Capítulo 25: O fogo desvanece
"Ei, por que você não desiste? Você sabe que não serve para isso. Não há motivo para continuar tentando."
"É impossível você conseguir chegar lá. Quem você acha que é?"
"É idiota de pensar que pode estar sentado na mesma mesa que aquelas pessoas."
Esses pensamentos, frases frias e cruéis, eram partes do obscuro passado do homem chamado Ivan.
Após ter sido acertado por Zelgle no estômago, ele praticamente desmaiou, a pancada poderosa fez com que ele fosse arremessado a mais de dez metros. Na queda, bateu diversas vezes contra o chão, não sentia nenhuma das pernas, uma delas, inclusive, tinha a articulação dobrada ao contrário, a espada congelante havia sumido, e a mão que a segurava tinha os dedos torcidos, sangue escorria de seu couro cabeludo para o rosto, entrando na boca e cobrindo os olhos. O impacto que havia recebido diretamente pelo braço congelado de Zelgle lhe custara algumas costelas, e conseguia sentir que algo havia se rompido em seu estômago.
"Viu, eu te disse que era demais pra você."
É o que diriam, mas ele não queria ouvir aquilo, tudo que ele queria era matar todos e todas que um dia ousaram duvidar dele. Mas no momento, parecia que aquilo não se concretizaria. Tentou se levantar, mas a perna bizarramente retorcida não permitiu. Se encontrava basicamente, no mesmo estado que Zelgle no momento que o atingira com aquelas lanças. Caiu de joelhos, e bateu o queixo, quase desmaiando de vez.
"Merda, se eu pelo menos conseguisse usar aquilo..."
Colocou a mão por de baixo da armadura leve que estava usando, ela fora inútil contra o ataque de Zelgle, mas servira bem contra a explosão de antes. Procurou por algo no seu bolso, tentou tirar algo, mas antes que pudesse terminar, Zelgle já estava ante ele.
Fitou o gigante de baixo, forçando a visão embaçada a focar naquela abominação com as roupas sangrentas.
—Acabou. Você morre aqui.
—Seu... filho da...
Na tentativa de proferir xingamentos ao gigante, acabou tossindo sangue. Seu estado com certeza não era dos melhores.
Denerin que abserva a cena de longe, sentado no chão após ter caído quando aquele caminho de estacas começou a surgir em sua direção. Myne segurava seu ombro, ajudando-o a se equilibrar. Escutou um gemido em suas costas. Olhou para conferir. Era Arlen, ela estava com os olhos abertos, suava por conta da dor. Enquanto dormia, Denerin havia feito os primeiros socorros. Seu estado ainda era crítico, mas ela sobreviveria. O problema era Kiere, a pobre já havia perdido muito sangue enquanto a luta ocorria, e com certeza sofrido muito também, já que aquelas estacas permaneciam lá, perfurando suas pernas. Ela havia esquecido da dor por um tempo, por conta da tensão, mas agora ela voltara com força total.
Denerin se aproveitou que Zelgle havia derrotado aquele maldito e correu até a garota junto a Myne.
—Espere um momento, eu vou te soltar!
Não houve resposta, a garota parecia completamente avulsa ao mundo, como se sua mente estivesse em outro lugar, ou talvez ela só não conseguia falar. Denerin se abaixou, era óbvio que simplesmente cortar as cordas acabaria na garota caindo sobre o gelo e sendo empalada. Então preferiu arrancar as estacas primeiro.
—Você vai ter que aguentar...
Disse, enquanto ele começou a puxar vagarosamente os espigões de gelo das pernas da garota. O primeiro, que só tinha a ponta cravada na carne de Kiere, saiu razoavelmente fácil, não deixando de ser doloroso, claro. O segundo já não foi a mesma coisa, esse mesmo estava atravessado em sua perna direita. Denerin ia puxando lentamente, até que ele não se moveu mais, e Kiere soltou um gemido de dor agonizante.
—Me desculpe!
