Capítulo 1: Mais uma vez de pé

"Não posso acreditar nisso...
Como posso ser tão patético?
Depois de todo aquele esforço, eu ainda vou morrer desse jeito?
Mer-merda..."

Após esse pensamento, Zelgle acordou assustado, ao seu redor, vários soldados que estavam conversando à algum tempo começaram a rir.

-Ei Zelgle algum problema? Estava sonhando com uma mulher bonita dando em cima de você ou algo assim?

Após dizer isso, o homem se aproximou da cama de Zelgle e colocou o braço em volta de seu pescoço, em um ato supostamente amigável, mas que deixou Zelgle visivelmente desconfortável.

-Talvez ele só esteja com medo do que vai acontecer hoje...

Outro dos soldados que estavam ali começaram a zombar de Zelgle.

-Ah, é verdade, é hoje que você começa de verdade, né...
Vamos ver se não morre no primeiro combate, logo de cara.

-Vamos cara, não assusta ele assim, ele vai acabar fugindo!

-Haha, é verdade... Bem, não se preocupe, os veteranos aqui vão proteger você durante a batalha...

Ele deu um tapa leve nas costas de Zelgle.

-Ha, até parece que você fará algo tão caridoso. Quando a luta esquentar, você vai fugir pra salvar o próprio rabo!

-E qual o problema com isso? Você quer morrer por acaso?

Eles sairam do lugar, enquanto continuavam conversando. Zelgle era o único remanescente no dormitório, todas as outras camas estavam vazias.
Ele logo levantou, colocou o uniforme esfarrapado e foi em direção ao banheiro.

-Cara, que azar...

Disse enquanto se olhava no espelho, seus olhos, apesar de conterem um verde esmeralda, estavam sem vida depois de tudo, seu cabelo alaranjado estava bagunçado por ter acabado de acordar. Ele tinha um pouco de dificuldade de se olhar o espelho, pois era alto o suficiente para quase bater no teto, o que fazia ele ter que se abaixar um pouco.

Mas apesar das aparências, suas habilidades e talentos não tinham nada de especial, tanto que quando o obrigaram a se alistar no exército, foi submetido à patente mais baixa, menor do que a de um soldado comum, tendo equipamentos de aparência e funcionalidade deplorável.

Logo ele saiu do recinto, indo em direção à uma enorme fila, a do café da manhã, que era servido sempre no mesmo horário, e no caso de atrasos, não se poderia comer.

"A fila está enorme, de novo..."

Distraído com os arredores, Zelgle não pôde perceber uma pessoa que estava ao seu lado a algum tempo.

-Ei Zelgle, que tal ser bonzinho e ir para o final da fila enquanto me dá esse lugar?

-Hm... Claro...

Ele não tinha opção, não ia desafiar um alguém sabendo que não ia vencer. Sua fraqueza, além de física, também era espiritual, não tinha coragem para tal.

Finalmente era sua vez, Zelgle recebeu a comida, ou algo que deveria se parecer com comida. Um pão velho, provavelmente de vários dias atrás e um copo com uma bebida que deveria ser café.

Ele procurou um lugar para se sentar, pois todos os bancos estavam ocupados, e mesmo que houvesse algum livre, ele não ousaria se sentar, pois logo seria expulso. Se sentou encostado à uma árvore que ficava medianamente longe do lugar onde estava sendo distribuído o café.

-Será que posso ter um pouco de paz agora? Cacete...

Assim que deu o primeiro gole no café, ele quase vomitou, o que era aquilo afinal? Estava tão rançoso e frio que o gosto era comparável com qualquer remédio ruim que já tinha tomado na vida, e eram muitos.
Já a primeira mordida no pão não era tão desgostante, já que ele parecia apenas uma pedra sem qualquer gosto sem ser o de mofo.
Antes de poder terminar a refeição, pôde avistar no céu um sinal de convocação, e vermelho, a cor que significava ataque inimigo.

-Droga, justo agora?

Ele jogou o pão que estava praticamente inteiro e correu em direção à base no centro do campo de treinamento, assim que chegou, avistou um homem alto, com uma armadura pesada, era o capitão.

-Homens! Os inimigos estão executando um ataque surpresa, não há tempo, devemos proteger a cidade a qualquer custo! Todos devem se armar rapidamente, e os que já estão com as armas em mãos, me sigam!

Os soldados ficaram pálidos ao ouvirem a notícia. A surpresa da ameaça iminente fez com que um pânico desesperador brotasse em suas mentes. Mas eles sabiam... não havia pra onde correr.

Logo, vários soldados foram em direção ao exército inimigo.

Zelgle estava na fila de distribuição de armas, já que ele não tinha a própria.
Assim que era sua vez, lhe foi entregue uma espada de uma mão, de qualidade horrível, mal afiada e cheia de rachaduras. Mas ele não podia reclamar, era o que podia ter, pois ninguém se importaria se ele morresse em batalha, então não poderia exigir muito. Ao chegar no campo de batalha, se deparou com uma enorme carnificina, pessoas mortas em todos os lugares, casas perto da entrada da cidade queimadas, chamas consumindo cadáveres e pessoas moribundas. Um inferno. Sua distração logo teve um preço, quando viu um soldado inimigo pronto para acertá-lo com a espada, não teve tempo nem de erguer a própria arma, apenas de fechar os olhos. Mas o ataque não veio, foi bloqueado por um escudo.

-Você!

-Ha Zelgle, eu disse que ia te proteger, não disse?

Logo, um outro soldado minandrense venho e apunhalou o inimigo pelas costas. O homem abriu a lateral do soldado inimigo, as estranhas do homem foram por terra, junto com uma enorme quantidade de sangue.

