Capítulo 29: Em Rikiat
Rikiat. Esse é o nome de um dos impérios mais poderosos que existem em Evarost. A nação onde o sol nunca se põe. De cultura e nobreza deslumbrantes. Um grande exemplo de tudo isso são as casas nobres, com nomes e autoridade impressionantes. Falando culturalmente, Rikiat é uma nação extremamente... sofisticada. As roupas tem estilos praticamente teatrais. As mulheres usam vestidos longos e largos da cintura para baixo, os cabelos penteados de maneiras... exóticas com certeza dão um charme adicional. Tudo isso levara Rikiat ao seu trono como um dos impérios mais poderosos existentes.
Em Rikiat, a fé é um símbolo de poder, e aqueles desprovidos de fé, não conseguirão dar sequer um passo sem tropeçar e cair no chão.
-Isso é o que a igreja diz. Não sou obrigado a acreditar nessa merda.
Resmungou um homem magro vestindo um magnífico sobretudo negro com bordados dourados.
-Rá! Eu gostaria de ver se você teria coragem de dizer isso na frente do Pontífice ou do Alto Templário, meu caro Deador.
Respondeu um indivíduo ao seu lado, com a roupa muito parecida, porém de tamanho proporcional a sua estatura imensa.
-Vamos Crust... você sabe muito bem que isso não seria coragem, e sim tolice. E eu não sou tolo. Aqueles idiotas cegos me esfolariam vivo.
-Sim, sim... não, não. Acho que seria mais provável a fogueira. Como uma bruxa.
-Vá a merda Crust.
O homem mais baixo fechou a cara.
-Céus, você realmente não sabe brincar...
Disse o mais alto olhando para o lado, disfarçando um risinho atrevido. Mas logo, o sorriso sumiu, e ele olhou preocupado para o colega de estatura mais baixa ao seu lado.
"Espero que tudo ocorra bem..."
Os dois conversavam enquanto passavam por um corredor largo. O chão de mármore reluzente produzia um som profundo durante o caminhar. Um passo leve, e um pesado. Em sequência. Os dois homens se dirigiam a uma enorme porta de madeira adornada com ouro nas maçanetas gigantes no fim do corredor. Dois guardas que estavam a postos abriram a porta quando viram os dois chegando. Eles passaram pela porta gigante que dava entrada para uma sala ampla e muito bem construída. As paredes eram recobertas com mármore, haviam pilastras brancas enormes enfileiradas. Uma sequência de bancos de madeira faziam o lugar parecer estranhamente com uma igreja, além disso, ainda haviam três cadeiras no fim no fim da sala, cada qual com uma pessoa sentada. A que ficava a esquerda era feita de ferro, com espinhos ao redor e uma coroa de aço fundida na parte de cima. A cadeira da direita era formada por uma espada no encosto, e a do meio, por uma cruz enorme, feita de ouro e com pedras reluzindo por toda a parte. Juntas, as cadeiras eram o simbolo da Catedral dos Três Poderes de Rikiat. A coroa de aço significava o poder militar enorme e poderoso de Rikiat, controlada pelo próprio Rei, a cruz significava a igreja e a Ordem dos Clérigos, e a espada significava a Justiça, além da Ordem Templária.
As mais de trinta pessoas no salão direcionaram seus olhares afiados nos dois homens atrasados quando eles passaram pelo portal. Haviam representantes da Ordem dos Clérigos, vestindo mantos azuis que cobriam o corpo todo, representantes da Ordem Templária vestindo armaduras prateadas junto a capas vermelhas impecáveis. Apesar de não ser um traje cerimonial, e sim feito para batalha, dizem que Templários nunca abandonavam suas armaduras e espadas. E por último, os representantes do exército, três deles, usando sobretudos negros.
"E aqui estamos... o que eu não daria para essa ser a última vez que eu tenha que ver a cara desses merdas?"
-Espero que esse teatro não demore muito...
Sussurou Deodor para o amigo.
-Céus... querido Deus, por favor ajude meu amigo a controlar a língua até o fim da reunião...
-Hum...
Deodor revirou os olhos. Os dois caminharam lentamente até o meio do salão.
-Vocês finalmente chegaram, Deodor e Crust. Nossos estimados generais. É uma pena estarem um pouco atrasados.
Disse o homem sentado na cadeira de ferro, com a coroa de aço sobre a cabeça, vestindo um extenso manto vermelho feito de seda. O rei de Rikiat. Sua aparência era majestosa, como a imagem de um rei deveria ser. Os olhos levemente marrons encaravam friamente os subordinados, a mão direita apoiando a parte lateral da cabeça, com os dedos entre os cabelos cacheados. Geralmente se é muito fácil irritar membros da realeza, mas aparentemente isso não se aplicava a esse homem com o título de rei, já que ele parecia apenas entediado com a demora dos dois súditos.
