Capítulo 19: Estamos indo

Já haviam se passado uns quinze minutos desde a fuga de Kiere. Borg estava andando apressadamente entre os guetos, com medo de ser visto por algum de seus ex-companheiros, agora, estava sozinho. Precisava muito fugir de Nirrat, mas tudo que tinha no momento eram algumas moedas de prata e sua espada velha. Não poderia fazer muito com aquilo, definitivamente não, necessitava de algo mais, muito mais. Talvez precisasse roubar algumas pessoas antes de partir, afinal, é assim que as coisas são.

Andava com cautela, sempre prestando atenção aos rostos que via, que por sorte não eram muitos, quase nenhum na verdade. As ruas e os becos estavam extremamente vazios, aquilo era bem incomum, não havia quase nem bebados ou mendigos jogados entre as incontáveis pilhas de lixo nas laterais dos caminhos. Aquilo era estranho, mas não importava, continuou andando. De repente, escutou um desajeitado barulho de passos, e então, um grito:

-É por aqui!

Alguém estava vindo, ele não parou, continuou andando, até sair para a próximo beco.

Eram três pessoas, três vítimas, pensou, dando um passo adiante. Olhou os de cima a baixo: um garoto jovem, desarmado, uma mulher loira e alta, com uma capa pendendo atrás das costas, percebeu que suas orelhas eram ligeiramente pontudas, mas era tão bonita que aquilo não importava, em uma situação diferente, se a tivesse encontrado sozinha, poderia se divertir um bocado com ela, mas agora... então seus olhos pousaram vagarosamente na última das três figuras, um homem alto, muito alto, com a pele num tom esbranquiçado e os olhos quase fechados, como se as pálpebras fossem pesadas demais para mantê-los abertos, o desgraçado parecia um cadáver fresco, mas o que mais lhe intrigou foi o tamanho da arma que ele estava portando, chegava a ser desproporcional ao seu tamanho, além disso, seria totalmente ineficiente em batalha, um homem grande com uma arma grande? Lento. Sabia disso pela sua experiência como mercenário, não precisava temer.

-Vocês tr-

-É ele!

"Que?"

O garoto o interrompeu, deixando-o completamente confuso.

-Foi ele! É esse cara!

-O-o que foi? O que vocês querem?

Por um momento, ficou tão confuso a ponto de desistir de roubar os três. Apontou a espada na direção deles, como se fosse ele se defendendo de um assalto. Nenhum deles pareceu intimidado, até o garoto estava o encarando com um olhar irritado.

Então o grandalhão avançou sobre ele, rapidamente entrou em uma postura defensiva. Não interessa a força do golpe se ele não acertar, só precisava se esquivar, foi o que pensou. Ele estava chegando, mais um passo e... Borg avançou sobre o gigante com um golpe vertical, isso deve resolver, imaginou, mais foi surpreendido quando um choque percorreu seu corpo, após ter sido acertado por um pancada tão violenta na barriga, que o tirou do chão e o arremessou contra uma parede, uns três metros para trás, seria mais, se a parede de reboco não estivesse lá. Deslizou por ela lentamente, sentindo um vazio no estômago e depois uma queimação, não conseguia respirar, e então caiu sobre uma poça de água que estava logo abaixo, ficou sentado junto a parede com as pernas e braços abertos, a espada caiu longe, nem sabia aonde.

-Bater primeiro, perguntar depois. Sua amiguinha ia adorar ver isso.

Disse Arlen, parecendo realmente surpresa.

-Ele não foi muito amistoso, então não nos deixa muitas margens para dúvidas sobre sua identidade.

Respondeu Zelgle, colocando o pomo do machado no chão.

-É... eu concordo.

Arlen balançou a cabeça repetidamente com os olhos fixos sobre o chão, já Denerin estava tão confuso que parecia uma estátua, parado em uma posição constrangedora.

-E então, como vai ser?

Disse Zelgle se virando para o homem caído. Ele não respondeu, talvez não tivesse forças para fazê-lo.

-Onde está Kiere?

Zelgle se abaixou na altura da cabeça do homem antes de falar, o machado se inclinou para cima de sua cabeça.

-Aonde seu lixo?

Tentou usar um tom de voz rispido, mas tudo que conseguiu foi um sussuro abafado. Um sorriso se abriu na boca do homem, e de repente, ele começou a rir, uma risada embebida de agonia.

-O que é engraçado?

Borg finalmente havia percebido que aquele era o companheiro da meio humana, que eles tiveram de evitar durante sua captura.

-Vá à merda garoto, você e aquela meio humana, vão à merda!

Então era ele mesmo. Zelgle levantou-se e colocou o pomo do machado em cima da mão do homem, fazendo pressão para causar lhe alguma dor.

