Capítulo 18: Diversão
—Por que todos me tratam assim?
Se perguntava Denerin enquanto andava entre os apertados becos de Nirrat.
"Droga... eu sei que sou fraco, sei que sou inútil, mas eu me esforço, tá bom? Eu faço de tudo! Então por que?"
—Por que?
Ele deu um berro de repente, chutando uma pedra que estava no caminho. Esperou a pedra cair, observando sua trajetória no ar, até bater contra o solo.
—Merda...
Continuou andando, vagarosamente, com uma expressão de desanimo no rosto.
"Eu comecei como aventureiro ontem e já estou com problemas... primeiro aquele grupo de imbecís, depois, minha espada..."
Olhou para a cintura, onde antemão deveria ficar sua arma, mas não tinha nada lá. Sua espada quebrou em uma das missões, e não tinha dinheiro para cobrir o custo de outra. Não sabia o que fazer. Apenas continuou andando, sem rumo.
Virou a esquerda, depois a direita, e a esquerda de volta. Logo se perderia, mas não estava se importando, não queria saber de mais nada, afinal, o que mais tinha a perder além de sí mesmo?
Chegou até um local mais amplo, até que escutou um barulho alto vindo em sua direção, optou por não se mostrar e ficou onde estava, na esquina do beco para o próximo.
"O que é isso?"
Colocou a cabeça por trás da parede, se escondendo, não sabia do que, mas sentiu que devia fazê-lo.
E então, viu uma garota passar correndo numa velocidade absurda. Observou por mais um tempo, até que finalmente percebeu algo:
"Essa não é a meio humana que estava no teste de admissão?"
Logo atrás da garota, vinha um homem, correndo bem mais lentamente, com uma espada em punhos.
—Volte aqui sua maldita!
Bradou ele, entre outras coisas que dizia para tentar fazer a garota parar.
—Merda... não posso deixá-la fugir... não posso! O Marben vai me matar!
Ele parou por um tempo, ofegante, apoiando as mãos nos joelhos.
Denerin estava tentado a atacar o homem de surpresa, mesmo que não fizesse a mínima ideia do que estava acontecendo, e se ela tivesse feito algo ruim? Não se importou muito com isso, pois viu que ela estava muito ferida, além disso, aquele homem não cheirava a coisa boa. Levou a mão vagarosamente até a sua espada... que espada? Desistiu da ideia ao relembrar que estava desarmado, não teria chance de vencer contra alguém armado.
—Merda...
Sussurrou, enquanto dava passos lentos para trás, decidiu que era melhor recuar. Até que pisou em algo que produziu um estalinho, o que chamou a atenção do homem.
Ele olhou em direção ao beco em que estava Denerin. O garoto rapidamente se esgueirou entre as sombras do lugar estreito, evitando ser visto pelo sujeito.
"Tenho que avisar alguém..."
Pensou enquanto saia do lugar abaixado, em passos lentos para não fazer barulho. O homem estava olhando atentamente em direção ao escuro, mas não notou sua presença, e rapidamente voltou a correr atrás da meio humana.
Denerin começou a correr quando chegou em um lugar mais afastado, indo em direção à guilda dos aventureiros
***
Já fazia alguns minutos que Arlen e Zelgle estavam caminhando, mas não encontraram um sinal sequer de Kiere. Perguntavam para as pessoas se haviam visto alguém com as características da meio humana, mas era inútil, nenhuma pessoa ali a conhecia.
—Estou começando a achar que a sua brincadeira de antes realmente é uma opção...
Falou Zelgle, fitando Arlen por cima do ombro. Ela era muito alta, mas ainda assim, Zelgle era mais.
—Esquece isso... ela não teria ido pedir ajuda tão desesperadamente na guilda se não gostasse de você, pelo menos um pouco.
Arlen sequer olhava na direção de Zelgle enquanto falava.
—Como pode ter tanta certeza?
—Não é óbvio? Aquela garota deve ter vivido a vida inteira sozinha como eu... consigo reconhecer pessoas assim facilmente.
Zelgle permaneceu em silêncio por um tempo, então Arlen continuou falando.
—Mas diferente de mim, que me acostumei a não confiar em ninguém, ela aparenta desenvolver laços rapidamente com as pessoas.
—O que quer dizer?
Arlen virou os olhos na direção de Zelgle, a expressão séria em seu rosto não deixava muito espaço para se adivinhar o que ela estava pensando.
—Bem, quando você está sozinho, normalmente você se acostuma. Mas nem sempre, algumas pessoas não conseguem lidar com a solidão, por isso, elas tentam transformar qualquer um em uma pessoa próxima.
—Você acha que Kiere pode ser assim?
—De alguma forma, sim. Não sei, a conheço a pouco tempo, você é quem devia saber disso, grandão.
—Eu?
—Sim, você. Conhece ela a mais tempo que eu, obviamente.
—Na verdade, nos conhecemos ontem.
Arlen encarou Zelgle com uma expressão de peixe morto de repente.
