Encurralado por bruxas
Jeon Jungkook
Em todos os anos que Jungkook passou fugindo de piratas, nunca pensou que um dia estaria encurralado por um — e para seu gigante azar, o mais temido atualmente — justamente em seu navio. Taehyung disse aquilo com naturalidade, não parecia uma fala ensaiada, ele realmente desejava aquilo e isso significava apenas uma coisa: ele jamais poderia descobrir sua identidade, ou estaria em perigo e o tesouro que seu pai também. Tentou não deixar explícito seu choque, sorrindo e bebendo um pouco de sua bebida, olhando para seu cálice, tentando parecer descontraído.
Imaginava as atrocidades que Taehyung e sua tripulação faria com ele ao descobrir que JK era, na verdade, sigla para Jeon Jungkook, filho do capitão que todos querem o mapa do tesouro, definitivamente não podia baixar a guarda diante dele. Seu corpo tremeu e seu coração disparou, mas tentou com afinco esconder o nervosismo que o tomou, ele não podia perceber o quão assustado ficou ao saber daquilo, pois não havia maneiras de descrever o medo todas às vezes que teve pesadelos com piratas que queriam o mapa.
— Realmente você não é o único a almejar isso, acredito que esse é o desejo de todo pirata Capitão — disse sorrindo, embora seu estômago estivesse dando voltas e mais voltas.
— Certamente, mas quem irá se apossar dele não será outros piratas, será eu — disse convicto. — Essa será minha maior realização e meu maior feito, meu nome será para sempre marcado na história, "o pirata que desbravou o tesouro que nenhum outro teve êxito em conseguir".
— Vejo que está realmente engajado nisso, mas ouvi dizer que o mapa foi perdido há muitos anos.
— Duvido muito que tenha sido, Amélia me garantiu que ele existe — sorriu e Jungkook sorriu forçado. Mais uma vez as bruxas brincando com o destino das pessoas. — Preciso apenas seguir as pistas para encontrá-lo.
— Pistas? — Perguntou confuso, não lembrava de seu pai ter deixado pistas para trás.
— Está curioso demais, não acha? — Taehyung sorriu ladino dando passos em sua direção, ficando perigosamente perto, ele deixou o cálice que segurava a mesa atrás do corpo de Jungkook, deixando-o encurralado novamente, entre ele e o móvel atrás de seu corpo. — Está interessado no tesouro?
— Quem não estaria Capitão? — Perguntou com um toque de malícia. Não podia evitar, Jungkook sentia uma forte atração por aquele homem, não adiantava mentir, embora ele fosse uma grande ameaça, era também uma grande tentação.
— De fato — sorriu ainda mais, descendo os olhos até seu pescoço, levando a mão direita até ele. — Você não seria uma ameaça ao meu objetivo certo? — Circulou os dedos cheios de anéis delicadamente por sua pele quente, fazendo uma mínima pressão antes de aproximar os lábios de seu ouvido direito. — Seria uma grandíssima pena ter de matá-lo.
— Se sente ameaçado com a minha presença, Capitão? Eu, um mero homem perdido e sem moradia? — Fechou os olhos, aquela situação estava mexendo com todos os sentidos mais devassos, era acima de tudo, um homem, ter sua mente bagunçada por outro homem que exalava dominância e perigo era deveras excitante.
— Um homem cheio de segredos e um exímio lutador? Sim, o considero uma possível ameaça — mordeu seu lóbulo, fazendo-o segurar seu cálice com mais força e soltar um suspiro baixo. — Além disso, o que me garante que não irá me apunhalar quando souber das informações que eu tenho?
— Melhor dormir de olhos abertos, Capitão — disse baixinho, resvalando seus lábios em nos cabelos castanhos de Taehyung, sentindo a pressão nos dedos do capitão aumentarem.
— Quem é você JK? — Ele disse após se afastar um pouco, ficando a alguns centímetros de seu rosto, para olhá-lo nos olhos. — Porque sinto que vai realmente me apunhalar na primeira oportunidade, mas não vejo hostilidade alguma vindo de você?
— Eu sou uma incógnita Capitão, mas posso dizer o mesmo sobre você, não sei o que pensar sobre suas atitudes, mas seu olhar me diz que eu sou uma presa e você o predador — sua fala pareceu fazer os olhos de Taehyung ganharem um brilho diferente, pois logo um sorriso despontou sobre seus lábios novamente.
