CAPÍTULO 29
NORA
Duas semanas se passaram desde que Zé voltou para casa. Eu deveria estar acostumada à rotina de cuidar dele, mas, a cada dia, a sensação de desconforto crescia. Olhar para ele era doloroso e piorava toda vez que o flagrava me encarando. Era difícil estar sozinha com ele, e eu fazia questão de sempre estar acompanhada por algum empregado da casa, como se a presença de outra pessoa aliviasse o peso no meu peito. Isso nunca acontecia.
Eu o desejo e me culpo por isso.
Mas hoje, ele não me deixaria escapar. Eu podia sentir sua paciência se esgotando a cada desculpa que eu dava para deixar sua presença.
— Nora, você vai continuar se esquivando? — Zé perguntou, sua voz soando mais forte do que eu esperava. — Sempre há alguém por perto, como se você estivesse evitando ficar sozinha comigo. O que está acontecendo, boneca?
Eu sabia que esse momento chegaria. Tentei evitar seu olhar, fingindo que estava ocupada com as flores na mesa.
— Não é nada, Zé. Só estou ocupada com os trabalhos da faculdade.
Ele não aceitou a resposta.
Será que podia sentir a mentira emanando de mim?
— Não é só isso, Nora. Me diz a verdade.
Respirei fundo, sentindo o peso da confissão se acumulando em meus ombros. Eu sabia que teria que dizer algo, e agora ele estava me pressionando.
— Eu... eu estou me sentindo mal por ela. — As palavras saíram com dificuldade. — Pela minha mãe. Não consigo olhar para você sem pensar no quanto ela está sofrendo. E isso me faz sentir culpada... como se eu estivesse traindo ela. Eu visito ela quase todos os dias, Zé, e a cada vez que volto para casa, a culpa me sufoca.
Zé ficou em silêncio por alguns momentos, me observando. O peso de sua recuperação, as camadas de tensão e a nossa história passada pareciam pairar entre nós.
— Eu te amo, Zé. — Eu disse, finalmente olhando em seus olhos. — Mas eu não sei como lidar com isso. Como posso amar você e, ao mesmo tempo, conviver com minha mãe?
Ele balançou a cabeça lentamente, como se tentasse entender.
— Nora, eu nunca quis que você sentisse isso. Eu sei que nossa situação é confusa e dolorosa, principalmente para você, mas prometo resolver.
— E o que pretende fazer? — questionei, rindo, porque eu não imaginava um cenário minimamente bom.
Antes que ele pudesse responder, lembrei Nikolai e Talia, e minha preocupação pela ausência deles cresceu de forma insuportável. Eles estavam sumidos, sem dar notícias. Eu precisava de respostas, e Zé parecia a única pessoa que talvez pudesse me ajudar.
— Zé, quando você contratou Tobiah... você sabia que o nome dele não era esse? — A pergunta saiu com força, e eu vi seu corpo enrijecer ligeiramente.
Ele desviou o olhar por um momento, o que já foi resposta suficiente para mim.
—Você sabia, não sabia? — minha voz saiu mais alta do que eu pretendia. O olhar evasivo de Zé foi resposta suficiente para confirmar minhas suspeitas. — Tobiah... — ri com ironia — claro que você sabia que o nome dele não era esse. Ele é Nikolai. E ele me disse, mais de uma vez, para não confiar em ninguém. Nem mesmo em você.
Zé fechou os olhos por um momento, respirando fundo como se estivesse tentando controlar algo dentro de si. Quando ele voltou a me olhar, havia algo diferente em seu olhar.
— Se você quer respostas, Nora, terá que ser honesta comigo. Não dá para esconder mais nada.
Aquilo me atingiu em cheio. Ele queria a verdade? Tudo? Uma parte de mim sabia que eu não podia mais segurar tudo sozinha. A outra parte temia o que isso causaria. Mas eu estava cansada. Cansada dos segredos, das mentiras, dos jogos de manipulação que pareciam girar em torno de nós.
