Capítulo 32: O torneio de Golarit

Quase uma semana se passara desde que Zelgle e Kiere partiram de Nirrat, eles estavam se aproximando cada vez mais de Ardium. Primeiro eles passaram por Vingart e Arkong. Eles foram transportados por carroças. Mais especificamente por comerciantes, que com o pagamento certo, aceitaram levá-los junto a mercadoria.

Durante as paradas, eles completavam missões simples nas filiais da guilda em outras cidades para conseguirem dinheiro suficiente, missões como recolher ervas e lidar com um animal que estava atrapalhando alguma fazenda solitária. Paravam para comer apenas quando necessário. Quando Kiere sentia fome na verdade. No decorrer da viagem, Zelgle continuava tentando aprender a controlar seu espírito, mas sem nenhum sucesso. Ele gradativamente conseguia aumentar a quantidade de magia acumulada nas mãos, uma minúscula bola de fogo negro ia se condensado com o passar do tempo.

"Parece que ele vai ter um filho."

Kiere apenas o observava entediada. A meio humana já havia praticamente dominado o reforço corporal usando mana, e estava usando e abusando disso por conta dos benefícios. Ela estava começando a aprender a acumular a energia em partes separadas do corpo, fortificando suas funções. Começando com os olhos, sua visão incrivelmente superior ao de seres humanos comuns ficava ainda mais absurda se ela usa-se o reforço, ela conseguia enxergar a quase duas milhas de distância.

Os dois estavam na traseira de uma carroça, sentados numa prancha de madeira. Na parte da frente, um casal de idosos guiava os cavalos por uma estrada de terra reclinada. A vegetação em volta era alta, podendo esconder predadores e bandidos, por esse motivo, o casal de idosos concordou em levá-los de graça, tendo em vista que eles poderiam lidar com as ameaças e não exigiram nenhum pagamento por isso.

-Ei, o que você vai fazer lá em Ardium?

Perguntou Kiere, com o rosto apoiada em uma das mãos. Ela estava inquieta desde que a viagem começou, como se quisesse aproveitar a viagem, mas ela não tivesse nada a para ser aproveitado.

-Agora que você me pergunta?

-Não estava tão interessada antes.

-Hum... bem, eu tenho que ouvir algumas coisas de certas pessoas. E também, vou ver minha mãe.

-Oh, você tem mãe... isso é, bem, surpreendente?

-Você também tinha uma mãe.

-É, sim, mas sabe, é uma surpresa vindo de você.

-Eu sou humano, Kiere.

-Eu sei, mas...

Ela não continuou, apenas abaixou a cabeça.

-A quanto tempo você não a vê?

-Não lembro, não faço a mínima idéia para ser sincero. Depois do que me aconteceu, eu não sabia sequer onde eu estava, e agora que estou voltando para lá. Eu lembro de ter visto ela algumas semanas antes de entrar para o exército definitivamente. Mas não tenho certeza.

-Hm... pelo menos você vai poder ver ela de novo. Isso não te deixa feliz?

-É, acho que sim.

"Deveria pelo menos, mas por algum motivo..."

-O que vai fazer quando a ver? Abraçá-la? Não se cumprimenta uma mãe com um aperto de mãos, não é?

Zelgle negou com a cabeça.

-Minha mãe sofre de uma doença desconhecida. Sofria pelo menos. Desde que sai. Ela estava constantemente de cama, e eram raras as vezes que ela tinha disposição para se levantar. Eu espero que ela tenha melhorado.

-É triste ouvir isso...

-Na verdade eu sofria dessa mesma coisa. Meu corpo sempre foi frágil, e muito. Apesar do tamanho.

"É meio difícil de acreditar nisso."

Pensou a meio humana prestando atenção no companheiro.

-Mesmo assim eu fui forçado a me alistar no exército, e isso definitivamente piorou a situação da minha saúde. Mas após o que aconteceu, todos os sintomas da doença desapareceram.

-Estranho...

-Sim. Mas bom, eu presumo.

Mesmo durante a conversa, Zelgle se mantinha concentrado em tentar acumular energia e formar a maldita esfera.

Depois de mais uns vinte minutos de viagem, a carroça parou em um pequeno vilarejo. A senhora desceu da carroça e foi até a parte de trás.

-É aqui que nos despedimos...

Ela deu uma risada simpática para os dois.

-Espero que tenha sido o suficiente.

Disse o idoso com uma voz rouca aparecendo na lateral da carroça.

