Capítulo 7

 Tobiah limpa a garganta e espero que me peça para descer, ou simplesmente deixe-me sozinha, então quando a sua mão toca o meu queixo e ergue o meu rosto, eu desabo.

— Estou aqui. — É tudo o que ele diz e é mais que suficiente para que meu choro alcance a liberdade. Eu puxo o ar e depois o libero com fome. A sensação agoniante no meu peito aumenta e por mais que eu tente controlar as lágrimas, sinto como se fosse uma guerra perdida. — Chore tudo o que precisar, menina. Contudo, prometa-me que quando terminar vai secar o rosto, alinhar a postura e fingir que isso não está quebrando de dentro para fora.

— Não, não consigo. — Apoio a testa em seu peito, escondendo o rosto encharcado entre suas roupas.

— Consegue, Nora. — O tom gentil faz o volume das minhas lágrimas dobrar, mas uma batida do lado de fora do carro faz elas pararem. De repente, meu corpo inteiro está em alerta, todos os meus sentidos agindo no nível máximo.

— O que foi isso? — Ele deve perceber a minha cara de pânico, pois abre um curto sorriso e faz um movimento descontraído com as sobrancelhas.

— Sua amiga.

Tilly volta a bater no vidro do lado de fora no instante que viro, ela ergue os dois polegares em sinal de positivo e hesito por um momento antes de abrir a porta e sair.

— O que isso significa? — Questiono, gesticulando como ela fez. Seu olhar ganha vida, adquirindo um brilho que me lembra a noite.

— Apenas informando que o caminho tá livre. —Abro a boca para questionar, mas percebo que só estou usando-a de distração.

Eu não dou dois passos e esbarro em Evely, percorrendo meu jeans até encontrar um bolso e mergulhar a mão. Isso é um truque que aprendi ainda na escola, uma professora ensinou-me e disse que eu poderia usar sempre que ficasse nervosa ou ansiosa demais. É como um escape para o cérebro, uma fuga simples e prática.

— Oi. —Tenho certeza que ela pode notar a insegurança nesse oi. A maioria busca primeiro pelo médico responsável quando quer notícias do parente, mas não eu.

— Estávamos esperando por você.

Não. Não. Não.

—Por quê? —Pode parecer uma pergunta estúpida, mas sou estudante de medicina e a maneira que está me olhando só pode indicar uma coisa. —Eles estão bem, certo?

Minha voz é puro apreensão e pavor.

Por favor. Por favor.Por favor.

Alcançando o meu subconsciente, obrigo as minhas pernas se moverem para dentro do quarto, mas é como se a conexão entre meu cérebro e corpo tivesse se rompido. Sem saída e com a respiração falhando, busco força e giro a maçaneta. A porta se abre.

Embora a sua imagem inconsciente numa cama não seja nada novo, estremeço no lugar, sentindo o baque e revivendo aquele momento novamente. Segundo Evelyn, ela não sofreu nenhum dano grave no acidente, mas sua situação é delicada devido ao coma que enfrentou. Listaram-me os exames que fizeram e fiz questão de ver um por um, constatando que não há lesão em seu crânio ou ossos, nem no cérebro. Claro, novas exames serão solicitados quando ela acordar, eles precisam saber o quanto ela se lembra da sua vida e se seus movimentos e fala não foram afetados.

Ela acordou antes.

Minha consciência lembra.

Estávamos afastadas, uma escolha minha para combater os sentimentos que nutri por Zé, ingenuamente acreditei que se ficasse longe o suficiente, poderia esquecê-lo e não estragaria o casamento deles. A felicidade dela.

Novamente.

Não adiantou.

Eu fiz.

E agora ela acordou.

Empurro o meu corpo até a cama. A temperatura é ambiente, mas estou tremendo de frio. Talvez seja só medo e culpa, afinal. Eu suspiro, afundando novamente nas lembranças que preferiria esquecer.

Como dormir com seu padrasto? Minha consciência provoca, como a víbora que é.

Enxugando os olhos, dou mais três passos até ela.

— Mãe. — A pronuncia da palavra não sai como deveria, é como um móvel velho sendo arrastado de um lugar para o outro. — Você... —Porra! Eu não sei se consigo fazer isso. Minha cabeça tá uma bagunça. —Estou feliz que esteja bem. — Falo por fim, cobrindo a boca com a mão e correndo para o banheiro acoplado no quarto.

Não leva um segundo para eu colocar a última refeição para fora.

E eu nem lembro quando comi qualquer coisa.

De joelhos e enxergando tudo rodando, apoio a mão no vaso sanitário e impulso meu corpo para cima até ficar de pé, lavo o rosto na pia e quase não reconheço a minha imagem no reflexo. Não é nada físico, mas meus olhos estão cansados, sem o brilho costumeiro e visivelmente assombrados.

Bufo.

Eu sou uma sombra desde que conheci essas meninas.

— Tudo bem, querida? —Encontro olhos puxados através do espelho, o semblante torcida em preocupação genuína. Deslizo a língua pelo meu lábio inferior, de repente sentindo-o seco e necessitado de água. —Venha. — Oferece a mão quando não respondo, provavelmente encontrando a resposta que precisa no meu rosto.

Tudo ainda está girando, então não protesto quando ela apoia meu braço em seu ombro e me guia para fora do banheiro.

—Sente-se. —A mulher fala, indicando a poltrona ao lado direito da cama. —Vou buscar uma água para você, querida. Continue sentada.

Mais uma vez, eu não contesto ou falo qualquer coisa.

Embora tenho certeza que água não vai ajudar, claro, apenas se ela for milagrosa ou algo do tipo.

Alguns minutos depois e ela entra com uma bandeja que contém bem mais do que prometeu.

— Acho que vou testar sua pressão, está pálida. — Informa, descansando a bandeja com uma tigela de frutas e uma garrafa de água normal, não milagrosa.

Eu tento não olhar para mamãe enquanto a enfermeira continua a falar, mas falho.

— Está baixa. — A mulher declara, atraindo minha atenção de volta para si. Eu pisco, finalmente reconhecendo seu uniforme branco e crachá.

— Obrigada, Simone.

Ela sorri.

— Quando foi sua última refeição?

— Não tenho certeza sobre o horário. — Penso que fará um discurso informativo sobre a importância de uma alimentação regrada, mas seu olhar desvia do meu e segue para a cama.

Demora um segundo.

UM SEGUNDO.

— A dra. Evelyn pediu que a chamasse.— Um pausa, seus olhos voltam para meu rosto. —É sobre o seu padrasto. 

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