-Atenderemos ao seu solene chamado sempre, meu senhor. Nos perdoe pelo atraso...
"Pro Inferno, porra!"
Deodor e Crust então se dirigiram até um dos bancos, o mesmo onde estavam os outros três generais.
-Bem, acredito que agora podemos começar, Jundair.
-É claro.
Respondeu um senhor vestido com roupas eclesiásticas, sentado na cadeira do meio. Ele fez um pequeno esforço para que os joelhos o permitissem levantar da cadeira.
-Vamos dar início a esta importante convenção. Eu, Pontífice Jundair, junto ao Rei Rarth e o Alto Templário, Adrivarius, reunimos vocês hoje para discutirmos uma importante questão: a guerra contra Minandre.
O velho deu uma pausa, respirou fundo e só então continuou
-Meus irmãos, como todos sabemos, Minandre é uma terra de selvagens, e de lá, nada de bom poderia sair. Mas, ultimamente, Minandre tem usado todos os mais sujos artifícios contra nossa bela e próspera nação.
"Próspero é o seu rabo, velho!"
Deodor se segurava para não pular no pescoço do Pontífice, mas antes que pudesse acontecer, seu amigo estava lá para dar-lhe uma boa bofetada na cabeça e o impedir.
-E é por conta disso, meus irmãos, que hoje, nós trouxemos alguma ajuda para nos auxiliar nesse terrível tempo de escuridão.
Terminou o velho, com os braços abertos, como se estivesse pronto para abraçar as pessoas que estavam nos três bancos da frente.
-Hoje, gostaríamos de discutir o que cada um quer pela sua colaboração.
"Mercenários e magos fracassados... gente inútil."
—Vamos começar com o grupo de Sart, o grand-
—Vossa Excelência...
Uma voz firme e vigorosa emergiu da meio dos bancos de madeira, cortando a voz rouca do Pontífice.
—Sim, Deodor?
O velho deu um sorriso débil enquanto olhava na direção do general. Os pequenos e redondos óculos brilhavam junto a perversidade em seu sorriso.
—O senhor poderia por favor nos contar qual a origem dessas... dessas... pessoas?
"Deodor, a reunião mal começou... por favor, agora não!"
Pensou Crust apavorado com a interrogação do companheiro.
—O que quer dizer com isso irmão? Não é óbvio? Essas pessoas são reforços enviados por Deu-
—Mercenários.
—Como é?
—Eles são mercenários e assassinos, não é? Estamos tão desesperados assim?
Nesse momento, o salão foi invadido por um silêncio tão profundo e pesado que a sala parecia ter submergido em um oceano.
—Deodor, eu imagino o que você está pensando.
Começou o Rei, com uma relutante pausa para respirar.
—Porém, nós necessitamos de toda a ajuda necessária. Eu peço que entenda a nossa situação aqui.
—Perdoe-me senhor, mas não é uma simples questão de aceitação. Acontece que, se nós usarmos este tipo de gente contra Minandre, nós apenas estaremos fazendo o mesmo que o nosso inimigo.
Nesse momento as pessoas das primeiras fileiras se levantaram em gritos contra Deodor. A balbúrdia rapidamente tomou conta do salão.
—Deodor, coloque-se no seu lugar! Você está falando com o Rei!
Entoou uma voz feminina, calando todos no salão. A voz vinha do lado do homem, entre Crust e ele. A mulher que havia repreendido Deodor estava sentada no mesmo banco que ele, encarando o homem entre as mechas de seu cabelo negro.
—Cale-se Priscilla, você não respondeu pelos meus atos.
A mulher fitou Deodor ao lado de Crust, uma expressão raivosa se formou em seu rosto. A raiva em seus olhos só aumentou ao perceber que o homem sequer devolvia o olhar. Ele encarava o Pontífice. Diretamente. A única coisa entre o encontro de seus olhos eram os pequenos óculos redondos do velho. Seus olhos semicerrados encaravam Deodor de maneira solene, como se desejasse todo o bem do mundo à ele.
—Além disso, fiquei sabendo sobre um mago sombrio.
"Ah, por que eu fui contar sobre isso pra ele? Oh, Deus, estou pagando pelos meus pecados aqui?"
O homem alto e robusto ao lado de Deodor não conseguia parar de pensar em como aquilo poderia acabar com o trágico assassinato de seu querido amigo, e enquanto pensava nisso, pequenas gotas de suor frio se formavam em sua testa.