-É sim. Muito obrigado. Só uma coisa, para que direção temos que ir para chegar a próxima cidade?

-Ah, vocês têm seguir para o leste, chegarão em Golarit amanhã de manhã se forem de pressa.

"Essa cidade..."

Zelgle pensou por um momento, e então assentiu.

-Muito obrigado.

Zelgle e Kiere desceram da carroça.
Eles foram até uma pequena loja e compraram provisões para o restante da viagem.

Eles estavam na metade do caminho, quando começou a escurecer.

—O que acha de descansarmos um pouco? Estamos andando faz horas...

Disse Kiere se espreguiçando. Para falar a verdade, Zelgle queria chegar a cidade o mais rápido possível, mas também tinha que deixar a companheira dormir, se estivesse sozinho, seria mais fácil, mas ele não se importou.

Eles encontraram uma clareira no meio da floresta, fora da estrada.
Montaram uma fogueira improvisada e comeram algumas das provisões que haviam comprado.

-Estou com sono...

Disse Kiere mechendo no fogo com uma vareta. Ela largou o pedaço de madeira no fogo e bocejou.

-Você pode ir dormir. Eu fico de vigia.

Ela nem sequer respondeu. Rapidamente caminhou até uma árvore e se acomodou. Passaram-se alguns segundos, e ela começou a se remexer sem parar. Não conseguia uma posição confortável. Ela subiu em cima de um dos galhos da árvore, mas a situação foi a mesma.

-Sabe... esse lugar é horrível para dormir.

Disse ela enquanto descia da árvore. Ela olhou na direção de Zelgle, meio que procurando algo e fez uma expressão de quem havia encontrado.
Ela foi na direção do companheiro vagarosamente. Ele estava encostado em uma árvore. Ao se aproximar, Kiere se sentou ao seu lado. Ele não tirou os olhos da companheira nem por um instante. Até que ela deitou em seu colo.

-Ah sim, assim é bem melhor.

Disse ela, com os olhos fechados e um grande um sorriso. Zelgle não demonstrou um sequer traço de confusão ou surpresa.

-Mas assim eu não vou conseguir dormir.

-Você tem que ficar de vigia, não é?
Você não pode dormir!

Logo Kiere pegou no sono e apenas Zelgle permaneceu acordado. Observando a fogueira se apagar aos poucos. Olhou para a companheira de relance. Seu comportamento era estranhamente parecido com o de um gato, até a maneira na qual dormia.
Passou a mão em seus cabelos de leve, para que não acordasse. Talvez não fosse tão ruim, ter alguém de companhia, o único problema é se a pessoa gostava de ter ele por perto, e essa era um pergunta que ele não conseguia responder.

Quando a manhã chegou, Kiere acordou com o sol batendo em seu rosto. Ela lentamente levantou a cabeça, e percebeu que estava coberta por algo, um pano escuro. Ela virou a cabeça mais um pouco, e percebeu que estava em uma floresta, um vento frio se chocou contra seu rosto, fazendo-a acordar de vez. Ela se virou, olhando para Zelgle encostado na árvore, com os estranhos olhos púrpuros a encarando. Ela percebeu que ele estava só com uma camiseta branca, e o pano que cobria seu corpo era seu sobre tudo.

—Por que vo-

Ela não completou a frase, deu um bocejo longo enquanto se espreguiçava. Zelgle se levantou devagar.

—Esfriou muito durante a noite, você estava tremendo.

Ela o acampanhou com os olhos indo até a fogueira já apagada enquanto ainda estava sentada com a peça de roupa cobrindo metade do corpo.

—Se é assim, obrigada. Mas não você sentiu frio?

—Não, não senti.

Ela se levantou também, e entregou a roupa para Zelgle, que a vestiu de imediato.

—Sobrou algo para comer?

Disse ela vasculhando uma das bolsas que Zelgle estava carregando antes.

—Sim, está naquela ali.

Disse ele apontando com o dedo indicador da mão direita enquanto enfiava a mão esquerda no sobretudo.

—Você dormiu bem?

—Sim, e você?

—Eu não dormi.

—O que?

—Você disse que eu não deveria dormir. E realmente estava certa, algo podia nos atacar, então eu fiquei acordado.

"Ele é esquisito..."

Pensou ela enquanto encarava o companheiro se distanciar.

—Vamos continuar.

Disse ele a meio humana, enquanto ela dava uma mordida em uma maça que acabara de tirar de um dos sacos.