— Talvez porque você realmente seja minha presa — a mão que antes estava em seu pescoço desceu até sua cintura, firmando o aperto naquela região. — Você está no meu território, sob domínio dos meus homens e preso na minha armadilha, o que falta para eu fincar minhas garras em você?
— Exatamente Capitão — Jungkook sorriu, mandando o medo para o canto mais isolado de sua mente, não faria mal tirar uma casquinha, sendo que, estava explícito no olhar de Taehyung que iria amar ser devorado por ele. — O que falta?
— Sabe o que falta JK? — Deu um passo para frente, colando novamente seu corpo ao dele, ficando com os lábios a milímetros do seu, fazendo todo seu corpo entrar em alerta. Estranhamente Taehyung não fedia como a maioria dos homens naquele navio, tinha um cheiro peculiar, uma mistura de Rum com suor, com algo mais que não soube descrever o que era, mas era peculiar e bom. — Falta honestidade.
— Como é? — Jungkook franziu o cenho, olhando-o nos olhos.
— Não confio em ninguém que tenha os olhos como os seus, você não é confiável e a prova disso são todos os segredos que você guarda.
— Todos temos segredos, Capitão, alguns mais que os outros.
— E você é um deles — deu alguns passos para trás. — Quando decidir ser honesto, talvez saciemos essa maldita vontade que aparentemente nutrimos pelo corpo um do outro.
— Não acha que é um pouco arrogante da sua parte presumir que estou atraído por você?
— Ah! JK, não sou cego e muito menos ingênuo, você suspirou nos meus braços há pouco e retribuiu minhas investidas, o que ganharia me provocando dessa forma? — Perguntou sorrindo e Jungkook também sorriu, dando de ombros.
— Sou um homem Capitão, é da minha natureza desejar o que eu não posso ter.
— Desde o momento em que coloquei meus olhos em você eu soube que seria a minha perdição, preciso apenas descobrir em qual contexto essa afirmação se encaixa.
— Estou curioso para saber o que você fará quando descobrir — disse olhando-o nos olhos.
Era estranho aquilo que sentia pelo Capitão, era óbvio que não estava apaixonado, o conhecia a pouquíssimo tempo, mas havia algum tipo de magnetismo que puxava seu corpo para próximo a ele, mesmo com uma sensação gritante de perigo. Taehyung parecia sentir o mesmo e demonstrar a mesma confusão que si, porque diabos eles estavam tão sedentos um pelo outro se haviam nem sequer se conhecido antes de Jungkook invadir a Aurora? Devia haver uma explicação lógica e Jungkook a descobriria.
Já se envolveu com diversas pessoas, homens e mulheres, pessoas com diversos gostos, aparências, manias e jeitos diferentes, mas embora tenha se envolvido baseado em atração física, a força sobrenatural que queria empurrá-lo para Taehyung era estranha, nunca sentiu nada parecido com outras pessoas. Sabia que provavelmente era toda aquela pose imponente e poder, que ele esbanjava, talvez a beleza que mesmo embaixo do sol quente das águas tropicais da América... Ou talvez fosse aquela maldita língua afiada e boca delineada que insistia em ficar lhe irritando.
Estava claro que Taehyung também queria desvendar todos os mistérios que ele guardava para si mesmo, mas não permitiria, prometeu a si mesmo que jamais deixaria outra pessoa tocar nos tesouros que seu pai e definitivamente cumpriria sua promessa. Os dois estavam há alguns segundos olhando um para o outro em silêncio, tentando entender o que se passava na mente da pessoa a sua frente, Taehyung parecia querer dizer algo, mas fora interrompido por alguém, que bateu na porta da cabine.
— Capitão — Lisa o chamou através da madeira, fazendo Taehyung se afastar ainda mais de si.
— Entre — Taehyung disse, virando-se em direção a ela assim que a porta foi aberta.
— Namjoon me informou sobre nossa rota, devo começar a instruir os marujos? — Ela disse assim que entrou, olhando para Jungkook com o cenho franzido, antes de voltar sua atenção para o Capitão.