-Vamos Zelgle, levanta! Não vou poder ficar cuidando de você pra sempre!

"Hmpf... se esse inútil sobreviver até o final da batalha, ele vai poder alegar que eu o ajudei, assim, eu subirei de patente muito mais rapidamente.
Só não posso deixá-lo morrer..."

Após uma hora de confronto, ambos os exércitos se encontravam exaustos.
Até que uma segunda infantaria de Rikiat chegou ao local.

-Não pode ser!

Todos os soldados de Minandre estavam desesperados, e então, quando o ataque começou, eles foram dizimados, Zelgle, vendo toda aquela cena, novamente se destraiu no campo de batalha, e então, foi golpeado pelas costas.  Sentiu a frieza do metal enquanto a espada do adversário rasgava adiante em seu corpo. Ele foi ao chão. As costas ardendendo como se estivessem em chamas. A dor aguda e lancinante subindo a coluna.

"Essa sensação... ela deve ser uma gota do inferno..."

Ele olhou para o horizonte. Ainda estava vivo. Não sabia se o inimigo pretendia deixá-lo vivo por mais alguns segundos para vê-lo sofrer ou se simplesmente pensou que ele já tinha morrido. Só sabia que queria estar morto. Não... ele queria viver.

"Não pode ser... aquele cara... ele vai me salvar de novo... ele va-"

Sua esperança logo foi destruída, quando viu o homem que o havia o ajudado correndo, com uma expressão de terror na face.

"Droga..."

Ele juntou suas últimas forças para se virar. O soldado que havia o golpeado estava se preparando para o finalizar, com um grande sorriso no rosto.

Zelgle segurou o mais firme que pode o cabo da espada, e a troco de nada, tentou bloquear o ataque, porém, a arma não resisiu e se partiu no meio, deixando o caminho livre direto para o corpo de Zelgle. A espada do inimigo se cravou em seu peito, atravessando até suas costas. Ele não sentiu mais nada. Não sabia se estava mais vivo. Seus olhos estavam quase se fechando novamente, até que o soldado puxou a espada de seu corpo. Após alguns segundos, em uma poça de sangue, ele pôde pensar sobre a situação.

"Não posso acreditar nisso...
Como posso ser tão patético?
Depois de todo aquele esforço, eu ainda vou morrer desse jeito?
Que droga... eu queria vê-la, apenas mais uma vez..."

Ele se lembrou da garota por quem era apaixonado.

"Bom... Apesar de tudo morrer não parece tão ruim, é bem tranquilo..."

Ele se encontrava em um campo vazio, tudo que podia ver era o céu, além de sentir a grama balançando com o vento.

Mesmo sabendo que havia morrido, ele estava deitado, tranquilo, sem ninguém para o perturbar.
Quanto tempo fazia que tinha sentido tal sensação de tranquilidade?
Porém, essa sensação se foi de repente, quando sua mente se tornou um vazio, ele conseguia sentir todas as suas emoções se esvaindo.

"O que é isso?"

Quando percebeu, ele estava no meio de um círculo mágico com várias pessoas vestindo capuzes, todos estavam recitando um encantamento em uma língua que ele nem sonhava em conhecer. Mas podia sentir, tudo o que um dia foi, ele não era mais naquele momento.

"Não, por que estão fazendo isso?
Eu não quero voltar, por favor, me deixem morrer! Não! Não!"

-Nãooooo!

E então, uma onda de energia percorreu o lugar, devastando tudo em seu caminho, todas as pessoas que estavam no local sumiram instantaneamente, as paredes do local vinheram abaixo. Tudo havia desmoronado, seja lá o que fosse o lugar em que se encontrava, já não existia mais.

-Mas o que é isso?

Ele estava encarando o próprio corpo, que estava pálido, completamente pálido. Foi quando pôde ver em um estilhaço de vidro do chão, provavelmente de um lustre que havia no local, sua aparência.
A cor de seu cabelo havia mudado, o tom alaranjado deu lugar à um preto ofuscado, e seus olhos mudaram para uma tonalidade púrpura, uma cor vazia, sem qualquer tipo de atributo, assim como era seu espírito no momento. Mas apesar de tudo isso, ele podia sentir um poder enorme transbordando do seu corpo, era como se ele pudesse destruir tudo com um piscar de olhos. Entretanto, ele não sentia essa vontade, ele não tinha qualquer desejo, não tinha qualquer sentimento de raiva, de medo, de angústia, nada.
Ele estava vazio, apenas um pensamento lhe era pertinente:

"Eu quero morrer. Não há motivo para eu estar vivo."

Olhou ao redor, e pôde perceber que havia uma espada de um soldado que devia ter morrido na explosão, a espada estava em pedaços, mas ainda podia ser usada para matar alguém. Ele recolheu a espada do chão, e então mirou em seu próprio peito, e sem hesitação, ele empurrou a lâmina contra a própia carne, e então ele puxou a espada de volta, e a largou. O sangue que saiu do ferimento logo se acumulou em uma pequena poça no chão, ele se sentou, esperando a morte.

-Pronto, agora eu poderei ficar em paz de novo.

Foi então que uma espécie de chama o envolveu, um fogo de coloração púrpura. Não sentiu calor e sua pele não queimou, mas o imenso ferimento se foi, sem deixar rastros, como se nunca tivesse existido.

-O que? Não, não é real...Hahahaha...
Isso não é real...

Ele soltou um suspiro enquanto olhava para o céu, uma gota caiu em sua testa, tinha começado a chover.

-Isso não tem graça destino.

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