—Ah, sei... ainda bem que você esclareceu as coisas... porque, bem, eu imaginei que vocês fossem um casal.
Ela colocou a mão na boca, limpando a garganta de forma seca.
—Não, isso não seria possível...
"Espera ai... era a isso que ela estava se referindo com aquele comentário de antes? Foi um pouco... maldoso."
—Bem... de qualquer forma, eu esperava que vocês se conhececem a muito mais tempo.
Antes que qualquer um dos dois pudesse acrescentar qualquer coisa, um garoto venho correndo na direção deles. Ele se aproximou rapidamente, deixando apenas uma distância de uns dois metros entre eles. Parou, respirando com dificuldade, com as mãos apoiadas nos joelhos.
Zelgle inclinou a cabeça, surpreso.
—Você não é-
Antes que pudesse terminar, o garoto o interrompeu.
—Que bom que encontrei vocês...
Ele estava pingando suor, e parecia exaurido, o quanto ele tinha corrido?
—Principalmente você...
Ele levantou a cabeça e apontou para Zelgle usando o dedo indicador da mão direita.
—É sua companheira... ela...
Arlen arregalou os olhos, surpresa, já Zelgle, permanecia inexpressivo.
—O que tem Kiere?
Perguntou Zelgle, num tom sem qualquer ênfase.
—Tinha um cara... perseguindo ela...
—O que? Quem?
—Eu não sei... mas ele estava armado.
—Mercenários... devem estar caçando escravos.
Disse Arlen, chamando a atenção dos dois.
—Kiere é uma meio humana, e o comércio escravo de meio humanos é muito lucrativo. Estes lixos...
Pela primeira vez, Arlen demonstrou uma expressão diferente, uma expressão raivosa, o ódio transbordando no olhar.
Já Zelgle, se voltou para o garoto que ainda parecia surpreso com a conclusão rápida da garota.
—Você, qual seu nome?
Ele olhou para cima para encarar o gigante com o machado, já havia o visto antes, no teste de admissão, mas de perto, ele era ainda mais sinistro. Aparentava ter uns vinte e cinco anos, mas não dava pra saber ao certo. Mas com certeza ele era assustador, principalmente pelo machado enorme que carregava.
—Eu... sou- meu nome é Denerin.
—Certo, você pode me fazer um favor?
—C-claro...
—Nos leve até onde você viu isso acontecer, por favor.
—Certo.
O garoto assentiu com a cabeça rapidamente.
—Venham, é por aqui!
Disse e rapidamente disparou na frente com Arlen e Zelgle logo atrás.
***
Borg continou correndo atrás da meio humana, até que chegou em uma larga avenida, e a viu estirada no chão.
—Sua meio humana desgraçada! Sabe o trabalho que você me deu? Você vai ver só, eu vou piorar o seu castigo em dez vezes!
Bradou ele, irado com a espada em mãos. Ele continuou andando na direção da garota, até perceber que alguém estava parado ao seu lado.
Olhou o sujeito de cima a baixo.
"Quem é esse ai?"
—Você...
Disse Borg enquanto ia na direção da figura.
—Foi você que fez isso?
—Sim.
Respondeu ele, com um sorriso sádico no rosto.
—Essa merdinha me fez passar raiva outro dia, estou descontando.
—Parece que temos o mesmo problema então.
—Ha, é mesmo? Bem, eu não acabei ainda, então espere sua vez.
—Acho que não vai ser possível, amigão... tenho que levá-la de volta.
A feição sorridente no rosto do homem se desfez num estante.
—Olha, eu sinto muito, muito mesmo, mas infelizmente pra você, quem vai levá-la sou eu.
—O quê? Tá brincando comigo?
Borg levantou a espada na altura da garganta do homem.
—Se você quer ela, é muito simples: é só oferecer um valor maior que a família Valenka para o meu chefe.
—Ah, é mesmo? Bem, é uma pena então... pra você, é claro. Já que eu não estou pedindo, e muito menos negociando aqui.
De repente, Borg sentiu uma sensação gélida tramitar por todo seu corpo, um calafrio percorreu sua espinha. Aquele homem tinha feito alguma coisa?
"O que é isso?"
Sentiu uma onda fria vindo da direção do homem, e percebeu que a ponta da sua espada havia ficado brilhante, não só sua espada, mas a sua mão, perto do cabo também. Não conseguiu mais abrir a mão, era como se seus dedos tivessem sido soldados.
"Mas que merda?"
Tanto na espada quanto em seu braço, um fina crosta transparente estava se formando. Gelo.
—O que é isso? O que você fez?
Ele balançou o braço, mas sentiu uma dor lancinante ao fazê-lo, tinha sido enregelado de dentro para fora?
—Ah, não se preocupe quanto a isso, é completamente reversível, pelo menos se você me deixar com a meio humana aqui.
Ele apontou para Kiere caída no chão.
—Cara, você não tá entendendo, se eu não levá-la de volta, eu vou ser morto!
—Só isso? Eu posso providenciar isso agora mesmo se for o caso, da forma mais dolorosa que você pode imaginar.
