Capítulo 13

O tilintar de copos batendo alcança meus ouvidos antes mesmo que eu cruze a porta do salão da família Bragantino. Muitos olhos estão em mim nesse momento, então desacelero os passos e tento fingir uma calma que não possuo. Eu tenho Tobiah do meu lado esquerdo, embora seu papel seje me proteger, ele está vestido como qualquer outro convidado e o estou usado como distração. Até mesmo eu fiquei alguns segundos perdida quando o vi de smoking.

— Você viu Isadora? —Pergunto em tom baixo, abrindo um sorriso quando duas conhecidas passam e me checam dos pés a cabeça. Fofoqueiras. Para eles, a minha presença deve ser um choque mais do que uma surpresa, afinal minha mãe e padrasto continuam internados e essa é uma festa. Uma festa familiar e cheia de tradições, mas ainda uma festa. Uma parte minha quer revirar os olhos para tanta hipocrisia. Metade das mulheres aqui estão me olhando e julgando sem um motivo real, sendo influenciadas pelos padrões morais que seus próprios maridos ignoram. Ninguém aqui tem o direito de julgar meu sofrimento pelo vestido ou maquiagem que optei por usar.

Mas eu tenho algo maior para me preocupar.

— Talvez ela não venha. — Tobiah sibila e sinto uma pontada no estômago.

Não nos falamos desde que descobri sobre sua irmãzinha. Eu saí logo depois do clima pesar, porque sei reconhecer a hora de partir e respeitar a dor de alguém. Aquele momento era dela e definitivamente ela não me queria lá.

Enviei flores de qualquer maneira.

Orquídeas azuis.

Significa paz, tranquilidade, harmonia, gratidão, lealdade.

Todos precisamos de um momento em uma situação como essa e levando em consideração que Isa mantinha a irmã em segredo, supus que a despedida deveria ser íntima.

Espero não ter errado.

Apesar que, no fundo, sentir que não, tenho medo de ter cometido um erro ao deixá-la. Mas o que todos esses anos serviram, foi para descobrir mais uma da outra e Isadora Drummond não gosta de ser vista em um momento de fragilidade.

— Visitei T essa tarde. — Minhas pernas se separam, meu corpo inclina com a cabeça na direção da voz. — Ela disse que deveríamos ficar de olho na pequena raposa.

Um vínculo se forma entre minhas sobrancelhas.

— Pequena raposa? — Seu olhar cruza o meu até o outro lado do salão. — Bárbara. — O nome deixa seus lábios como o pior dos venenos. Então como se sentisse que estamos falando dela, nossa ex colega de turma olha diretamente para mim.

Existe algo diferente nela, uma confiança, uma certeza que faz cada célula do meu corpo sinalizar perigo.

Alguém toca meu ombro e me empurra para frente, mas estou travada no lugar e não movo um dedo.

Não é nenhuma surpresa que ela esteja aqui essa noite, toda a alta sociedade de Minas Gerais está e seus pais conhecem os Bragantinos há anos. Seus olhos estão presos nos meus e deve ter percebido a desconfiança no meu olhar, porque um segundo depois de desviar, sussurra algo para a mulher que está do lado e deixa o salão. Estou pronta para segui-la, mas um novo toque o ombro e um chamado me faz conttinuar o lugar.

Não é apenas um chamado.

É a porra de um fantasma cheio de dentes e perfume importado.

Que diabos!

— Cecília. —Eu até tento formar um sorriso sincero, mas o ranço da mulher é tanto que parece muito mais uma careta. Achei que tinha me livrado dela quando coloquei pó de mico em sua roupa e exigi que Zé não a encontrasse mais. Isadora lança um olhar estranho para mim e pede licença, colocando um longo espaço entre nós antes que eu posso contestar sua saída.

Quando alcança Rael perto da entrada e me olha sobre o ombro, quero erguer o dedo para ela e mandá-lo para o espaço!

Traidora.

Meu maxilar está travado quando Cecília volta a falar.

— Como? —Não me envergonho em bocejar assim que termino a pergunta. Seria ótimo se ela fosse embora, porque, mais uma vez, eu não gosto dela.

Ela tenta sorrir, mas é mais falso que minha tentativa anterior. Pelos menos temos isso em comum.