— Vamos esperar um pouco mais, estão se divertindo e nossa viagem foi longa, deixe que descansem antes de voltarmos a navegar — disse calmamente, direcionando sua atenção para Jungkook novamente. — Lisa quero que fique de olho nele, enquanto estivermos em Mácua, preciso ir até à Taça de Safira para conversar com Amélia e não quero nosso novo tripulante se perdendo pelo porto.
— Sim, Capitão — Lisa disse também olhando em sua direção, fazendo Jungkook franzir o cenho e cruzar os braços.
— Pensa que irei fugir? — Perguntou com a voz fria, demonstrando que não gostou da atitude e desconfiança de Taehyung.
— Você mesmo disse ter um histórico extenso em embarcar e desembarcar em navios, não quero perdê-lo de vista até eu entender os mistérios que cercam o nosso encontro — sorriu ladino.
— Não sou do tipo que foge com o rabo entre as pernas a primeira situação atípica — disse com seriedade, o que pareceu divertir ainda mais Taehyung. — E definitivamente não preciso que me vigiem.
— Então não há motivos para se sentir irritadiço, não é? Se não fugirá, não se importará com a presença de Lisa — disse com aquele maldito ladino, que fazia Jungkook sentir vontade se socá-lo e beijá-lo ao mesmo tempo.
— Com licença Capitão — disse irritado, faltou apenas bater o pé no chão, mas não demonstraria tamanha infantilidade diante dele. Estendeu a taça com brusquidão, fazendo Taehyung segurá-la por reflexo. — Vou aproveitar a comemoração para conhecer meus novos colegas de viagem.
Caminhou até a porta, para sair daquele ambiente antes que acabasse soltando alguma injúria e desrespeitasse o capitão, embora sua vontade fosse de realmente xingá-lo, não ia testar até onde sua tolerância por insubordinação suportaria, já que não queria ter o mesmo destino de Benjamin. Passou por Lisa às pressas, notando um sorriso divertido em seus lábios, mas que decidiu ignorar, fechou a porta assim que passou, fechou os olhos e respirou fundo, precisava acalmar seus ânimos, pois não sabia que tinha o pavio tão curto até ingressar na Aurora.
"Estão testando até onde vai minha paciência e não vão gostar quando ela se esgotar", bufou e abriu os olhos, vendo a noite estrelada sobre sua cabeça.
Assim que a brisa fresca bateu em seu rosto ele olhou em volta, vendo que os marujos ainda dançavam, cantavam e bebiam, todos sorrindo e compartilhando a mesma animação sem fim. Desceu as pequenas escadas e se dirigiu para o convés, indo em direção a Jimin, que estava agora na companhia de Namjoon, Jin, Hoseok e Yoongi, embora ainda não estivesse em bons lençóis com o último citado, aquele era o único grupo de pessoas com quem já teve alguma interação e ao menos sabia o nome.
Precisava se distrair e não pensar nas diversas provocações que recebeu de Taehyung, ele realmente não tinha motivos para confiar nele e certamente na primeira oportunidade Jungkook partiria para longe da Aurora, mas era também inteligente para saber medir o peso de suas decisões, não gostava de ser tratado como uma pessoa desprovida de inteligência. A Aurora era conhecida com a "Indomável", tinha certeza que a nomenclatura não era atoa, assim como o mais temido não era um elogio a gentileza de Taehyung, por isso não podia simplesmente fugir ou teria o mesmo fim que seu antigo Capitão.
Era óbvio que não fugiria.
Após sentar-se ao lado de Jimin, que o puxou para a conversa de imediato. E mesmo que Yoongi e Jungkook não direcionassem a palavra um ao outro, realmente se divertiu entre eles, descobriu que apesar de reservado Namjoon era um homem muito gentil e inteligente, Hoseok e Jin eram mais energéticos do grupinho. Yoongi apenas respondia quando perguntavam algo a ele e Jimin contava histórias de sua infância com Taehyung, dizendo que eles não eram tão próximos quando eram crianças, já que suas mães brigavam a todo tempo pela atenção do pai mulherengo.