Denerin rapidamente tirou as mãos da estaca. Estava claro que aquilo seria mais difícil que pensou, e para deixar tudo ainda mais maravilhoso a garota estava perdendo sangue. Ele tirou mais um frasco com aquele fluido vermelho. Abriu o frasco e entregou para Myne.
—Ajude ela a beber, por favor...
A garotinha ficou confusa por um breve momento, mas logo olhou para a meio humana, e se esticou para colocar a frasco na boca de Kiere. Pelo menos ela estava acordada, pensou Denerin. Após terminar de beber o líquido, ela fez uma careta estranha.
—Isso é horrível...
Grasnou ela.
—Eu sei... mas vai ajudá-la a aguentar a dor, e parar o sangramento mais rápido.
E então Denerin puxou o gelo com força, e ele saiu, pingando sangue sobre a terra. Kiere começou a respirar aceleradamente, após ter feito aquele esforço para aguentar a dor. Denerin retirou mais duas estacas antes do verdadeiro pesadelo começar: uma das estacas estava enterrada por dentro da perna da garota, e seria óbvio que para tirar aquilo ia doer mais do que um pouco.
Ele começou a puxar, e em seguida Kiere grunhiu alto, a dor era simplesmente estonteante, fazendo-a quase desmaiar. Quando ele arrancou a estaca por completo, uma sensação estranha surgiu no peito de Kiere, uma sensação que misturava alívio e inquietude. Queria muito matar aquele cara, queria mesmo. Não só ele, como todos aqueles mercenários desgraçados de antes, mas como sempre dizem, foque no agora. Contornando a árvore, Denerin cortou as cordas que amarravam Kiere com a espada velha que havia pego daquele mercenário. A garota caiu bamba no chão. A cabeça latejava, as pernas pesavam toneladas, a coluna parecia que iria ruir, mas apesar da dor, só conseguia pensar em uma coisa: vingança.
Os olhos brilhavam como um tigre que espreitava para atacar sua presa, um tigre semi aleijado, na verdade. Ela tentou andar, mas acabou desistindo por conta da dor que tomara seu corpo inteiro. Por estar completamente incapacitada, ela deixou este trabalho para Zelgle, que estava diante de Ivan.
O homem tentou tirar algo do bolso, mas foi impedido por Zelgle quando o gigante pisou sobre seu braço.
—Argh...
Grunhiu, e então tirou as mãos do bolso.
—Não vou deixar você tentar mais nada.
—Você não pode me matar, você é lixo! Nunca vai consegui-
Antes que pudesse terminar, Zelgle o chutou, arremessando ainda mais longe e fazendo-o bater em uma árvore com o tronco recoberto de gelo. As costas estralaram, sentia que não tinha mais a espinha no lugar para sustentar seu corpo. Não conseguia erguer a cabeça.
Zelgle estava vindo em sua direção. Colocou a mão restante sobre o que sobrara do braço congelado, apertou até que a crosta de gelo se quebrasse, para que então, seu braço fosse reconstruído pelas chamas negras.
Chegou até Ivan, o homem estava encostado no tronco de uma árvore, parecia estranhamente distante e tonto. Esse era um efeito do líquido que havia no frasco que Denerin arremessou nele, veneno.
Zelgle se abaixou e segurou o homem pelo pescoço e o levantou na altura da sua cabeça. Olhando para um espeto de gelo atrás do homem, uma ótima idéia surgiu na cabeça de Zelgle: atravessou Ivan na estaca de gelo. O homem gritou quando o espinho de gelo rasgou através de seu corpo, esmagando ossos, rasgando a carne, perfurando seus órgãos, tudo isso, com uma vazia sensação congelante.
—Seu... mal-
Tentou dizer algo, mas não conseguiu, provavelmente seus pulmões também foram atravessados. Colocou as mãos sobre a estaca, tentando soltar-se de alguma maneira, mas estava sem forças, e umas das mãos estava extremamente dolorida por conta dos dedos quebrados.
Zelgle se afastou, observando enquanto o homem morria, devagar.
Ele tentou alcançar Zelgle com a mão destruída, mas não teve sucesso.
