Capítulo 14 - Tomando a primeira decisão
Apesar do calor, do cansaço e das dores no corpo eu não me imaginava voltando para casa. O sol forte esquentava o interior do carro quando me dei conta que não havia ligado o ar-condicionado. Sentia, porém que não tinha forças necessárias para decidir nada.
Uma coisa havia sido decidir falar com Yuri sobre a liberdade de Lúcia; outra completamente diferente era ter que arranjar dez milhões para conseguir sua liberdade. Quando a conheci no aeroporto, minha vida parecia mais solitária do que nunca; mas com ela, minha vida estava plena, completa.
Ou havia sido, até hoje.
Era quase final de tarde, mas o céu límpido, com o sol brilhando, deixava o dia mais claro. Desde que saí da boate tentei não pensar no que aconteceu, ou em como o que havia acontecido poderia ter sido evitado: era uma jogada dupla. Tinha que arranjar o dinheiro, e não dava para perder tempo.
Sempre tentei viver a vida sem ter que lidar com coisas que eu sabia que não conseguiria cumprir, mas dessa vez era diferente. Não tinha certeza se conseguiria o dinheiro, mesmo sabendo que eu precisava tentar.
Ao mesmo tempo, não conseguia deixar para lá a sensação de que talvez eu não conseguisse tirar Lúcia dessa situação, e talvez precisasse abandoná-la para salvar a minha família das garras de Yuri. Levando em consideração de que se eu saísse de cena todos ficariam bem e felizes.
Parei o carro em frente a Imobiliária do meu irmão, quando o vi na porta.
Desci do carro e dei a volta indo até ele na calçada.
− Thomas.
− Tem um minuto?
− Aconteceu alguma coisa? Você está todo machucado.
Pisquei. Até me esqueci dos hematomas no rosto.
− Bem, na verdade, sim – alisei meus cabelos para trás. – Fui assaltado e os caras me bateram – menti. Eu estava ficando bom nisso. – Mas, na verdade, vim falar de negócios.
Fred ficou me olhando com seus grandes olhos azuis. Sempre achei que o azul do olho dele era bem mais expressivo que o meu. Tudo bem, eu tinha o cabelo loiro, ele não.
Mantive a expressão neutra.
− Quero colocar meu apartamento à venda.
Houve um breve silêncio.
− Por que quer vender o apartamento? Você até brigou comigo por causa dele quando papai resolveu dar um imóvel para cada um de nós. Nunca pensei que um dia fosse vendê-lo. Achei que seria um amor eterno pelo imóvel.
Ele tinha razão. Eu nunca quis me desfazer do imóvel e pensava em ficar com ele por um bom tempo. Respirei fundo, escolhendo as palavras com cuidado.
− Sei que temos alguns conflitos para resolvermos, mas meu interesse agora é profissional. Quero que venda o apartamento para mim o mais rápido possível.
− E por que isso agora, Thomas? Está precisando de dinheiro? Não me diga que se envolveu com drogas e o traficante está te ameaçando.
− Claro que não, Fred? Por que acha que eu me envolvi com drogas?
− É só se olhar no espelho...
− Eu já disse que fui assaltado, porra. Bem, você vai poder me ajudar ou não? Senão vou procurar outra imobiliária.
− Não precisa. Vou vender seu apartamento. Amanhã levarei o avalista e, assim que ele me der o valor, anuncio no site. É um ótimo imóvel, vai vender rapidinho.
− Preciso que venda em uma semana.
Fred levantou a sobrancelha.
− O que foi? Não me olhe assim, Fred. É que... muitas vezes as coisas acontecem apesar da nossa vontade – expliquei, dando as costas para meu irmão e voltando para o carro. Baixei o vidro do carona e sorri para Fred que me encarava desconfiado. – Vou investir em outra coisa. É o meu projeto.
Liguei o carro e parti ainda recuperando o fôlego. Enquanto dirigia pelas ruas movimentadas de São Paulo, percebi que ao privar minha família de dividir minhas angústias com eles, punia a mim mesmo por não ter outra saída para libertar Lúcia das garras de Yuri. Parei no semáforo. Um homem caminhava com seu cachorro na calçada, sorrindo para ele. Prometi trazer aquela paz para mim de volta.
O que vivenciava agora... era apenas momentâneo.
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