Uma coisa muito interessante que ouviu de Jimin durante a conversa, foi que Taehyung teve uma infância consideravelmente conturbada, pois sua mãe era extremamente frigida e de personalidade arredia, mas que ensinou a ele tudo o que ele sabia hoje. De acordo com Jimin, Taehyung amadureceu muito cedo por conta de sua mãe, mas que ela o ensinou a nunca ser enganado e diminuído, por mais fria que ela tenha sido, ele era grato a ela. Mas o mais inesperado de tudo era que ele já havia tido uma interação com o pai de Jungkook.
— Nosso pai era um homem péssimo, nos "recrutou" para o navio dele, quando seus próprios marinheiros o abandonaram, ficaram apenas meia dúzia de homens que não tinham aonde ir e nós, dois adolescentes — Jimin explicou, todos prestavam atenção no que ele dizia, curiosos para saber o desfecho da história. — Foi o Capitão Junghyun que matou nosso pai, mas poupou nossa vida e a tripulação, dizendo a Taehyung para se tornar tudo aquilo que seu pai não era.
— Quantos anos vocês tinham quando ele disse isso? — Jungkook não conseguiu conter, precisava saber.
— Eu tinha dezenove e Taehyung dezoito — ele disse sorrindo.
Jungkook tinha treze anos, já que o Capitão era cinco anos mais velho.
— Ouvi dizer que o Capitão Junghyun era um pirata diferente dos outros — Namjoon disse divagando em seus próprios pensamentos.
"Sim, ele era", Jungkook acrescentou em sua cabeça.
— Ele era o que todos os piratas gostariam de ser — Jimin continuou, fazendo o restante assentir. — Depois do que ele disse o Tae assumiu o posto de capitão da Aurora, mesmo com poucos tripulantes ele realmente foi tudo o que o nosso pai não foi. Ouvimos que depois de nosso encontro com Junghyun, ele levou o filho dele para o Nevrine.
— Qual era o nome do filho dele mesmo? — Jin perguntou de repente, chamando a atenção de todos.
— Não me lembro — Hoseok disse coçando o queixo.
— Jeon Jungkook — uma voz feminina atrás deles disse de repente, fazendo um arrepio subir por todo seu corpo. Fazia muito tempo que não escutava ninguém pronunciar seu nome. — Difícil esquecer o nome daquele que nosso capitão tanto procura.
— Jungkook! Isso! — Jimin disse olhando para Lisa com um sorriso imenso. — O garoto que desapareceu.
— Desapareceu? — Yoongi perguntou confuso.
— Sim! — Lisa disse se sentando junto a eles. — O Capitão Junghyun sempre escondeu a identidade dele, quando ele morreu o garoto desapareceu, porque todos os piratas querem o mapa do pai dele. A última vez que ele foi visto foi em uma taberna chamada "Cálice do Canalha" no porto de Palaciana, até hoje os piratas vão até à taberna para saber se ele havia voltado.
Jungkook permaneceu quieto, apenas absorvendo todas as informações em completo silêncio, se Lisa que era a imediata do capitão sabia somente aquelas informações — caso ela não estivesse omitindo nada — Taehyung também não sabia muito sobre seu paradeiro. O que era um alívio imenso, fez de tudo para fugir para o mais longe possível de Palaciana e esconder sua identidade, já que após a morte de seu pai Jeon Jungkook era o nome mais pronunciado por todos aqueles que navegaram os setes mares.
— Será que ele morreu? — Hoseok não pareceu perguntar a alguém específico, apenas uma indagação para ele mesmo.
— Ninguém saberia dizer — Jimin disse cruzando os braços. — Já que ninguém sabe qual é a aparência dele, talvez tenha morrido e ninguém nunca vai saber onde, quando ou reconhecer o corpo, ele é quase um indigente.
— E o mapa? — Jin olhou em volta. — Será que alguém vai encontrá-lo?
— Taehyung está focado em encontrá-lo — dessa vez foi Namjoon que respondeu. — Fizemos diversas investigações juntos, se alguém tem capacidade de encontrar o mapa dos Jeon's é ele.
"Mas ele não vai." Jungkook completou novamente.
(...)
Quando as comemorações passaram, os ânimos dos tripulantes da Aurora voltaram ao normal, todos voltaram aos seus trabalhos e agora o navio navegava em direção a ilha de Mácua, onde iam atracar e reabastecer, pois, ao que parece, a tripulação quase zerou o estoque de rum no feriado e não havia quaisquer condições de eles continuarem a viagem sem rum. Jungkook ajudou quem pediu por ajuda, andou por todo o lado fazendo todo tipo de tarefa, ajudou até mesmo Yoongi, que precisava arrumar os barris de pólvora.