-Ha, vai ter que tentar melhor que isso se quiser tirar algo de mim, seu merdinha.

-Responda de um vez!

Gritou Arlen, mas o homem não pareceu dar a mínima, apenas a encarou sorrindo.

-Ham... Como se eu soubesse onde diabos aquele homem a levou, agora, da pra cai-

Antes que ele terminasse de falar, Zelgle pressionou sua mão contra o chão com tanta força usando o machado, que foi possível ouvir seus ossos ruindo junto ao chão abaixo.
Ele gritou enquanto a mão era esmagada contra o solo. Então, Zelgle forçou ainda mais, enterrando a mão do homem na lama, seu braço veio junto, ele debruçou-se sobre o cabo do machado num guincho de dor aterrorizante.

-Eu vou lhe dar mais uma chance amigo... você citou um homem, quem era ele?

-Eu não sei!

Grasnou com lágrimas nos olhos, desistindo de parecer durão.

-Você disse que eu ia precisar me esforçar mais pra tirar alguma coisa de você, saiba que eu ainda posso me esforçar mais, muito mais. E então, quem era ele? Para onde ele levou Kiere?

-Eu já disse porra! Eu não sei!

Ele falava cada vez mais alto, conforme a distância entre ele e Zelgle ia aumentando enquanto ele era engolido pela água e barro.

-Muito bem. Você é um mercenário vendedor de escravos não?

Por um segundo, houve silêncio, mas logo a seguir venho mais um berro de dor.

-Responda a pergunta.

-S-s-sim... eu sou! Era! Eu era!

-Ah sim, você era. E a quanto tempo exatamente você está fora desse... ramo?

-Não posso continuar com isso, não aqui...

Zelgle inclinou a cabeça, como se duvidasse de algo.

-Como assim "não aqui"?

-Eu fiz algo estúpido! Se eu continuar nessa cidade, serei caçado pelo líder do bando!

"Bando?"

-Entendo. Então existem mais de vocês.

Zelgle encarou a parede por um momento, pensativo.

-Entendo, agora, esse homem que você citou ai, ele não fazia parte dessa bando?

-Não! Eu nunca tinha visto aquele cara na vida, entendeu?

O homem gritou, parecia bem sincero apesar de tudo.

-Bem, isso dificulta as coisas um pouco. Mas agora, você vai me levar até o esconderijo dos seus companheiros, entendeu? Tenho algo pra discutir com eles.

-Eu... eu não posso, eu não vou!

Balbuciou Borg de maneira chorosa, seria de dar pena se ele não fosse um grande desgraçado.

-Não pode é? Então vamos fazer o seguinte...

Zelgle olhou para o seu machado, com seus ornamentos dourados escurecidos por conta do desgaste, sua lâmina de aparência maligna, com lascas, rachaduras e dentes pela extensão do fio com pequenas manchas de sangue.

-Com esse cara aqui, eu vou cortar suas mãos e pés, e depois, vou cortar seus braços e pernas em rodelas e cauterizar o ferimento, a cada três centímetros. Vou fazer isso até só sobrar o seu tronco, entendeu? Como você acha que vai viver depois? Um grande pedaço de merda sem braços e pernas, é isso que você quer?

Arlen e Denerin pareciam chocados, não tanto quanto Borg claro, que no mínimo deveria ter se borrado. Zelgle havia dito aquilo sem qualquer ênfase, sem qualquer força na voz, uma tonalidade fraca, que você usaria para comprar alguns legumes, mas não importava, mesmo com seu tom de voz, ele parecia determinado à fazê-lo, apesar de seu olhar vazio, era possível dizer que ele não hesitaria nem por um segundo antes de fazer aquilo. O estômago de Borg se revirou, sentiu uma ânsia de vomito repentina. Parecia ter chegado no inferno, seria aquele cara um... demônio? Não estranharia se a resposta fosse sim.

-Então, o que acha da minha proposta? Você nos leva até lá, e se poupa disso, ou você prefere sofrer? A decisão é só sua.

Já teve que fazer uma escolha parecida no mesmo dia, pensou ter sido o bastante.

-T-tudo bem... eu levo você até lá...

-Ótimo. Muito bom.

Zelgle virou-se para encarar Arlen, que parecia estar surpresa com sua atitude até um momento atrás.

-Arlen, voc-

-Já sei, já sei...

Ela interrompeu Zelgle, parecendo extremamente incomodada com algo.

"Cauterizar? Como ele faria isso, exatamente?"

Pensou ela, por acaso Zelgle carregava uma pederneira ou algo assim? Ou talvez ele roubaria alguma das tochas nos estandes luminosos distribuídos pela cidade? Não fazia a mínima idéia.

-Você quer que eu procure pela sua companheira, certo?

-Por favor.