—Vossa Excelência, Pontífice Jundair, não me diga que a igreja planeja acolher e usar como arma algo que já foi uma das maiores causas de morte e destruição do Império... Me diga senhor, acha que vai poder controlar isso?
Apesar dos questionamentos de Deodor, o sorriso do velho não deixava seu rosto. Em contra partida, a expressão séria de Deodor deixava a situação tensa. A medida que ele levantava esses questões, múltiplos arrepios percorriam a espinha de Crust.
—Já chega, Deodor! Você está falando demais para alguém que chegou atrasado.
Gritou o rei, parecendo nervoso de repente.
—Estamos cientes das consequências disso, porém, não temos escolha. Eu sei que você já percebeu, portanto, para com esse criancice. A nossa força militar não é mais a mesma de antes. A cada conflito que se passa, perdemos mais e mais homens, e isso vai continuar se repetindo se não fizermos algo. Esses reforços são absolutamente necessários.
—Reforços? Senhor... quando a luta pender para o lado inimigo, esses homens vão fugir. Eles não tem a mesma devoção que os nossos soldados. Não faça uma comparação como essa. E você diz necessária? Tudo que eles vão fazer é incitar ainda mais o ódio em Minandre! Quando eles invadirem as cidades, destruindo tudo, a única coisa que eles vão fazer é saquear e estuprar. A matança já não será o suficiente?
—Não há como negar que eles não são como os nossos soldados, mas não temos escolha...
A expressão no rosto do rei não passava a inspiração de que essa era sua real convicção. Ele parecia nervoso e claramente confuso.
—Não faça isso senhor...
Deodor fez seu último apelo, e quando pareceu que havia uma chance do rei retroceder, uma voz grave soou.
—Então, o que você propõe, general Deodor?
O dono da voz era o homem sentado na terceira cadeira, o Alto Templário.
Com a cabeça apoiada na mão esquerda, enquanto encarava Deodor seriamente.
—Você propõe que nos rendamos a Minandre? Você acha que devemos enviar a eles um acordo de paz?
O Alto Templario Adrivarius. Um homem escolhido por Deus, sugeriam os boatos. Forte, sério e determinado. Seus olhos azuis eram tão profundos que eram comparáveis ao fundo do oceano. Mas independente dos rumores, lá estava Deodor, encarando o homem como se nem se importasse com seu cargo.
—Eu entendo como se sente, Deodor. Porém, não podemos arriscar mais perdas do nosso lado. Minandre pediu por isso. Não devemos ter misericórdia. Você sabe muito bem. Já esteve na linha de frente, não? Você viu como os soldados usam o povo como escudo? Viu como o próprio rei trata o povo? Diferente de nós, que somos guiados pela luz de Deus, eles são apenas animais. Se você acha que a balança está errada, você pode ir fazer peso para o lado de lá. Talvez os rumores sobre uma "suposta traição" por sua parte não sejam tão surreais.
Nesse momento, o rosto de Deodor se contorceu de raiva. Tudo em sua volta escureceu, permanecendo apenas ele e aquele maldito. Ele abriu a boca para falar algo, mas antes que sua voz pudesse sair, algo tocou seu ombro. Uma mão pesada, que o fez se desequilibrar por um momento. Era Crust. Ele olhou para cima para encarar o companheiro. Seu rosto estava pálido e ele estava suando. Deodor entendeu o recado na mesma hora. Nada mais precisava ser dito. Deodor encarou o chão relutante.
—Sabe Deodor... as vezes, é necessário plantar o mal para se colher o bem. Confuso não acha? O que quero dizer é...
O homem de aparência jovial se levantou, os cabelos grisalhos entraram na frente do rosto por um momento. Ao se levantar, ele colocou a mão sobre o ombro de Jundair, indicando para que o velho se sentasse.
—Você acha que o povo de Minandre está satisfeito com a própria condição? É claro que não. Mas como inimigos, tudo que podemos garantir é destruir o sistema corrupto que se apoderou daquela nação, e só então, seu próprio povo irá ter paz, e nós também, consequentemente.
Deodor não queria dizer mais nada, porém, aquilo foi como uma isca colocada em uma poça d'água com um único peixe. Era óbvio que ele morderia.
—E até lá... quantos dos nossos e dos deles vão morrer?
—Ora... você se preocupando com vidas? Logo você? Que dizem ser um dos maiores carrascos de Rikiat quando está no campo de batalha...
O sangue de Deodor ferveu. Ele sabia que já havia mordido a isca, e como todo bom peixe que tenta resistir ao pescador, ele só pode se debater de um lado para o outro.
