paressem de comprar roupas, eu teria dinheiro para reparar esta merda de equipamento ou comprar novos!
—Hum... você realmente é um mau perdedor, hein?
—Quem é que xinga toda vez que perde uma aposta mesmo?
Os irmãos se encararam por um momento. Até que Kiere entrou na conversa.
—Você lutou bem.
—Não preciso de consolo, garota. Não se preocupe.
—Estou falando a verdade. O momento em que você arremessou aquela lança na fase eliminatória foi incrível.
O cavaleiro deu um riso disfarçado, como se tivesse vergonha do que fez.
—Não se importa em eu ter ferido aquela garota?
Lauren pareceu extremamente raivosa quando ele tocou nesse assunto, mas antes que pudesse dizer algo, Kiere respondeu a pergunta do cavaleiro.
—Não. Naquele momento, ela era sua inimiga.
—Pensamento esquisito pra uma mulher.
—Kiere não é uma mulher comum.
Falou alguém se aproximando do grupo. Zelgle chegou perto o bastante para ver as gotas de suor escorrendo na testa do cavaleiro. Encarou Lauren por um momento. Ela deveria ter por volta de uns vinte anos de idade. Era bastante chamativa por conta da aparência. O rosto era bem definido, com sardas em ambas as bochechas, olhos verdes e o cabelo trançado, sem contar os... Olhou um pouco para o lado, e viu uma figura um pouco menor. Era a garota de capuz de antes. Conseguia ver os olhos azuis da garota o encarando através do escuro da vestimenta. A troca de olhares dos dois durou alguns segundos. Parecia que ela iria pular sobre sua garganta a qualquer momento.
—Vamos embora. Eu quero cuidar dessa droga logo!
Se queixou o cavaleiro passando a mão por cima do braço esquerdo. Sangue estava jorrando de dentro da armadura. O ferimento parecia ser profundo.
—Eu também preciso. Vamos Kiere.
Todos olharam para o braço de Zelgle, pendendo ao lado do corpo.
—E dá pra tratar algo assim?
Disse Tolfret enquanto a meio humana e o grandalhão se afastavam.
Os três foram até o hotel que estavam hospedados. Logo ao passar pela porta, Tolfret sentou na primeira cama do quarto.
—Vamos ver isso ai.
Lauren se aproximou trazendo uma caixa. Arrastou uma cadeira para perto. Com cuidado, tirou a parte quebrada da armadura de Tolfret. O cavaleiro soltou um gemido de dor.
—Vamos, desde quando você é tão bunda mole?
—Vá a merda porra...
—Olha como fala... quer ficar com o braço estourado assim mesmo?
Não respondeu, não dava pra dizer se ele se rendeu a irmã ou a dor era tanta que não conseguia nem falar. Lauren abriu a caixa, pegou um vidro redondo e cumprido contendo uma mistura verde. Derramou o conteúdo de leve sobre o ferimento sangrento cobrindo o braço de Tolfret. No contato, uma fumaça estranha subiu para o ambiente como se água fosse jogada em uma fogueira.
—Cacete... não lembrava disso doer tanto.
—Bem, faz tempo que você não se machuca tão feio.
—É, vocês deveriam me agradecer por participar dessa coisa estúpida.
Lauren deu uma risada de deboche.
—Pelo que exatamente? Ser derrotado na primeira rodada?
Se virou para a caixa de madeira novamente. Pegou algumas ataduras e enrolou no braço de Tolfret.
—Pronto agora, chorão? Você é quem devia me agradecer por eu ter aprendido a fazer isso.
—O que? Jogar essa coisa estranha em mim e enrolar trapos? Difícil de acreditar que existe alguém como você no mundo, hein.
A garota se virou, nem pareceu ouvir o que ele tinha dito.
—Eu vou dormir. Assistir você apanhar me deu sono.
Ela se deitou na cama do meio, se cobriu e fechou os olhos. Não era difícil acreditar que já havia pego no sono. Hylia estava parada olhando pela janela. Viu o reflexo de Tolfret se aproximando, mas não se virou.
—Aquele cara realmente te incomoda tanto assim?
—Talvez.
—Hum... eu recomendaria se preocupar com aquele que eu enfrentei. Não só porque ele me derrotou, mas por-
—Não se preocupe Tol. Eu sei que ele é perigoso. Mas como eu disse antes, o outro me passa uma sensação estranha...
—Bem, ele é lento. Você não precisa se preocupar com ele. Se vocês lutassem, ele não teria chance.
—Isso é óbvio.
A garota se virou em sua direção com um sorriso afiado no rosto.
—Vamos dormir. Está tarde.
No dia seguinte, logo pela manhã, a enorme platéia já estava reunida de volta. Os competidores se reuniram dentro da sala de espera. Zelgle estava encarando a própria mão.
"O anel..."
Ele percebeu algo no anel negro que havia ganhado do vendedor como um favor. A pequena pedra branca encrustada no anel estava rachando. Não que aquilo tivesse alguma importância.
O quadro com o esquema de lutas estava havia sido reescrito. Para a segunda rodada, as lutas seriam:
Hylia vs Nulcun
Zelgle vs Holsung
Após alguns minutos de espera, a primeira rodada do dia ia começar. Hylia entrou na arena junto ao adversário. Era o mago de antes. Um dos braços estava apoiado com uma faixa branca, por conta da flechada que ele havia levado na primeira rodada.
O apresentador gritou para que os dois começassem, e então Hylia começou a andar na direção de Nulcun vagarosamente. O mago disparou vários feixes de energia na direção da garota, mas eles se dissipavam antes de chegar. Ela já estava a menos de cinco metros dele quando ele decidiu arremessar uma bola de fogo em sua direção. A bola de fogo sumiu no ar, e então uma onda de poeira cobriu a arena e Nulcun foi arremessado para a areia.
A luta estava acabada. E mal tinha começado. Zelgle estava ao longe, observando a "luta". Se lembrou de uma das coisas que Rozaria havia dito durante as aulas.
"Se um indivíduo tiver um espírito muito maior que outro, e um controle razoável, ele pode usar o próprio recipiente espiritual para abalar o do oponente. Isso pode causar dores de cabeça, náuseas e no pior dos casos, fazer a pessoa desmaiar."
A explicação havia sido confusa, mas vendo na prática, Zelgle conseguiu entender. Isso só indicava que aquela garota era realmente forte.
"O que ela está escondendo?"
Se perguntava o gigante enquanto via a competidora deixar a arena. Ela olhou em sua direção com um olhar de desprezo, mas Zelgle não se importou, já estava acostumado. Deixou a sombra e saiu em direção ao chão de pedra. Era sua vez de lutar.
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