Mesmo que trabalhassem juntos, as pessoas estranharam o silêncio mórbido dos dois.
Jungkook e Taehyung não conversaram mais depois da última conversa que tiveram, o Capitão tomou o leme e guiou a Aurora até seu destino, enquanto Jungkook fazia o seu melhor ignorando-o completamente. Depois de tudo o que ouviu sobre ele no feriado ele tomou uma decisão, ele não fugiria, permaneceria na Aurora, pois existia um ditado que seu pai sempre lhe dizia: "mantenha seus amigos por perto e seus inimigos mais perto ainda". Por isso ele ficaria de ouvidos atentos, já que eles nunca desconfiariam que Jungkook na realidade já estava entre eles.
Quando enfim Aurora atracou, todos os tripulantes desceram do navio e caminharam até o porto da ilha após Lisa instruí-los a voltarem em quatro horas, ou seriam deixados para trás, Jungkook desceu junto a ela, já que estava óbvio que ela seguiria as ordens de seu Capitão a risca. Apesar de ela estar lhe vigiando, gostava da companhia dela. Lisa era uma mulher cativante, conversaram o caminho todo até a Taça de Safira, a taberna mais famosa de Macua. Como ela não fazia parte dos bêbados que queriam Rum, os dois apenas se sentaram em uma das mesas e conversaram, enquanto os outros carregavam os barris para o navio.
— Tem dinheiro para pagar uma bebida? — Ela perguntou assim que se sentaram.
— Dei todo meu ouro para o Capitão como tributo — riu soprado, tributo era um nome diferente para "suborno para não morrer".
— Então eu pago — ela deu dois tapas na mesa de madeira e uma moça de sorriso simpático caminhou até eles. — Traga duas canecas de cerveja, por favor. — A mulher assentiu e saiu.
— Lisa posso fazer algumas perguntas? — Jungkook perguntou, fazendo ela lhe encarar e assentir.
— Acredito que já sei o que vai perguntar — ela riu soprado.
— Como se tornou a imediata do Capitão? Vejo que você é ótima no que faz, mas é a primeira vez que eu vejo uma mulher participando ativamente da pirataria sem ser Capitã.
— Os homens têm esse preconceito chato mesmo — ela riu, não parecia ofendida com sua pergunta. — As capitãs dos navios como Anny Bonny e Mary Read, mesmo que muito famosas e bem sucedidas eram rebaixadas por serem mulheres, mas elas calaram a boca de todos os idiotas que fizeram pouco delas, não é? Eu sou órfã, filha de um pirata e uma meretriz, ou pelo menos foi isso que me contaram. — Deu de ombros, como se não se importasse. — Cresci no meio de crianças rebeldes e comecei a me envolver em brigas muito cedo, até que me tornei a "Surradora de homens", apelido carinhosamente me dado por vencer várias lutas contra meus colegas.
— Me lembra de nunca te irritar — Jungkook disse com um sorriso pequeno, fazendo Lisa rir também.
— Eu sempre gostei da pirataria, mas diziam ser um sonho inatingível, uma mulher jamais entraria para a tripulação porque eram traiçoeiras e fracas, até que as capitãs surgiram, se tornaram minha inspiração e me empenhei em provar estarem errados — pausou sua fala quando a moça que os atendeu voltou com duas canecas cheias de cerveja, deixando-as sobre a mesa e partindo assim que Lisa entregou duas moedas de prata a ela. — Aprendi a lutar com espada e a devorar livros sobre o mar e navios, até que em uma das minhas brigas Taehyung me encontrou.
— Você lutou com ele?
— Não, não sou párea para ele ou Hoseok — riu, provavelmente pensando na possibilidade. — Talvez não seja para você também, mas aposto um barril de Rum que sem espadas eu consigo te derrubar com muita facilidade.
— Está apostado, um dia nós vamos testar essa teoria — sorriu após beber um generoso gole de sua cerveja. Lisa sorriu ainda mais e assentiu.
