Capítulo 3 - A melhor surpresa
Passar o ano novo com a família não estava em meus planos para aquela noite quente de verão. Ainda mais com a ressaca que eu tentava curar. Eu não parava de pensar em Lúcia, mesmo que usasse todas as técnicas possíveis para tirá-la de mim. Ela havia mexido comigo, e o fato de saber que nunca mais nos encontraríamos não ajudou em nada a me livrar daquela sensação incômoda.
− Deixei ir longe demais – murmurei para mim mesmo.
Na noite anterior, fiz questão de ir a uma balada com João, para tentar parar de pensar em Lúcia. Então, tomei o maior porre, o que foi uma péssima ideia, pois, depois do que aconteceu, toda mulher que passava por mim, eu achava que era ela. Até que eu agarrei a namorada de um brutamontes e ele socou o meu olho esquerdo, obrigando-nos a vir embora antes das duas horas da madrugada.
Eu ainda curava da ressaca da noite passada, quando me lembrei de que Lúcia poderia ter pensado que eu era um louco, ou gay, afinal, nem eu sei como consegui parar daquela forma uma transa tão perfeita que teríamos ali no banheiro do aeroporto.
Que loucura!
Mas, eu não poderia transar com ela sem um preservativo. Olívia havia ficado supostamente grávida de mim e o susto que eu tomei me deu uma lição para a vida inteira. Não queria passar por isso novamente. Além do mais, eu não a conheço o suficiente para transarmos sem preservativo. Por mais que eu a desejasse, não poderia ser tão louco a esse ponto.
Droga! Ela devia ter achado que eu a rejeitei.
Idiota! Eu deveria ter explicado melhor.
Precisava pedir desculpas e explicar o que tinha acontecido. Mas, como? Eu não tinha como encontrá-la e aquilo estava me matando.
Foi quando eu me levantei do sofá, tomei um banho demorado e me arrumei para ir a festa de ano novo na casa do meu pai. Vesti meu melhor jeans e a camisa branca que comprei em Nova York, afinal era ano novo. Eu precisava ver pessoas, ou enlouqueceria.
Fechei a porta do apartamento e fui pegar meu carro na garagem.
Em menos de quinze minutos eu entrava na mansão branca do meu pai. Um garçom carregava a bandeja com taças transbordantes de champanhe, e peguei logo uma bem cheia sem pensar na ressaca da noite passada.
− Olá, Thomas.
− Flavia! Como vai?
Ela me cumprimentou com um suave beijo no rosto. Usava um vestido elegante branco e uma maquiagem bem suave. Eu gostava dela, principalmente por fazer do meu pai um novo homem alegre. Desde que se casaram, eu nunca mais deixei de ver o brilho no olho do meu velho e aquilo me deixava muito feliz.
− Estou ótima! Como foi a viagem para Nova York?
− Foi tranquila. Eu precisava ficar um pouco sozinho. Esse ano foi bem difícil para mim.
Flávia ficou quieta e sorriu serenamente.
− Eu espero que o ano que vem seja melhor – ela deu dois tapinhas no meu ombro direito.
− Eu também.
Flávia pigarreou.
− Fique à vontade, Thomas. Seu pai está terminando de se arrumar e já vem.
− Obrigado.
Verifiquei a organização do lugar e fui até a mesa no centro da sala. Fred e Olívia estavam sentados no sofá, absortos em uma conversa com João. Logo notei o bebe dormindo no carrinho. Um sono profundo e suave que não deu para não admirar. Ítalo tinha os cabelos escuros como meu irmão, mas o formato do rosto lembrava Olívia. Uma criança linda!
− Thomas, que bom ver você, cara! Estou vendo que sobreviveu a ressaca. Que balada, hein?
− Oi, João. Fred. Olívia – cumprimentei com austeridade, e eles me disseram apenas "oi".
− E o olho nem ficou roxo – João me analisou como um médico especialista. – Que sorte você teve.
− O quê? Aquele soquinho de merda? Não deu nem pra fazer cosquinha.
− Acho que foi o gelo, Thomas. Não vem dizer que não doeu, pois você até chorou. Agora, não sei se foi por causa do soco, ou da...
− Cala a boca, João.
Olhei para Fred e Olívia. Eles sorriam e minha vontade era socar a cara do João para ele aprender a não falar demais.
− Que isso, Thomas. Não adianta esconder. Você não parou de falar na garota um minuto sequer. Só pode ser paixão, cara!
− Não tem nada de paixão. Eu estava bêbado e delirando.
− Ah! Sei... Delirando de amor – João soltou uma gargalhada bem alta. – Thomas apaixonado, que lindo!
− Me deixa, vai! – disse, bebendo um longo gole do meu champanhe. Ah, se ele não fosse meu amigo já tinha socado a sua cara.
Meu pai juntou-se a nós no centro da sala. Parecia exuberante e mais jovem. Estava muito feliz e aquilo me animou.
− Olá, Thomas. Que bom que veio, meu filho.
− Oi, pai – Eu o abracei.
− O que foi? Parece triste – meu pai perguntou, franzindo a testa. Seu tom era tenso e cauteloso. − Aconteceu algo em Nova York?
− Na verdade, eu acho que estou cansado – minha voz soou fria e rígida. – Talvez seja o fuso horário.
− Ou a ressaca de ontem – João gargalhou de novo. Eu jurava que socaria a cara dele se não tivesse na casa do meu pai.
− Ah! Vocês andaram farreando? Está explicado – meu pai riu.
− Foi só um drink no bar. João está exagerando.
Foi quando a campainha tocou.
− Está esperando mais convidados, pai?
− A família de Olívia vem passar o ano novo com a gente.
A senhora magra entrou primeiro, com o cabelo arrumado em um coque simples e ela usava um colar de pérolas no pescoço que qualquer um sabia que eram falsas. Depois entrou um casal. A moça se parecia muito com Olívia e o rapaz deveria ser seu marido já que usavam alianças iguais no dedo esquerdo. Não sabia até que ponto a família de Olívia sabia da nossa história. Tudo bem que ela e Fred estavam muito felizes juntos, cuidando do meu sobrinho e, talvez, o passado que tivemos juntos não fizesse mais diferença alguma em nossas vidas. Mas, eu precisava de um pouco de ar antes de cumprimentar sua família.
− Com licença.
Porém, antes de eu me virar para sair da sala, não precisei olhar para a porta da entrada. Eu conhecia aquela voz. Alguma certeza interna me disse que Lúcia tinha entrado pela porta principal, eu podia sentir sua presença ali, atrás de mim. Em um piscar de olhos cada molécula de meu corpo entrou em alerta e eu não respirava mais.
Lúcia. Lúcia. Aquela que eu achei que nunca mais veria. Aquela que roubou meu fôlego.
− Boa noite. Desculpem a demora. Olívia, eu não disse que viríamos. Eu nunca perderia uma festa de ano novo com a família de minha irmã...
Irmã? Ela era irmã da Olívia? Ai, meu Deus!
Próximo capítulo : 15 de abril.
Até lá!!
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