Eles finalmente chegaram na última cidade antes de Ardium, Golarit. Eles andaram pela cidade, ela era grande, não tanto quanto Nirrat, e apesar do movimento ser grande, a cidade tinha o mesmo ar decrépito das outras. Com as pessoas maltrapilhas correndo para lá e para cá, com gritos de comerciantes ecoando ali e acolá, montes de lixo jogados pelas calçadas, apodrecendo ao ar livre. Mendingos jogados em cima das pilhas de lixo, se juntando a elas, enterrados nelas. O  calor era insuportável, e o movimento constante só piorava as coisas, e para Kiere, que havia retornado para suas vestes originais, e estava usando o capuz, afim de esconder suas orelhas, aquilo estava fervendo como o inferno.

-Esse lugar fede...

Resmungou ela cobrindo o nariz e a boca com uma das mãos.

-Quero ir embora logo...

Zelgle não respondeu, estava distraído com a grande quantidade de pessoas indo em todas as direções.

-Ei, já esteve aqui antes?

-Apenas uma vez. Vim aqui com meu pai quando era criança. Deve ter sido a única vez que sai de minha vila natal, e então fui para Ardium.

-Chato. Imaginei que você tivesse viajado mais por aí. Bem, que seja. Vamos fazer o que deve ser feito aqui logo e partir. Não estou aguentando esse cheiro.

Ela deu alguns passos até pisar em algo que fez um farfalhar estranho. Um papel retangular estava abaixo de seus pés quando ela olhou para baixo.
Se abaixou vagarosamente e pegou o papel do chão. Havia um estranho desenho de duas espadas cruzando um escudo, acima do desenho, um enunciado escrito em tinta preta.

-Tornado de Golarit... que diabos?

Leu ela, fazendo uma pausa e uma careta ao pronunciar a primeira palavra.

-Torneio. Pensei que você soubesse ler.

Corrigiu Zelgle, surpreendendo Kiere.

—Ei! Eu sei ler, só não tive muitos usos pra isso na vida. Estou sem prática.

Zelgle não respondeu, apenas olhou em direção à uma enorme construção em forma de círculo ao fundo, uma fila de pessoas se formava na entrada do lugar.

-É um torneio que ocorre aqui anualmente. Não sabia que seria nessa época esse ano...

E como saberia estando afastado de tudo?

-Torneio? Parece interessante.

Exclamou a meio humana, encarando o céu.

-Do que é esse torneio, exatamente?

-Lutas. Quando criança, eu vim aqui com meu pai por conta disso.

-Seu pai? Ele era um participante?

Zelgle balançou a cabeça para os lados.

-Não, ele era um guarda na época, e por conta disso, eu fui capaz de assistir sem pagar nada.

-Deve ser um espetáculo e tanto...

Mais uma vez Zelgle balançou a cabeça em negação.

-Não há nenhuma regra dizendo que você não pode matar seu oponente.

Kiere ficou pasma ao ouvir isso.

-O quê? Quem em sã consciência participaria de algo assim? Isso é insano...

-Na verdade, em praticamente todos os anos, eles batem o recorde de participação do ano anterior. Contando que a estrutura do lugar suporta quase cento e cinquenta participantes, ainda sobram pessoas.

-Esse pessoal deve ser louco.

-Bem, qualquer um ficaria ao ver o prêmio.

Zelgle apontou com o dedo indicador da mão esquerda para uma parte escrito em dourado no cartaz que Kiere estava segurando. A meio humana deu um berro, chamando a atenção de várias pessoas na rua.

-Q-q-q... quinhentas moedas de ouro?

Ela começou a suar frio. Deixou o cartaz cair no chão.

-Ei, você disse antes que não conseguia morrer não é...

O olhar da meio humana virou para Zelgle, ela tinha um estranho brilho nos olhos, um brilho feroz. De um predador que acabara de avistar a presa indefesa.

-E não estamos com tanta pressa para chegar em Ardium, não é? Estamos só  a alguns quilômetros mesmo...

Disse ela se aproximando subitamente.

"Acho que... me fodi."

************************************

—Senhorita, eu peço que reconsidere. Por favor, é perigoso demais.

—Quer desistir agora que já estamos na fila, Tol?

—Sim, porque é perigoso, e você sabe que é!

Os dois estavam sussurando um para o outro, em uma enorme fila, com mais de cem pessoas.