— Bom, não lutei com Taehyung, mas ele me viu lutar e após me fazer diversas perguntas, me chamou para fazer parte da tripulação da Aurora. Eu não entrei como imediata, mas ele viu como eu coordenava os afazeres e disse que eu seria uma boa líder, por isso me colocou como sua pupila, devo minha vida a ele, faria tudo por ele.
— E as outras meninas?
— Cada uma tem uma especialidade, mas Taehyung as trouxe para a Aurora porque disse que as mulheres além de mais inteligentes, tem um olhar diferente para as coisas. Jennie é tem um talento sem igual em ler as pessoas, sua mãe é uma bruxa, por isso ela tem esse tato mais apurado, Jisoo é uma ótima estrategista e Rosé ajuda na organização do navio.
"Devo ser cauteloso com Jennie" Jungkook pensou.
— São os dez pilares da Aurora — Lisa disse puxando Jungkook de seus pensamentos.
— Dez pilares? — Perguntou confuso.
— Sim, as pessoas que fazem a Aurora ter adquirido o apelido de "indomável" — disse olhando em volta, Jungkook não soube dizer se ela estava analisando as pessoas a sua volta ou somente buscando algo visual para focar. — Yoongi o artilheiro, Namjoon o navegador, Jimin o curandeiro, Hoseok o contramestre, Jin o cozinheiro, Jennie a negociante, Jisoo a estrategista, Rosé a edificadora, Taehyung o Capitão e eu, a imediata. Mas acima de qualquer posto no navio, não há melhor equipe de lutadores que nós, nunca perdemos uma batalha.
— Isso é impressionante — disse admirado.
— Será que você será nosso décimo primeiro pilar? — Lisa bebeu a cerveja olhando em seus olhos.
— Serei aquilo que vocês precisarem que eu seja — respondeu também olhando em seus olhos. — Seu capitão pode não confiar plenamente em mim, mas se tem algo de que posso me orgulhar, é minha lealdade, não importa onde estive antes de vir para cá, estou na Aurora agora, serei fiel a quem estiver nela.
— Isso é ótimo vindo do homem que vai levar a Aurora até os confins do inferno — uma terceira voz se fez presente atrás de Jungkook, o assustando ao ver uma garota parada atrás de si.
A garota tinha uma aparência jovial, não devia ter mais que dezoito anos, ela sorria em direção aos dois, mas estava parada em pé atrás de Jungkook, que ao analisá-la melhor sentiu um arrepio atravessar seu corpo com uma flecha. Ela era uma garota extremamente bonita e com traços típicos da ilha Macua, cabelos escuros quase pretos e olhos tão verdes quanto safiras, mas o que causou o arrepio em seu corpo foi as joias e desenhos que pintam todo o corpo dela de dourado e preto. Ela usava um vestido com um corset, mas não escondia os desenhos pintados em seu colo e braços.
Uma bruxa.
— Não vai fugir de mim não é? — Ela riu, nitidamente achando divertido a reação de Jungkook. — Amélia vai ficar muito feliz quando o ver.
— Quanto tempo Ruth — Lisa sorriu em sua direção, se levantando da mesa para cumprimentá-la. — Não é perigoso andar por aí sem cobrir suas tatuagens? E se houver paladinos por aqui?
— Não tem, graças aos cuidados de Amélia Macua é o lugar mais seguro para as bruxas, não conseguirão nos ferir aqui — respondeu sorrindo. Aproveitando a distração Jungkook se levantou da mesa, prestes a se afastar da tal Ruth, mas não conseguindo já que ela segurou seu braço. — Não fuja como um cãozinho assustado, não irei lhe devorar ou te possuir, como os paladinos tentam convencer as pessoas.
— Não estou assustado — Jungkook disse tentando se desvencilhar do aperto de Ruth, mas ela manteve firme seu aperto. — Me solte.
— Soltarei, após te levar até Amelia — ela ficou séria de repente, olhando para um ponto fixo em seu peito. — Tem coisas que precisa saber.