-Muito bem. Mas antes, pegue isso por favor.

Ela tirou algo de um dos bolsos de sua túnica que estava por de baixo da manto. Estendendo a mão ela entregou o item para Zelgle. O item brilhava em dourado, mas Zelgle só pôde vê-lo quando abriu a mão, era um anel com uma pequena pedra vermelha encrustrada nele. Zelgle percebeu que Arlen também usava um daqueles.

—O que é isso?

Perguntou confuso.

"Não sei se seria um bom marido..."

—Esse é um anel do elo das chamas. Eles podem ser ligados uns aos outros quando as pedras se tocam. Quanto mais perto um do outro, maior seu brilho. É muito útil para você localizar seus companheiros, maioria dos aventureiros acima do rank ouro tem um desse, para nunca se perder de seus companheiros durante as missões. Se você e sua companheira tivessem prestado mais atenção a esse tipo de detalhe, grandão, nada disso estaria acontecendo.

Zelgle não respondeu, sabia que lhe faltava muita experiência, mas não podia negar que em partes, o que aconteceu a Kiere era em parte sua culpa por ter arrastado ela para isso, embora não conseguisse se sentir culpado nem desanimado. Talvez quisesse.

—Bem, não adianta pensar nisso agora, apenas vamos em frente.

Ela estendeu sua mão direita para Zelgle, com o punho fechado, deixando a pedra do anel a mostra.
Logo Zelgle fez o mesmo, após ter colocado o anel. As pedras se encostaram, e brilharam num vermelho forte, e após isso, se apagaram.

—Agora eles estão ligados, quando você terminar de cuidar desses malditos, venha me encontrar.

Disse ela, enquanto observava Zelgle assentir com a cabeça. Ela então se virou e saiu andando.

Zelgle então virou-se para Denerin, finalmente, não havia esquecido do garoto.

-Voc- Denerin, não é? Eu não sei como te agradecer sinceramente.

Denerin encarou Zelgle por um momento, seus olhos eram grandes, mas estavam semi cerrados, sua íris tinha uma cor bem incomum, púrpura, nunca havia visto algo assim na vida. Por um momento, tentou esconder a ansiedade, mas logo, virou a cara para outro canto, como se encarar Zelgle fosse a coisa mais difícil que já tivesse feito na vida. Por algum motivo, sentia-se sendo puxado por aquele olhar, como um abismo enorme, um abismo inescapável, era aterrorizante.

-Eu realmente te agradeço, por isso se você precisar de algo, você pode falar comigo, farei tudo que puder para te ajudar.

-Está tudo bem... fiz aquilo porque achei que era certo. Não precisa se preocupar.

Apesar de querer parecer uma boa pessoa, Denerin estava com tantos problemas que quase deixou escapar uma exigência ou outra, mas deixou passar.

-Não, eu terei certeza de recompensar você por isso, mas infelizmente, parece que não temos tempo pra isso agora.

Zelgle virou-se para Borg novamente, encarando o homem caido de cima.

-No momento eu tenho que lidar com esses malditos. Será perigoso, então você poderia esperar até eu voltar?

-Eu recuso.

"O que?"

Zelgle encarou Denerin por cima do ombro, sem virar o corpo, apenas o pescoço.

-Essas pessoas estão fazendo coisas ruins não é? Por esse motivo, eu vou oferecer toda a ajuda que eu puder, por mais pequena e insignificante que ela seja.

-Mesmo? Bom, eu não posso te impedir, então apenas faça o que quiser.

Denerin parecia extremamente determinado, e Zelgle sabia disso, apesar de não conseguir compactuar de seus sentimentos.

-Mas antes...

Zelgle se afastou um pouco e se abaixou, pegando alguma coisa do chão, e então, a arremessando para Denerin.

-Vai precisar disso.

Tudo que Denerin pode ver foi um brilho prateado vindo em sua direção, conseguiu segurar o que quer que fosse com ambas as mãos. Enfim, percebeu que era a espada que o mercenário estava empunhando anteriormente.

"Que tipo de idiota joga uma espada sem bainha para outra pessoa?"

Ele olhou para Zelgle novamente, que estava diante do mercenário mais uma vez.

-Nós... estamos indo.

Borg estremeceu sobre essas palavras. Os olhos de Zelgle, sem vida, fitando-o de cima, como se pudesse ver além de seu corpo, diretamente em sua alma. Além disso, ainda iria diretamente para a base de seus ex-companheiros, que no mínimo deveriam estar caçando sua cabeça nesse momento. Era uma desgraça, uma desgraça completa, se esse idiota for lá apenas para ser morto, levando ele junto, o que poderia acontecer com ele depois? Nada de bom, ele sabia disso, e isso fazia ele tremer de medo.

"Merda..."

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