Um garçom surge e pego uma taça de champanhe, bebendo tudo de uma vez. Seu olhar não me deixa.

Supostamente, ela e Ariel nunca tiveram nenhum contato ou qualquer evidência de amizade, mas se eu pudesse chutar...

— Eu estava dizendo que visitei seu padrasto e minha amiga. — Paro outro garçom e pego mais uma taça, sinto Tobiah ficar tenso ao meu lado, mas bebo assim mesmo.

Como ela ousa?

A raiva se agita no meu interior.

— Mesmo?

Algo brilha no fundo da sua expressão.

Víbora. 

Eu nao tenho certeza se a mulher percebe que está fazendo um jogo perigoso, ou apenas ignora o olhar assassino no meu rosto. Mas juro por tudo que é mais sagrado, se ela continuar falando da minha mãe como se a conhecesse por toda a vida e simplesmente não tivesse tentado entrar nas calças do marido dela, vou esquecer onde estamos e marcar seu rosto com minha mão.

E ela ainda vai poder agradecer por eu não ter colocado anéis.

— Estou tão entusiasmada em ter Clarice de volta, não posso imaginar o quanto você sofreu naquela casa sozinha. — e é nesse momento que percebo seu jogo. — Quero dizer, você tinha Zé por perto, mas não é como se ele fosse sua família de verdade. — o sorriso de cobra se arrastando pelo lábios pintados de vermelho me diz que ela não acabou. O olhar nublado com malícia.

— Está enganada, querida.Zé faz parte da minha família e nós não precimos de rótulo. —Faço questão de enrolar a língua o maximo possível, oferecendo-lhe um pouco do próprio veneno quando me inclino e digo em tom baixo e proundo. — E para você é apenas José Luiz.

Um pequeno suspiro de surpresa deixa sua garganta. Nós apenas acabamos aqui.

Olhando de volta para a direção de Isadora, a flagro caminhando até Bárbara sem nenhum sinal de Rael. Estou prestes a caminhar até lá e impedir que algo ruim aconteça, quando sinto a mão magra enrolando meu pulso e me impedindo de sair do lugar.

— Solte! — Rosno, começando a não me importar com o público ao nosso redor.

— Sabe, menininha.— Cecília passa a língua entre os lábios, arrastando o polegar pelo meu pulso. — Nunca entendi sua cisma comigo.

Ah, é mesmo?

— Tenho certeza que sabe. —Atiro de volta. Seu olhar varre o pequeno círculo a nossa volta e quando tem certeza que ninguém está perto o suficiente, diz exatamente o que imaginei que diria. — Você é apaixoada por ele.

Eu quero ri alto.

Arranco seu aperto de mim e volto a inclinar minha cabeça próxima ao seu ouvido.

— Claro que sou.

O que você não sabe, é que ele também é. Quero dizer.

Quando acho que vai recuar, ela me surpreende e percorre seus dedos pelo lado direito do meu rosto e empurra uma mecha solta para atrás da minha orelha. Quase como um gesto simpático.

Mas isso foi uma ameaça.

— Você é apenas uma putinha, Nora. Um pedra que logo será descartada. Eu sinto pena da pobre Clarice.

Uou!!!

A maneira como a boca dela se torce para o lado, faz meu corpo queimar para um embate. Ela está praticamente implorando por isso. Estou pronta para dar exatamente o quer, não só porque acabou de me insultar como se eu não fosse nada, mas por usar o nome da minha mãe quando Tobiah intervém, colocando o corpo entre o meu e o da mulher.

— Suas amigas estão chamando por você.

Aperto minha boca até sentir meus lábios uma linha fina antes de olhar para ele. Isso é provavelmente um truque, mas acho que devo agradecer. Deve haver uma razão para Cecília querer tirar o meu pior essa noite e não deve ser algo bom. Eu assumo de volta meu controle, dando-lhe um longo olhar antes de bater em seu ombro com o meu e sair.

— Nenhuma palavra sobre isso. — Falo sem realmente olhar para ele.

— Eu não pretendia.

— Bom.

— Apenas... — paro, girando até ficar de frente para ele. Uma sobrancelha levantada.

— Não. — eu o desafio com os olhos. Sua expressão uma nuvem escura e pesada.

— Certo.

— Ótimo. 

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