Antes mesmo que pudesse negar ou dizer algo Ruth o puxou para os fundos da taberna, o que o fez suspirar, ele sabia que bruxas não iriam feri-lo ou algo do tipo, mas não deixava de ficar receoso na presença delas. Lisa os seguiu, mas ficou na frente da porta quando Ruth pediu que somente ele entrasse, a pirata assentiu e disse que iria esperar, ganhando um sorriso da pequena bruxa. Assim que a porta foi aberta a primeira coisa que Jungkook viu foi Taehyung, ele estava de costas para si, mas assim que ouviu o barulho da porta se virou para encará-lo.
— Mãe, olha o que eu encontrei lá fora! — Ruth disse puxando-o até que estivesse ao lado de Taehyung, que lhe encarava com o cenho franzido. — É a primeira vez que eu vejo um!
Jungkook até ficaria confuso com a fala de Ruth, mas seu olhar estava focado na mulher à sua frente, que o encarava com olhos ávidos e intensos, pareciam devorá-lo por conta do olhar profundo. Dizer que ela era bonita era um completo eufemismo, sua beleza era tão esplêndida que parecia irreal, ela possuía os mesmos traços de Ruth, mas carregava uma maturidade que não tinha no rosto jovem da filha, mas suas madeixas negras e olhos verdes eram os mesmos. As joias douradas estavam presentes em seu rosto, colo, braços e mãos, deixando-a com a aparência de uma Cigana.
— Uau, realmente é fascinante — a mulher disse encarando-o com um sorriso imenso. — Grave bem o rosto dele Ruth, será a última vez que verá um filho do mar.
— Um filho do mar? — Taehyung perguntou demonstrando a mesma confusão que Jungkook.
— Sim, — ela afirmou, saindo de trás da mesa e caminhando até Jungkook, que paralisou no lugar com a aproximação. — Você definitivamente é um filho do mar, a prova disso está bem aqui. — Ela tocou sua runa, que estava escondida por debaixo da camisa. — Um presente que não é dado a qualquer um.
— Amélia do que está falando? — Taehyung indagou se aproximando dos dois, Jungkook mantinha-se quieto, digerindo o que ouviu.
— Vocês irão descobrir em breve — riu soprado e afastou a mão de seu peito. — Vejo que ainda nutri um desprezo por bruxas, mesmo depois de tantos anos.
— Não as desprezo, apenas mantenho distância — Jungkook respondeu com um olhar inexpressivo.
— Você nos culpa pelo que aconteceu com seu pai — ela deu as costas e caminhou até o outro lado da mesa novamente, sentando-se em sua cadeira. — O destino dele já estava traçado, eu apenas o informei sobre a chegada dele.
Aquela informação caiu sobre suas costas como uma bigorna.
— Foi você... — Jungkook disse baixinho, absorvendo o choque.
— Sim, seu pai queria conselhos, mas eu vi a marca da morte no peito dele, assim como eu vejo no seu.
— Não — Jungkook disse rápido, estendendo sua mão para frente indicando que não queria ouvir o que ela tinha a dizer, cortando qualquer pensamento que sua cabeça teria acerca de sua última frase. — Não acreditarei no que diz, porque da última vez...
— Da última vez eu estava certa? — Amélia o interrompeu, calando-o. — Sei que sente falta dele, está explícito, mas o que houve não foi culpa minha, inclusive eu disse-lhe para aproveitar seus últimos momentos com você, mas ele insistiu em voltar para o mar.
— Ele amava o mar mais que qualquer coisa, sempre disse querer morrer nele, mas que não me levaria junto — explicou junto a um suspiro.
— Ele não queria que você passasse pelo batismo antes de completar a fase adulta, mas ao que parece o mar tinha outros planos — olhou para seu peito, o que fez Jungkook levar a mão até sua runa. — Isso explica a marca da morte em você.
— O que é a marca da morte? — Taehyung perguntou ao seu lado, estava tão absorto em sua conversa com Amélia que esquecera da presença dele ali.
— A marca da morte surge nas pessoas que irão morrer ou foram tocadas por ela em algum momento da vida, no caso dele, é porque ele morreu e voltou a vida em algum momento — disse fazendo Jungkook franzir o cenho, não se lembrava de nada parecido. — Você se afogou, não foi?
— Eu morri naquele dia? — Franziu o cenho e Amélia assentiu.
— O mar precisava que você tivesse água nos pulmões, seu pai passou pela mesma coisa. É quase uma inicialização do mar, é um presente.