—Eu faço o que faço sem hesitação, sim. Mas quando eu estou de frente a pessoas que podem decidir se esse tipo de coisa vai ocorrer ou não, eu também não hesito em tentar fazê-los evitar isso.
—Hm... é mesmo? Isso é interessante Deodor. Muito interessante. Mas você ainda não respondeu. O que você faria no nosso lugar? Tentaria um acordo de paz? Desistiria da guerra e deixaria o inimigo nos invadir? Tentaria resistir sem atacar com os soldados remanescentes?
Era óbvio onde aquele maldito queria chegar, porém, Deodor não conseguia deixar toda aquela malícia disfarçada de racionalidade passar.
—Você diz isso, senhor Adrivarius, mas será que devo lembrar que nem você e nem os seus Templários participam de confrontos diretos? Pra que servem as armaduras brilhantes, afinal?
"Merda..."
Nesse momento, Crust pensou que sua alma havia saido do corpo. Não precisaria mais se preocupar com o que o amigo diria agora.
Os olhos azuis do Alto Templário reluziram o rosto de Deodor, sua pele ficou pálido por um momento.
—Seu pequeno rato... você se atreve? Sem nem mesmo ter algum sangue nobre nas veias?
Deodor não conseguia esconder a satisfação. Agora, ele se sentia como um peixe que conseguira acertar a cara do pescador em um dos seus saltos descontrolados e cair de volta na poça. Ainda preso, mas na água novamente. Embora, a citação da ausência de "sangue nobre" em Deodor era uma coisa que o irritava, e muito, apenas esse termo já o deixava nervoso .
—Pare com isso Deodor! Você já passou dos limites faz tempo. Sua insolência não será mais tolerada neste salão! Eu não entendo... você era um homem bom, o que houve com você?
O Rei colocou a mão sobre os olhos, como se estive se escondendo da vergonha.
—Bem, não importa agora. Eu peço Deodor, que se retire.
Deodor não disse nada, tudo que ele fez foi levantar do assento e ir em direção a porta, quando estava na metade do caminho ele parou por um momento.
—Majestade...
O Rei olhou em sua direção, relutante e penoso.
—Eu não mudei. Meus valores não mudaram. Se você está com tanta dificuldade para perceber isso, talvez... seja você quem tenha mudado.
O Rei não consentiu, porém, não negou também. Ele só pode observar enquanto o subordinado ia em direção a porta.
—Deodor... Eu quero que você vá até a sala do trono quando a reunião acabar, pode ser?
—Claro, Majestade.
Confirmou o general.
E então Deodor continuou caminhando, mas antes que chegasse a porta, a mesma se abriu sozinha, permitindo que uma figura encapuzada entrasse no salão. Aparentemente, um rapaz de pouco menos de um e setenta de altura. Uma pequena parcela do cabelo negro cobria parte de seu rosto, impossibilitando a visão de seu olho esquerdo. O rapaz era estranhamente pálido, e sinistro, ainda mais se adicionarmos as roupas escuras e esfarrapadas.
"Quem é esse?"
Deodor ficou parado enquanto observava o estranho recém chegado passar por ele sem sequer olhar em seu rosto. Assim que ele passou por Deodor, a menos de meio metro de distância, o general sentiu um arrepio correr pela coluna. Ele imediatamente lembrou dos mortos e moribundos do campo de batalha, como se milhares dos seus gritos de desespero vinhessem do silêncio daquele garoto que acabara de entrar no salão.
—Ai está você, eu pensei que havia fugido com o dinheiro.
Falou o Pontífice, com o sorriso em seu rosto aumentando conforme a figura sinistra se aproximava. O Alto Templário já havia voltado para seu assento, e encarava a cena inexpressivo, enquanto o Rei Rarth estava pálido a ponto de parecer doente.
—Eu disse para você, eu não me importo com dinheiro. Tenho um pagamento mais... específico em mente.
O garoto caminhou pelo salão, chegando enfim até o último banco, logo a frente dos três tronos. Ele se sentou sem sequer pensar sobre, como se estivesse se sentando em uma poltrona na frente da lareira da própria casa.
—Que ótimo, é bom ouvir isso. Suas habilidades serão sem duvida de grande ajuda. Mas quanto a esse "pagamento". Imagino que gostaria de discutir isso conosco... hoje.
—Ah, sim, mas é claro... é pra isso que estou aqui.
Ele esticou os braços sobre o encosto do banco de madeira, olhando para o teto, após isso, ele olhou para frente e disse apenas uma palavra:
—Corpos.
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