Kiere que vislumbrava a cena de longe tinha uma expressão de satisfação total. Era quase como se ela estivesse sentindo prazer ao assistir aquilo. Arlen havia perdido a consciência novamente a algum tempo, portanto não vira nada, nem da luta, nem daquela cena grotesca. Denerin estava abraçado a Myne, impedindo a visão da garotinha, mas ele observava a cena com um embrulho no estômago. Não bastara o que tinha visto antes, agora, tinha que aguentar mais uma morte horrível logo à sua frente, mas tinha mais alguma coisa o incomodando naquilo... por algum motivo, ele estava achando aquilo correto. Não sabia o que estava sentindo ao certo, mas sabia com toda certeza que algo dentro de sí havia se perdido. Sabia que, alguma coisa importante em sua alma fora deixado de lado naquele dia, e agora, tudo o que sobrara eram brazas quase inacesas de uma chama que antes queimava com fervor. Este fogo estava morrendo, desvanecendo enquanto Denerin observava aquele homem se apagar junto a esse sentimento após ter sido sentenciado a morte por Zelgle.
Ivan finalmente morreu, seu braço caiu, ficando suspenso no ar feito um pêndulo de relógio, nisso, algo caiu de seu bolso. Zelgle observou o objeto azulado rolando pelo chão, até se abaixar para pegá-lo. Era algo parecido com um fragmento de cristal. Balançou o objeto como se tentasse tirar a última gota de água de uma garrafa, mas nada saiu.
"Pra que diabos serve isso?"
Desistiu de especular para que servia aquilo e simplesmente guardou no bolso. Olhou para o corpo de Ivan, empalado pelo próprio gelo. Teve o fim que merecia. Agora, só faltava ajudar Kiere e os outros.
A meio humana fitou o gigante vindo em sua direção, os olhos escuros representavam o que havia passado naquele meio tempo. Se aproximou dela, e abaixou-se. Ajoelhando-se ante ela, fitando seus olhos diretamente.
—Você... está bem?
Ela o encarou com um olhar extremamente raivoso, como se quisesse morder seu pescoço.
—Eu pareço bem pra você, seu idiota?
E então ela tentou se levantar, mas caiu sobre Zelgle, levando-o ao chão também. Ela abraçou ele, e começou a chorar. Mais uma vez, tudo que Zelgle pôde fazer foi desejar poder compartilhar a dor que a garota sentia enquanto tinha aquele vazio em seu coração. Abraçou ela também, quase cobrindo seu corpo completamente.
—Me desculpe... se eu tivesse...
—Quieto porra... não quero ouvir... fique quieto por favor...
Ela apoiou a cabeça no ombro de Zelgle, deixando as lágrimas escorrerem sobre a pele esbranquiçada do gigante.
—Kiere, eu...
—Só mais um pouco...
—O que?
—Vamos ficar assim só mais um pouco, por favor...
—Tu-tudo bem.
Denerin observava a cena com um grande alívio nos olhos, junto a pena. Pena da garota por ter passado por aquilo. Mas voltou seus olhos a Arlen, a mulher ainda estava desacordada.
"Espero que você não seja pesada..."
Depois de pensar isso, ele colocou a garota sobre suas costas. Para sua sorte, ela era incrivelmente leve para seu tamanho, isso era uma consequência de sua metade élfica.
Após isso, Denerin começou a andar na direção da cidade. Myne agarrou novamente a barra de seu gibão, apontando para Zelgle e Kiere caídos na grama a alguns metros.
—Deixe os dois. Eles vão vir mais tarde.
Zelgle estava olhando a companheira caída em cima de sí.
"Que situação romântica, não?"
Não conseguia pensar dessa maneira, no fim das contas. Não apenas por não sentir, mas também pela situação da garota.
—Kiere, suas feridas... não deveríamos ir também?
Ela não respondeu. Zelgle virou seu rosto para encarar Kiere, ela estava dormindo. Todo o cansaço causado pela dor, pelo medo, pelo desespero, pela solidão... aparentemente havia recaído sobre os ombros da garota de uma só vez. Zelgle levantou-se, segurando a companheira nos braços, e então, começou a caminhar.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top