— A morte é um presente? — Cruzou os braços, não havia sentido algum, no que ela dizia.
— Você entenderá mais tarde — ela deu de ombros sorrindo.
— Olha eu estou realmente cansado dessas brincadeiras do destino, da morte e de vocês — Jungkook disse com o timbre irritadiço. — Diga logo o que tudo isso significa, para que tanto mistério?
— Hécate nos presenteou com a sabedoria, o dom de vermos aquilo que ninguém mais vê, mas não nos permite brincar com a sina das pessoas garoto, não podemos revelar nada que poderá alterar o rumo de suas vidas, tem coisas que precisa descobrir por si próprio — ela sorriu e olhou para Taehyung. — Não precisa mais da minha ajuda, Capitão.
— Como não? — A encarou confuso. — Não tenho em mãos o que eu preciso.
— Ele é tudo o que você precisa — apontou em sua direção, fazendo Jungkook arregalar os olhos. — Na verdade, vocês dois precisam um do outro mais do que imaginam.
— O quê? — Os dois perguntaram em uníssono, olhando um para o outro em seguida.
— Vocês são como duas peças de xadrez, você o rei — apontou para Taehyung. — Sendo dono do tabuleiro e peões. — Em seguida apontou para Jungkook. — Você é a rainha, a peça que abre o caminho por todo o tabuleiro para chegar até seu objetivo.
— Você consegue ver também mãe? No mindinho dele? — Ruth perguntou ao se aproximar de Taehyung, olhando fixamente para a mão dele, que levantou e a analisou de maneira confusa.
— É linda não é? — Amélia sorriu, olhando para a mão dele e para a sua. — O destino fazendo o seu trabalho? — Ruth assentiu.
— O que tem no meu mindinho? — Taehyung perguntou confuso, olhando para sua mão. Jungkook também o encarou com curiosidade, mas não havia absolutamente nada nele.
— Algo que olhos comuns não podem enxergar — Amélia sorriu. — Penso que vocês deveriam se apressar e ir, mares perigosos os aguardam à frente, precisam se preparar para os desafios que irão encontrar no caminho.
— Amélia eu preciso de respostas — Taehyung disse rápido. — Não tenho as informações que eu preciso!
— Não precisa mais delas, não com ele ao seu lado — olhou para Jungkook. — E você garoto, precisa da Aurora, outro navio não fará o que ela faz e não haverá melhor capitão do que Taehyung.
— E o mapa? — Taehyung insistiu, fazendo um nervosismo intenso o atingir e olhou para Amélia com temor.
"Por favor, não conte!" Embora não tenha verbalizado, estava estampado em seus olhos.
— Você o encontrará no momento certo, o dono dele o entregará por livre e espontânea vontade — Amélia disse sorrindo, desviando o olhar do perturbado de Jungkook.
— Então eu de fato encontrarei Jungkook na minha jornada? — Taehyung disse com certa hesitação.
— Sim.
— Onde ele está agora? — Ele insistiu.
— Neste momento? — Amélia disse sorrindo. — Perdido, mas ele encontrará o caminho certo e tomará a decisão mais sábia, está nos genes dele, um Jeon jamais foge de uma boa aventura.
— Você realmente gosta de fazer joguinhos psicológicos, não é? — Jungkook bufou, já se virando de costas para ir embora.
— Se estiver certa, voltarei com o tesouro em mãos para te agradecer — Taehyung disse se virando para segui-lo.
— Estarei à espera, Capitão — Jungkook não estava olhando para ela, mas sabia estar sorrindo. Antes de passarem pela porta ela voltou a se pronunciar. — Ah! Sobre a vossa jornada!
Jungkook se virou para encará-la, curioso, já que Ruth havia dito que ele levaria a Aurora para os confins do inferno.
— Sigam a luz, mas não entrem na água — foi tudo o que ela disse antes de sorrir e Ruth acenar com a mão, dizendo "tchauzinho" aos dois.
O que isso queria dizer?
~❤️~
Esqueci de avisar no capítulo de gatilhos que essa fic tem Blood Kink :)
Então teorias? Sobre a localização do mapa, runas e agora essa nova informação do Jungkook ser um "filho do mar"?
Fiz uma tag no twitter para interagirmos sobre a fic:
#Dentesdodiabo
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