Capítulo 13 - Faço por ela...

Desliguei o carro bem diante da boate e agora espiava pela porta entreaberta da entrada. O sol da tarde vazava pelas folhas da árvore sob o carro e o ar-condicionado soprava na minha testa o ar frio. Os entregadores de bebidas estavam em um vai e vem constante e eu rezei para que Yuri estivesse sozinho lá dentro. Eu tinha que falar com ele e seria muito mais fácil se Black estivesse bem longe.

Desci do carro e tranquei as portas antes de entrar na boate. O ambiente cheirava a cigarro, desinfetante e madeira velha. Para minha infelicidade, Black admirava-se no espelho ao fundo do bar enquanto penteava com os dedos, sem nenhum efeito aparente, os cabelos raspados quase rentes ao crânio.

Ao perceber minha entrada ele se virou e abriu um sorriso largo, deixando à mostra uma fenda enorme no dente da frente.

− E aí? Voltou para uma nova surra? – provocou.

Ignorei sua fala e fui direto para a porta dos fundos torcendo para que Yuri estivesse lá.

No interior da boate, alguns funcionários limpavam as mesas e cadeiras, varrendo o chão, preparando o ambiente para o expediente que logo começaria. Ninguém parou o que fazia para olhar para mim. Melhor assim.

Abri a porta e lá estava Yuri, fazendo suas contas diante de uma papelada, batucando uma de suas mãos encardidas na calculadora. Ele ergueu a cabeça assim que percebeu minha chegada e no mesmo instante fechou a cara em uma expressão de desdém.

Black entrou em seguida.

Yuri sinalizou para ele, dizendo:

− Espere lá fora. Qualquer coisa eu te chamo.

Black olhou feio para mim e saiu lentamente.

− Já decidiu o que vai fazer da sua vida?

− Não. Preciso falar com você. Sobre a foto da minha família que me mandou.

Yuri se recostou na cadeira, cruzou os braços.

− Sente.

Apontou para a cadeira de frente a sua mesa. Eu obedeci.

− Não quero que envolva minha família nessa história...

Yuri empurrou a calculadora para o lado e me interrompeu:

− Você continua se encontrando com ela. Se não parar, eu vou deixar de ser bonzinho. Só por isso sua família ainda está respirando.

Olhei para a arma nas imediações do seu cotovelo. Yuri seguiu o meu olhar, deduziu minhas intenções, mas não se alterou.

− Ou você fica longe da Lúcia, ou vou brincar de sequestrador com um dos integrantes de sua família. Cada vez que você chegar perto dela, vai estar brincando de roleta russa com sua família. Fui claro?

− O que você quer para deixar a Lúcia em paz?

Yuri mostrou os dentes perfeitos e muito brancos. Segurou o crucifixo dourado com os dedos e deslizou de um lado a outro da corrente grossa.

− Você veio me procurar aqui para um acordo, como se fosse fácil resolver o seu problema. – Pela primeira vez ele subiu o tom de voz. Até o movimento vinha insinuando sua superioridade e seu poder de fogo com meros sussurros. – Muito bem. Quero dez milhões pela liberdade dela.

Parei de respirar. Dez milhões? Eu não tinha esse dinheiro todo.

− Se acha que é impossível conseguir essa quantia, posso poupar a sua família se ficar longe dela. Mas vamos ficar de olho. Você tem uma semana para arranjar o dinheiro. Depois disso, terá que sumir, ou...

Yuri simulou uma lâmina com a mão e fez como se cortasse a própria garganta com ela.

Só então apontou para a porta e se reacomodou diante da mesa desarrumada.

Eu podia sentir os olhos que me seguiam enquanto eu avançava para a porta da saída da boate. Apertei o passo quando vi os olhos de Black me fuzilarem. E assim, só voltei a respirar ao sentir o sol quente da tarde bater na minha pele.

c$B

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top