— Está bem — comecei, respirando fundo. — Ari... ela não morreu naquele acidente por acaso. Eu acho... nós achamos que foi assassinato. Ela estava metida em algo grande, maior do que qualquer um de nós podia entender e agora estou envolvida nisso.
Eu o observei, esperando uma reação, mas ele permaneceu em silêncio, atento. Continuei.
— E aquele acidente, Zé, aquele em que achamos que matamos Ivan... não era Ivan. Era Mikhail. Ari armou tudo. Ela estava chantageando ele. Ivan descobriu que ela estava tendo um caso com o pai de Talia, e isso virou o jogo contra ela. As coisas ficaram fora de controle.
Eu senti meu corpo tremendo enquanto as palavras saíam. Era como se, ao verbalizar tudo, a gravidade dos nossos erros caísse sobre mim com uma força esmagadora.
— Nós... nós não queríamos que isso fosse assim, mas a Ari não estava agindo sozinha. Ela sabia de segredos, Zé, segredos que podiam destruir todos nós. E...
Eu parei antes de mencionar o último sequestro. Não. Isso, eu não podia contar. Talia e Nikolai precisavam de proteção, e quanto menos Zé soubesse sobre essa parte, melhor.
— Isso é tudo o que você precisa saber. — finalizei, olhando diretamente para ele, desafiando-o a questionar mais.
Ele me olhou com algo entre amor e desapontamento.
— E você acha que agora tudo está resolvido, Nora? Que esses segredos são tudo?
— São os segredos que importam no momento.
Zé suspirou, seus ombros cedendo.
— Que tal me contar que você e sua amiga foram sequestradas por Igor? — pisquei, surpresa e confusa.
— Como... você sabe?
— Porque sou obcecado por você, Nora. Eu nunca te deixaria desprotegida. Cometi um erro quando contratei Nikolai, no início, eu não sabia sobre a ligação dele com Ivan e Igor, mas tinha homens de confiança seguindo vocês assim que descobri. Sua amiga foi boba por achar que podia manipular homens como Alexei Krauss.
Fiquei em silêncio, as palavras presas na garganta. Como ele sabia tanto? Zé parecia estar um passo à frente de mim o tempo todo, e isso só me deixava mais confusa, mais desconfiada.
— Como você sabe sobre a Ari e Alexei? — perguntei, minha voz vacilando.
Zé riu, mas não foi um riso alegre. Era o tipo de riso que vinha com anos de segredos e manipulações. Ele se levantou, e mesmo devagar , visivelmente com dor, andou até a janela e olhou para fora. Como se estivesse refletindo sobre algo.
— Nora, é a minha obrigação saber. — Ele virou para mim, os olhos fixos nos meus. — O ponto fraco de todo mundo. Essa é a única maneira de sobreviver em um mudo onde segredos podem te destruir.
Fiquei ali, parada, sem saber o que dizer. Eu o conhecia há tanto tempo, mas parecia que ele sempre foi muito mais do que eu poderia imaginar. Como se eu fosse apenas uma peça em um jogo que ele controlava melhor do que ninguém.
O ar na sala ficou mais denso quando Zé foi até a porta. O barulho da chave girando na fechadura fez meu estômago revirar. Quando ele se virou para mim, o olhar em seu rosto era diferente, mais sério, mas com uma intensidade que não tinha visto antes.
— Vamos fazer uma troca — disse ele, com um tom baixo, quase provocador. — Um segredo... por cada peça de roupa.
Por um momento, eu congelei. Não era a resposta que eu esperava, e o significado daquela proposta me atingiu como uma onda de desorientação.
— O quê? — perguntei, tentando processar suas palavras.
Ele se aproximou lentamente, os olhos fixos nos meus.
— Você quer respostas, Nora. Eu também. Então vamos jogar limpo. Cada um de nós conta um segredo. E, a cada revelação... — Ele apontou para a camisa que eu vestia. — Nós removemos uma barreira.
Minha mente estava correndo, mas eu não conseguia distinguir se era raiva, medo ou pura incredulidade. Ele estava brincando comigo, testando meus limites, como sempre fazia e eu queria ceder. Quero ceder.
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