—Tanto faz se é perigoso, vamos nos registrar com nomes falsos, vencer, pegar o prêmio e dar o fora. Muito simples.

—É, mais e se algum espião reconhecer sua identidade e alertar onde estamos? Eles te querem morta!

—Ah, você se preocupa demais. Deveria parar de ser tão bunda mole, Tol.

—É cara, escuta a moça, se tá com medo, que tal sair da fila?

Disse um homem atrás dos dois, com um sorriso enquanto encarava Tolfret.

—É, e você deve ter coragem demais para alguém tão nanico.

Tolfret se virou, e encarou o homem, e realmente ele era bem mais alto que o sujeito.

—Verdade, mas você já ouviu aquele ditado "tamanho não é documento"?

Disse o homem com um sorriso, virando o rosto para outros homens atrás, que também estavam sorrindo.

—A não ser que o tamanho se refira a quantidade, sabe? Agora, que tal você sair da fila e me deixar cara a cara com essa gracinha ai. Ela não precisa participar disso, vou garantir que ela fique segura e depois no-

De repente, o homem caiu no chão desacordado, junto com várias pessoas atrás. O pessoal da frente se assustou, e os guardas que estavam vigiando a fila se agitaram desesperados por um momento. 

—Pra que fez isso?

—Você ia matar ele.

—Não ia não.

—Ah, não ia? Fala isso pros últimos que chamaram eu ou a Lauren de graçinha. Ah é, não dá mais, porque você esmagou a cabeça deles!

Os sussuros ficaram altos, conforme a garota ia ficando nervosa.

—Eu pensei que nosso objetivo aqui era não chamar atenção, então se você matasse alguém as coisas ficariam bem difíceis! Agora...

Ela não continuou, ela parou, observando os guardas remexendo as pessoas desacordadas no chão, sem entender o que havia acontecido. De repente, seu peito havia ficado pesado. Ela olhou mais ao longe, e viu dois guardas guiando as pessoas pare frente, e outros arrastando os que estavam inconcientes para longe.

—Não sabemos o que aconteceu com essas pessoas, mas não se preocupem, elas só estão dormindo, andem com a fila!

Berrou um dos guardas. A garota viu as pessoas se aproximando, mas o que chamou sua atenção foram as duas da frente. Uma pessoal encapuzada, uma garota aparentemente, e um homem enorme, segurando um machado ainda maior. A pessoa de capuz estava ao seu lado, o que significava que ela não participaria do torneio. Mas o homem do machado... conforme ele se aproxinava, a garota ficava cada vez mais desconfortável, um forte aperto ia se juntando no seu peito.

—Senhorita Hylia...?

A garota quase se ajoelhou, devagar, ofegante como se estivesse passando mal.

—O que houve?

—Aquele cara... ele é...

—Ele é?

Antes que ela pudesse responder, novamente várias pessoas desmaiaram, inclusive alguns dos guardas que estavam carregando as pessoas caídas. A pessoa encapuzada a frente cambaleou um pouco, como se de repente tivesse perdido o equilíbrio.

—Kiere, o que houve?

—Não sei, me deu um enjôo do nada...

"Ela resistiu? E ele sequer se abalou?"

Hylia ficou de pé imediatamente.

—Ei, eu pensei que não queria chamar atenção!

—Você ai...

A garota o ignorou, e olhou na direção dos dois caminhando vagarosamente para o restante da fila.

—Hm? É comigo?

Respondeu o homem enorme com o machado.

—Sim, é. Quem é você?

Hylia rosnou, parecia tão feroz quanto um tigre.

—Eu sou Zel-

Antes que o gigante pudesse terminar, ela o interrompeu.

—Melhor, o que você é?

—Como?

—Você sabe muito bem o que e-

A garota ia avançar sobre ele, mas um braço a segurou pelo ombro, era Tolfret.

—Ei, ei, ei, eu pensei que estivéssemos aqui para fazer dinheiro, e se me lembro bem, você desmaiou metade dos potenciais participantes do torneio alegando que eu ia matar um deles. Se acalme.

Sussurou ele para ela, e então, ele levantou a mão aberta. Um sinal.
Do alto de uma casa, uma pessoa que estava mirando a cabeça do gigante na fila afrouxou a corda de um arco. Era Lauren.

—Deixa pra lá.   

Hylia e Tolfret se viraram pra frente, sem parar de encarar a pessoa encapuzada e o homem enorme.

E então a fila prosseguiu.

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