A crosta fina de gelo no braço de Borg começou a se estender. Ele berrou, e se deixou cair de joelhos. Segurou o braço congelado com a outra mão. A espada estava presa a sua mão devido ao gelo.
—E então, como vai ser? Qual você acha melhor? Eu ou seu chefe? Você pode decidir pra quem quer morrer.
Borg encarou o vazio por um tempo, pensativo. Mas que bela merda estava acontecendo. Tudo fora por água abaixo agora, não teria como lutar contra o homem misterioso, e nem voltar para as atividades de mercenário, e provavelmente, Marben iria colocar uma recompensa sobre sua cabeça. Porém, não queria morrer, não ali, não daquela forma. Se escapasse, teria no mínimo uma chance de recomeçar, fugir de Nirrat, e talvez, ninguém se lembraria dele e nada de ruim aconteceria depois.
—Tá bom, tá bom...
O sujeito de pé emergiu em uma gargalhada medonha.
—É assim que se diz, campeão. É assim que se diz!
Dizendo isso, o homem ajudou Borg a se levantar, e quando ele ficou de pé, percebeu que seu braço havia voltado ao normal. Mas afinal, o que foi aquilo?
—Agora, cai fora daqui antes que eu mude de ideia.
As estranhas de Boeg se viraram, se seu líder o encontrasse agora, estaria morto de certeza, mas pelo menos, agora estava sozinho, seu irmão havia morrido, era triste, mas pelo menos estava livre e podia fazer o que quisesse, isso, ia fugir de Nirrat.
O destino é algo substancial na vida de uma pessoa, muitas vezes o indivíduo culpa e amaldiçoa o próprio destino, que na maioria das vezes é coberto de azar. Era isso que Kiere sentia, que amaldiçoara o próprio destino. Afinal de contas, ser sequestrado duas vezes no intervalo de algumas horas era uma grande forma de demonstrar que você é azarado.
Estava sendo carregada, não sabia para onde, mas estava. Após ter tropeçado no pé daquele homem alguns minutos atrás, desmaiou. Quando acordou, não tinha mais forças para reagir, ele a amarrou e a estava levando para algum lugar, mas não sabia a onde, estava tudo escuro, algo cobria sua cabeça. Tudo que sentia era uma dor terrível nas costas, e algo escorrendo pelo braço esquerdo, provavelmente sangue de algum dos ferimentos horrível que lhe cobria o corpo. Além disso, podia ouvir os passos apressados da pessoa que a carregava, além de um gotejar rítmico no chão.
De repente, o movimento enjoativo parou, e ela foi jogada em uma superfície dura e contra uma parede mais dura ainda. Sentiu estar sendo amarrada em volta de algo. Alguém lhe tirou o pano que cobria sua cabeça, era o mesmo desgraçado de antes.
—Olha só quem temos aqui... senão é uma gatinha assustada.
Entoou de maneira lúdica um homem alto parado com os braços estendidos na sua frente.
—Você...
Grasnou Kiere com um inútil olhar ameaçador, mas que ameaça ela representaria estando amarrada e desarmada? Talvez essa sua máscara fosse instintiva. Mas rapidamente percebeu que estavam fora da cidade, não muito longe, mas em um campo aberto. Ela estava amarrada ao uma árvore.
—Ah, que maravilha termos um tempo a sós, não é meio humana?
O homem se contorcia de maneira bizarra a cada vez que falava, parecia estar interpretando uma peça teatral.
—Eu lembro bem da maneira que você me olhou no outro dia... aquele olhar esnobe, de quem está a cima de mim... hm... eu realmente odeio quando me olham assim...
Kiere não estava acreditando no que ouvia, ele estava fazendo tudo aquilo por causa de uma... troca de olhares?
—Eu odeio a sensação de estarem me desprezando, odeio! Mais que tudo!
O olhar do homem mudou subitamente, de repente seus olhos brilhavam queimando em ódio, sua boca tinha os lábios retraidos, o punho fechado com força.
—Mas eu vou ensinar uma lição a você... a você e todos os outros! Começando com aquele aventureiro de merda!
Ele se virou, dando as costas para Kiere, um tremendo descuido, porém, a garota estava totalmente imobilizada, não fazia dirença observá-la ou não.
—Mas por enquanto, eu vou me divertir com você, bem aqui...
Kiere engoliu seco nesse momento, havia saído de um pesadelo apenas para ir para outro? Seu olhar ficou vazio novamente.
—Ah, mas não pense em coisas erradas. Eu não estou me referindo a isso, quem teria coragem de estuprar algo como você? Fala sério, você é nojenta, uma garota de rua e ainda por cima... meio humana? Credo, é tão repulsivo que me dá vontade de vomitar...
Voltou-se para Kiere, com um olhar enjoado mo rosto.
—Mas não tem problema, eu tenho outra ideia para nos divertimos, garota.
A expressão do homem se distorceu totalmente, entre satisfação e prazer, além de esboçar um sorriso de orelha a orelha.
—Então... vamos começar!
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